quarta-feira, dezembro 11, 2013

saí para dar uma volta no céu. beijei estrelas, soprei universos. também caí de cabeça para baixo no asfalto, me queimei com a dor desse mundo tão grande, tão injusto. as mãos quebradas, sem suportar o peso da incompreensão, dos buracos sem fim e da morte de cada dia.
sempre quebram minhas mãos
testemunhas de crimes vizinhos.
é que derramam sonhos
em rios sem barco ou vestígios.

os toques ficam perdidos nas águas
do gole ao beijo
não sei se te mergulho
ou se me deixo afogar.
pulsa.
que a vida é canto sem demora
sem ir embora
fica,
que o mundo não gira mais
mas sofre
chora
dói. 

e agora, o que eu faço?
se nas mãos só tenho areia seca
que em um dia tocou o mar na lembrança
e agora foge das ondas
a escorrer como suor.

senta comigo,
não tenho banco nem praça
só o balanço pelas ruas cansadas.
te chamo pra fugir dessa história
cheia de mágoas, rachas e razão.

fecho os olhos,
não para dormir,
mas para espantar o choro
esse que me acompanha quando lembro
que tudo é tão maior que nós dois
que nossas mãos dadas escondidas

e até mesmo que o amanhecer é cúmplice de todos os crimes...
quero morrer de amor
mas que não pare o coração!
que não faça órfãos os sentidos,
nem a indiferença me tome irmã. 

um rasgo na pele
é a memória perdida
é o esquecer do teu sorriso
me dando bom dia.

o anel que tu me deste não era de vidro,
mas de poesia.
às vezes voa pra longe
e esquece o caminho da partida.

sábado, novembro 30, 2013

se eu morrer amanhã,

não jogue flores no túmulo
nem beije minhas fotografias.

não apresse o choro
a desaguar no mar
nem inunde minha casa com abraços partidos.

não venha arrancar as lembranças sonolentas
da terra fértil e inocente.
não amanheça querendo ser nuvem teimosa
ou chuva de verão.

se eu morrer amanhã,
apenas viva mais um dia por mim.
mania de soprar as páginas em branco
e ver as estrelas se espalharem por aí.
mente incendiada põe fogo no poema
e deixa ele morrer sem dó. 

colorir o começo,
cochilar na metade
e orfandar o final.
isso é coisa de casca sem fruto, diriam.

mas prefiro à parede que me impede
a cachoeira que me destrói.

sexta-feira, novembro 22, 2013

já não sou mais tão nova quanto antes,
mas ainda não tenho 25 anos de sonho e de sangue e de américa do sul.
estou na idade do desencontro
de andar de olhos fechados na corda bamba.
se cair, ainda voo?
se voar, ainda sonho?
em cada manhã, uma porta.
caminhos de pedras e poemas,
sem ritmo, sem setas
sem reta final.
(por hoje só)
um poema para alegrar o dia
e entristecer a noite.
longos versos de carinho e solidão
samba escondido por entre as rimas soltas
dançando na imensidão.

nada pelas ondas de imagens
ora afogadas, ora flutuantes.
ah, poema de tinta negra!
marca na pele a tatuagem
do riso e do choro fumegantes.

domingo, novembro 17, 2013

sorte tem o coração distraído
dorme um sono tranquilo
enquanto perambulam à noite
os amantes desesperados.

rasguei o coração do peito
e joguei no abismo
fingiu ser avião de papel
e caiu num livro inundado.

ai, coração inventado
vai dar susto no mundo
e deixa o poema dormir.
no lo sé quién tú eres
ni cuándo se fue
solamente que me hieres
y que imita el amor.

no lo creo en el pasado
hoy poesía de mi dolor 
pues él tambiém fue engañado
como mis oídos, boca y color.

terça-feira, outubro 22, 2013

foi ontem que quebramos o vidro daquela casa. só que não sabíamos que ao deixar as pedras caírem no chão o que caíam eram nossos sonhos. pesados, escondidos e com o gostinho de travessura, mas ainda assim não imunes à gravidade do tempo.
você foi embora e levou as assombrações daquelas salas, os olhos atentos às árvores sombrias do quintal e seus penduricalhos que nos lembravam bruxarias.
também foi outro dia que sentei no sofá e chorei. escrevi minha primeira carta inventada. eram palavras para minha juventude adormecida, escondida entre as palavras corridas e longínquas. era uma vontade de amar alguém que dorme, alguém em coma, que pudesse descansar em paz enquanto eu lhe dava amor e poesia.
hoje escancarei os olhos pelo ônibus. as casas e árvores correndo do lado de fora. minha vida ficando para trás, mudando a cada sinal vermelho, transfigurando as pedras e cartas já partidas. se pudesse escolher um momento, não pediria por ontem ou pelo outro dia, mas um segundo de silêncio nesse mundo.

domingo, outubro 13, 2013

encaro o mundo de olhos fechados. assim, sinto o vento nos cabelos e o céu misturado com meus gestos. é necessário respirar o silêncio, abraçar as cores criadas pelas mãos quietas. não vejo a luz das estrelas, mas sei do peso dos anos que voam sobre nós. nada escuto do tempo, mas a dor do presente paira meio em festa meio em túmulo em nossas casas.

mundo!
grita tuas curvas sobre mim! me enlaça nessas águas de enigmas e segredos. abre as asas nas ondas de incerteza, de caminhos cruzados e tortos. me faz sonhar com canções antigas e ternas.
não deixe explodir os vulcões, desesperos de sentimentos inundados.
que apenas as lavas da liberdade me alcancem.
a flor somos nós,
o orvalho é o tempo.

vem do sereno
e nos suja de solidão.

também nos limpa de esperança
para depois cair no chão.
o operário boceja as horas de trabalho
mas o galo não canta com os outros galos 
ele vai amassado com muitos homens no ônibus.

nunca leu fernando pessoa nem olavo bilac
o que sabe são as notícias tristes e monótonas
estampadas cheirando à fumaça 
das fábricas e dos cigarros. 

nunca foi homem de escrever ou de cantar
não sabia o que era tom nem coda
de rima só simples, nunca rica.

não havia tempo para mudar
no emaranhado de nada e nunca mais
só o que soube é que talvez pudesse se libertar
quando um panfleto recebeu
de um desses comunistas que dizia
que queremos direito ao pão, mas também à poesia.

domingo, agosto 25, 2013

anoiteci precisando ser poesia:
um grito no escuro
e o fósforo nos lábios.

não tenho abraços,
apenas flores.
mas nessa noite nada me basta:
quero pétalas
pele
perdas.

a poesia é faminta.
ai que bonitos seriam os campos
se a terra fosse de todos
e os frutos fossem livres.

o amanhecer não seria uníssono
mas uma ópera nascente
como o orvalho que
ao cair do céu 
escreve na folha
e deságua no mar. 

é preciso cantar a liberdade
essa filha nossa
de gritos de sangue e de guerra
que aguarda apenas
o dia de nos dar à luz.
minhas mãos tão pequenas
parecem não suportar o peso do mundo
nem a tristeza desses olhos cansados
do dia perseguindo o sono.

será que da vida nasce o amanhã?
e as estrelas são sorrisos de nossa história?
quieta, alcanço com os dedos a revolução.

o céu é cúmplice da miséria,
mas também da liberdade.
abro a mão e sopro as estrelas guardadas.

domingo, julho 07, 2013

sem título

tempo, 
motor dos pés, do meu choro e do 
vento
que, leve, surrupia dos lábios 
os segredos e as novas histórias
antigos presentes que não freiam. 

vida,
arrastada, traiçoeira, não há
saída
aqui e do outro lado do mundo
o que foge, o que fica, mesmo que anseie
não é um pedido, mas uma intimação.

solidão

solidão é o que nos resta quando os dedos se perdem na longa distância do adeus. é aquela fome tardia e sem pressa posta em cima da mesa numa tarde de domingo, são as horas marcadas por um relógio quebrado (e mesmo assim teimamos em querer acreditar nesse tempo).
às vezes (e hoje percebo que são incontáveis), ela se manifesta nesse mergulho longo e sem ar entre nós dois. os olhos se arrancam dos corpos e vão passear, saboreando a paisagem e bocejando o cansaço dos dias.

domingo, março 31, 2013

o corpo teu amanheceu
sem mapas e cheio de contornos.
era um navio perdido ondulando saudades.

dei adeus ao subir na proa
olhares e distâncias deixei para trás
enquanto na terra
teus pés construíam um mundo novo.

o céu me derrama:
quer dividir para me tomar.
mas rasgar eficaz seria
pois esse poema é todo dono de mim.

segunda-feira, março 11, 2013


você é como uma estrela
que vai cair no jardim
será raiz,
depois fruto
e então flor

carrega sempre essa cadência
meio universo
meio terra
meio nós dois.

te chamei pra nascer comigo
andar por essa vida
com os pés no chão
e os olhos lá em cima
nessa paz cheia de céu.
faz tanto tempo que não me deito assim no chão e deixo o vento me tocar, bem de leve, com suas plumagens e segredos. cada passo é uma nova pergunta, mas sem pressa para as respostas. agora eu consigo entender alguns ritmos, algumas letras. é que meu corpo respira fundo.
cartola dizia que o mundo é um moinho, mas eu penso que o mundo está mais para o que ele é: um grande mar azul, cheio de ilhas e vontades de acordar ao seu lado com os raios de sol. tudo está tão bonito que eu até estranho. mas a vida então é isso: um surpreendente sorriso depois de uma enchente devastadora.

domingo, março 10, 2013

olha, durante muito tempo acreditei em coisas que não faziam o menor sentido. coisas da vida, de saudade, de amor, de como será, de como foi, de como vou resistir... e hoje, aqui deitada na rede, olhando para o céu, deixando o tempo refletir suas dores em meu corpo recém-nascido, percebo o quanto preciso varrer as cinzas que deixei espalhadas por aí.
cada dia, um vestígio.
silêncios e abraços
de uma vida a nascer.

dedos trêmulos, olhos embaçados.
é possível um beijo não tocar os lábios?

a alma pede corpo,
mas os carinhos se escondem embaixo do tapete.

segunda-feira, março 04, 2013

pensei em você
talvez por alguns segundos
(ou dias)
olhos mãos cheiro e roupa
dançando um tango comigo.

me levou para um jardim
depois me girou para a praia
meu corpo se curvou
em ondas sinceras
quando o mar me tomou dos seus braços.

whenever I feel

meu deus, o que é essa angústia tão forte dentro de mim? parece que tenho uma bomba no corpo, pulsando mais forte que meu próprio coração. diz que precisa sair, que vai explodir a qualquer momento, ando de um lado pro outro, querendo que isso me deixe em paz, que vá embora, que pare de me possuir. mas isso continua, e parece que não tenho mais forças pra aguentar.
chorar adianta? escutar uma música que me abrace, que me ame tão profundamente ao ponto d'eu esquecer onde estou e para onde vou. pintar, escrever, tocar, desenhar? há alguma forma de isso sair de dentro de mim? posso devolver ao lugar que pertence? posso nunca querer ter sentido isso?
suspiros na noite sem estrelas, o barulho da chuva gotejando a rua ali fora, minhas mãos correndo do rosto até o estômago, pedindo para ficar só comigo mesma, sem essa sensação de que sempre terei essa companhia que me deixa sem respirar.
por quê? queria as respostas, as perguntas, o caminho entre esses dois enigmas, suas mãos para me ajudar a sair desse labirinto. não tenho nada e preciso me contentar com esse barulho sem notas e instrumento.

domingo, março 03, 2013

saudade

a saudade é como um pássaro que canta uma música desafinada. escapa da gaiola, bica a janela e às vezes consegue entrar em casa. quando entra, bate as asas sobre os cômodos já sujos e bagunçados e quebra tudo que está pendurado querendo há muito tempo cair.
não chamo por ela, fico deitada olhando as asas passarem por cima do meu corpo, uma ventania violenta que quase me acorda de um sono profundo. é mais forte que qualquer insônia, que qualquer raiva ou sentimento de querer ir embora. e, de repente, cansa de assobiar e volta pro lar de onde partiu. 
nessas noites chuvosas, em que só consigo pensar no tempo naufragado, nas guimbas de cigarro apagadas e nos meus pés molhados na areia, a única coisa que arranca vida da minha pele é esse canto. 
eu poderia dizer que é bonito, mas não é isso. nem maravilhoso ou triste. é uma vontade de viver tudo ao mesmo tempo, segredos, sopros, saltos na imensidão. 
talvez eu ainda queira voar com esse pássaro, não para a gaiola de onde veio, mas para algum lugar que só ele conhece. 

sábado, março 02, 2013


procurei um poema no armário
pra curar o meu cansaço.
só encontrei poeira e lembranças.

na cabeceira, um livro de prosa.
mas aquele estava cheio
de bocejos e insônia.

será que posso me salvar
um pouco dessa vida?
ela só inventa de querer me escrever.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

só pra registrar o meu cansaço disso tudo e de você.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

quisera que o amor
fosse calmo e sereno.
ele é tempestade forte
avassala muros e apartamentos. 

minha voz quisera eu
fosse suave e doce.
grita e exclama
palavras de ares quentes.

mas tenho mãos que te afagam,
lábios que te sussurram
e olhares que te adoram.

se nada disso for suficiente,
tenho esse poema
que mesmo mal escrito
perdura para sempre.

sábado, fevereiro 23, 2013

quando a noite vem.

queria saber dormir
sem pensar no amanhã,
e no que nunca foi.
acordar madrugadas em silêncio
te saber dos pés à cabeça
no escuro desse quarto.

estalou a luz,
eu estava sonhando o raiar do sol.
me disse 'volta a deitar'
mas a insônia (o amor)
é um demônio
que demora a ir embora.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

pra você.

vivemos em uma sociedade imersa no lixo, doente dos pés à cabeça, pedindo ajuda e força para resistir no meio da multidão. todas as nossas relações, amizades, namoros, família, ficam deturpadas ou se tornam monstros. mas nós também, sozinhos, encontramos o mesmo caminho, porque somos nós que criamos essas relações, não é mesmo?
o amor existe. é pulsante, dói, te deixa sem ar. é a coisa mais linda do mundo, mesmo quando imundo e fugidio, mesmo quando inventado ou roubado. sabe por quê? porque ele é dialético. deixa eu te explicar: o amor é também desamor. e quando ele se esgota (ou simplesmente se torna outra coisa), nós perdemos uma parte de nós mesmos e nos sentimos sem berço, sem lar, foragidos e solitários.
isso pode parecer normal, uma coisa óbvia. mas não é. tem gente que simplesmente não tem maturidade para amar. depois que termina um relacionamento, destrói qualquer possibilidade de guardar com carinho algo que já foi. sente-se vazio, carente, e pisa em cima de todas as coisas bonitas que aconteceram. diz que o amor não existe, e entra em desespero (com razão, porque começa a perceber o quanto mentiu para as pessoas e para o espelho) e parece que nada que tem nas mãos é verdadeiro.
meu deus, e agora? já sei! vou colocar a culpa na monogamia, nos prolemas do relacionamento, na cobrança, nos ciúmes, no fato de algo em mim ter mudado. que ideia brilhante...

vou te dizer uma coisa. enquanto continuar a ter essa sensação, a pensar dessa forma, a não sair da gaiola que te controla, nada vai preencher seu vazio. você vai continuar com essa gosma escorrendo de dentro de você, como um vômito que vem no verão e parece eterno.

e eu não quero e nem vou compartilhar meus medos ou dores com você. chega.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

män som hatar kvinnor I

quando tiramos nossas máscaras no meio do bloco, a purpurina acaba e os confetes caem no chão. o carnaval vai embora, leva nossos amigos, as mãos dadas e o samba no pé. nessa vida, precisamos ter calma. talvez eu não esteja muito acostumada com isso, sempre tive pressa, sou quase uma pessoa correndo para não ser atropelada no meio dos carros.
por que isso aconteceu? me entristece... perdemos a razão, bebemos de mais, começamos a chorar. as fantasias foram rasgadas, as ruas ainda não foram limpas e um cansaço muito forte pede pra ficar (por quanto tempo, até quando?).
às vezes demoramos a aceitar que estamos errados. mas muitas vezes também demoramos a aceitar que estamos certos. é necessário muita luz em frente aos fatos, aos acontecimentos da noite. quando algo assim explode, depois de toda gritaria e confusão, eu me pergunto: o que eu fiz? e agora? o que eu não fiz? e depois?
mas infelizmente não podemos esperar isso das outras pessoas, mesmo que digam que nos amam, que confiam em nós, que escutam o que dizemos e que são nossos amigos. nós, mulheres, sempre nos achamos culpadas de tudo e colocamos nossas vidas nas mãos de estranhos. mas quando um homem avança para cima de mim, porque merecidamente eu o chamei de babaca, eu esperava que minha amiga de anos fosse ficar do meu lado, e não do lado do estranho.
fico mais decepcionada do que indignada, ou a mesma medida dos dois juntos. e aí aqueles pensamentos nebulosos voltam a me assaltar: meu deus, essa sociedade tem salvação? e agora, essa menina com um cara desses! para onde foram os sentimentos nesse embrenhado de carnificina? e eu não consigo ter a resposta de nada e muito menos a solução.
a única coisa que fica é essa sensação de que a qualquer momento morreremos. mas não em paz.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

and the rain will kill us all

peguei a bicicleta e coloquei fogo no céu. não sei se era a mente ou os pés que pedalavam. fui por aí, pedindo ao chão, às árvores e aos pedestres que me dessem um caminho ou um sentido para correr atrás. não havia seta nem sinalização, a noite escura já anunciava uma inundação no meu corpo, e os gritos dentro de mim pediam para que eu tomasse o controle.
era demais encontrar um livro pela estrada para que me fizesse respirar um pouco? um personagem contando uma história bonita, como aquelas que me narravam para dormir, ou uma vida em cores variadas, nada cansativa, mas cheia de alguma coisa mágica. páginas amarelas, ressecadas com o tempo, letrinhas minúsculas e pesadas, uma loucura retirada do nada e criada para completar o que mais nos falta.
tropecei várias vezes. parava nas pracinhas, onde senhores jogavam xadrez, pensando na melhor estratégia para poder continuar se movendo. e daí que a chuva já era anunciada e as pessoas corriam para casa? a bicicleta já estava enferrujada, assim como os olhos e as mãos.
meu cabelo foi sendo arrancado pelo vento, fiquei nua no meio da tempestade, esperando as nuvens irem embora. mas aqueles pingos fortes estavam indiferentes à minha tristeza e continuaram me machucando a cada gole que eu pedia para ser tomado.

terça-feira, fevereiro 05, 2013

meu amor,
não tão mais meu agora,
lembrei de um dia em que você me levou para passear no arpoador, mas eu não queria ver as ondas baterem na minha tristeza, muito menos a areia me invadir como que no primeiro sexo. queria beber uma cerveja, estar longe dali, no bar do zé em botafogo ou num boca de esquina na lapa.
fiquei ali, sendo encarada por você e pela noite, aceitando tudo de boa vontade, porque o amor não era uma felicidade morna nem uma dor arrebatadora. era o início de um pequeno desespero bagunçado, uma vontade andando de bicicleta bem na minha frente e eu correndo para alcançá-la.
quando voltamos para casa, você disse que queria ver um filme do woody allen. eu ainda pensava na cerveja e, se fosse para ver um filme, preferia que fosse tarantino. mas me deixei levar de novo e fiquei muito emocionada com a minha coca-cola e o seu gato passando o pelo pelos meus pés. te olhava de canto, te achava um pouco parecido com o personagem principal, e me perguntava se você preferia a penélope cruz ou a scarlett johansson. depois você passava a mão pelos meus cabelos, me puxava e me dava um beijo que me fazia esquecer qualquer coisa, até da saudade que aquele filme me causava, das ondas me julgando no arpoador ou das marcas dos nossos pés que já sumiram da praia.
quando você foi embora, lembra?, eu sentei na varandinha, acendi um cigarro e chorei com orgulho. à noite, ainda consigo respirar um pouquinho das músicas que escutávamos. parece que estou viajando para barcelona ou roma, ou qualquer outro lugar assim. queria que você as tivesse escrito, porque aí me sentiria também respirada por você.

quinta-feira, janeiro 31, 2013

hoje o dia está sorrindo, e eu não estou contigo. consigo até olhar a lua sem lembrar dos seus olhos me chamando. vou te contar uma coisa: eu não acredito mais em você. eu cheguei até um fundo de poço que, de tão fundo, nem conseguia mais se sentir poço ou parte do mundo. e você estava em qualquer outro lugar, jogando todas as malditas palavras que um dia me disse no ar, num rio ou na estrada. não se atreveria a fazer isso com o mar, porque ele é meu território, não seu.
sempre olhei o o mar como quem olha para casa. acho que já te disse que me sentia perdida, não é? tenho medo do mar, das ondas, do meu lar. porque voltar para a poeira do quarto, sentir a porta abrindo e um grande piano te esperando para ser tocado é assustador.
desenhei várias flores no corpo para que me respirassem. algo em mim nasceu de novo: uma pétala, a cor dos olhos, o toque no mundo. acho que consigo nos perdoar por toda essa bagunça. perdoo mais a você que a mim, porque ainda preciso um pouco dessa saudade, dessa solidão.
 

segunda-feira, janeiro 21, 2013


tenho medo de escrever porque sei que as palavras vão rasgar tudo que há dentro de mim, vão entrar sem pedir licença, vão passar uma faca por cima dos meus ferimentos. mas preciso colocar isso pra fora, essa dor mesclada de vazio e de saudade, uma dor que consegue ter mais vontades do que jamais tive em toda minha vida, e parece que é tudo que tenho agora, uma irmã que permanece em silêncio e mantém segredos ao meu lado.
penso no seu corpo deitado ao lado do meu em várias manhãs amenas, sentia uma coisa engraçada de ter você ali comigo. cheirava seu pescoço e sentia uma paz, pegava nos seus braços e me sentia quase que salva do mundo. os olhos amendoados me encarando eram a coisa mais maravilhosa que já vi. eram interrogações sobre mim, sobre a vida, sobre se o céu estaria bonito para irmos à praia.
as mãos dadas, os anéis de coco encostando no ar úmido, os seus passos mais apressados do que os meus com uma pressa de viver que eu havia deixado para trás, guardada em algum baú ou pintada em algum quadro. nossas mãos balançando, um eu te amo, amor, que bom que você está comigo faziam meu coração acelerar e um sorriso brotar nos meus lábios.
agora tudo que resta é a saudade. uma vontade de estar junto e não poder. querer ter você ao meu lado nas noites chuvosas e só poder olhar os pingos de chuva e pensar que talvez, naquele exato momento, você esteja também olhando da sacada da sua casa. é pensar em como eu queria que você estivesse aqui, bebendo comigo, olhando as estrelas, vendo um filme, me chamando pra te dar um beijo longo.
acabou. não o meu amor, porque é pulsante e a saudade fica me incomodando, me fazendo chorar muito, mas tudo que iríamos ser. e o fim é doloroso, me sinto afogada, sem asas, destruída.
espero que isso passe.

quarta-feira, abril 11, 2012

geração rivotril.

precisava reagir. saía e o mundo parecia seu inimigo. uma folha de outono caída no chão representava toda sua dor e perdas momentâneas. e agora? virar a esquina, ralar um pouco do braço na parede (afinal, é preciso sentir) e seguir em frente.
é quase manhã-madrugada, algumas pessoas aprendendo a dirigir nos carros da auto-escola, aprendendo que é preciso ir sempre em frente sempre em frente. opa, sinal vermelho. uma parada pra fumar um cigarro e nada mais.
o que é necessário saber pra viver? respirar, estudar, ganhar dinheiro. fazer amigos, perder pessoas, chorar na madrugada, amanhecer na ressaca. estava enjoada. enjoada. enjoada. parou pra vomitar o que tinha no estômago: um vazio crescente. meu deus, é possível o vazio ser maior do que o que temos, do que o que existimos? é.

- luiza, não tô me sentindo bem...
- que foi?
- é um mal-estar no mundo

pra isso não tem remédio, meu amor. você pode tomar quantas pílulas te enfiarem goela abaixo que vai continuar ardendo, doendo ou simplesmente estar dormente. quer uma cama pra deitar? pensar sobre as coisas? sobre a vida, sabe, o amor, a morte, essas coisas.
não, não quero nada disso. quero acordar e perceber que isso na verdade é um sonho. um pesadelo que durou dias, anos, uma vida inteira. me salva, luiza? você pode segurar minha mão por um momento, sentir o que estou sentindo? essa gosma que escorre do meu corpo sem pedir permissão, dando luz a coisas que nem sei definir.

quando virou a esquina, um sol já nascia tecendo uma colcha imensa chamada aurora. vamos costurar comigo essa colcha, ô luiza. não tô dizendo que quero me distrair, mas de repente posso fazê-la de rede pra descansar ou de jangada quando me jogar finalmente no mar.

terça-feira, abril 10, 2012

sinto muito

o século XXI está me engolindo. os carros correndo, os ônibus super-lotados, os tiros da polícia na favela, a vida em via crucis. há algo que não estou suportando. eu sou fraca? sozinha? parece que minha mente é um labirinto imenso cheio de cadeados. onde estão as chaves? eu não sei. as passagens? trancafiadas. nem sei para onde estou indo, mas sei que caminho...
eu, passageira de mim, agora na chuva. os respingos parecem cinzas de um cigarro velho, nem mesmo a fumaça encosta mais nos poros. a tinta vermelha dos cabelos escorre pelo corpo, parece sangue, mas não é. esse está na veia, também preso e querendo escapulir para o mundo.
os dedos nervosos pedem socorro. o que vou escrever? sobre a anestesia? sobre eu estar em constante cirurgia? engulo as pílulas como quem pede para morrer mais rápido. por favor, uma solução um arrependimento onde ficaram aqueles sorrisos? na rede balançando no quintal? nos pés cheios de lama correndo pela rua?
eu queria... deixa eu ver, pensar bem, queria não estar com a mente num náufrago. parece que há água saindo de meus ouvidos, de meu nariz, de meus olhos. e a boca presa pedindo pelo amor de deus para gritar e respirar um bocado desse céu estrelado que agora me guarda da chuva.
a casa é uma prisão. não posso dizer que quero morrer, é errado, faz mal aos outros. nem mesmo na dor que sinto posso sentir algo direito, senão estou sendo culpada. não posso dizer que não aguento mais nada, que nada é mais gracioso, que não quero levantar. quero olhar o teto, ou fechar os olhos e dormir. adormecer nesse momento é a melhor coisa, porque dormindo se esquece de tudo. e, quando você acorda, por alguns segundos, você nem sabe quem é ou onde está.
quando entro no chuveiro, a água parece falar comigo, diz que quer lavar toda essa sujeira que não sai do meu corpo. eu esfrego dos cabelos até a ponta do pé, mas tudo permanece, é como se a minha sombra se impregnasse em mim e não soltasse nem mesmo na escuridão. é a liberdade sendo tomada em goles secos.
se eu pudesse, abraçaria a música que agora toca. agradeceria por me fazer sentir o que quer que seja, um ódio, rancor, amor? mas ela passa por mim sem nem mesmo deixar o silêncio no ar.
respiro em vão.

um quê de nada

era mais de meia-noite e a mulher já abotoava o vestido. o sexo tinha sido bom, o vinho, até a luz da lua tinha esclarecido alguns pensamentos nebulosos. agora, calçando os sapatos, lembrava com certa angústia que aquilo não passava de um corpo suado em outro corpo suado até o esquecimento da realidade. não que fosse romântica, não era, mas depois de tudo os olhos nem se encaravam, e quando se esbarravam eram claramente desviados para algum lugar mais interessante, quem sabe até um jarro de flores.
ela se preparava para ir com certa leveza e sem pressa. faltava alguma coisa, esperava que isso brotasse já que o olhar se preocupava mais em olhar rosas. pegou uma taça de vinho da cozinha, passou na frente dele, ficou apoiada no umbral.
- se incomoda se acendo um cigarro?
fez que não com a cabeça. agora estava deitado na cama, os olhos fechados, o corpo num relaxamento quase indizível. está tudo bem? ela gostaria que ele perguntasse. mas aquele cachorro não queria saber nem o nome dela, quanto mais o seu estado emocional. foda-se, também iria embora logo e nunca mais teria que olhar pra cara dele.
lembrou-se de umas cenas estranhas, talvez fosse o vinho fazendo efeito. a sua vó falando algo sobre o amor. o que é mesmo? ah, sim, que o amor é quando duas pessoas ficam juntas pra vida toda. tadinha da minha vó. se ela me visse agora teria morrido de novo. acho que eu queria um amor assim, que nem ela me disse, mas só pra provar no final que tudo não passa de uma farsa.
- ô carlos...
- hm?
- eu tô indo embora, viu? prazer em conhecê-lo.
- bate a porta quando sair, coisa linda.
bato, claro que bato, e bato na tua cara também. acendeu mais um cigarro, jogou o resto do vinho naquele chão limpinho e quebrou a taça acidentalmente do lado da cama.
tchau.

sábado, fevereiro 25, 2012

canção

não estou pedindo nada. nem um pedaço de fotografia nem um sorriso quente de um dia de verão. não quero fazer disso uma tragédia grega ou um daqueles filmes que guardo com carinho na minha instante. só quero ir, voar pra longe, onde o canto de ossanha seja enganado, onde eu possa ser um rabisco que se sente livre apenas por ser o que é: um pedacinho de formas e sentimentos que, mesmo feios e sem nexo, são também verdade e uma vida pralém da respiração.
cansei. não de te escrever textos que não são nunca lidos ou de te olhar sem perceber o tempo indo embora. mas de algo que não consegui ainda explicar para mim mesma, acho que é uma vontade (uma sede) de querer mais, de ultrapassar somente a pele à angústia, de encostar os dedos nos dedos e não haver ali uma única célula que não saiba seu lugar no universo.
se eu pudesse, te abraçaria, te colocaria junto à poesia que está batendo no meu peito, te daria um nome que prefiro agora não nomear. mas, dentro de toda essa loucura, dessa palpitação, desse pulso inconstante que me toma a goles longos, algo grita que é hora de fechar os olhos, acabou o conto, o poema partiu para pasárgada (ou para qualquer lugar onde possa ser chorado com calma e amor).
o fim não justifica o meio, pois o meio já é parte do fim. e eu sabia disso desde o começo (se é que houve algum), já sentia as cores escorrendo pelos meus dedos, como ondas entreabertas num poema da cecília meireles. eu queria dizer que não vejo o horizonte nem acho que o mar cai num buraco sem fim. mas que me deixei afogar dentro desse emaranhado de águas salgadas (de choro) e limpas (de um sentir sincero). agora é hora de respirar, de deixar a inundação transbordar do corpo para o mundo, como as notas fugidias do piano ao ser tocado levemente pela primeira vez.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

1, 2 e 3

1. não sei que dia é hoje. 2012 começou me arrancando do tempo.
tenho transformado as lágrimas em cigarro, e o que deveria me deixar em paz entraz cada vez mais:
primeiro pela boca, depois pelos pulmões (o que me impede o grito e troca a angústia por um punhado de tosse).
olhei pelo umbral e vi um dia lindo. se eu jogasse todos os cigarros pela varanda e assobiasse a vida que está dentro de mim, talvez eu conseguisse transformas esses muros à minha volta em flores e poesia.

trago, me enveneno e fecho os olhos.


2. quando choro não é por meu amor ou cicatriz.
não.
é pelo mundo, pelas flores que morrem cedo, pelas secas lágrimas derramadas pelo nordeste.
joguei tudo fora, menos essa fagulha que ainda espirra fogo e cinzas em mim.
disse adeus às pílulas anestesiadoras, agentes futuras da cirurgia final: a de não sentir as explosões que matam e corroem tudo à nossa volta.

cheque-mate.


3. não, meu amor, a vida não é uma distração. é o pôr do sol nascendo nos olhos nossos, o perfume do mar caindo como chuva de verão nos corpos perto e longe da prainha.
sabe quando o vento vem? ele te deixa pedaços de ontem e planta sementes escondidas pelos poros que vão ser flores ou ramos luminosos um dia.
o jardim primavera é vida, apesar do que eu disse naquele dia bêbada. também é dor, mas é mais do que um cenário cheio de balas ácidas e olhos nas janelas. é um acordar, bocejar, cheirar o mundo, aveludar as mãos só para depois tirar as luvas e sentir as gotas do mar que chegou ali de qualquer forma.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

gestos

não há nada mais perigoso do que deixar-se levar. não por uma brisa ou um trem, nem mesmo por barcos (que tanto amo os caminhos por onde vão e o cheiro e som da maresia), mas por alguém. tento desviar os olhos dos seus porque são como janelas de fora do mundo para dentro de uma casa silenciosa e cheia de palavras pintadas e sussurradas pelas paredes.
hoje eu queria te chamar para deitar no asfalto comigo. sentir o calor da terra queimando os anos e o suor do trabalho. lembrar das rodas passando por aqui e soltando a fumaça que também exalamos ao fumar o cigarro vendo o pôr do sol. dá até para amar as estrelas (não é como no interior de minas gerais, mas talvez seja esse esconder-se que as deixa mais lindas).
pode tocar a pele, os cabelos, beijar os olhos, fazer acorde onde não há som, cantar uma música no violão, mas não encostar em mim, não aquela sensação de que está tudo bem (não está), muito menos um amanhecer com o sol batendo nos sorrisos.
se me perguntassem agora o que eu quero, eu diria que 'um pouco mais, não tudo'. mas é verdade? não sei se quero um pouco mais e também não sei se quero tudo. tudo é algo pralém do que somos, porque mudamos tanto e cada segundo que o tudo está em constante transformação. e um pouco mais já seria ultrapassar o corpo, para onde eu mandaria o que me inunda, o que atravessa os poros deixando rasgos marcas e cicatrizes?
se as palavras fossem nuas, eu mergulharia com elas no mar e nasceria como um sol amanhece num dia quente de verão. são pele sobre pele sobre pele de palavras que não nasceram com o sangue e a dor de um mundo novo, mas vítimas de um desenho que fiz num guarda-chuva para não me molhar.    

quarta-feira, novembro 16, 2011

oásis

devagar, você adentrou no meu mundo. passos leves, sorrisos escondidos e mãos no peito. a respiração não podia ultrapassar o próprio corpo, era necessário que ficasse escondida, órgãos com os órgãos, sem espiar o vento ou ar que se estendia tentando entrar pelos poros.
o quarto na claridade amena, pronto para ser beijado, acalentado e posto para acordar. mas você desviou os olhos e colocou o dedo nos lábios entreabertos: silêncio. a vida é mais do que os barulhos do antes e do agora, fica no susto do que poderia vir a ser e não vem. shhh.
deitada na cama, o corpo bronzeado de palavras minúsculas e frases trancafiadas, arrastava tudo com seu sono acordado.

- voltei pra te dar isso. não um cigarro ou uma carta. nem um daqueles malditos livros que você tanto gosta. não vou esperar você acordar para que seus cílios pesem em mim o peso dos anos e dos amores perdidos.

esperou. nenhuma resposta, apenas um mexer de cabeça e um aperto nos travesseiro. a janela entreaberta às vezes batia às vezes ficava. parecia indecisa e muito consternada com as palavras do homem que mal chegara e já parecia ido.
no sonho, tinha em si tantas cores e tantas esperanças, que mal escutava a voz naquele quarto semi-amanhecido.

- hoje andei por uma rua deserta e, por algum motivo, me lembrei dos seus olhos naquele dia. pareciam a voz do atacama. não pela sua solidão somente, isso também, mas por sua imensidão e beleza. a verdade é que quando te olho acordada sinto como se...

deixou na cama uma fotografia e foi embora. era o suficiente para dizer até logo, quem sabe um dia. ou até mesmo adeus.
quando acordou, sentiu a fragrância daquela onda que vem arrastando tudo derrubando casa destruindo lares e arrancando vidas. respirou bem fundo. agora era hora de encarar a areia em que seus pés tocavam.

segunda-feira, julho 18, 2011

segunda-feira, junho 06, 2011

já andou de barco? eu tinha sempre duas sensações ao colocar os pés perto do mar: magnificência e medo. ao mesmo tempo em que tudo era tão grande, tão belo, tão vontade de viver e respirar cada pedaço que estava à frente, a imensidão me engulia e me causava uma dor e falta de ar que se prolongavam por alguns instantes de pensamento.
sinto que novamente estou assim. mas sem o mar aos meus pés. apesar de eu estar completamente inundada, não sinto cheiro de sal nem o canto do sol nascendo na linha do horizonte. são muitas coisas que me maravilham, e ao mesmo tempo me aterrorizo.
me dão uma moeda e dizem baixinho no meu ouvido: escolhe. cara ou coroa? duas faces do meu rosto, partes que eu quero guardar para mim quando me olhar no espelho, mesmo quando as rugas já tiverem formado um mapa monstruoso (e sem bússola a seguir).
quando estou no mar, não há escolhas, apenas uma fluidez e um balançar que vão indo para onde tiver que ir. posso manejar algumas direções, mas não se anda de barco na terra. é sempre o mar.
diferente de duas faces de uma moeda, uma exclui a outra. o mar não exclui o mar.
eu posso excluir a mim mesma, mesmo com tanta inundação?

a resposta é a seguinte: nunca amei tanto. e o amar, como já diz o próprio signo, é muito diferente do mar.

domingo, maio 15, 2011

vienna waits for you

o silêncio, às vezes, é a melhor palavra a se dizer. melhor não compartilhar do que ser incompreendido. penso em tocar violino ou violão, um baixo ou piano. talvez agrade, e eu deixe de ser desafinada nas angústias que tanto teço.
novamente, o choro nas ruas. parece que o tempo até concorda comigo, me dá uma chuva pra compartilhar as tristezas. isso que é amigo (amor ou amante) - aquele que sente dor onde te machuca. sei que me deixei levar, o ônibus passando pelo mundo, as coisas perpassando os olhos molhados. juro que tentei disfarçar os soluços, até prendi a atenção num texto (mas só piorou as coisas).
a solução foi repetir vienna incontáveis vezes no mp3. dá pra acreditar? é que me fez sentir bem, de alguma forma. não consigo nem explicar...
queria qualquer coisa, menos essa não aceitação, essa incompreensão.
uma tentativa.

sexta-feira, abril 22, 2011

há coisas lindas
na boca de um passarinho.
um querer, talvez,
de um céu azul até a eternidade.
ou até mesmo a tardinha de um amor.

hay cosas más bellas
nos teus olhos tímidos
gosto de mel ou café
guardando o momento que suspiro.

canta no meu ouvido, beija-flor,
esses olhares criadores
que preciso é de uma música
para embalar tudo que sinto.

segunda-feira, abril 18, 2011

às vezes é preciso um sopro. sabe, um mexer de lábios inseguro, me conta uma história bonita para eu dormir em paz. porque, vou te dizer, não tenho dormido bem. ando pensando sobre a vida, sobre as coisas, sobre a hora de ir embora. tenho sentido muito medo.
é difícil admitir que se sente medo, não é? às vezes estou tão feliz que tento me agarrar desesperadamente ao agora. mas me vêm imagens, a morte, a dor, a velhice, a angústia.
aquelas crianças naquela escola assassinadas de forma tão brutal. vidas interrompidas. e será que há outra forma de morrer senão interrompendo o que existe de mais belo? por quê, meu deus? não sabemos o que vem depois, e isso é desesperador. por isso sofremos tanto quando as pessoas se vão. além da saudade, é porque tememos por elas.
e eu estou tão convencida de não saber o que fazer que às vezes me pego chorando pensando coisas horríveis. queria ter algo ao que me agarrar para me confortar.

acordo pensando assim: hoje farei tudo diferente. quando vejo, o dia já passou e estou aqui escrevendo, na frente do computador. mas sei que, no fundo, não adianta. aliás, não basta.
nada basta.

segunda-feira, março 28, 2011

fotografava as flores chorando. caíam as gotas de orvalho, tal como lágrimas, de suas pétalas até o chão seco. gostava de marcar aquilo, pois era um momento que levaria consigo para sempre, lembranças do cheiro, dos sons, da vida toda que emanava dali para o mundo.
deixava que a flor chorasse em seu lugar. sentia como se o corpo fosse quebrar se se desse ao luxo de soluçar escondida. preferia que chorassem por si, que a beleza tomasse a tristeza que guardava nos clicks e revelações.
seu marido fora embora. parece que tudo, no final, se resume a uma história de amor mal resolvida. mas não! não era isso... pelo contrário, estava com uma felicidade meio culpada por ter sido deixada. as coisas andavam tão mornas, tão hospitalares, que qualquer quebra de silêncio a fazia dançar. mesmo que essa quebra fosse feita por ruídos e gritos sem ritmo.
por toda a sua vida esperou um amor. era a mulher perfeita. sabia cozinhar, passar, andava de saltos altos, era inteligente, conversava sobre livros, era fotógrafa e até discutia um pouquinho de política e futebol. queria casar, é claro, como não poderia querer? um homem de quem cuidasse.
mas o casamento veio, as tarefas diárias lhe tomaram a vida, o sexo era doloroso e sem graça e, ainda por cima, não passava novela aos domingos! ia à igreja, é claro, e pedia a deus um pouco de açúcar nessa merda toda. chegou a um momento tão entediado em sua vida, que esperava os domingos para sonhar com o padre bonito que passara a rezar as missas.
mas, para o mundo, era uma mulher feliz. ainda nova para os filhos, com um marido bonito, a casa límpida e reluzente, as idas ao mercado, as alianças de ouro branco e os passeios aos casamentos e formaturas.

hoje, quando ele foi embora de madrugada, ela sentiu uma preguiça enorme de entender o que se passava. leu a carta, estava fugindo com outra. voltou a dormir. era minha vida uma novela mexicana, meu deus? mas onde está o drama? acordou cedo. calçou os sapatos. tomou seu café com hortelã. decidiu ir fotografar.
não era falta, não era amargo nem frio, era uma idéia do novo. tudo se quebrou. o que parecia era que a casa estava falando com ela, rangendo os cômodos que logo cairiam aos pedaços.
não sabia agora muito bem o que fazer. nunca fora triste, mas se sentia agora livre. não porque ele a prendia, mas porque era tudo uma farsa. não era amor, não era ódio, não era vingança. não era nada, simplesmente. e não se tratava só dele, mas de toda a sua vida até aquele momento. afinal, por quê? por que fez isso e não aquilo? por que se deixou levar pelo que deveria ser? só conseguia pensar num sei lá bem podado e desconexo.

decidiu fazer um álbum de fotografias. não para se lembrar das coisas, porque o que tinha se passado até ali era um livro em branco. quis fazer um álbum para recriar mentiras, contos e poemas que poderiam sanar o que não foi. a arte a salvaria.
e, dali para frente, com a primeira lágrima, formaria uma biografia, não mais um livro fantasioso.

sexta-feira, março 11, 2011

tornou a espiá-lo (era pelo canto dos olhos que fazia existir o amor).

uma tarde adocicada entrava pelo quarto, música calma e viva tocando a pele daquele homem sentado na beirada da cama, as pernas dobradas, como impaciente, os olhos se revirando da janela ao teto e do teto aos pés.
ela estava dentro de um cansaço quase desenfreado, queria se levantar e gritar a dor que estava sentindo, um mundo inteiro de peso nas costas sendo deixado para trás. e queimando cheio de cicatrizes.
ainda estava no umbral, meio enviesada para não tampar os raios de sol que batiam no rosto dele. era como se ele se tornasse parte da natureza ou parte de uma pintura que ela queria poder pendurar no quarto, para admirar até tenras idades. ou jogar para o mundo, colocar dentro de um balão e soltar vida afora.
lembrou, ali quieta, dos momentos que já pareciam ser parte de outra vida, dos sorrisos e das enganações, de todo o amor que arrumara graciosamente nas palmas das mãos abertas. eram mãos pequenas, mas as unhas eram vermelhas, e as linhas fortes. isso lhe concedia certa dose de mentira.

"não, não há mais o que ter. não quero mais esse anel, essa casa, seus sapatos ao lado da porta. nem quero mais sentir esse gosto doce das lembranças que tentam me possuir, como um demônio de várias línguas.
ontem, chorei por horas a fio ao lado do telefone. depois de meia hora, já não sabia mais por que chorava. só chorava porque estava chorando e chorar machucava e expurgava a vida de tal forma que me fazia tremer até os tímpanos. de repente, como um clímax, percebi que podia parar de chorar em paz. é que eu chorava por algo que não era mais meu (ou quem sabe nunca foi). eu chorava porque queria de volta o que achava que tinha. entende?"

"não entendo muito bem. mas peço desculpas, porque, sabe, acho que te deixei meio confusa e perdida. diria até que meio louca. mas o amor existiu, agora é outra coisa. quem somos nós para controlar o que o amor é ou se torna? ficamos exigindo situações, conclusões, ações exatas... e no final das contas, para quê? ser feliz com o seu tempo e suas mudanças é do que preciso. é do que precisamos todos nós."

não se tratava de nada disso, e ela sabia. já estava superada. queria agora dar um passo à frente, cruzar aquele maldito gosto adocicado -que mais tarde identificaria como saudade- e dirigir para além daquela casa, da janela e de tudo que tinha criado para suprir o que lhe faltava.
só assim poderia fechar os olhos, ainda que um cisco a contorcesse de dor.

quarta-feira, março 09, 2011

meu quarto está uma bagunça, as goteiras caindo na cabeça, nas mãos e em onde mais conseguirem cair, o corpo desorganizado e recebendo as cores fugidias dos móveis, das fotografias e do cheiro teu que permanece aqui. um copo de água vazio na mesa grita, o vazio do grito quebra o copo cheio de alguma coisa que ainda não sei nomear.
mentira, sei muito bem: é dor. e ela escorre pela escrivaninha, alaga o chão inteiro e vai subindo subindo até encontrar os lábios e beijá-los com um pedido silencioso. é um quase fica. é um quase vai. é um fica mas vai, é um vai mas fica.

canto de ossanha que me perdoe, mas vou, que sou alguém de ir. guardo na bolsa um los hermanos, uma tiê, uma fiona e mais nada. vou-me embora pra onde me deixem mergulhar numa praia deserta, escutar um vinicius de moraes apaixonado. que é disso que preciso, apesar de não precisar absolutamente nada.
o carnaval dançou com o coração em frangalhos. cada samba era lembrança dos toques, da distância, daquilo que mal começou e já foi embora.