domingo, abril 13, 2014

tu me lembra olhar de soslaio
cheiro de café e cigarro
e esgar de lábios inconstante.

ainda não sei teu sobrenome
mas já te abri das mãos um poema
um pouco rápido e tímido
com gosto de conversa incompleta.

se um dia o corpo esbarrar no teu
juro que te conto um segredo
e te mostro um filme
desses de desconhecidos
que às vezes fica empoeirado no instante.
te escrevo, música
pois fui tomada por ti
em goles de grogue e gim
em canções de cabo verde e portugal.

te escrevo, música
porque não sei cantar
como tu me encantas
porque as palavras também são
canto em silêncio.

te escrevo
e não há corpo no mundo
nem sonho no continente
que mereça esquecer tua voz.
o pescoço é o tronco
o cabelo, as folhas
teus olhos são canto de flores a nascer.

na terra, a raiz da memória
campo fértil do dizer
o que é o fruto,
senão tua boca?
- gosto de poesia fresca.

segunda-feira, abril 07, 2014

sinto o teu respirar lento
acalanto de amores passados
peso de uma vida apostando corrida
esquecimento de um longo abraço.

inspiração insegura
não cheira o canto 
poesia de mão dupla
recorte dos olhares que não se encontram.

mãos trêmulas às vezes se conhecem
num mundo longínquo pra onde viajam
corpos ainda dançam sozinhos
e permanece o silêncio da manhã pingando a suor.
me aconteceu uma dor
e eu não sabia
se era choro
se era grito
se era noite
ou se era dia.

veio em mim silenciosa
a lâmina no sexo
as mãos na boca
não houve abraço
beijo minguado
apenas um soco na pele oca.

estirada na rua
vi um pássaro voar
mas não em vão.
carregava uma lágrima que dizia
- hoje ele passou
mas amanhã não passarão.

terça-feira, março 25, 2014

vem cá, 
me dá um beijo
deixa nascer um pássaro do abraço
que não cante saudade nem lamento
que toque os lábios nas flores a nascer.

deixa pra depois o não dito
o poema desfeito
e o jantar sem vinho, vela e violão.

acorda do esquecimento o retrato
paisagem de mãos dadas
rio caudaloso de palavras
e viagens sem fim.

vamos dar uma volta na música
cantar o sorriso nascente
criança de mundo novo
experiente nas incertezas do que vem.

reescrevendo o poema

fui embora de mansinho, para que as lembranças não ficassem penduradas nos cabides nem nas maçanetas. não escancarei a janela da sala, não pulei o muro que me prendia nem me fiz pássaro.
simplesmente acordei, tomei meu café, fumei um cigarro pra escrever (mas não escrevi) e abri a porta de leve, bem devagar, pra não fazer o barulho de quem futuca o passado.
não arranhei o corpo quando coloquei o pé na rua, mas deixei as digitais para trás, um pouco da pele arrepiada e até mesmo um pedaço de chocolate na geladeira.
se me perguntarem, não sei. não sei como aqueles poemas que vêm na cabeça e simplesmente nascem sozinhos, sem precisar de alguém que os dê à luz. só vou andando, pulando pedrinhas, mergulhando nas esquinas solitárias e nos becos sem saída.
na partitura que desenhei, ainda não toquei as notas, mas suspirei tantos silêncios que a melodia me agradece com mãos dadas e uma corda bamba pra eu seguir em frente.
mundo,
queria te salvar da dor, 
do desespero e da encruzilhada.

a tv e minha rua
não podem ser desligadas
nem a lágrima nos olhos da favela.

o cachorro late
sem saber dos tiros
a roda gigante gira
sem sonhar com a queda

e a vida continua
a morrer um pouco,
nessa estrada que não é minha
nem tua.
te disse que ia embora
e apenas fui.
não com as ondas ou com o vento,
deixei até o sereno cair.

furei o pneu da bicicleta 
não escancarei a janela do quarto
nem esvaziei por inteiro o mar.

andei devagar e lento
como quem foge em segredo
não larguei a sapatilha para trás.

se me perguntarem
digo que nem sei
deixo pra contar depois
que os caminhos ainda não apareceram.

quinta-feira, março 20, 2014

o dia vem
esquece da noite
porque o amor
o abraço e a vida
não combinam com a escuridão.

me disse no quarto sonâmbulo
as dores insossas
e inventadas de outrora.
fingiu, sem ser poeta,
uma lágrima fugidia.

não deu certo.
e como daria?
se a poesia é água-viva
dá choque, queima, arranha.
assassina.

cravou não a pequena morte,
mas um grande abismo
sem toque e sem rima
fugiu sem ser fugitivo
dos versos sendo criados
mas jamais escritos.

para Lygia

hoje o amor foi embora,
porque amanhã é dia de luta
pela dor, pelo sorriso, pelo bom dia esquecido.

hoje ele carregou meu óculos de sol,
e já não enxergo teus pés chegando de leve no quarto
nem a borboleta pousando na fotografia.

deixou nem carta ou aviso
nem entrada de cinema pra distrair o coração.
foi embora, assim, com as preces
e meus segredos de menina selados.

mas beijou o espelho de vermelho
e gravou as digitais pelo armário.
sinto cheiro da terra remexida
do jardim ainda cheio do ano passado.

pegou o primeiro trem
e jogou um lenço pela janela
lencinho branco, de dar adeus.
soprei pra longe,
por aí pelos trilhos desordenados

domingo, março 16, 2014

por todos los cambios

por todos los cantos
hay el cambio de tu memoria
flor que se desarrolla en mí cuerpo
jardín solo de muchas idas y vueltas.

danza silenciosa en nuestro patio trasero
la flauta sopla la estrella que ya se fue
dame la mano y suelta la vida
queda del tiempo fiestero.

cambia tu, cambio yo
que la rueda no para
ni para hablar ni para huir
en la ciranda que se despiertó.
ai, poesia
encanto da partida
lembrança do presente
canto sem demora.

pássaro de cor indecisa
pés de frida kahlo 
e prato de toda a gente. 

me diz pra onde é a viagem
bolívia, chile ou méxico
aonde vou pra te amar melhor.

te quero rebelde
amante e ladra
do meu esconderijo
pr'eu te fazer uma serenata.

vem cá,
me dá um abraço
ou um soco na cara
quero só o toque furioso
do teu cheiro de jasmin.
homenagem a Ali Moustafa.

morreu na revolução
nos caminhões de sangue e abraço
levantou tantas vezes de braço dado
com o camarada irmão.

esqueceu as fotografias na parede
a catarse e o dinheiro no fim do mês
pegou a calibre 21 
e foi com o povo matar a sede.

sede de liberdade
de abrir a janela e beijar o mundo
de amar sem medo de ser preso
que a vida não fique só na vontade.

lutador de cada passado e presente
morreu companheiro
que carrega nas mão o futuro
o meu, o teu e de toda a gente.

terça-feira, março 11, 2014

se tivesse nascido rica,
não teria tomado açaí no verão
nem andado feliz de bicicleta
pelas ruas de marechal.

também não teria o sorriso do sol nascente
e as mãos dadas do povo no fim do dia
- nós de marinheiro na embarcação da vida.

cerveja no bar do seu zé,
histórias de mil facetas no calor do trem,
até o trabalho e a igreja cansada no domingo de manhã.

ainda bem que nasci filha de latão,
que ouro é bonito e deixa cego,
mas de nada importa
quando se liberta o pássaro da mão.
não sou das que viajam para londres,
mas para a babilônia
terra dos quintais filhos do céu
e mar em cada esquina.

cantei na estrada o sonho de nascer livre
filha de corpo nu e tatuado de vida
lá o cheiro é de canela
e a música é um pouco de cada um.
meu amor,
que ainda não chegou
quando chegar
me traga uma semente 
de laranjeira pra eu plantar

que quando nascer 
a rua vai ficar com cheiro de poesia
porque fruta que nasce
é vida nova que se cria.
ao nascer choramos iguais
mas com o tempo
choramos mais
- muito mais.

pelos medos, receios,
tapa e empurrão
mulher já nasce guerreira
puta, trans e sapatão.

da vida as dores
das dores o grito
às vezes calmo
outras lágrima e barraco
mas nunca calado

esse grito,
meio liberdade
meio vida e esperança
nos arranca pra rua
pois nosso lugar
só pode ser na luta.

sexta-feira, março 07, 2014

me contaram a vida é curta.
teu olhar é mais ainda.
é da cor da primavera
chegando e já indo embora
rodando pelas estações 
não cinema
nem música
é foto que não volta atrás.
te espero
ainda com o silêncio da madrugada
com o relógio desnorteado
e a bússola sem ponteiros.

te espero na avenida
os carros sem rumo,
viagem solitária e perdida
a partida que foi pra longe.

te espero andando
de bicicleta, de metrô e de trem
dando beijos nas paisagens
e abraços na vida que vou largando.

tu, que me guarda naquele dia,
jogou a minha espera no abismo.
na madrugada
(nada veloz)
tua voz passeia 
sonâmbula e distraída
pela cama
suando lembrança e silêncio.
vida, laranjeiras do pomar doce
carregadas de sabor de infância
cai da árvore madura
na cabeça da criança esperta
esta descobre 
não a gravidade, 
mas o desespero de não poder voar

sábado, março 01, 2014

sobre as lágrimas contidas

a vida tem dessas de ludibriar, de fazer labirinto, de esconder o rosto e não dar a cara a tapa, de jogar no deserto as mentiras. 
sem querer de repente o vidro se faz limpo e a rosa aflora, mesmo que a vontade seja a de correr, apesar dos saltos em pedras e montanhas, deixar cair o sentimento por uma cachoeira abaixo que ainda não foi inventada.
mas eu escrevo, eu desenho, eu tatuo na pele água violenta que grita liberdade, que quer ser mundo, e que daria todas suas gotas e sal pra não estar aqui agora.
porque o suicídio em serpentinas nasceu, mas o carnaval ficou mudo. os confetes caídos não foram recolhidos e nem a máscara que te toquei sorriu. não soltou das mãos a flauta, o balanço nem a arma que me calava.
presa na madrugada, preferi deixar o sono te embalar a acordar com o céu nublado dos teus olhos.
a pele cobre a explosão
os nervos seguram o grito
é de pólvora o que escrevo
e sinto?
tu vai
com esses sonhos na mão
acender as estrelas
dos olhares perdidos
cadentes caindo nos quintais vizinhos
invadindo casas e quartos
corações e poemas.

tu não volta
que a terra é redonda
mas tuas asas infinitas
voam pra onde querem
e não desenham caminhos.

domingo, fevereiro 16, 2014

teu beijou desenhou uma tatuagem nas minhas palavras. deixaram de ser linhas tortas para serem desenhos, pinturas e paisagem desse mundo que toco e escondo pela janela.
pinto teu olhar calado, teu respirar receoso pelos tragos que dou, lembrança de te abraçar com calma e amanhecer não quando o sol nasce, mas quando te vejo sorrir.
chora,
que o coração parte
mas volta.

que a vida se reinventa,
e posso te contar?
ela é possível.

que as mãos se dão
se vão
num abraço longo
com gostinho de mar.
na rua, uma lembrança volante
pedalando pela ciclovia
apostando corrida com o esquecimento.

tanta coisa caiu da bicileta
deixou rastro no caminho
pegadas de lugares e segundos fugitivos.

na vida só não se transforma
o que se muda todo dia
é possível o amor ir embora assim
tão vivo,
tão rebelde,
tão recém-nascido?

terça-feira, fevereiro 04, 2014

faço um canto sem demora
de espera e rouquidão
microfone pifado 
e latas vazias.

por aí, girando de braços abertos
o abraço que te guardei
se consolou num tango ameno. 

traguei umas histórias de bar
músicas em tom de babel
guardei a voz fraca
hoje calada e quieta no seu mergulho.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

- estou enlouquecendo, carlos. e não há hospício forte o suficiente para aguentar a minha loucura, a minha queda que é a própria gravidade. 

o homem piscou os olhos, como quem tenta tirar poeira dos cantinhos da vista. talvez uma tentativa de entender o que essa mulher sentia. era dor, era tristeza, era tédio? não sabia, talvez nunca viesse a saber.
mas é na desconfiança que se criam os laços. não na desconfiança dolorosa cheia de rancor, mas na falta de confiança numa certeza.
e agora? onde colocaria sua cabeça encostada? não há ombro que suporte esse peso nem cama que não pegue fogo com o calor dos pensamentos. talvez a jogue num parque com um gramado tão extenso que lembre as ondas do mar.

- são as cores de uma aquarela atiradas na parede de um quarto sem portas ou janela. é a embriaguez sem licor nem vinho, talvez de um café que se esvai com sua fumaça quente pelo mundo. sou o apito do silêncio nesses dias vazios e sem dó.

foi até o umbral respirar o vento, esse desses dias de verão que lembram a infância. talvez dar-lhe as mãos a console, é um gesto de presença forte, de desenho marcado para o momento da solidão. mas como se não lhe resta mais força para agarrar forte em qualquer coisa que emane o agora, o instante e a própria tentativa de escapar de dentro de si?
é o perigo da entrega. não resta força, mas sobra tudo que grita. são as curvas e contorno de frida kahlo, aparentes elevações de todos os sinais do mundo.

- sabe quem eu queria que estivesse aqui? não, eu também não sei. é possível alguém que me olhe e me escreva? também na arte fugimos. não por covardia, mas por libertação. peço apenas algumas linhas tortas, alguém que se faça de deus e que escute minhas orações. e que nesse momento guie meus passos.

não é fé de que precisa. é de sentir-se parte de cada palavra, da imagem que é a criação. é procurar no absurdo algo que seja aceito dentro do que entendemos. afinal, não a tiraria dali. não adiantaria levá-la para um passeio ou para jantar.
cansado, desolado e sem saída, começou a pintar seus contornos.
no voy a dormir,
pero a soñar.
con las alas abertas
vuelo hasta mis ojos cerrar.
você me empurrou do quinto andar.
não o corpo
ou os sapatos
nem as flores que nunca existiram.

foram os gestos que te dei
embrulhados em fitas coloridas
e papéis regados de tempo e saudade.

o corpo livre dos abraços
não há marcas de unhas nas pinturas
nem o som do violão nas tardes de domingo.

não voei quando caí
talvez porque tivesse pernas
talvez porque tivesse mãos que fazem poesia.
mas não voei,
não voei.
e caí.
nasci para a lua
para os rebentos do mar
perdida nas esquinas da vida
sou filha de iemanjá.

nas mãos o cheiro do sopro
fumaça que sobe ao céu
alcança as estrelas distraídas
canto de amor escondido num véu

corpo girando na praia
lâminas ditas na areia
acordo as ondas com os versos
esses que correm nas veias.

terça-feira, janeiro 14, 2014

você nunca me deu uma flor. estando num barquinho em veneza ou num ônibus na suburbana. sequer o cheiro das pétalas passou longe, essência de carinhos, saudades e paixões suaves. 
por que, sendo tão humana, não tenho direito a segurar algo que se esvai como um sopro, mas que é belo, é belo, é belo. é o amor em formato de vida, é a vida em sua esfera mais animal e feliz. 
não quero a delicadeza de uma margarida ou os espinhos de uma rosa. tampouco o sol que gira do girassol amarelo. quero sentir seu cheiro, o sorriso de flor se abrindo para o mundo e pedindo para ser tocada e salva do asfalto, que é a maior solidão que podemos ter.
quero uma flor pra guardar o tempo que cai em seus braços como o orvalho chega toda manhã. quero soprar seu pólen em minhas poesias frágeis e famintas.
você nunca me deu uma flor, porque a madrugada serena sempre volta, porque meus olhos brilham demais e meu corpo parece feito de galhos, folhas e pétalas.
llueve la sonrísa en mi cuerpo poncho
alumbra mi corazón
y házselo arco-íris de tus besos.
tristeza canta o choro da aurora
das reticências entre mim e o adeus
das dores em trânsito, 
viajantes do mundo. 

versos multifacetários
invasores dos sopros de meu pensamento
escrevem sentidos em linhas tortas
e em linhas tortas uma reta sem fim.

retira, tu, essas rimas
de quem não sabe esperar
e foge, impaciente,
pra onde não haja canto
nem aurora
nem caminhos indecifráveis.
paixão são advérbios exagerados
fugas sem controle e mentiras deslavadas. 
saudade que não cansa em esgotar
o suor dos corpos 
mistura de agora e de uma vida inteira.

mas o amor
o amor é a intensidade dele mesmo.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

samba do desencontro

grita, tambor, 
o dia de ti ausente
passos na saudade pisam
no compasso sem batida.
com essa voz de cuíca
beija a poesia e os cantos distantes.

onde samba você?
danço na praia
acordo nos mirantes
e por aí escuto teu cheiro.
por que o vento apaga o fogo
quando se esconde 
a chama pelas cavernas e celeiros
nas noites frias
de carnaval a janeiro?

carregados de palavras não ditas
queima o mundo em segredos 
rios secos e sem rumo
pelos fósforos nunca acesos.

abre tuas flamas, corcel sem dono
traz o vento nas asas
pula as luas sem ferir cicatriz
porque o que se é só se transforma
quando se grita o que nunca se diz.