sábado, novembro 30, 2013

mania de soprar as páginas em branco
e ver as estrelas se espalharem por aí.
mente incendiada põe fogo no poema
e deixa ele morrer sem dó. 

colorir o começo,
cochilar na metade
e orfandar o final.
isso é coisa de casca sem fruto, diriam.

mas prefiro à parede que me impede
a cachoeira que me destrói.

sexta-feira, novembro 22, 2013

já não sou mais tão nova quanto antes,
mas ainda não tenho 25 anos de sonho e de sangue e de américa do sul.
estou na idade do desencontro
de andar de olhos fechados na corda bamba.
se cair, ainda voo?
se voar, ainda sonho?
em cada manhã, uma porta.
caminhos de pedras e poemas,
sem ritmo, sem setas
sem reta final.
(por hoje só)
um poema para alegrar o dia
e entristecer a noite.
longos versos de carinho e solidão
samba escondido por entre as rimas soltas
dançando na imensidão.

nada pelas ondas de imagens
ora afogadas, ora flutuantes.
ah, poema de tinta negra!
marca na pele a tatuagem
do riso e do choro fumegantes.

domingo, novembro 17, 2013

sorte tem o coração distraído
dorme um sono tranquilo
enquanto perambulam à noite
os amantes desesperados.

rasguei o coração do peito
e joguei no abismo
fingiu ser avião de papel
e caiu num livro inundado.

ai, coração inventado
vai dar susto no mundo
e deixa o poema dormir.
no lo sé quién tú eres
ni cuándo se fue
solamente que me hieres
y que imita el amor.

no lo creo en el pasado
hoy poesía de mi dolor 
pues él tambiém fue engañado
como mis oídos, boca y color.

terça-feira, outubro 22, 2013

foi ontem que quebramos o vidro daquela casa. só que não sabíamos que ao deixar as pedras caírem no chão o que caíam eram nossos sonhos. pesados, escondidos e com o gostinho de travessura, mas ainda assim não imunes à gravidade do tempo.
você foi embora e levou as assombrações daquelas salas, os olhos atentos às árvores sombrias do quintal e seus penduricalhos que nos lembravam bruxarias.
também foi outro dia que sentei no sofá e chorei. escrevi minha primeira carta inventada. eram palavras para minha juventude adormecida, escondida entre as palavras corridas e longínquas. era uma vontade de amar alguém que dorme, alguém em coma, que pudesse descansar em paz enquanto eu lhe dava amor e poesia.
hoje escancarei os olhos pelo ônibus. as casas e árvores correndo do lado de fora. minha vida ficando para trás, mudando a cada sinal vermelho, transfigurando as pedras e cartas já partidas. se pudesse escolher um momento, não pediria por ontem ou pelo outro dia, mas um segundo de silêncio nesse mundo.

domingo, outubro 13, 2013

encaro o mundo de olhos fechados. assim, sinto o vento nos cabelos e o céu misturado com meus gestos. é necessário respirar o silêncio, abraçar as cores criadas pelas mãos quietas. não vejo a luz das estrelas, mas sei do peso dos anos que voam sobre nós. nada escuto do tempo, mas a dor do presente paira meio em festa meio em túmulo em nossas casas.

mundo!
grita tuas curvas sobre mim! me enlaça nessas águas de enigmas e segredos. abre as asas nas ondas de incerteza, de caminhos cruzados e tortos. me faz sonhar com canções antigas e ternas.
não deixe explodir os vulcões, desesperos de sentimentos inundados.
que apenas as lavas da liberdade me alcancem.
a flor somos nós,
o orvalho é o tempo.

vem do sereno
e nos suja de solidão.

também nos limpa de esperança
para depois cair no chão.
o operário boceja as horas de trabalho
mas o galo não canta com os outros galos 
ele vai amassado com muitos homens no ônibus.

nunca leu fernando pessoa nem olavo bilac
o que sabe são as notícias tristes e monótonas
estampadas cheirando à fumaça 
das fábricas e dos cigarros. 

nunca foi homem de escrever ou de cantar
não sabia o que era tom nem coda
de rima só simples, nunca rica.

não havia tempo para mudar
no emaranhado de nada e nunca mais
só o que soube é que talvez pudesse se libertar
quando um panfleto recebeu
de um desses comunistas que dizia
que queremos direito ao pão, mas também à poesia.

domingo, agosto 25, 2013

anoiteci precisando ser poesia:
um grito no escuro
e o fósforo nos lábios.

não tenho abraços,
apenas flores.
mas nessa noite nada me basta:
quero pétalas
pele
perdas.

a poesia é faminta.
ai que bonitos seriam os campos
se a terra fosse de todos
e os frutos fossem livres.

o amanhecer não seria uníssono
mas uma ópera nascente
como o orvalho que
ao cair do céu 
escreve na folha
e deságua no mar. 

é preciso cantar a liberdade
essa filha nossa
de gritos de sangue e de guerra
que aguarda apenas
o dia de nos dar à luz.
minhas mãos tão pequenas
parecem não suportar o peso do mundo
nem a tristeza desses olhos cansados
do dia perseguindo o sono.

será que da vida nasce o amanhã?
e as estrelas são sorrisos de nossa história?
quieta, alcanço com os dedos a revolução.

o céu é cúmplice da miséria,
mas também da liberdade.
abro a mão e sopro as estrelas guardadas.

domingo, julho 07, 2013

sem título

tempo, 
motor dos pés, do meu choro e do 
vento
que, leve, surrupia dos lábios 
os segredos e as novas histórias
antigos presentes que não freiam. 

vida,
arrastada, traiçoeira, não há
saída
aqui e do outro lado do mundo
o que foge, o que fica, mesmo que anseie
não é um pedido, mas uma intimação.

solidão

solidão é o que nos resta quando os dedos se perdem na longa distância do adeus. é aquela fome tardia e sem pressa posta em cima da mesa numa tarde de domingo, são as horas marcadas por um relógio quebrado (e mesmo assim teimamos em querer acreditar nesse tempo).
às vezes (e hoje percebo que são incontáveis), ela se manifesta nesse mergulho longo e sem ar entre nós dois. os olhos se arrancam dos corpos e vão passear, saboreando a paisagem e bocejando o cansaço dos dias.

domingo, março 31, 2013

o corpo teu amanheceu
sem mapas e cheio de contornos.
era um navio perdido ondulando saudades.

dei adeus ao subir na proa
olhares e distâncias deixei para trás
enquanto na terra
teus pés construíam um mundo novo.

o céu me derrama:
quer dividir para me tomar.
mas rasgar eficaz seria
pois esse poema é todo dono de mim.

segunda-feira, março 11, 2013


você é como uma estrela
que vai cair no jardim
será raiz,
depois fruto
e então flor

carrega sempre essa cadência
meio universo
meio terra
meio nós dois.

te chamei pra nascer comigo
andar por essa vida
com os pés no chão
e os olhos lá em cima
nessa paz cheia de céu.
faz tanto tempo que não me deito assim no chão e deixo o vento me tocar, bem de leve, com suas plumagens e segredos. cada passo é uma nova pergunta, mas sem pressa para as respostas. agora eu consigo entender alguns ritmos, algumas letras. é que meu corpo respira fundo.
cartola dizia que o mundo é um moinho, mas eu penso que o mundo está mais para o que ele é: um grande mar azul, cheio de ilhas e vontades de acordar ao seu lado com os raios de sol. tudo está tão bonito que eu até estranho. mas a vida então é isso: um surpreendente sorriso depois de uma enchente devastadora.

domingo, março 10, 2013

olha, durante muito tempo acreditei em coisas que não faziam o menor sentido. coisas da vida, de saudade, de amor, de como será, de como foi, de como vou resistir... e hoje, aqui deitada na rede, olhando para o céu, deixando o tempo refletir suas dores em meu corpo recém-nascido, percebo o quanto preciso varrer as cinzas que deixei espalhadas por aí.
cada dia, um vestígio.
silêncios e abraços
de uma vida a nascer.

dedos trêmulos, olhos embaçados.
é possível um beijo não tocar os lábios?

a alma pede corpo,
mas os carinhos se escondem embaixo do tapete.

segunda-feira, março 04, 2013

pensei em você
talvez por alguns segundos
(ou dias)
olhos mãos cheiro e roupa
dançando um tango comigo.

me levou para um jardim
depois me girou para a praia
meu corpo se curvou
em ondas sinceras
quando o mar me tomou dos seus braços.

whenever I feel

meu deus, o que é essa angústia tão forte dentro de mim? parece que tenho uma bomba no corpo, pulsando mais forte que meu próprio coração. diz que precisa sair, que vai explodir a qualquer momento, ando de um lado pro outro, querendo que isso me deixe em paz, que vá embora, que pare de me possuir. mas isso continua, e parece que não tenho mais forças pra aguentar.
chorar adianta? escutar uma música que me abrace, que me ame tão profundamente ao ponto d'eu esquecer onde estou e para onde vou. pintar, escrever, tocar, desenhar? há alguma forma de isso sair de dentro de mim? posso devolver ao lugar que pertence? posso nunca querer ter sentido isso?
suspiros na noite sem estrelas, o barulho da chuva gotejando a rua ali fora, minhas mãos correndo do rosto até o estômago, pedindo para ficar só comigo mesma, sem essa sensação de que sempre terei essa companhia que me deixa sem respirar.
por quê? queria as respostas, as perguntas, o caminho entre esses dois enigmas, suas mãos para me ajudar a sair desse labirinto. não tenho nada e preciso me contentar com esse barulho sem notas e instrumento.

domingo, março 03, 2013

saudade

a saudade é como um pássaro que canta uma música desafinada. escapa da gaiola, bica a janela e às vezes consegue entrar em casa. quando entra, bate as asas sobre os cômodos já sujos e bagunçados e quebra tudo que está pendurado querendo há muito tempo cair.
não chamo por ela, fico deitada olhando as asas passarem por cima do meu corpo, uma ventania violenta que quase me acorda de um sono profundo. é mais forte que qualquer insônia, que qualquer raiva ou sentimento de querer ir embora. e, de repente, cansa de assobiar e volta pro lar de onde partiu. 
nessas noites chuvosas, em que só consigo pensar no tempo naufragado, nas guimbas de cigarro apagadas e nos meus pés molhados na areia, a única coisa que arranca vida da minha pele é esse canto. 
eu poderia dizer que é bonito, mas não é isso. nem maravilhoso ou triste. é uma vontade de viver tudo ao mesmo tempo, segredos, sopros, saltos na imensidão. 
talvez eu ainda queira voar com esse pássaro, não para a gaiola de onde veio, mas para algum lugar que só ele conhece. 

sábado, março 02, 2013


procurei um poema no armário
pra curar o meu cansaço.
só encontrei poeira e lembranças.

na cabeceira, um livro de prosa.
mas aquele estava cheio
de bocejos e insônia.

será que posso me salvar
um pouco dessa vida?
ela só inventa de querer me escrever.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

só pra registrar o meu cansaço disso tudo e de você.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

quisera que o amor
fosse calmo e sereno.
ele é tempestade forte
avassala muros e apartamentos. 

minha voz quisera eu
fosse suave e doce.
grita e exclama
palavras de ares quentes.

mas tenho mãos que te afagam,
lábios que te sussurram
e olhares que te adoram.

se nada disso for suficiente,
tenho esse poema
que mesmo mal escrito
perdura para sempre.

sábado, fevereiro 23, 2013

quando a noite vem.

queria saber dormir
sem pensar no amanhã,
e no que nunca foi.
acordar madrugadas em silêncio
te saber dos pés à cabeça
no escuro desse quarto.

estalou a luz,
eu estava sonhando o raiar do sol.
me disse 'volta a deitar'
mas a insônia (o amor)
é um demônio
que demora a ir embora.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

pra você.

vivemos em uma sociedade imersa no lixo, doente dos pés à cabeça, pedindo ajuda e força para resistir no meio da multidão. todas as nossas relações, amizades, namoros, família, ficam deturpadas ou se tornam monstros. mas nós também, sozinhos, encontramos o mesmo caminho, porque somos nós que criamos essas relações, não é mesmo?
o amor existe. é pulsante, dói, te deixa sem ar. é a coisa mais linda do mundo, mesmo quando imundo e fugidio, mesmo quando inventado ou roubado. sabe por quê? porque ele é dialético. deixa eu te explicar: o amor é também desamor. e quando ele se esgota (ou simplesmente se torna outra coisa), nós perdemos uma parte de nós mesmos e nos sentimos sem berço, sem lar, foragidos e solitários.
isso pode parecer normal, uma coisa óbvia. mas não é. tem gente que simplesmente não tem maturidade para amar. depois que termina um relacionamento, destrói qualquer possibilidade de guardar com carinho algo que já foi. sente-se vazio, carente, e pisa em cima de todas as coisas bonitas que aconteceram. diz que o amor não existe, e entra em desespero (com razão, porque começa a perceber o quanto mentiu para as pessoas e para o espelho) e parece que nada que tem nas mãos é verdadeiro.
meu deus, e agora? já sei! vou colocar a culpa na monogamia, nos prolemas do relacionamento, na cobrança, nos ciúmes, no fato de algo em mim ter mudado. que ideia brilhante...

vou te dizer uma coisa. enquanto continuar a ter essa sensação, a pensar dessa forma, a não sair da gaiola que te controla, nada vai preencher seu vazio. você vai continuar com essa gosma escorrendo de dentro de você, como um vômito que vem no verão e parece eterno.

e eu não quero e nem vou compartilhar meus medos ou dores com você. chega.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

män som hatar kvinnor I

quando tiramos nossas máscaras no meio do bloco, a purpurina acaba e os confetes caem no chão. o carnaval vai embora, leva nossos amigos, as mãos dadas e o samba no pé. nessa vida, precisamos ter calma. talvez eu não esteja muito acostumada com isso, sempre tive pressa, sou quase uma pessoa correndo para não ser atropelada no meio dos carros.
por que isso aconteceu? me entristece... perdemos a razão, bebemos de mais, começamos a chorar. as fantasias foram rasgadas, as ruas ainda não foram limpas e um cansaço muito forte pede pra ficar (por quanto tempo, até quando?).
às vezes demoramos a aceitar que estamos errados. mas muitas vezes também demoramos a aceitar que estamos certos. é necessário muita luz em frente aos fatos, aos acontecimentos da noite. quando algo assim explode, depois de toda gritaria e confusão, eu me pergunto: o que eu fiz? e agora? o que eu não fiz? e depois?
mas infelizmente não podemos esperar isso das outras pessoas, mesmo que digam que nos amam, que confiam em nós, que escutam o que dizemos e que são nossos amigos. nós, mulheres, sempre nos achamos culpadas de tudo e colocamos nossas vidas nas mãos de estranhos. mas quando um homem avança para cima de mim, porque merecidamente eu o chamei de babaca, eu esperava que minha amiga de anos fosse ficar do meu lado, e não do lado do estranho.
fico mais decepcionada do que indignada, ou a mesma medida dos dois juntos. e aí aqueles pensamentos nebulosos voltam a me assaltar: meu deus, essa sociedade tem salvação? e agora, essa menina com um cara desses! para onde foram os sentimentos nesse embrenhado de carnificina? e eu não consigo ter a resposta de nada e muito menos a solução.
a única coisa que fica é essa sensação de que a qualquer momento morreremos. mas não em paz.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

and the rain will kill us all

peguei a bicicleta e coloquei fogo no céu. não sei se era a mente ou os pés que pedalavam. fui por aí, pedindo ao chão, às árvores e aos pedestres que me dessem um caminho ou um sentido para correr atrás. não havia seta nem sinalização, a noite escura já anunciava uma inundação no meu corpo, e os gritos dentro de mim pediam para que eu tomasse o controle.
era demais encontrar um livro pela estrada para que me fizesse respirar um pouco? um personagem contando uma história bonita, como aquelas que me narravam para dormir, ou uma vida em cores variadas, nada cansativa, mas cheia de alguma coisa mágica. páginas amarelas, ressecadas com o tempo, letrinhas minúsculas e pesadas, uma loucura retirada do nada e criada para completar o que mais nos falta.
tropecei várias vezes. parava nas pracinhas, onde senhores jogavam xadrez, pensando na melhor estratégia para poder continuar se movendo. e daí que a chuva já era anunciada e as pessoas corriam para casa? a bicicleta já estava enferrujada, assim como os olhos e as mãos.
meu cabelo foi sendo arrancado pelo vento, fiquei nua no meio da tempestade, esperando as nuvens irem embora. mas aqueles pingos fortes estavam indiferentes à minha tristeza e continuaram me machucando a cada gole que eu pedia para ser tomado.

terça-feira, fevereiro 05, 2013

meu amor,
não tão mais meu agora,
lembrei de um dia em que você me levou para passear no arpoador, mas eu não queria ver as ondas baterem na minha tristeza, muito menos a areia me invadir como que no primeiro sexo. queria beber uma cerveja, estar longe dali, no bar do zé em botafogo ou num boca de esquina na lapa.
fiquei ali, sendo encarada por você e pela noite, aceitando tudo de boa vontade, porque o amor não era uma felicidade morna nem uma dor arrebatadora. era o início de um pequeno desespero bagunçado, uma vontade andando de bicicleta bem na minha frente e eu correndo para alcançá-la.
quando voltamos para casa, você disse que queria ver um filme do woody allen. eu ainda pensava na cerveja e, se fosse para ver um filme, preferia que fosse tarantino. mas me deixei levar de novo e fiquei muito emocionada com a minha coca-cola e o seu gato passando o pelo pelos meus pés. te olhava de canto, te achava um pouco parecido com o personagem principal, e me perguntava se você preferia a penélope cruz ou a scarlett johansson. depois você passava a mão pelos meus cabelos, me puxava e me dava um beijo que me fazia esquecer qualquer coisa, até da saudade que aquele filme me causava, das ondas me julgando no arpoador ou das marcas dos nossos pés que já sumiram da praia.
quando você foi embora, lembra?, eu sentei na varandinha, acendi um cigarro e chorei com orgulho. à noite, ainda consigo respirar um pouquinho das músicas que escutávamos. parece que estou viajando para barcelona ou roma, ou qualquer outro lugar assim. queria que você as tivesse escrito, porque aí me sentiria também respirada por você.

quinta-feira, janeiro 31, 2013

hoje o dia está sorrindo, e eu não estou contigo. consigo até olhar a lua sem lembrar dos seus olhos me chamando. vou te contar uma coisa: eu não acredito mais em você. eu cheguei até um fundo de poço que, de tão fundo, nem conseguia mais se sentir poço ou parte do mundo. e você estava em qualquer outro lugar, jogando todas as malditas palavras que um dia me disse no ar, num rio ou na estrada. não se atreveria a fazer isso com o mar, porque ele é meu território, não seu.
sempre olhei o o mar como quem olha para casa. acho que já te disse que me sentia perdida, não é? tenho medo do mar, das ondas, do meu lar. porque voltar para a poeira do quarto, sentir a porta abrindo e um grande piano te esperando para ser tocado é assustador.
desenhei várias flores no corpo para que me respirassem. algo em mim nasceu de novo: uma pétala, a cor dos olhos, o toque no mundo. acho que consigo nos perdoar por toda essa bagunça. perdoo mais a você que a mim, porque ainda preciso um pouco dessa saudade, dessa solidão.
 

segunda-feira, janeiro 21, 2013


tenho medo de escrever porque sei que as palavras vão rasgar tudo que há dentro de mim, vão entrar sem pedir licença, vão passar uma faca por cima dos meus ferimentos. mas preciso colocar isso pra fora, essa dor mesclada de vazio e de saudade, uma dor que consegue ter mais vontades do que jamais tive em toda minha vida, e parece que é tudo que tenho agora, uma irmã que permanece em silêncio e mantém segredos ao meu lado.
penso no seu corpo deitado ao lado do meu em várias manhãs amenas, sentia uma coisa engraçada de ter você ali comigo. cheirava seu pescoço e sentia uma paz, pegava nos seus braços e me sentia quase que salva do mundo. os olhos amendoados me encarando eram a coisa mais maravilhosa que já vi. eram interrogações sobre mim, sobre a vida, sobre se o céu estaria bonito para irmos à praia.
as mãos dadas, os anéis de coco encostando no ar úmido, os seus passos mais apressados do que os meus com uma pressa de viver que eu havia deixado para trás, guardada em algum baú ou pintada em algum quadro. nossas mãos balançando, um eu te amo, amor, que bom que você está comigo faziam meu coração acelerar e um sorriso brotar nos meus lábios.
agora tudo que resta é a saudade. uma vontade de estar junto e não poder. querer ter você ao meu lado nas noites chuvosas e só poder olhar os pingos de chuva e pensar que talvez, naquele exato momento, você esteja também olhando da sacada da sua casa. é pensar em como eu queria que você estivesse aqui, bebendo comigo, olhando as estrelas, vendo um filme, me chamando pra te dar um beijo longo.
acabou. não o meu amor, porque é pulsante e a saudade fica me incomodando, me fazendo chorar muito, mas tudo que iríamos ser. e o fim é doloroso, me sinto afogada, sem asas, destruída.
espero que isso passe.

quarta-feira, abril 11, 2012

geração rivotril.

precisava reagir. saía e o mundo parecia seu inimigo. uma folha de outono caída no chão representava toda sua dor e perdas momentâneas. e agora? virar a esquina, ralar um pouco do braço na parede (afinal, é preciso sentir) e seguir em frente.
é quase manhã-madrugada, algumas pessoas aprendendo a dirigir nos carros da auto-escola, aprendendo que é preciso ir sempre em frente sempre em frente. opa, sinal vermelho. uma parada pra fumar um cigarro e nada mais.
o que é necessário saber pra viver? respirar, estudar, ganhar dinheiro. fazer amigos, perder pessoas, chorar na madrugada, amanhecer na ressaca. estava enjoada. enjoada. enjoada. parou pra vomitar o que tinha no estômago: um vazio crescente. meu deus, é possível o vazio ser maior do que o que temos, do que o que existimos? é.

- luiza, não tô me sentindo bem...
- que foi?
- é um mal-estar no mundo

pra isso não tem remédio, meu amor. você pode tomar quantas pílulas te enfiarem goela abaixo que vai continuar ardendo, doendo ou simplesmente estar dormente. quer uma cama pra deitar? pensar sobre as coisas? sobre a vida, sabe, o amor, a morte, essas coisas.
não, não quero nada disso. quero acordar e perceber que isso na verdade é um sonho. um pesadelo que durou dias, anos, uma vida inteira. me salva, luiza? você pode segurar minha mão por um momento, sentir o que estou sentindo? essa gosma que escorre do meu corpo sem pedir permissão, dando luz a coisas que nem sei definir.

quando virou a esquina, um sol já nascia tecendo uma colcha imensa chamada aurora. vamos costurar comigo essa colcha, ô luiza. não tô dizendo que quero me distrair, mas de repente posso fazê-la de rede pra descansar ou de jangada quando me jogar finalmente no mar.

terça-feira, abril 10, 2012

sinto muito

o século XXI está me engolindo. os carros correndo, os ônibus super-lotados, os tiros da polícia na favela, a vida em via crucis. há algo que não estou suportando. eu sou fraca? sozinha? parece que minha mente é um labirinto imenso cheio de cadeados. onde estão as chaves? eu não sei. as passagens? trancafiadas. nem sei para onde estou indo, mas sei que caminho...
eu, passageira de mim, agora na chuva. os respingos parecem cinzas de um cigarro velho, nem mesmo a fumaça encosta mais nos poros. a tinta vermelha dos cabelos escorre pelo corpo, parece sangue, mas não é. esse está na veia, também preso e querendo escapulir para o mundo.
os dedos nervosos pedem socorro. o que vou escrever? sobre a anestesia? sobre eu estar em constante cirurgia? engulo as pílulas como quem pede para morrer mais rápido. por favor, uma solução um arrependimento onde ficaram aqueles sorrisos? na rede balançando no quintal? nos pés cheios de lama correndo pela rua?
eu queria... deixa eu ver, pensar bem, queria não estar com a mente num náufrago. parece que há água saindo de meus ouvidos, de meu nariz, de meus olhos. e a boca presa pedindo pelo amor de deus para gritar e respirar um bocado desse céu estrelado que agora me guarda da chuva.
a casa é uma prisão. não posso dizer que quero morrer, é errado, faz mal aos outros. nem mesmo na dor que sinto posso sentir algo direito, senão estou sendo culpada. não posso dizer que não aguento mais nada, que nada é mais gracioso, que não quero levantar. quero olhar o teto, ou fechar os olhos e dormir. adormecer nesse momento é a melhor coisa, porque dormindo se esquece de tudo. e, quando você acorda, por alguns segundos, você nem sabe quem é ou onde está.
quando entro no chuveiro, a água parece falar comigo, diz que quer lavar toda essa sujeira que não sai do meu corpo. eu esfrego dos cabelos até a ponta do pé, mas tudo permanece, é como se a minha sombra se impregnasse em mim e não soltasse nem mesmo na escuridão. é a liberdade sendo tomada em goles secos.
se eu pudesse, abraçaria a música que agora toca. agradeceria por me fazer sentir o que quer que seja, um ódio, rancor, amor? mas ela passa por mim sem nem mesmo deixar o silêncio no ar.
respiro em vão.

um quê de nada

era mais de meia-noite e a mulher já abotoava o vestido. o sexo tinha sido bom, o vinho, até a luz da lua tinha esclarecido alguns pensamentos nebulosos. agora, calçando os sapatos, lembrava com certa angústia que aquilo não passava de um corpo suado em outro corpo suado até o esquecimento da realidade. não que fosse romântica, não era, mas depois de tudo os olhos nem se encaravam, e quando se esbarravam eram claramente desviados para algum lugar mais interessante, quem sabe até um jarro de flores.
ela se preparava para ir com certa leveza e sem pressa. faltava alguma coisa, esperava que isso brotasse já que o olhar se preocupava mais em olhar rosas. pegou uma taça de vinho da cozinha, passou na frente dele, ficou apoiada no umbral.
- se incomoda se acendo um cigarro?
fez que não com a cabeça. agora estava deitado na cama, os olhos fechados, o corpo num relaxamento quase indizível. está tudo bem? ela gostaria que ele perguntasse. mas aquele cachorro não queria saber nem o nome dela, quanto mais o seu estado emocional. foda-se, também iria embora logo e nunca mais teria que olhar pra cara dele.
lembrou-se de umas cenas estranhas, talvez fosse o vinho fazendo efeito. a sua vó falando algo sobre o amor. o que é mesmo? ah, sim, que o amor é quando duas pessoas ficam juntas pra vida toda. tadinha da minha vó. se ela me visse agora teria morrido de novo. acho que eu queria um amor assim, que nem ela me disse, mas só pra provar no final que tudo não passa de uma farsa.
- ô carlos...
- hm?
- eu tô indo embora, viu? prazer em conhecê-lo.
- bate a porta quando sair, coisa linda.
bato, claro que bato, e bato na tua cara também. acendeu mais um cigarro, jogou o resto do vinho naquele chão limpinho e quebrou a taça acidentalmente do lado da cama.
tchau.

sábado, fevereiro 25, 2012

canção

não estou pedindo nada. nem um pedaço de fotografia nem um sorriso quente de um dia de verão. não quero fazer disso uma tragédia grega ou um daqueles filmes que guardo com carinho na minha instante. só quero ir, voar pra longe, onde o canto de ossanha seja enganado, onde eu possa ser um rabisco que se sente livre apenas por ser o que é: um pedacinho de formas e sentimentos que, mesmo feios e sem nexo, são também verdade e uma vida pralém da respiração.
cansei. não de te escrever textos que não são nunca lidos ou de te olhar sem perceber o tempo indo embora. mas de algo que não consegui ainda explicar para mim mesma, acho que é uma vontade (uma sede) de querer mais, de ultrapassar somente a pele à angústia, de encostar os dedos nos dedos e não haver ali uma única célula que não saiba seu lugar no universo.
se eu pudesse, te abraçaria, te colocaria junto à poesia que está batendo no meu peito, te daria um nome que prefiro agora não nomear. mas, dentro de toda essa loucura, dessa palpitação, desse pulso inconstante que me toma a goles longos, algo grita que é hora de fechar os olhos, acabou o conto, o poema partiu para pasárgada (ou para qualquer lugar onde possa ser chorado com calma e amor).
o fim não justifica o meio, pois o meio já é parte do fim. e eu sabia disso desde o começo (se é que houve algum), já sentia as cores escorrendo pelos meus dedos, como ondas entreabertas num poema da cecília meireles. eu queria dizer que não vejo o horizonte nem acho que o mar cai num buraco sem fim. mas que me deixei afogar dentro desse emaranhado de águas salgadas (de choro) e limpas (de um sentir sincero). agora é hora de respirar, de deixar a inundação transbordar do corpo para o mundo, como as notas fugidias do piano ao ser tocado levemente pela primeira vez.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

1, 2 e 3

1. não sei que dia é hoje. 2012 começou me arrancando do tempo.
tenho transformado as lágrimas em cigarro, e o que deveria me deixar em paz entraz cada vez mais:
primeiro pela boca, depois pelos pulmões (o que me impede o grito e troca a angústia por um punhado de tosse).
olhei pelo umbral e vi um dia lindo. se eu jogasse todos os cigarros pela varanda e assobiasse a vida que está dentro de mim, talvez eu conseguisse transformas esses muros à minha volta em flores e poesia.

trago, me enveneno e fecho os olhos.


2. quando choro não é por meu amor ou cicatriz.
não.
é pelo mundo, pelas flores que morrem cedo, pelas secas lágrimas derramadas pelo nordeste.
joguei tudo fora, menos essa fagulha que ainda espirra fogo e cinzas em mim.
disse adeus às pílulas anestesiadoras, agentes futuras da cirurgia final: a de não sentir as explosões que matam e corroem tudo à nossa volta.

cheque-mate.


3. não, meu amor, a vida não é uma distração. é o pôr do sol nascendo nos olhos nossos, o perfume do mar caindo como chuva de verão nos corpos perto e longe da prainha.
sabe quando o vento vem? ele te deixa pedaços de ontem e planta sementes escondidas pelos poros que vão ser flores ou ramos luminosos um dia.
o jardim primavera é vida, apesar do que eu disse naquele dia bêbada. também é dor, mas é mais do que um cenário cheio de balas ácidas e olhos nas janelas. é um acordar, bocejar, cheirar o mundo, aveludar as mãos só para depois tirar as luvas e sentir as gotas do mar que chegou ali de qualquer forma.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

gestos

não há nada mais perigoso do que deixar-se levar. não por uma brisa ou um trem, nem mesmo por barcos (que tanto amo os caminhos por onde vão e o cheiro e som da maresia), mas por alguém. tento desviar os olhos dos seus porque são como janelas de fora do mundo para dentro de uma casa silenciosa e cheia de palavras pintadas e sussurradas pelas paredes.
hoje eu queria te chamar para deitar no asfalto comigo. sentir o calor da terra queimando os anos e o suor do trabalho. lembrar das rodas passando por aqui e soltando a fumaça que também exalamos ao fumar o cigarro vendo o pôr do sol. dá até para amar as estrelas (não é como no interior de minas gerais, mas talvez seja esse esconder-se que as deixa mais lindas).
pode tocar a pele, os cabelos, beijar os olhos, fazer acorde onde não há som, cantar uma música no violão, mas não encostar em mim, não aquela sensação de que está tudo bem (não está), muito menos um amanhecer com o sol batendo nos sorrisos.
se me perguntassem agora o que eu quero, eu diria que 'um pouco mais, não tudo'. mas é verdade? não sei se quero um pouco mais e também não sei se quero tudo. tudo é algo pralém do que somos, porque mudamos tanto e cada segundo que o tudo está em constante transformação. e um pouco mais já seria ultrapassar o corpo, para onde eu mandaria o que me inunda, o que atravessa os poros deixando rasgos marcas e cicatrizes?
se as palavras fossem nuas, eu mergulharia com elas no mar e nasceria como um sol amanhece num dia quente de verão. são pele sobre pele sobre pele de palavras que não nasceram com o sangue e a dor de um mundo novo, mas vítimas de um desenho que fiz num guarda-chuva para não me molhar.    

quarta-feira, novembro 16, 2011

oásis

devagar, você adentrou no meu mundo. passos leves, sorrisos escondidos e mãos no peito. a respiração não podia ultrapassar o próprio corpo, era necessário que ficasse escondida, órgãos com os órgãos, sem espiar o vento ou ar que se estendia tentando entrar pelos poros.
o quarto na claridade amena, pronto para ser beijado, acalentado e posto para acordar. mas você desviou os olhos e colocou o dedo nos lábios entreabertos: silêncio. a vida é mais do que os barulhos do antes e do agora, fica no susto do que poderia vir a ser e não vem. shhh.
deitada na cama, o corpo bronzeado de palavras minúsculas e frases trancafiadas, arrastava tudo com seu sono acordado.

- voltei pra te dar isso. não um cigarro ou uma carta. nem um daqueles malditos livros que você tanto gosta. não vou esperar você acordar para que seus cílios pesem em mim o peso dos anos e dos amores perdidos.

esperou. nenhuma resposta, apenas um mexer de cabeça e um aperto nos travesseiro. a janela entreaberta às vezes batia às vezes ficava. parecia indecisa e muito consternada com as palavras do homem que mal chegara e já parecia ido.
no sonho, tinha em si tantas cores e tantas esperanças, que mal escutava a voz naquele quarto semi-amanhecido.

- hoje andei por uma rua deserta e, por algum motivo, me lembrei dos seus olhos naquele dia. pareciam a voz do atacama. não pela sua solidão somente, isso também, mas por sua imensidão e beleza. a verdade é que quando te olho acordada sinto como se...

deixou na cama uma fotografia e foi embora. era o suficiente para dizer até logo, quem sabe um dia. ou até mesmo adeus.
quando acordou, sentiu a fragrância daquela onda que vem arrastando tudo derrubando casa destruindo lares e arrancando vidas. respirou bem fundo. agora era hora de encarar a areia em que seus pés tocavam.

segunda-feira, julho 18, 2011

segunda-feira, junho 06, 2011

já andou de barco? eu tinha sempre duas sensações ao colocar os pés perto do mar: magnificência e medo. ao mesmo tempo em que tudo era tão grande, tão belo, tão vontade de viver e respirar cada pedaço que estava à frente, a imensidão me engulia e me causava uma dor e falta de ar que se prolongavam por alguns instantes de pensamento.
sinto que novamente estou assim. mas sem o mar aos meus pés. apesar de eu estar completamente inundada, não sinto cheiro de sal nem o canto do sol nascendo na linha do horizonte. são muitas coisas que me maravilham, e ao mesmo tempo me aterrorizo.
me dão uma moeda e dizem baixinho no meu ouvido: escolhe. cara ou coroa? duas faces do meu rosto, partes que eu quero guardar para mim quando me olhar no espelho, mesmo quando as rugas já tiverem formado um mapa monstruoso (e sem bússola a seguir).
quando estou no mar, não há escolhas, apenas uma fluidez e um balançar que vão indo para onde tiver que ir. posso manejar algumas direções, mas não se anda de barco na terra. é sempre o mar.
diferente de duas faces de uma moeda, uma exclui a outra. o mar não exclui o mar.
eu posso excluir a mim mesma, mesmo com tanta inundação?

a resposta é a seguinte: nunca amei tanto. e o amar, como já diz o próprio signo, é muito diferente do mar.

domingo, maio 15, 2011

vienna waits for you

o silêncio, às vezes, é a melhor palavra a se dizer. melhor não compartilhar do que ser incompreendido. penso em tocar violino ou violão, um baixo ou piano. talvez agrade, e eu deixe de ser desafinada nas angústias que tanto teço.
novamente, o choro nas ruas. parece que o tempo até concorda comigo, me dá uma chuva pra compartilhar as tristezas. isso que é amigo (amor ou amante) - aquele que sente dor onde te machuca. sei que me deixei levar, o ônibus passando pelo mundo, as coisas perpassando os olhos molhados. juro que tentei disfarçar os soluços, até prendi a atenção num texto (mas só piorou as coisas).
a solução foi repetir vienna incontáveis vezes no mp3. dá pra acreditar? é que me fez sentir bem, de alguma forma. não consigo nem explicar...
queria qualquer coisa, menos essa não aceitação, essa incompreensão.
uma tentativa.

sexta-feira, abril 22, 2011

há coisas lindas
na boca de um passarinho.
um querer, talvez,
de um céu azul até a eternidade.
ou até mesmo a tardinha de um amor.

hay cosas más bellas
nos teus olhos tímidos
gosto de mel ou café
guardando o momento que suspiro.

canta no meu ouvido, beija-flor,
esses olhares criadores
que preciso é de uma música
para embalar tudo que sinto.

segunda-feira, abril 18, 2011

às vezes é preciso um sopro. sabe, um mexer de lábios inseguro, me conta uma história bonita para eu dormir em paz. porque, vou te dizer, não tenho dormido bem. ando pensando sobre a vida, sobre as coisas, sobre a hora de ir embora. tenho sentido muito medo.
é difícil admitir que se sente medo, não é? às vezes estou tão feliz que tento me agarrar desesperadamente ao agora. mas me vêm imagens, a morte, a dor, a velhice, a angústia.
aquelas crianças naquela escola assassinadas de forma tão brutal. vidas interrompidas. e será que há outra forma de morrer senão interrompendo o que existe de mais belo? por quê, meu deus? não sabemos o que vem depois, e isso é desesperador. por isso sofremos tanto quando as pessoas se vão. além da saudade, é porque tememos por elas.
e eu estou tão convencida de não saber o que fazer que às vezes me pego chorando pensando coisas horríveis. queria ter algo ao que me agarrar para me confortar.

acordo pensando assim: hoje farei tudo diferente. quando vejo, o dia já passou e estou aqui escrevendo, na frente do computador. mas sei que, no fundo, não adianta. aliás, não basta.
nada basta.

segunda-feira, março 28, 2011

fotografava as flores chorando. caíam as gotas de orvalho, tal como lágrimas, de suas pétalas até o chão seco. gostava de marcar aquilo, pois era um momento que levaria consigo para sempre, lembranças do cheiro, dos sons, da vida toda que emanava dali para o mundo.
deixava que a flor chorasse em seu lugar. sentia como se o corpo fosse quebrar se se desse ao luxo de soluçar escondida. preferia que chorassem por si, que a beleza tomasse a tristeza que guardava nos clicks e revelações.
seu marido fora embora. parece que tudo, no final, se resume a uma história de amor mal resolvida. mas não! não era isso... pelo contrário, estava com uma felicidade meio culpada por ter sido deixada. as coisas andavam tão mornas, tão hospitalares, que qualquer quebra de silêncio a fazia dançar. mesmo que essa quebra fosse feita por ruídos e gritos sem ritmo.
por toda a sua vida esperou um amor. era a mulher perfeita. sabia cozinhar, passar, andava de saltos altos, era inteligente, conversava sobre livros, era fotógrafa e até discutia um pouquinho de política e futebol. queria casar, é claro, como não poderia querer? um homem de quem cuidasse.
mas o casamento veio, as tarefas diárias lhe tomaram a vida, o sexo era doloroso e sem graça e, ainda por cima, não passava novela aos domingos! ia à igreja, é claro, e pedia a deus um pouco de açúcar nessa merda toda. chegou a um momento tão entediado em sua vida, que esperava os domingos para sonhar com o padre bonito que passara a rezar as missas.
mas, para o mundo, era uma mulher feliz. ainda nova para os filhos, com um marido bonito, a casa límpida e reluzente, as idas ao mercado, as alianças de ouro branco e os passeios aos casamentos e formaturas.

hoje, quando ele foi embora de madrugada, ela sentiu uma preguiça enorme de entender o que se passava. leu a carta, estava fugindo com outra. voltou a dormir. era minha vida uma novela mexicana, meu deus? mas onde está o drama? acordou cedo. calçou os sapatos. tomou seu café com hortelã. decidiu ir fotografar.
não era falta, não era amargo nem frio, era uma idéia do novo. tudo se quebrou. o que parecia era que a casa estava falando com ela, rangendo os cômodos que logo cairiam aos pedaços.
não sabia agora muito bem o que fazer. nunca fora triste, mas se sentia agora livre. não porque ele a prendia, mas porque era tudo uma farsa. não era amor, não era ódio, não era vingança. não era nada, simplesmente. e não se tratava só dele, mas de toda a sua vida até aquele momento. afinal, por quê? por que fez isso e não aquilo? por que se deixou levar pelo que deveria ser? só conseguia pensar num sei lá bem podado e desconexo.

decidiu fazer um álbum de fotografias. não para se lembrar das coisas, porque o que tinha se passado até ali era um livro em branco. quis fazer um álbum para recriar mentiras, contos e poemas que poderiam sanar o que não foi. a arte a salvaria.
e, dali para frente, com a primeira lágrima, formaria uma biografia, não mais um livro fantasioso.

sexta-feira, março 11, 2011

tornou a espiá-lo (era pelo canto dos olhos que fazia existir o amor).

uma tarde adocicada entrava pelo quarto, música calma e viva tocando a pele daquele homem sentado na beirada da cama, as pernas dobradas, como impaciente, os olhos se revirando da janela ao teto e do teto aos pés.
ela estava dentro de um cansaço quase desenfreado, queria se levantar e gritar a dor que estava sentindo, um mundo inteiro de peso nas costas sendo deixado para trás. e queimando cheio de cicatrizes.
ainda estava no umbral, meio enviesada para não tampar os raios de sol que batiam no rosto dele. era como se ele se tornasse parte da natureza ou parte de uma pintura que ela queria poder pendurar no quarto, para admirar até tenras idades. ou jogar para o mundo, colocar dentro de um balão e soltar vida afora.
lembrou, ali quieta, dos momentos que já pareciam ser parte de outra vida, dos sorrisos e das enganações, de todo o amor que arrumara graciosamente nas palmas das mãos abertas. eram mãos pequenas, mas as unhas eram vermelhas, e as linhas fortes. isso lhe concedia certa dose de mentira.

"não, não há mais o que ter. não quero mais esse anel, essa casa, seus sapatos ao lado da porta. nem quero mais sentir esse gosto doce das lembranças que tentam me possuir, como um demônio de várias línguas.
ontem, chorei por horas a fio ao lado do telefone. depois de meia hora, já não sabia mais por que chorava. só chorava porque estava chorando e chorar machucava e expurgava a vida de tal forma que me fazia tremer até os tímpanos. de repente, como um clímax, percebi que podia parar de chorar em paz. é que eu chorava por algo que não era mais meu (ou quem sabe nunca foi). eu chorava porque queria de volta o que achava que tinha. entende?"

"não entendo muito bem. mas peço desculpas, porque, sabe, acho que te deixei meio confusa e perdida. diria até que meio louca. mas o amor existiu, agora é outra coisa. quem somos nós para controlar o que o amor é ou se torna? ficamos exigindo situações, conclusões, ações exatas... e no final das contas, para quê? ser feliz com o seu tempo e suas mudanças é do que preciso. é do que precisamos todos nós."

não se tratava de nada disso, e ela sabia. já estava superada. queria agora dar um passo à frente, cruzar aquele maldito gosto adocicado -que mais tarde identificaria como saudade- e dirigir para além daquela casa, da janela e de tudo que tinha criado para suprir o que lhe faltava.
só assim poderia fechar os olhos, ainda que um cisco a contorcesse de dor.

quarta-feira, março 09, 2011

meu quarto está uma bagunça, as goteiras caindo na cabeça, nas mãos e em onde mais conseguirem cair, o corpo desorganizado e recebendo as cores fugidias dos móveis, das fotografias e do cheiro teu que permanece aqui. um copo de água vazio na mesa grita, o vazio do grito quebra o copo cheio de alguma coisa que ainda não sei nomear.
mentira, sei muito bem: é dor. e ela escorre pela escrivaninha, alaga o chão inteiro e vai subindo subindo até encontrar os lábios e beijá-los com um pedido silencioso. é um quase fica. é um quase vai. é um fica mas vai, é um vai mas fica.

canto de ossanha que me perdoe, mas vou, que sou alguém de ir. guardo na bolsa um los hermanos, uma tiê, uma fiona e mais nada. vou-me embora pra onde me deixem mergulhar numa praia deserta, escutar um vinicius de moraes apaixonado. que é disso que preciso, apesar de não precisar absolutamente nada.
o carnaval dançou com o coração em frangalhos. cada samba era lembrança dos toques, da distância, daquilo que mal começou e já foi embora.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

tenho em mim agora tantos sonhos, tantas mudanças e tanto desespero que não consigo nem mesmo me mover para o chuveiro. é que algo me diz pra ficar, pra correr os dedos por aqui e chorar tudo que preciso chorar.
preciso de um banho, estou imunda. preciso dizer que estou com raiva, que quero um abraço forte e que acabei de lembrar que há chocolate na geladeira -e que logo irei comê-lo-.
quando saí de lá, senti o desamparo da madrugada, o peso de ser mulher e correr sozinha por esse mundo sujo e sem escrúpulos. logo terei que acordar para ir dar aula, não poderei nem sequer descansar em paz minhas tantas incertezas que dominam tudo que penso nesse exato instante.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

minhas palavras finais pra você...

minha vó se foi e já deixa saudades.
como aquele cheiro de flor dando adeus, mãos atadas ao peito e um brilho ainda suave na pele. tenho tantas coisas para jurar... e a primeira delas é que tentarei não ficar triste com as lembranças.
quando pisei naquele antro de pessoas que não via há anos, os olhos querendo transformar a sala em um rio minguante, entrei em um desespero de me lançar aos quatro cantos em pedaços. um sofá e mãos no rosto foi tudo que consegui projetar.
o caixão bem à frente, o tumulto, os rostos de preto, o meu choro tremendo o corpo todo. eu só conseguia pensar: minha vó nunca mais vai me responder.
e se foi. e por isso a morte me assusta. porque se vai para nunca mais voltar. nunca é um tempo demais, é algo tenebroso e sem sentido, é sentir falta pra sempre. quando levantei e vi seu rostinho com que até pouco tempo eu costumava brincar... seus cabelos que não serão mais feitos de modelo para maria-chiquinha, as mãozinhas atadas como que em uma oração santa e alheia das explosões do mundo... quis dar um grito. que me chamassem de louca, que me dessem um tapa na cara para que eu percebesse onde eu estava.

dói. bastante. quando minha mãe me acordou e disse 'priscila, sua vó faleceu', eu quis me enterrar embaixo do silêncio, bater a porta do presente e denunciar ao mundo tudo que queria ser chorado. lembro de ter dito incontáveis nãos, de minha mãe ter resmungado que não deveria ter me contado naquela hora, da porta fechando e do telefone tocando várias vezes.

no carro, um choro de realidade. o pé no chão, um segurar tudo dentro de mim pro corpo não desmontar. com o cheiro de flores, o sufoco de dizer adeus e tocar a frieza que agora se tornara minha vó.
penso agora em como você está, o corpinho encolhido, as baratas passando pelos dedos, pela boca, pela sua santinha que tanto segura na mão.

se de tudo isso eu pudesse guardar alguma coisa, seria teu sorriso naqueles dias distraídos, quando a lucidez ainda vinha se alimentar dos sentimentos e da luz e do ar em volta... e da vida.

domingo, fevereiro 13, 2011

pra passar.

o céu de brasília é uma das coisas mais lindas que já vi. junto com o vento no cabelo, o coração palpitando com o peso das horas (ou dos segundos), o cheiro escaldante do que sei que não é possível... joguei tudo isso dentro da mala e guardei pra mim, quase como uma lembrança para tocar daqui a dez anos.

terça-feira, dezembro 28, 2010

não sei.

é isso que tenho para dizer agora, quase como uma sinceridade obssessiva. você pode agüentar isso, só um pouco? essa sinceridade que tento te dar, como um presente guardado de antes, um folheto de política cheio de sonhos que ainda não se concluíram. pois parece que você não consegue, que tenta me forçar a sentir algo que não sei nem se posso mais sentir, porque estou em um momento de diferenças, não de somas, quase como um parto sem dor.
é a vida. é isso, meu deus, por que juntar as migalhas que já foram comidas pelos pássaros? as coisas são, não se pretendem. as migalhas não estão mais no chão, não há mais o que ser junto. e a vida passa, nos beija, deixa cartas por baixo da porta, me dá uma bala no final do dia pra eu conseguir sobreviver à amargura.
nada do que você me diz dói de verdade. porque é tudo mentira, mas não uma mentira dita de propósito, pensada e criada. mas uma mentira em que você acredita, porque há num enorme vazio entre o que sou e o que você pensa. não que eu consiga me definir, e é óbvio que sempre estou. mas o que sinto o que vejo e o que respiro agora está longe, muito longe, de qualquer coisa.
não peço nada. na verdade, nem sei muito bem por que estou escrevendo isso. acho que preciso me esclarecer no mundo também. não é para você que escrevo, afinal, mas para mim.
eu só queria que você entedesse algumas coisas. a primeira é que a vida é fatalista. as coisas acontecem, independente de nós, como uma doença degenerativa e desesperadora. é isso. só nos resta chorar e tomar um vinho à noite, com a escuridão nos dando um banho de dor. a segunda é que as coisas são bem mais simples do que pensamos que são.

é preciso cheirar o mundo. sentir ou não sentir tudo que nos acerta, um carro desenfreado cheio de jovens bêbados que irão morrer em alguns segundos.
afinal, depois de todo os escândalos, choramos sozinhos na madrugada.

segunda-feira, novembro 29, 2010

mudo. mudo tanto que chegam a doer os tímpanos. é que essa mudança grita, mesmo muda, no corpo que sua e seca. ontem eu olhei para você e me surpreendi, pois não era mais quem fui que te olhava. eram sílabas e sons e gostos e (o que mais?) sentidos distantes, mundos que se desprenderam sem um relógio de pulso.
vou te contar que tive medo, como um recém nascido descobrindo a fome. não conseguia mais tocar dizer ou contar os segredos.

acabou? acho que sim. novamente não sinto mais nada. seus passos estrangeiros, os abraços sem braços, a cadeira vazia no topo da escada.

pode ser cansaço? acho que é um tédio escroto que me engole. repetições, incômodo, não há o que descobrir (rasguei tudo muito rápido, ferocidade querer tocar viver).

porque os vai-e-vens agora me dão nojo. não estou mais ansiosa ou à espera. estou livre. tão livre que me sinto infeliz. não porque queira estar presa, porque não quero! mas porque não me possuo. não posso nem mais dizer que um mísero fio de cabelo seja meu.

acho que vou te pintar um quadro. tentar recriar o que hoje me falta. lambuzar o vazio de cores disformes.

casei sozinha. subi no altar e disse sim por dizer. é que a música que tocava me emocionou, precisei chorar e fingir uma felicidade morna.

agora aqui sei que vou sair dessa sala e quase entrar em desespero, pois levarei um soco no estômago que me fará vomitar tudo, tudo, até ficar sem escolhas. também não teria nada a escolher, se guardasse o que deixei sair d emim. não deixei, meu deus! saiu porque levei um soco.
eu sabia disso. tentei até ter uma gravidez psicológica para me salvar da crueldade. é que daí eu carregaria a vida, receberia proteção divina e seria mãe! ah! eu teria posse de algo, um filho meu.
mas desisti. abortei uma invenção, sangrei até cair e levantar com as mãos sujas e vazias...

como tem que ser.

sexta-feira, novembro 26, 2010

a violência sobe pelos braços, dormência única que não para a dor de ver e sentir o medo e o cansaço. quero um colete que prove que a vida ainda vale a pena para aquelas pessoas que me abraçam e me beijam e me pedem socorro com os olhares na televisão.
os corpos descem morro abaixo e parece -algo me diz- que são enterrados no meu quintal. vou deixar flores aos pés, mas o sangue faz nascer outra coisa da terra, algo gelado e quente, das entranhas do trabalho e do incômodo que é estar nesse mundo, assim agora sem saída sem nada mãos vazias e cabelos nos olhos armas apontadas para o nosso ventre - a vida que é violentada até no que poderia ser...
meu deus, e a escola? e a quintandinha do seu josé? e a igrejinha repleta de degraus para lugar nenhum oração quem sabe um pedaço de céu? quero abraçar esse mundo, ganhar esse sangue que cai não em gotas mas em metal duro e concreto, dar as flores que joguei nos túmulos e transformá-las no que sei que não pode ser feito só com flores.
tudo é violência. violência escondida, embaixo do travesseiro, pedindo para entrar e usar o banheiro da casinha. é preciso ser violentado - mais do que se já é - é preciso perceber a violência e amarrá-la e deixar que machuque e chorá-la e querer um dia poder arrancá-la do corpo e transformar esse substantivo num grande vazio passado que não poderá ser recriado nem em poesia.

porque essa violência que vemos... porque essa violência que sentimos e deixamos e sabemos esquecer
ela tá aí. como quem mata sem deixar pistas, sem deixar vácuo, apenas sofrimento morno, e dor de perda justificada.
não é possível! que nada disso se justifica, realidade de merda escrota filha da puta.
isso é um não agüentar que voa de todos os poros até as lágrimas que caem e as palavras que conseguem escapar de uma boca rouca e velha quanto esses olhos que não duvidam mas não aceitam o que vêem.

quarta-feira, novembro 10, 2010

é engraçado eu estar aqui, agora. não queria nada disso, sentir esse amontoado de linhas paralelas, loucas e incosntantes. queria ser a gatinha da lygia, que brinca com papéis, que pula da cama, cai no chão, se estatela e esquece tudo, tudo, no dia seguinte. mas reconhece pelo cheiro, pelo amor perdido, pelo suor do tempo e pelo pulso que seu coração se torna ao abrir a porta de casa à tardinha.
será que um dia eu amei? é que o amor me está tão longe que às vezes tenho medo de ter inventado tudo. mas eu era outra (eu sei), e talvez por isso não consiga mais escutar a beleza ranger nos meus ouvidos. é doce e viva essa sensação, mas triste, tão triste que chega a dar uma monotonia e quase um tempo morno de felicidade.
fui pegar uma bala pra ver se eu mastigo um pouquinho do que é o amor. aqui em casa há uma sala cheia de doces, sorvetes e pipas. parece que é a minha infância engaiolada e dormente, pronta para me atormentar e gritar o que eu sou.
os livros estão dormindo na cama, um diário azul e pronto para ser jogado no lixo, um copo de guaravita, o papel de bala amssado na minha frente. acho que vou guardar esse papel como forma de aprender a embrulhar a idéia de amor. não há nada ali, nada, só o cheiro da bala. e não é assim que tudo fica?

eu queria pedir alguma coisa, sabe? acordar, calçar os chinelos, correr para o mundo e gritar "alguém me dá o que eu preciso!". mas nem eu sei ainda, talvez seja um olhar profundo, um esgar de lábios devagar e com muita semântica. não, semântica não, não precisa ter isso, nunca, mas sentir, e sentir muito.
pensei em jogar tudo fora, pela janela, pelas frestas da porta, abrir a cortina e dar um grito que pintasse o céu, que desenhasse o que eu quisesse, como um poema que antes de nascer já é poesia.
você consegue ver? eu não, o grito quase me cegou, pintou não o céu mas meu corpo, os olhos se tornaram bolhas de sabão que estouram depois de serem violentadas por dedos e vento e amor.

acho que o amor me atormenta. de uma forma que nem eu percebo. passeia pelo meu corpo, finge que vem, mas engana. ameaça e vai vai para sei lá onde, algum lugar onde possa brincar de esconde-esconde.
não vou procurar, porque estou cansada, suor de correr de outras coisas, da vida, pelas ruas, amontoados de dias e passos e sons. deixo ele se perder, calado, chorando, sempre à espera, com uma máscara empoeirada que eu costumava usar nos carnavais.

(vou te contar uma coisa: caí numa confusão de pêlos, olhares, lágrimas, corpo palpitante de momento, mentiras, promessas nunca ditas, cama e eternidade de ânsia, uma ânsia muito forte. nenhum medo, mas uma profunda irritação pela indiferença)

vou dançar. o corpo em tormentos no meio da sala, sonidos tocando os músculos e os poros.
fico tonta, mas posso sorrir em paz.

domingo, novembro 07, 2010

minha ocupação é ser poeta
rir com os rios,
chorar enfartos de sílabas soluçantes
saber o momento de calar,
mas mentir no silêncio

trabalho com as rimas do asfalto
marcas passageiras no corpo do chão
passantes e vivos no caminho do verso

nada sei sobre o mundo
apenas sinto o que agora as mãos me permitem:
um salário vazio
mas cheio de mim.

segunda-feira, novembro 01, 2010

minha vó está deitada na cama. sinto vontade de abraçá-la forte e de dizer vó, vai ficar tudo bem. mas ela não vai entender, vai dar uma risada ou um gemido baixinho e voltar para o seu mundo e para fora de mim. talvez seja melhor ela não ter entendido, pois não precisou engolir minha mentira. porque não vai ficar tudo bem. não, não vai. ela está sozinha e vai sofrer, o corpo mole e desolado, lábios solitários e sentidos surdos.
sinto vontade de chorar por nós duas. ela nem chorar mais consegue, não consegue mais ficar triste ou se lamentar, não entra em desespero. olha para o teto como quem vê a gávea dos pobres, a época de ser faxineira e não poder tomar conta dos próprios filhos. o abandono daquele nordestino safado, ser só na vida, a morte do seu quase marido camelô.
lembro de uma vez, vó, que você fez pizza pr'eu comer, lá no minhocão. e que eu achei tão ruim... cuspi na hora, e você ficou irritadíssima, me chamou de mal educada! lembro de tantas coisas, lembro de fazer penteados no seu cabelo, de jogar jogo da velha, de passear contigo. e você sempre foi tão parecida comigo... pequena, as mãos de criança, os olhos perdidos em qualquer lugar.
eu queria que você me entedesse para eu dizer que não foi culpa sua... que não adiantaria você ter chegado lá a tempo, ter parado de ver a novela para fazer o café mais cedo, ter tido vontade de subir para ir ao banheiro e passar pelo quarto. a morte, quando vem, não deixa culpados. não dessa forma. e talvez tenha sido melhor assim, não sei, juro que não sei.
também não foi culpa sua ter nascido pobre e ter sido abandonada. é culpa de... não quero falar sobre a culpa agora. mas ela está bem, na medida do possível, conseguiu sobreviver. e agora está cuidando de você como um filha. minha mãe é forte, de certa forma.
vó, eu queria te salvar. queria te mostrar fotos das coisas lindas, te contar histórias, te levar à praia num dia chato de domingo. colocar a minha mão na sua e ver uma lágrima de tristeza cair.
você já foi embora há muito tempo, deixou apenas o corpo pesado para trás. eu não gostava de ir ao hospital... tinha medo, ficava mal por dias, seus cabelo sem estar em você, um não saber nos olhos de uma vida longa. depois a cadeira de roda, a perda de sentidos, a surdez aprofundada, o vazio, o tomar banho em desespero, a merda no lençol.
por que eu não conseguia? um dia, minha mãe, irritada, me puxou até o banheiro e começou a gritar comigo para eu te dar banho. minhas pernas tremeram, chorei chorei, pedi pelo amor de deus para ela me deixar ir. vim para o quarto e me joguei na cama, um profundo mal estar me tomava, precisava respirar muito, oxigênio, tive a ânsia de vomitar tudo e de fugir dali.
isso machuca tanto. te ver deitada na cama, o chapeuzinho que você tanto gosta na cabeça, a camisola rosa, sua pele com cor de adeus. a cadeira de rodas na sala, a porta do banheiro fechada, meus dedos não agüentando mais o peso do que sinto.

sabe, vó, eu estou chorando agora. porque tudo é tão incontrolável, esse não poder fazer me arranca todos os fios de cabelo e me deixa nua.

me desculpe por querer mentir para você. mas é que eu também queria acreditar nessa mentira.

um abraço, talvez, mesmo que você não sinta, é tudo que posso dar agora.

domingo, outubro 31, 2010

a vida está me chamando. me chama tanto que chega a machucar meu corpo, meus sentidos, minha dor. coloca nas minhas mãos um sopro do que ela pode ser, um orvalho que ainda vai surgir do sereno da noite tão longa. quer que eu seja mãe e dê a esse orvalho um lugar por onde escorrer e se fazer existir.
eu digo pra vida que ela espere. que eu tenho medo, tanto medo, de um dia acordar e não saber onde estou, cair no meio do asfalto e ser queimada pelo sol. como queima! o calor de agora me invade me possui cada poro sai pelas festas que dançam nos meus dedos.
como posso como posso criar um orvalho se não crio nem a mim mesma? um orvalho que nasce na esperança de ser, de ser muito, de crescer e passear pelo mundo, de sentir as pessoas, suas flores suas vozes. é uma continuação do que sinto para fora para dentro para lugar nenhum.

eu queria chorar agora. pedir implorar que alguém me dê a mão e que me salve. as horas passam os mundos se encostam a vida me exige
hoje eu li uma coisa que me deixou assustada. no seu rosto vi algumas dores segredos passados sentidos nada mais que vontades de antes e depois, e o agora? o agora eu passava o orvalho que a vida me deu pel sua pele pra você sentir um pouquinho e para eu admirar o que é sentir e querer mais.

você me encostou. eu quis te empurrar, deixei a vida cair no chão desarmada sozinha esmagada pelos milhares de passos que um dia se confundiram por ali. corri pelo tempo lembrei dos rostos das coisas que inventei dos sonhos das malas desfeitas.
não, eu não inventava nem desfazia malas, só ficava observando a escuridão ao redor e os olhos pedindo revolta vergonha amor.

inundação: abraços toques e distância. a vida que se levanta sem perceber e foge carregando a repsiração ofegante da gente.

ondas me acertam sempre,
esses momentos me afogam e me guardam para si, só para si.