há em mim uma matéria de reclusão
atração por estantes empoeiradas,
o dia namorando o corpo livre
e chegar lentamente com os livros na cama.
estar em absoluto silêncio
e ainda assim conversar em muitas línguas
falar sobre a morte das papoulas
e sobre o que pensa quem agora acorda do outro lado do mundo.
parece que atravessei um espelho
achando que era mergulho em qualquer água
não morro afogada, felizmente
mas será que morro cortada?
domingo, outubro 02, 2016
quarta-feira, setembro 28, 2016
essa chuva me deu vontade de escrever qualquer coisa. então fiquei tentando lembrar de todos os poemas e contos que me vêm prontos na cabeça, e eu fico escrevendo coisas na minha mente atribulada. são muitas mulheres esquisitas, descalças, bêbadas e fumantes, perdidas com certeza, que me assombram todos os dias, enquanto vou andando pro trabalho escutando rádio.
aparecem às vezes algumas rimas, ritmos, palavras trocadas. sempre digo pra mim mesma: vou escrever absolutamente em qualquer lugar assim que tiver um papel e uma caneta, ou assim que pegar meu celular onde não possa ser assaltada. mas chego no bendito lugar, onde quer que seja, e já estou pensando em outra coisa, como por exemplo todos os livros que tenho deixado pela metade ao lado da minha cama.
quando estou tomando banho acontece quase o mesmo, mas mergulho mais fundo em abismos. enquanto a água cai, entro em transe, vejo paisagens, nuvens obscuras, dias de sonolência em sarajevo. saio do banho e o cabelo toma minha atenção, ou a música que já começou a tocar no laptop.
mas essa chuva, esse alagamento na rua, o cigarro que fumei tão rápido me trazem de volta o esquecimento, e sinto uma pequena, mas sincera, vontade de chorar por tanta coisa que nem tive, mas já perdi.
aparecem às vezes algumas rimas, ritmos, palavras trocadas. sempre digo pra mim mesma: vou escrever absolutamente em qualquer lugar assim que tiver um papel e uma caneta, ou assim que pegar meu celular onde não possa ser assaltada. mas chego no bendito lugar, onde quer que seja, e já estou pensando em outra coisa, como por exemplo todos os livros que tenho deixado pela metade ao lado da minha cama.
quando estou tomando banho acontece quase o mesmo, mas mergulho mais fundo em abismos. enquanto a água cai, entro em transe, vejo paisagens, nuvens obscuras, dias de sonolência em sarajevo. saio do banho e o cabelo toma minha atenção, ou a música que já começou a tocar no laptop.
mas essa chuva, esse alagamento na rua, o cigarro que fumei tão rápido me trazem de volta o esquecimento, e sinto uma pequena, mas sincera, vontade de chorar por tanta coisa que nem tive, mas já perdi.
baby, não mexe no meu cabelo.
deixa ele assim, despenteado
fingindo que é linha em colcha de retalhos.
deixa ele assim, despenteado
fingindo que é linha em colcha de retalhos.
não me diga o que eu posso ser
aprende: há uma imensidão no que já sou
um mar revoltoso, desconhecido.
não sou a pedra que suporta e impõe,
mas o choro dessas águas perdidas
e o encontro de uma onda com a outra.
aprende: há uma imensidão no que já sou
um mar revoltoso, desconhecido.
não sou a pedra que suporta e impõe,
mas o choro dessas águas perdidas
e o encontro de uma onda com a outra.
quinta-feira, setembro 01, 2016
só preciso de um maço de cigarro,
uma garrafa inteira de vodka
e teu silêncio.
não, não diga nada
cala a boca na tua inocência
na tua burrice pedante
e me deixa pensar
sobre o nada
(o choro da garota todos os dias às 3 da manhã em uma casa vazia)
sobre cada
minuto que
porta que
adeus que
você não deu
(faz mais sentido que teus olhos em mim)
o depois é sempre um antes estragado.
uma garrafa inteira de vodka
e teu silêncio.
não, não diga nada
cala a boca na tua inocência
na tua burrice pedante
e me deixa pensar
sobre o nada
(o choro da garota todos os dias às 3 da manhã em uma casa vazia)
sobre cada
minuto que
porta que
adeus que
você não deu
(faz mais sentido que teus olhos em mim)
o depois é sempre um antes estragado.
entender, entender o outro na mais profunda leveza
abraçar-lhe em silêncio, dar-lhe de comer sem questionar
cantar uma canção de outra vida, contar histórias da infância
correr na rua de mãos dadas,
pular poças como se pula oceanos:
- sempre o desconhecido, mas sempre a coragem.
um olhar que se perde na constelação que é o outro olhar,
um gesto vivo de compreensão quando se pede amor
amar como se fuera diós, rezar como se fuera hombre
ter e não ter este segundo que é belo e incrivelmente impreciso.
abraçar-lhe em silêncio, dar-lhe de comer sem questionar
cantar uma canção de outra vida, contar histórias da infância
correr na rua de mãos dadas,
pular poças como se pula oceanos:
- sempre o desconhecido, mas sempre a coragem.
um olhar que se perde na constelação que é o outro olhar,
um gesto vivo de compreensão quando se pede amor
amar como se fuera diós, rezar como se fuera hombre
ter e não ter este segundo que é belo e incrivelmente impreciso.
terça-feira, agosto 23, 2016
sentada com os pés balançando no abismo,
observando profundamente esse salto,
onde não há pássaro
nem sementes no vento
tampouco uma pétala que voa
me pergunto onde está meu all star vermelho.
estou descalça,
cansada sem um pingo de suor
por que estar estático cansa?
a verdade está aqui, nas minhas mãos pequenas
mas não sou vidente nem adivinha.
sou apenas uma pessoa sentada com os pés balançando no abismo
esperando que alguma coisa me responda
além dos ecos desse grito
que, silencioso, me abraça.
um silêncio duradouro, meu acompanhante insone
parceiro da surdez e da cegueira que sempre tive.
e o que mais sempre tive,
além desse corpo que treme, que se arrepia
e alguns passos que me trouxeram aqui?
tanto caminho pra seguir,
fui escolher logo a rua dos cacos de vidro
cheguei nesse chão,
os pés sangrando,
o mundo girando,
a roda viva.
observando profundamente esse salto,
onde não há pássaro
nem sementes no vento
tampouco uma pétala que voa
me pergunto onde está meu all star vermelho.
estou descalça,
cansada sem um pingo de suor
por que estar estático cansa?
a verdade está aqui, nas minhas mãos pequenas
mas não sou vidente nem adivinha.
sou apenas uma pessoa sentada com os pés balançando no abismo
esperando que alguma coisa me responda
além dos ecos desse grito
que, silencioso, me abraça.
um silêncio duradouro, meu acompanhante insone
parceiro da surdez e da cegueira que sempre tive.
e o que mais sempre tive,
além desse corpo que treme, que se arrepia
e alguns passos que me trouxeram aqui?
tanto caminho pra seguir,
fui escolher logo a rua dos cacos de vidro
cheguei nesse chão,
os pés sangrando,
o mundo girando,
a roda viva.
olho para o lado e já não tenho flores.
não é tempo de primavera.
talvez outono, porque venta
tentada nesta janela
mirando o imenso chão em que jaz uma formiga
liberta de qualquer pensamento vão.
não é tempo de primavera.
talvez outono, porque venta
tentada nesta janela
mirando o imenso chão em que jaz uma formiga
liberta de qualquer pensamento vão.
trabalha, ao som de meus lamentos
sou quase uma cigarra desafinada
contando as folhas que caem em seu lar
- o mundo. há sempre uma casa para ir.
sou quase uma cigarra desafinada
contando as folhas que caem em seu lar
- o mundo. há sempre uma casa para ir.
saudade de cheirar jasmins.
quando volta a primavera?
quando voltar minha infância
livre de beijos, de choros na madrugada.
quando volta a primavera?
quando voltar minha infância
livre de beijos, de choros na madrugada.
que lugar é esse, onde agora estou sentada?
é a preparação para o suicídio?
(ao menos assim terei flores)
ou a espera de coisa nenhuma?
é a preparação para o suicídio?
(ao menos assim terei flores)
ou a espera de coisa nenhuma?
assim tão louca, tão incrédula,
o que será que essa formiga vai pensar de mim?
o que será que essa formiga vai pensar de mim?
ai vida, ah!, e essa mania de ser sopro
de ser vento, de querer mandar um beijo pelo ar
sai por aí voando, tal pássaro,
às vezes semente, caindo em qualquer lugar.
de ser vento, de querer mandar um beijo pelo ar
sai por aí voando, tal pássaro,
às vezes semente, caindo em qualquer lugar.
queria te colocar num bauzinho
cavar fundo na terra e fazer tu virar raiz.
mas não, tu cresce, me despenteia os cabelos
não mudo, que não sou planta, talvez uma flor de liz...
cavar fundo na terra e fazer tu virar raiz.
mas não, tu cresce, me despenteia os cabelos
não mudo, que não sou planta, talvez uma flor de liz...
e esses incontáveis poemas que fiz pra tu
com cor de almíscar, cheiro de benjoim
vai, cicatriza meu corpo pequeno e frágil
vai, me joga, me enterra, me renasce em nosso jardim.
com cor de almíscar, cheiro de benjoim
vai, cicatriza meu corpo pequeno e frágil
vai, me joga, me enterra, me renasce em nosso jardim.
te quero como um amanhecer que nunca vem
ou que se vem, nasce escondido
por trás das nuvens nublando o caminho
e os pensamentos sempre na marcha ré.
ou que se vem, nasce escondido
por trás das nuvens nublando o caminho
e os pensamentos sempre na marcha ré.
te quero um pouquinho
e é uma grande mentira
quero teu corpo inteiro
e os sussurros na madrugada só nossa.
e é uma grande mentira
quero teu corpo inteiro
e os sussurros na madrugada só nossa.
um cigarro demorado e a bebida latente
das frases descontroladas
do beijo fugitivo
te quero, sei lá,
esse hálito do que poderia ser.
das frases descontroladas
do beijo fugitivo
te quero, sei lá,
esse hálito do que poderia ser.
gosto da madrugada. é o meu momento silencioso de escavar, como quem procura um baú desesperadamente, por palavras que me façam respirar em paz.
preciso de alguns versos que compreendam o pássaro azul dentro do meu peito. que afaguem a tristeza, que me deem um dia para chorar. mente quem diz dar a mão à solidão e dançar com ela, mesmo um tango argentino. a verdade é que ela, sorrateira, te apunhala pelas costas. ou melhor, te dá a arma e mostra tua cabeça.
conforme o dia vai amanhecendo, percebo que cavei um buraco imenso, quase um abismo. e não há nada ali dentro.
o que me resta é enterrar as palavras que eu mesma crio e morrer soterrada.
ah, madrugada, tu é meu túmulo e minha ressurreição.
preciso de alguns versos que compreendam o pássaro azul dentro do meu peito. que afaguem a tristeza, que me deem um dia para chorar. mente quem diz dar a mão à solidão e dançar com ela, mesmo um tango argentino. a verdade é que ela, sorrateira, te apunhala pelas costas. ou melhor, te dá a arma e mostra tua cabeça.
conforme o dia vai amanhecendo, percebo que cavei um buraco imenso, quase um abismo. e não há nada ali dentro.
o que me resta é enterrar as palavras que eu mesma crio e morrer soterrada.
ah, madrugada, tu é meu túmulo e minha ressurreição.
em noites como essa,
a madrugada apontando uma arma pro teu peito,
o relógio na parede te dando avisos
ameaças, como uma casa que que transpira e te sufoca,
sim, em noites como essa,
eu já não sei como é rezar,
já não consigo lembrar onde deixei os sapatos
e os pés descalços me trazem de volta
pro chão duro, frio e amargo onde estou agora.
a madrugada apontando uma arma pro teu peito,
o relógio na parede te dando avisos
ameaças, como uma casa que que transpira e te sufoca,
sim, em noites como essa,
eu já não sei como é rezar,
já não consigo lembrar onde deixei os sapatos
e os pés descalços me trazem de volta
pro chão duro, frio e amargo onde estou agora.
em noites como essa,
casei-me com as ruas desertas,
o silêncio é o único grito que me acorda
essa insônia que parece falar comigo
é surda e cega, como os passos que dou ao tentar a sorte
de tatear no escuro algo que me salve.
casei-me com as ruas desertas,
o silêncio é o único grito que me acorda
essa insônia que parece falar comigo
é surda e cega, como os passos que dou ao tentar a sorte
de tatear no escuro algo que me salve.
em noites como essa,
não tenho palavras.
tenho talvez um eco que se esconde...
(o abismo nunca pode ser tão óbvio)
não tenho palavras.
tenho talvez um eco que se esconde...
(o abismo nunca pode ser tão óbvio)
segunda-feira, julho 25, 2016
quarta-feira, julho 20, 2016
quarta-feira, junho 08, 2016
há outras formas de escrever poesia.
sem essa de nos papéis da vida
imaginar figuras que sombreiam outros passos.
há o vento no cabelo,
e a música fazendo o caminho sorrir.
há o chocolate esquecido na bolsa
e aquele abraço que lembra o tempo em que ainda escrevíamos cartas.
sem essa de nos papéis da vida
imaginar figuras que sombreiam outros passos.
há o vento no cabelo,
e a música fazendo o caminho sorrir.
há o chocolate esquecido na bolsa
e aquele abraço que lembra o tempo em que ainda escrevíamos cartas.
falando nisso, tenho te escrito muitas cartas.
pena que não te envio.
porque ficam aqui, as palavras
rodando minhas manhãs ainda de insônia,
e minhas noites viciadas em café meio amargo.
pena que não te envio.
porque ficam aqui, as palavras
rodando minhas manhãs ainda de insônia,
e minhas noites viciadas em café meio amargo.
ah, sempre preferi as coisas doces.
mas o açúcar sempre acaba,
ou é carregado pelas formigas,
sempre mais famintas que eu.
pra onde foi minha fome?
essa que me fazia comer sopa de entrelinhas.
mas o açúcar sempre acaba,
ou é carregado pelas formigas,
sempre mais famintas que eu.
pra onde foi minha fome?
essa que me fazia comer sopa de entrelinhas.
sim, há outras formas de escrever poesia.
mas sinto falta da sombra que me seguia,
sem ter meu corpo,
sem ter meus passos,
ah! não se pode ser pássaro todos os dias.
mas sinto falta da sombra que me seguia,
sem ter meu corpo,
sem ter meus passos,
ah! não se pode ser pássaro todos os dias.
terça-feira, abril 26, 2016
ela levantou, foi até o banheiro e depois pegou seu café. o rito de depois das duas da tarde já dizia que perdera mais horas do que deveria se permitir, e tudo estava normal. como qualquer acordar, como todos os dias - as paredes em seu lugar, as gatas sobrevivendo, o vento sendo capaz de tocar o instrumento musical que é o penduricalho na varanda.
exceto pela goteira. demorou pra esvaziar o copo de café, assim como todos os pensamentos em sua cabeça. e de repente o silêncio completo de estar só (ou quase). a goteira. a goteira. e percebeu que algo quebrava seu momento flutuante, o segundo que se descobre que respira seu pulmão já escuro dos cigarros. havia uma goteira.
o chão estava formando um poça e as gatas bebiam tranquilas o que parecia ser uma fonte de novidade. mas não, ela bem sabia: era uma ferida na casa. precisava tomar banho. imediatamente colocou um potinho pra acabar com a poça. terminou. e já transbordava. meu deus, quanto tempo demorou no banho? como uma simples e minúscula goteira teve a capacidade de transbordar um pote daquele tamanho?
colocou um balde, e foi ao mercado. precisava lembrar, lembrar de chamar alguém para consertar aquele incômodo. logo sua casa que nunca tivera problemas de infiltração, sua casa escura e sonolenta, sua pequena gaiola de palavras! nunca húmida, sempre morna, nunca fria, sempre morna. sua morada impenetrável... uma goteira!
abriu a porta de casa, carregando compras inúteis para completar o dia. e a água já estava em seus calcanhares. aquela goteira maldita havia transbordado o balde e sua casa agora estava inundada! começou a ligar para pessoas que pudessem resolver seu problema, mas ninguém podia fazer nada por ela naquele momento.
já não havia goteira, mas uma chuva dentro de casa. jurou que podia ouvir barulhos de trovões. começou a nadar na própria sala. deu um mergulho fundo e, ao abrir os olhos, não viu mais seus móveis silenciosos ou livros empoeirados. o copo de café na mesa havia desaparecido, pois tampouco havia mesa.
estava à deriva, no meio do mar. não havia mais nada à sua volta, senão água e um céu escuro e estrelado. ondas gigantes se aproximavam, mas não sentia medo. sabia que finalmente havia deixado o deserto para trás com suas miragens atrofiantes.
o som do despertador. é hora de acordar. é hora de acordar.
pulou da cama assustada. parecia tão real. meu deus, o que estou fazendo com minha vida?
e, de repente, escutou um barulho estranho e familiar vindo da sala. era o ruído de uma goteira.
quinta-feira, janeiro 28, 2016
sobre o abismo e a queda
sou essa imensa e interminável escuridão, algo dizia em minha cabeça. não, não é uma metáfora - é o que me cabe quando não existem horas entre nós. disforme e instransponível, sou também o tempo estático que é o silêncio.
risco um fósforo: meu deus, começo a ver meus dedos! a pele sem tom definido, unhas imensas e os cabelos caindo como uma capa em minhas costas. sem espelho ao meu redor, sem ninguém a me ensinar como nascer, não posso ser mais nada senão pedaços de um rascunho deformado.
agora já consigo andar. tenho qualquer coisa chamada segundos até o fósforo se esvair. abro uma fresta na parede, taco fogo no pano que cobre o que não vejo, tudo incendeia ao meu redor. o espaço que abri: mais escuridão, mais do que me deu à luz.
há chamas por todos os lados. preciso sair. não sei se é uma janela do mundo ou um abismo. meus sentidos, que até agora não me faltaram, dizem que é o lado de fora.
vou, que só há o que ir. atravesso para onde quer que seja e sinto o peso da queda. caio tanto que parece que flutuo. já sem fósforo nenhum e o incêndio já distante, comecei a me tornar novamente escuridão. não tenho mais olhos, apenas um pulsar acelerado em meu peito dizendo adeus e sílabas soluçantes em minha cabeça.
estou indo. estou indo embora. mas só uma pergunta ainda existe dentro de mim:
de onde surgiu o fósforo?
tenho olhado muito pras paredes. sinto nelas um corpo vivo escorrendo minha solidão. são elas as únicas irmãs que me abraçam enquanto choro, que seguram minhas mãos nestes dias que já parecem uma vida inteira.
posso encostar a cabeça em sua pele fria e escutar, devagar, um ruído que são os dentes do passado, a calmaria de mastigar o vazio. há dias meus olhos são como estátuas fugindo da arte...
olho pras paredes como quem espera um milagre. espero, cansada, que desmoronem, mas cada vez mais se edificam. são como um padre aguardando a confissão. santificadas, me pedem paciência. desesperada, quase crio um altar e peço pra que me salvem.
há dias que falo com as paredes, há dias em que escrevo. não é a mesma coisa? esse pedaço de loucura que é dar a mão a si mesmo. essa espera de que uma bomba exploda na rua ou de que alguma palavra se torne, enfim, um gesto...
segunda-feira, janeiro 25, 2016
estou faminta:
um pássaro fugiu do meu peito.
um pássaro fugiu do meu peito.
carregou em suas asas a seiva que me movia.
foi pra longe, com a voz do meu canto,
deixou o desencanto em minha morada.
foi pra longe, com a voz do meu canto,
deixou o desencanto em minha morada.
arrasto o corpo ensanguentado,
a gaiola que é o meu peito rasgado
agora virou vazio
e o abismo ecoa, solitária.
a gaiola que é o meu peito rasgado
agora virou vazio
e o abismo ecoa, solitária.
saquei do porão a espingarda
e atirei no bandido
agora morto, de volta ao meu peito
já não tenho nada:
nem canto,
nem seiva,
nem asa.
e atirei no bandido
agora morto, de volta ao meu peito
já não tenho nada:
nem canto,
nem seiva,
nem asa.
segunda-feira, dezembro 28, 2015
à espera
de um milagre?
de um trovão
de um tombo
de um grito no escuro
de um tombo
de um grito no escuro
de qualquer coisa que nasça da espera o agora.
não escolho o dia pra morrer.
tampouco a hora de acabar meu cigarro.
desconcentrada, o peso do ar em meu pulmão.
pensei na janela, na ponte e no décimo andar.
na faca da cozinha, na tesoura em minha gaveta.
os remédio infinitos, o travesseiro em meu pescoço.
despensei o telefone, a caixa de e-mail,
teu abraço que já não significa nada
quando não despenso.
tampouco a hora de acabar meu cigarro.
desconcentrada, o peso do ar em meu pulmão.
pensei na janela, na ponte e no décimo andar.
na faca da cozinha, na tesoura em minha gaveta.
os remédio infinitos, o travesseiro em meu pescoço.
despensei o telefone, a caixa de e-mail,
teu abraço que já não significa nada
quando não despenso.
e aí, que digitais deixo
como um crime imperfeito
que larga a memória como prova?
como um crime imperfeito
que larga a memória como prova?
corda-bamba
te pedi a mão
me mandou um beijo:
de longe um sopro
de perto um susto
me mandou um beijo:
de longe um sopro
de perto um susto
quando eu cair,
vai chorar
ou aplaudir?
vai chorar
ou aplaudir?
como estão silenciosas minhas mãos
e os olhos em profundo afogamento.
é de escuridão esta falta?,
esta casa sem chão,
um lamento, um pedido de socorro, uma lata vazia.
e os olhos em profundo afogamento.
é de escuridão esta falta?,
esta casa sem chão,
um lamento, um pedido de socorro, uma lata vazia.
como ainda não descobri meu corpo?
é que morro de frio,
preciso me esconder sob os retalhos de vidro,
cantar baixinho um grito sem significado.
é que morro de frio,
preciso me esconder sob os retalhos de vidro,
cantar baixinho um grito sem significado.
pedra atrás de pedra,
os lábios um muro calado
mastigando a dureza de se estar vivo
os lábios um muro calado
mastigando a dureza de se estar vivo
quarta-feira, outubro 28, 2015
há dias em que precisamos ir embora
levar conosco as flores do vaso
e plantá-las na terra.
deixar na pia do banheiro as lágrimas pingando,
pingando a solidão
que a inundação venha pela estrada
que me carregue pruma noite cheia de abraços.
levar conosco as flores do vaso
e plantá-las na terra.
deixar na pia do banheiro as lágrimas pingando,
pingando a solidão
que a inundação venha pela estrada
que me carregue pruma noite cheia de abraços.
confesso que há dias em que preciso andar
o rumo incerto, a arma certeira
as mãos vazias de mim mesma
arrancando sementes e raízes dos jardins recém-nascidos
o rumo incerto, a arma certeira
as mãos vazias de mim mesma
arrancando sementes e raízes dos jardins recém-nascidos
há dias em que se batem portas
e o estrondo jamais será o silêncio de antes...
no fundo, a harmonia do que poderia ter sido.
e o estrondo jamais será o silêncio de antes...
no fundo, a harmonia do que poderia ter sido.
há dias já não te reconheço mais.
terça-feira, agosto 25, 2015
esqueci como se escreve um poema
antes tivessem me assaltado as palavras, que o esquecimento é o pior jardim para se nascer.
aliás, não nasce: vira túmulo na lama, com raízes secas e flores já cansadas.
queria tê-lo achado no bolso, mas vai ver estava furado, e ele foi por aí se apagando pelas estradas.
sei lá, esqueci. não julguem minha mente de senhora.
sempre achei a velhice um charme - essa história de se fazer poesia do nada.
spring waltz
there are flowers everywhere
e cores girando em marcha ré.
e cores girando em marcha ré.
my body is a piece of lark
desritmado, seguindo a tarde.
desritmado, seguindo a tarde.
the piano whispers me the wind
o poema desentardece, esfinge!
o poema desentardece, esfinge!
flowers, body, piano,
floresço, escrevendo...
floresço, escrevendo...
o córrego não corre mais,
nem carrega minha dor.
nem carrega minha dor.
pediu licença pra ser água-viva,
transformar peixes em pássaros,
libélulas em borboletas
água em tinta.
transformar peixes em pássaros,
libélulas em borboletas
água em tinta.
onde vou agora depositar as lágrimas?
que dava ao choro tempo pra existir e ir embora,
(subterfúgio de ser um pouquinho de mar.)
que dava ao choro tempo pra existir e ir embora,
(subterfúgio de ser um pouquinho de mar.)
vou guardar tudo num jardim
fazer delas um ou dois orvalhos
quem sabe assim nasça uma flor...
fazer delas um ou dois orvalhos
quem sabe assim nasça uma flor...
dorme em meu ombro teu assombro.
deixa cair dos cabelos o susto do segundo.
deixa cair dos cabelos o susto do segundo.
é em cada respiração a incerteza,
em cada carícia a saída para, ainda, lugar nenhum.
em cada carícia a saída para, ainda, lugar nenhum.
se há no abraço o silêncio,
há no adeus apenas a sugestão.
há no adeus apenas a sugestão.
ficaram também rastros,
que não há pegadas sobreviventes à arte da memória,
nem gosto que permaneça fresco.
que não há pegadas sobreviventes à arte da memória,
nem gosto que permaneça fresco.
o gesto é somente o inverso
a intenção não é o poema,
mas talvez a chave de alguma invenção.
a intenção não é o poema,
mas talvez a chave de alguma invenção.
amor é
não se tem, que é maior que nós.
passa pelo abraço e pelas bocas
e vai ser oceano no mundo
- cheio de lágrimas e estrelas.
passa pelo abraço e pelas bocas
e vai ser oceano no mundo
- cheio de lágrimas e estrelas.
não se sente, que é eletricidade
se energiza e colhe raios
caindo às vezes em lugar escondido e inabitado
iluminando cidades e apagando casas
(que no escurinho também é bom).
se energiza e colhe raios
caindo às vezes em lugar escondido e inabitado
iluminando cidades e apagando casas
(que no escurinho também é bom).
às vezes também não é,
mas dá sempre pra ser
só conjugar o amor direitinho
que ele chega pra tomar um café.
mas dá sempre pra ser
só conjugar o amor direitinho
que ele chega pra tomar um café.
domingo, julho 12, 2015
deixe a luz acesa.
é pela sombra do não-dito que me movo.
é pelas nuances do segredo que respiro.
é pelas nuances do segredo que respiro.
há nessa luz que me desenha um quê de escuridão.
há lágrimas caudalando o quarto
e um compasso desesperado incomodando o sono.
há lágrimas caudalando o quarto
e um compasso desesperado incomodando o sono.
minha solidão é nua como os quadros na parede.
vejo-a iluminada, pingando do teto em meu corpo frágil.
vejo-a iluminada, pingando do teto em meu corpo frágil.
esse deserto por onde vago é feito de cama, tempo e ilusão.
sim, deixe a luz avessa...
tomei uma pílula pra dormir:
não há estrelas em minhas pálpebras
nem ventania pra me embalar o sono.
não há estrelas em minhas pálpebras
nem ventania pra me embalar o sono.
saí sonâmbula por aí
viajando em trens abertos
rabiscando mundos em meus braços
- alcancei as estrelas que me faltavam.
viajando em trens abertos
rabiscando mundos em meus braços
- alcancei as estrelas que me faltavam.
na bula uma palavra pequena
que não adormece, mas sonha
não é segredo, mas não te conto:
só descobre quem toma.
que não adormece, mas sonha
não é segredo, mas não te conto:
só descobre quem toma.
queria escrever flores
deitada no banco do jardim
cavar raízes no tempo
esperar em um cochilo a primavera.
deitada no banco do jardim
cavar raízes no tempo
esperar em um cochilo a primavera.
bebo um copo d'água
ou será de universo?
não, é a flor que me toma
em sua boca, em seu caule, em sua morada.
ou será de universo?
não, é a flor que me toma
em sua boca, em seu caule, em sua morada.
há horas desenho enigmas
e apago, como se fosse deus
jorrando milagres imperfeitos na terra
dando à luz botões inocentes.
e apago, como se fosse deus
jorrando milagres imperfeitos na terra
dando à luz botões inocentes.
minhas mãos são pétalas que morrem.
há um segredo no corpo do mundo
não é só o vento que me anoitece
nem o andar pela madrugada
tampouco o mar que me abraça
não é só o vento que me anoitece
nem o andar pela madrugada
tampouco o mar que me abraça
talvez teus olhos
no sol amante e aprendiz
sejam esse silêncio
que me finge o que nunca quis
no sol amante e aprendiz
sejam esse silêncio
que me finge o que nunca quis
será mesmo que hoje é dia
desses que vagam por nós
(achei que era outro)
quando escuto, não minha
mas tua voz.
desses que vagam por nós
(achei que era outro)
quando escuto, não minha
mas tua voz.
descobri que não tenho nada
fernando tinha sonhos
(apesar de tudo)
não tenho nem um sonho de padaria.
fernando tinha sonhos
(apesar de tudo)
não tenho nem um sonho de padaria.
e como poderia querer alguma coisa?
se meu caminho é sem migalhas de volta
sem tijolos amarelos
sem pedras no meio e sem palmeiras no fim.
se meu caminho é sem migalhas de volta
sem tijolos amarelos
sem pedras no meio e sem palmeiras no fim.
ai que cansaço que tenho
da aurora da minha vida
que nunca foi muito aurora
da aurora da minha vida
que nunca foi muito aurora
e agora já é passageira noturna
dessas que vai de vagão em vagão
vendendo alguma esperança
porque falta dinheiro pra comprar aquele sonho naquela padaria.
dessas que vai de vagão em vagão
vendendo alguma esperança
porque falta dinheiro pra comprar aquele sonho naquela padaria.
nunca gostei muito desses doces assim, não
preferia ficar sentada no meio-fio
vendo todo mundo passar
que nem passa roupa, que nem passarela
mas eu ali,
amarrotada, sem passar,
fiquei apenas com o ela.
preferia ficar sentada no meio-fio
vendo todo mundo passar
que nem passa roupa, que nem passarela
mas eu ali,
amarrotada, sem passar,
fiquei apenas com o ela.
quinta-feira, junho 04, 2015
a gente procura, escava nas palavras a saída para nossa solidão. as dores (a do poeta, a do que se cria, a do que se recria e a que tenho) até se misturam, mas nunca se encostam.
sinto nas palavras átomos milhares que juntos formam imagens, luzes, desenhos que parecem ser uma unidade completa, interligada. na verdade, é uma distância infinita e inimaginável que existe entre cada um deles, entre cada ponto do universo.
e é nesse espaço subreptício que vive a solidão.
sinto nas palavras átomos milhares que juntos formam imagens, luzes, desenhos que parecem ser uma unidade completa, interligada. na verdade, é uma distância infinita e inimaginável que existe entre cada um deles, entre cada ponto do universo.
e é nesse espaço subreptício que vive a solidão.
em cada morte, uma esquina
muros descascando o amor, a felicidade
tudo é pó na rua por onde voo
brilhos que um dia foram estrelas
hoje só lágrimas, suor do mundo.
muros descascando o amor, a felicidade
tudo é pó na rua por onde voo
brilhos que um dia foram estrelas
hoje só lágrimas, suor do mundo.
em cada esquina, uma saída
fui desmaiando pelo caminho
abrindo portas, quebrando janelas
arrastando meus milhares de olhares
sem foco, incertos no que vem.
fui desmaiando pelo caminho
abrindo portas, quebrando janelas
arrastando meus milhares de olhares
sem foco, incertos no que vem.
em cada não, um adeus
abraços partidos, risada escondida
é a vida um até logo?
de mãos dadas com o vento,
sou semente,
soprada, cadente, esperando florescer.
abraços partidos, risada escondida
é a vida um até logo?
de mãos dadas com o vento,
sou semente,
soprada, cadente, esperando florescer.
há uma vida em minha insônia
às vezes dorme, perdida entre as pálpebras
ardente de sonhos, de saltos na imensidão
nada sabe das sombras que me habitam.
às vezes dorme, perdida entre as pálpebras
ardente de sonhos, de saltos na imensidão
nada sabe das sombras que me habitam.
escorrega do mundo pra cama
pede silêncio no meio do show
água! mas é tanto whisky...
pede silêncio no meio do show
água! mas é tanto whisky...
percorre meu corpo sonâmbula
a carne viva que ilumina as paredes
quer calmaria, paz, escuridão
a carne viva que ilumina as paredes
quer calmaria, paz, escuridão
te dou um par de olhos incansáveis
vermelhos, velhos, sedentos
piscando universos,
cerrados somente no fim.
vermelhos, velhos, sedentos
piscando universos,
cerrados somente no fim.
terça-feira, maio 05, 2015
que sangue é esse que há em todas as coisas?
que às vezes coagula fingindo dor e angústia
em outras é vinho e gargalhadas no salão.
que às vezes coagula fingindo dor e angústia
em outras é vinho e gargalhadas no salão.
escorre, caudaloso, buscando estradas, imitando rios, fazendo embarcar e descobrir peixes cegos e passos incertos
canta também sobre o corpo que dele precisa
sobre o amor que dele flui.
sobre o amor que dele flui.
e vai sendo lava faminta, apressando os rumos do dia
enquanto corremos em sua direção acorrentados.
enquanto corremos em sua direção acorrentados.
ciranda, para Carinne Lira
queria passear pelo mundo
mas não tinha dinheiro nem asas nem balão
fiquei sentadinha
assistindo ao futebol de rua
passando as mãos pelo céu e rindo sozinha.
caiu chuva, maresia e trovão
não tinha nem guarda-chuva
virei um pouquinho de mar, de rio
guardei no bolso a viagem prometida.
outro dia, sem barulho e aviso
chegou um postal de longe
era o rascunho e fotografia
do meu corpo dançando em outro continente.
há um momento, dentro de todas as coisas, que você começa a vernuances. nuances coloridas, nuances black and white, nuancesnuances nuances.
chances nuas de acariciar o tempo, de beijar lentamente esse segundo que te penteia e massageia as mãos.
é como um pássaro que descobriu não o voo, mas a capacidade de sonhar.
chances nuas de acariciar o tempo, de beijar lentamente esse segundo que te penteia e massageia as mãos.
é como um pássaro que descobriu não o voo, mas a capacidade de sonhar.
sim, me mato um pouquinho todos os dias
que não sou de morrer de uma vez
preparo os caminhos
desenho rastros
aproveito cada silêncio precioso
cada pedra que sempre diz algo.
que não sou de morrer de uma vez
preparo os caminhos
desenho rastros
aproveito cada silêncio precioso
cada pedra que sempre diz algo.
amanhã é tão longe
mas já chegou
me deu bom dia
me fez promessa de amor
e eu, que sempre acreditei em tudo,
pedi uma fotografia
pra levar comigo na tempestade.
mas já chegou
me deu bom dia
me fez promessa de amor
e eu, que sempre acreditei em tudo,
pedi uma fotografia
pra levar comigo na tempestade.
fui é parar no deserto
largando pra trás as lágrimas
que não são permitidas na seca
na alegria que é ainda estar vivo
largando pra trás as lágrimas
que não são permitidas na seca
na alegria que é ainda estar vivo
quando olhei pro céu, chovia
eram meus olhos que me olhavam
e pediam pra eu tomar aquelas lágrimas
como vinho em noites de núpcias.
eram meus olhos que me olhavam
e pediam pra eu tomar aquelas lágrimas
como vinho em noites de núpcias.
depois da viagem, o mar
cheio de qualquer coisa
lembrei que era hora de ir
de lançar na água mais uma parte de mim
o mergulho inebriante feito de fim e começo.
cheio de qualquer coisa
lembrei que era hora de ir
de lançar na água mais uma parte de mim
o mergulho inebriante feito de fim e começo.
domingo, abril 19, 2015
beijo na sacada
multidão de muitas cores
carregando os sonhos do mundo
na calada da vida
corpos encostando em alguns passados.
carregando os sonhos do mundo
na calada da vida
corpos encostando em alguns passados.
no segundo andar do coração
um misto de calma e guerra
era o beijo trocado em segredo
meio diário, mas também plateia.
um misto de calma e guerra
era o beijo trocado em segredo
meio diário, mas também plateia.
o poeta descansa os dedos
que aquela foto é maior que um poema
um momento de fósforo
acendendo qualquer coisa na escuridão.
que aquela foto é maior que um poema
um momento de fósforo
acendendo qualquer coisa na escuridão.
esse outono meio rastro de sono
carrega nas folhas a queda do passado.
vaga pelas ruas mornas
entornando segredos e achados.
sonâmbulo me encanta
com os olhos de lua minguante
cheio de ideias pela metade
me nega o almoço, me paga a janta.
coberto de poeira dourada
lança no quintal o sonho cheio de lama
me aguarda no portão
e de manhã vai embora
sorrateiro, só pela calçada.
carrega nas folhas a queda do passado.
vaga pelas ruas mornas
entornando segredos e achados.
sonâmbulo me encanta
com os olhos de lua minguante
cheio de ideias pela metade
me nega o almoço, me paga a janta.
coberto de poeira dourada
lança no quintal o sonho cheio de lama
me aguarda no portão
e de manhã vai embora
sorrateiro, só pela calçada.
inscrição
não conheço tela,
meu corpo é um quadro rasgado
arremessado de algum prédio
janela cúmplice
os olhos reféns.
meu corpo é um quadro rasgado
arremessado de algum prédio
janela cúmplice
os olhos reféns.
o que cai é um pouquinho de nós
sem suicídio nem assassinato
- o caminho é o voo que importa.
sem suicídio nem assassinato
- o caminho é o voo que importa.
te deixei escrito pelo muro
uma poesia meio capenga
que só pensa no depois.
uma poesia meio capenga
que só pensa no depois.
pelos ares é um misto de cabelos
areia e sal nos braços que flutuam
inscrição em mim de sétimo andar e de chão.
areia e sal nos braços que flutuam
inscrição em mim de sétimo andar e de chão.
das horas tortas
pensei em guardar um segundo
como quem abraça o primeiro amor
só não sabia que cada segundo
e cada amor
teimam em grudar na pele
como esses ponteiros no relógio da cozinha
que às vezes funciona
outras para
achando que manda no tempo.
como quem abraça o primeiro amor
só não sabia que cada segundo
e cada amor
teimam em grudar na pele
como esses ponteiros no relógio da cozinha
que às vezes funciona
outras para
achando que manda no tempo.
deixa eu te contar outro segredo: entreguei ao mundo minhas mãos entreabertas, guardiães da minha solidão, estrelas de um corpo cadente e ainda descaminhado.
te pedi pra apertá-las, pra gravar nas linhas um desenho ainda perdido, mas cheio de tons e respirar. que olhei pra elas e vi teu destino, meio terra e meio raio, daqueles que nascem no meio da tempestade e no cheiro de mato molhado.
caíram anéis pelo caminho: completamente nua, aguardei o toque do mundo, divórcio do ontem e ardência de um quê recém-nascido.
te pedi pra apertá-las, pra gravar nas linhas um desenho ainda perdido, mas cheio de tons e respirar. que olhei pra elas e vi teu destino, meio terra e meio raio, daqueles que nascem no meio da tempestade e no cheiro de mato molhado.
caíram anéis pelo caminho: completamente nua, aguardei o toque do mundo, divórcio do ontem e ardência de um quê recém-nascido.
segunda-feira, abril 06, 2015
subterfúgio
bebo porque o instante existe
e minha vida é incompleta
muito alegre e muito triste:
não sou poeta.
e minha vida é incompleta
muito alegre e muito triste:
não sou poeta.
entre o nascer de nossos corpos e o pôr do sol, há milhares de tintas e universos em construção.
de repente é o pincel que desliza pelo silêncio do que ainda está por vir.
é a pela nua esperando uma invenção, é o toque que mais acorda do que cria.
quando a noite vem, joga-se a chave no infinito, e outro dia abrimos o que nos move novamente.
de repente é o pincel que desliza pelo silêncio do que ainda está por vir.
é a pela nua esperando uma invenção, é o toque que mais acorda do que cria.
quando a noite vem, joga-se a chave no infinito, e outro dia abrimos o que nos move novamente.
âncora
queria ser navegante,
ser vento corrente
gotas milhares de saudade
gotas milhares de saudade
fui ser logo embarcação quebrada
dessas que param no meio do caminho
sem bússola
sem sol, sem lua
- velada.
dessas que param no meio do caminho
sem bússola
sem sol, sem lua
- velada.
sentada de costas pro horizonte,
nua de abraço e tempestade
cabelos tragados pro fundo
onde não há mais casa
nua de abraço e tempestade
cabelos tragados pro fundo
onde não há mais casa
calada,
caí nesse mar imenso,
imundo
que me deixou pra sempre selada
caí nesse mar imenso,
imundo
que me deixou pra sempre selada
terça-feira, março 03, 2015
meu amor
é de vento esse chamado
último eco de pedido
mar que destrói a pedra
ah, mas já é tanta areia...
último eco de pedido
mar que destrói a pedra
ah, mas já é tanta areia...
é carta extraviada
com endereço já falido
mas cheia de palavras
"você" "nós" e "nó"
com endereço já falido
mas cheia de palavras
"você" "nós" e "nó"
o álbum está vazio
que a memória é fugitiva
dos sete mares navegante
que a memória é fugitiva
dos sete mares navegante
aindassim, nunca esquece seu cais.
quero chorar. há como ser mais sincera? preciso me confessar ao mundo para que você me escute? não há nada que, como flor, não deixe para trás perfume e pétalas, e para o que vem apenas esse rastro tão doce e passageiro.
posso ter um dia para chorar? e que não me impeçam, que eu narre em duas mil palavras e tantos versos o inevitável, que não deixa de ser doloroso e incrédulo.
nessa noite de fim de mês, de fim de verão, de fim!, eu guardo para outra vida o que te prometi.
posso ter um dia para chorar? e que não me impeçam, que eu narre em duas mil palavras e tantos versos o inevitável, que não deixa de ser doloroso e incrédulo.
nessa noite de fim de mês, de fim de verão, de fim!, eu guardo para outra vida o que te prometi.
diálogo
- vera, será possível que estava cega? que não vi, em momentos tão dolorosos, o que estava por trás de um sorriso falso, de um piscar de olhos inconstantes? que não se pode abraçar o mundo, mas talvez apenas sete pessoas em toda a vida?
- acácia, há momentos em que precisamos contemplar. sentar-se numa praça, os braços tranquilos, os pés balançantes como os sentimentos, o olhar perscrutando o passeio dos jovens namorados, das crianças correndo em busca de cada segundo novo. deixar as lágrimas virem, que a dor é isso: um conjunto de oceanos caindo em nosso corpo, com o peso das horas passadas e das palavras não ditas. é preciso ter raiva, mas deixar que ela vá embora junto com esse dia que demora a passar e aceitar que talvez em alguns meses ela volte com outra forma que já não ela mesma.
- mas o que faço com essas cartas, com as marcas nos móveis? os lábios que ainda não saíram dos copos e os pés que estão como defuntos na soleira de minha porta!
- rasgue as cartas, quebre todos os copos e taque fogo nessa casa, que agora já não é morada de ninguém, mas uma assombração viva, que precisa ser enterrada. incendeie tudo junto com seus cabelos que carregam sílabas tão soluçantes, pedidos que já se tornaram ordens e depois jogue as cinzas num mar escuro, para que se percam e nunca se atrevam a voltar.
- e como vou viver?
- nem que seja uma sonâmbula que vague perdida pelas ruas, nas estradas como fantasma, errante até encontrar um caminho, porque mais vale ele que a chegada até a próxima morada. e quando enfim encontrá-la, sente, descanse, e chore baixinho a pequena e angustiante felicidade que já nasceu nos trilhos.
- acácia, há momentos em que precisamos contemplar. sentar-se numa praça, os braços tranquilos, os pés balançantes como os sentimentos, o olhar perscrutando o passeio dos jovens namorados, das crianças correndo em busca de cada segundo novo. deixar as lágrimas virem, que a dor é isso: um conjunto de oceanos caindo em nosso corpo, com o peso das horas passadas e das palavras não ditas. é preciso ter raiva, mas deixar que ela vá embora junto com esse dia que demora a passar e aceitar que talvez em alguns meses ela volte com outra forma que já não ela mesma.
- mas o que faço com essas cartas, com as marcas nos móveis? os lábios que ainda não saíram dos copos e os pés que estão como defuntos na soleira de minha porta!
- rasgue as cartas, quebre todos os copos e taque fogo nessa casa, que agora já não é morada de ninguém, mas uma assombração viva, que precisa ser enterrada. incendeie tudo junto com seus cabelos que carregam sílabas tão soluçantes, pedidos que já se tornaram ordens e depois jogue as cinzas num mar escuro, para que se percam e nunca se atrevam a voltar.
- e como vou viver?
- nem que seja uma sonâmbula que vague perdida pelas ruas, nas estradas como fantasma, errante até encontrar um caminho, porque mais vale ele que a chegada até a próxima morada. e quando enfim encontrá-la, sente, descanse, e chore baixinho a pequena e angustiante felicidade que já nasceu nos trilhos.
quarta-feira, janeiro 28, 2015
terça-feira, dezembro 09, 2014
segunda-feira, novembro 17, 2014
sim. meu corpo ainda é meu corpo, e mesmo que sinta a pintura escorrendo pelos braços e nascendo como uma borboleta viva e independente no mundo, ainda assim silencio: sim.
ainda estou sentada nesse tempo morno que é a aceitação do fim da primavera e das recordações ora nostálgicas ora amargas que é a vinda de um verão pueril. sim, me deixei levar pelas páginas em branco. sim, respirei o cheiro de tinta fresca que às vezes é fruta às vezes é esquecimento.
essa aceitação é necessária senão o demônio me toma e me arranca desse estado fingido que teima em ser paz que teima em ser aurora e quem sabe consegue.
de vez em quando acho os cacos por aí. esqueci que fingi ir embora, mas fiquei, fiquei milhares. e agora nem lembro por onde começar.
ainda estou sentada nesse tempo morno que é a aceitação do fim da primavera e das recordações ora nostálgicas ora amargas que é a vinda de um verão pueril. sim, me deixei levar pelas páginas em branco. sim, respirei o cheiro de tinta fresca que às vezes é fruta às vezes é esquecimento.
essa aceitação é necessária senão o demônio me toma e me arranca desse estado fingido que teima em ser paz que teima em ser aurora e quem sabe consegue.
de vez em quando acho os cacos por aí. esqueci que fingi ir embora, mas fiquei, fiquei milhares. e agora nem lembro por onde começar.
estou sentindo aquela força que me faz cortar os cabelos. é como uma dança rebelde, sacudindo todos meus pequenos fragmentos, querendo rasgar o limite que é o corpo, salão pequeno e escuro para os passos nascentes.
é melhor o cabelo que os pulsos, pois esqueço que sou atriz e vou ser dançarina nas esquinas do dia.
é melhor o cabelo que os pulsos, pois esqueço que sou atriz e vou ser dançarina nas esquinas do dia.
sou gata noturna. não quero saber de dança nem de cicatriz. só inventar mais um suspiro que grito.
quarta-feira, outubro 29, 2014
quinta-feira, setembro 18, 2014
domingo, setembro 07, 2014
poema para desaguar.
não deságuo mares nem rios
tampouco palavras
são acalantos, abraços e segredos
empoeirados pelo meu corpo.
tua memória era represa
que me prendia mas também era presa
das mágoas amargas
que agora são doce de amêndoa.
se eu pedir, me guarda
não num pote ou numa casa
mas nesse mundo afora inteiro
que não seca, nem inunda
apenas nos aguarda.
tampouco palavras
são acalantos, abraços e segredos
empoeirados pelo meu corpo.
tua memória era represa
que me prendia mas também era presa
das mágoas amargas
que agora são doce de amêndoa.
se eu pedir, me guarda
não num pote ou numa casa
mas nesse mundo afora inteiro
que não seca, nem inunda
apenas nos aguarda.
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