segunda-feira, fevereiro 26, 2018

por que não gostamos de ler poemas e por que eles são uma forma profunda de aprendizado
quando entramos em contato com a poesia pela primeira vez ou de forma superficial, não importa a idade que temos, se somos crianças ou adultos mesmo que já formados com um grau de leitura regular e profunda, sentimos um estranhamento que beira o desconforto e o abismo.
ler um poema não é uma coisa fácil. e não é porque palavras difíceis são usadas ou porque o escritor resolveu tirar um sarro com a nossa cara. é porque a poesia é uma das formas mais tortuosas de lidar com o inconsciente. ler um poema é então lidar não só com uma floresta escura e cheia de armadilhas, mas com duas estranhas florestas dentro de um mapa desfigurado envoltas por outras florestas.
o desafio é o encontro com o lugar-espanto do outro partindo do nosso próprio espanto. então para ler um poema é preciso mergulhar de uma altura indizível dentro de um oceano inquieto, turbulento e amedrontador.
não basta ler uma vez, é preciso ler milhares. o inconsciente nos larga pistas, mas é preciso usar a lupa e procurar. se não há paciência nem vontade pelo desconhecido é impossível a abertura para a poesia.
não gostamos de ler poemas de início porque estamos desacostumados com nossos sonhos, com os barulhos presos dentro de alguma parte de nossa escuridão. negamos a estranheza. primeiro a nossa mesma, depois e mais ainda a do outro.
quando nos permitimos, porém, a abertura nos leva por caminhos inacreditáveis e que nos sorvem de habitação, comida e sobrevivência. poesia é uma das formas mais íntimas de abraçar o que há de estranho no outro e em nós mesmos. acolher um poema é achar a chave daquele casebre mal iluminado no meio da floresta que sempre quisemos explorar, mas deixamos para depois. para que procurar estrelas quando em tempos como esse acendemos pequenos sóis artificiais em nossos quartos? que bom que sempre toquei estrelas, guardo comigo sempre os dedos queimados de susto e paixão.
dar à luz é sempre uma oferenda. a gente nasce já doando nosso grito, nossa solidão. sair da escuridão com um choro profundo de aceitação e destino. dar à luz é sempre pagar as contas para o futuro. aquele grito se repete depois com alguns cinco dez anos quando perdemos nossa avó. nascemos já abraçados com o trauma, e ele nos chama e nos exige, pode ter certeza.
por isso quando ando pelas árvores e vejo suas sombras e uso delas para me esconder de qualquer coisa, lembro que o grito está ecoando em suas folhas, em suas sementes. enquanto corro já nascem outras flores, enquanto danço já morrem outras flores. às vezes planto, às vezes pisoteio.
dizem que há milhares de formas de ver o mundo, para mim só existem duas: a de quem o vê sorrindo e a de quem o vê chorando. todo o resto são nuances que se encontram, se desfazem, se misturam em cores. sentar no abismo e ter a felicidade de quem está à beira; sentar no abismo e sentir-se o próprio abismo, e prceber que não existe beira, só queda.
há quem se jogue de paraquedas, quem amarre uma corda na ponta e desça devagar. estou entre os que se jogam de braços abertos e já não sabem quem são enquanto caem.

segunda-feira, dezembro 18, 2017

sempre no gerúndio, lendo tantas coisas de sobreaviso, tantas que chegam a parecer cartas sem resposta, sabe, daquelas que lemos um milhão de vezes e não achamos explicação, não, é impossível escrever qualquer linha quando o pensamento tem mais linhas possíveis do que um beija-flor bate asas em um segundo, sempre, sempre num gerúndio passado, um particípio a nascer, é quando me vejo ida, calada, lendo coisas que já estavam sussurradas ao pé do ouvido numa noite em que chorava profundamente a morte que nem havia ainda acontecido, como pode, sempre me perguntei, como pode enlutar-se antes da dor real, passar por cirurgias profundas sem haver ainda adquirido aquele tumor que achara ou achará em algum recanto de sua pele, essa que apanha sol como quem apanha peixes, com um medo estarrecedor de vê-los pular, se debater na dura e triste menção do fim que é a rede de pensamentos, onde agora me encontro, achando que entendo essa náusea que é mais tua do que minha, não, ela é pura, livre das amarras das minhas mãos dos meus olhos que escrevem qualquer coisa quando leem um pedaço de jornal que acha que é poema, porque é assim, assim mesmo, que se faz o que chamamos de salvação.
se a terra fosse plana
não te encontraria vagando pelos deslizes do abismo
sempre no mesmo plano
cantos de vales prometidos
promessas que giram na contra-mão
e terminam como o grito
oco nesse abismo
mas a terra é uma bola de pelos
caminhos encontro gatos
suicidas nessa vida.
love is a good morning
yet there is nothing good about mornings
and in the evening
it is something like beer with possible waking-ups at midday
so, baby, let me cry a huge ocean
cause I don't like mornings
(you can greet me, but it won't work)
and today I don't have any coffee in the kitchen
and I go to sleep missing the taste of summer beer.
acho engraçado como a gente está sempre indo
de bicicleta
de ônibus taquara marechal hermes 
de trem sentadas no chão
sempre indo como uma pipa que quer ser balão, você sabe, a gente sempre quis ser balão mas somos pipa com cerol que às vezes corta as pipas que fomos em outras vidas que duram apenas um espaço de por volta de seis meses 
mudamos de casa
de corte no pulso pro cabelo do cabelo pras roupas e depois em um segundo estamos aqui com vinte e poucos anos imaginando aquele balão que não é mais o de festa junina é um balão daquela terra estranha misteriosa, qualé o nome mesmo
peraí vou olhar no google
achei:
capadócia
é um nome tão bonito. e nossa vontade também de continuar indo indo indo, sem essa de tô indo
não, ir mesmo daqui
pegar as coisas, que coisas que nada, pegar nada, ir no
sentido mais puro e maravilhoso da palavra
ir ser
ir ser
ir ser balão.
poema pílula
é aquele lido rapidinho
quebrador de paradigmas
carregando em poucas sílabas o desdobramento
ou é aquele que a gente toma
esperando se curar?
ensaio
fico imaginando pra qual peça
estou
decorando as palavras que 
escrevo
quase que de forma
em sonho
pois às vezes acho
e depois me perco
que ensaio é coisa de ator
não de escritor
aí volta minha memória (e) para
algum dia em que li outro
ensaio
talvez de outro
ator?
crítico?
mas então
estou
ensaiando
assistindo
escrevendo?
pelo menos não sou
cientista
prefiro estar
sempre à beira
de qualquer descoberta
do que encerrar a peça
por falta de provas.

segunda-feira, outubro 30, 2017

pela milésima vez
eu vou ter que repetir
só mais uma vez
eu juro
beijar estas palavras por mil 
noites
e desejar aquela
mais uma
que é promessa
problema
profeta
apito a voz da minha cabeça
e digo: o gesto
meu amor
é tudo.
por isso que espero aquela
noite
que nunca se cansa
de vir.
por que não 
deitar em roupas amarrotadas
à espera uma vez na corda
depois na cadeira da sala
e agora na cama
mais de um mês abandonadas
me viram chorar no limite
da casa que também
chora
lá fora
o dia está feliz por que
não fazer poesia sobre o céu
sobre a praia e o vento
é preciso um niilismo profundo
para falar de roupas amarrotadas
e mais ainda deitar-se nelas.

domingo, setembro 24, 2017

sei que sou
mulher
quando logo de manhã
em vez de cantarem pássaros
de gritarem galos
de ainda ressoar a cigarra de ontem
é o psiu que escuto na rua deserta
ser mulher é isso:
uma rua sempre deserta
e todas as canções do mundo
em segundo plano
porque
afinal
quem tem tempo pra cantar enquanto corre?
tu às vezes me contesta, eu que me apego com muita força às inutilidades da vida, e com ar de quem é feliz, de quem respira tranquilamente, me diz: cabelo é célula morta, não dá pra tratar. 
eu fico de repente estática, se é possível estar mais do que já estou há dias sem conseguir levantar da cama. meu corpo levanta, máquina que é, e vai trabalhar, pagar as contas, mercado e louça. eu fico pra sempre deitada.
então o cabelo está morto. assim como nossas unhas. como a morte já é presente, como cuidamos da morte que há em nós! pra morrer basta estar vivo. o começo já tem em si o fim, eu entendo. não é que todos os dias, meses, cresce a morte em nós, e cortamos, pintamos, decoramos, até que ela renasce, renasce mais uma vez.
é claro que tenho mania de embelezar a morte. ela está aí para me lembrar de muitas coisas, e quanto mais bela mais fácil é amá-la. dá, sim, pra tratar do cabelo. tudo na vida não passa de uma questão de estética, até a morte - tão vaidosa.
come back
come back to me
remember the songs
the rain the smoke and
they will certainly be
by our side when we
arrive late like the storm.

quinta-feira, agosto 24, 2017

sempre choro quando lavo a louça. não sei se também acontece com você, mas esse choro é pior do que aquele provocado por cebolas. é como uma cachoeira de água perfumada caindo direto da nascente da memória. quando começa, se apossa por inteiro de mim e já não tenho controle de nada. choro, como um verbo vivo e independente, como um filho que após crescido nos abandona e some no mundo. aqui no caso, vira água corrente, escorrega nos pratos, some no ralo. e de repente desagua em algum esgoto solitário, quem sabe, ou vira alimento de baratas.
me sinto meio máquina programada. é só molhar a ponta dos dedos que já nasce a primeira lágrima. parece um time-lapse de flor desabrochando - quem vê não imagina o tempo que demorou, o vento que por ali passou nem o cheiro que emana. por trás do vídeo tem um outro vídeo, que só vê quem é flor. quem não é ou não pode ou não quer ser acha que vê, mas não vê é nada.
você deve achar que bebi um conhaque ou qualquer coisa pra estar assim tão emocionada. juro que não bebi nada. aliás, acho que troquei o álcool por choro (quando não deveria ser o contrário, meu deus?). se tivesse aqui um conhaque (ou o poema sobre o conhaque) de repente terminava de lavar essa louça em paz.
seria bem mais simples: no fim enxugar a louça como quem enxuga lágrimas. não deixá-la jamais pela metade.
me lembro dos teus passos: aqueles que me faziam tocar a existência. exatamente como encostam no chão, com um barulho já tão íntimo parecido com alguma canção que escutei na infância. agora, indo até o banheiro com meus passos tímidos, fiz aquele barulho tão fantástico que você fazia com seus chinelos, e que me acordava nem que fosse no meio da madrugada muito feliz e aliviada por poder escutá-los, saber que eram teus, lembrar que ainda estava ali, e sorria. 
saber esses passos é como retornar. tenho no chão algum tempo que já nem sonhava que tinha, e sinto saudade dos gestos, dos cheiros e do detalhe daquela janela com uma cortina florida.
não consigo sequer chegar ao banheiro. não termino de lavar a louça, não saio do mesmo lugar. esse passo que parece mais uma bala perdida dessas que abrimos o portão num dia normal e que bonito está o céu respiramos um pouco e colocamos o fone de ouvido que música maravilhosa o que será que comerei no almoço? e já não há mais nada a se pensar, porque sim se morre em pleno dia. sempre cito clarice, talvez porque esses passos também me lembrem as horas em que sentada na varanda lia seu livro, calmamente.
agora não sei, não sei mais, acho que vou dormir. espero escutar teus passos mais uma vez na madrugada.

segunda-feira, agosto 14, 2017

que mania chata essa que tenho de filosofar sobre tudo.
ou será problematizar? 
já estou então problematizando 
a filosofia ou filosofando 
a problemática?
coisas que a internet faz com a gente - além de gerar vícios inúteis
(como se algum fosse últil)
acho que tenho também vício em poesia
esse lixo reciclável.
eis que tô pensando sobre
versos. pensando muito. parece até que estou num trem com trilhosintermináveissemfonedeouvidooucaderninho.
só faço pensar.
às vezes acho que estou virando escultura. mas esculturas não choram.
eu sim. exceto que não
digo sim
nunca, só funciono na negativa.
não te disse que é uma mania chata?
seja lá quem tu for.
1. passar a nomear tristezas: tentar vencê-las.
2. saber impossível nomeá-las (mas ainda assim tentar)
3. descobrir cada vez mais tristezas escondidas pelos cantos - algumas passivas, outras tentando te matar.
4. acumular tristezas com medo de perdê-las - já que não se pode nomear, é porque são raridades. e raridades valem qualquer coisa, melhor esperar anos para vender a um colecionador.
5. depois de anos, entender que você é o próprio colecionador - e que agora compra tristezas dos outros.
6. um dia, sozinha, escutar as tristezas te chamarem pelo nome.
pelo sobrenome.
te dão apelido.
também são gentis, e saem do canto dos armários para cantos de te fazer ninar.
7. de volta pro início: acabo de ganhar mais uma tristeza.

quinta-feira, junho 15, 2017

às vezes acordo amarga como esse café
que tu bebe e fuma com um dois até dez cigarros
enquanto durar o tempo do café
ou de qualquer angústia
porque tu sabe 
quem fuma tanto assim
enquanto bebe um copinho de café
é porque justifica a morte
ou qualquer outra coisa
já não sabe se engole o café ou as cinzas
ou aquela carta que chegou onde ainda se chegam cartas
quando não estou amarga te escrevo
poemas, escrevo paredes
esqueço de comprar o café que tu bebe no mercado
e não há motivo para acordar com o café
nem com a amargura
porque já nem lembro onde deixei o maço de cigarros.
eu achava que iria mudar o mundo
mas em vez costurava palavras
sentada na cadeira de balanço
com aquela mão flutuante empurrando devagar
divagando como uma velha os bordados incompletos
conversava com as formigas carregando pedaços de pão
e elas me respondiam em sua língua tão silenciosa
algo como estamos construindo uma cidade imersa
embaixo de seus pés
e todos os dias você nos destrói o caminho
nos faz passar fome
mas ainda andamos, andaimes nos buracos de sua casa
enquanto a agulha feroz já rasgava minha mão macia
as formigas andavam
a cadeira balançava
e na minha cabeça só aquela pergunta
eu achava que era uma formiga
mas não catava migalhas nem era arquiteta
era costureira
de coisas tão insignificantes
achando que qualquer significante poderia mudar o mundo

quarta-feira, junho 14, 2017

lembro da feira. a melhor parte de mim. não que gostasse de frutas e legumes variados, sempre fui fã mesmo é de batatas, apesar de não ser vencedora em nada na vida. mas a feira era mais do que isso. até mais que o aipim cozido com margarina que minha mãe, muito docemente, e meu pai, muito euforicamente como sou às vezes hoje em dia, ofereciam às pessoas.
eu acordava às 6 horas da manhã com o barulho das coisas. os caixotes se moviam com raiva do chão. a porta da garagem se abria, como quem espera a semana inteira para beber uma cerveja, a verdadeira sexta-feira santa. um passarinho cantava na árvore do lado, que há muito foi abatida. mesma árvore que minha gata escalava, e mesma árvore também onde jogava uma pedrinha amarrada num barbante para alcançar os galhos. no fundo sempre quis ser gato.
eu parecia um ser insone. num sábado, quem acorda às 6 da manhã sem precisar acordar? eu sentia o cheiro do tempo. não sabia naquela época, mas era ele, era sim, e conversava comigo.
sentada num caixote qualquer, observava as lindas velhinhas que chegavam ali para comprar qualquer coisa, e adorava escutar histórias sem sentido, lembranças disso ou daquilo e o que eu mais gostava era ir na casa delas com meu pai, naquela kombi velha, entregar as compras.
a kombi era tão importante pra mim que uma vez acordei desesperada de um sonho em que estava dirigindo e caía com meu pai e a kombi e tudo dentro de mim no rio ali perto de casa. o mesmo rio em que desovavam corpos, imaginei também toda minha felicidade e nossos corpos sendo desovados.
lá pras 10 horas, pegava minha bicicleta ou montava minha banquinha de troca de revistas da turma da mônica. nada me dava maior leveza e simplicidade do que pedalar pelas ruas amanhecendo. podia sentir o bocejo do dia, eu era um galo solitário descobrindo o mundo.
voltar para casa e sentir o rumor da feira. meus pais sorrindo com uma fruta do conde na mão, descascando um abacaxi, minha mãe tirando os carocinhos da melancia pra eu comer e não criar sementes no estômago. uma preocupação de nascer devagar, de esperar minhas raízes tomarem forma.
depois, o desarrumar das coisas, o desdobramento do tempo no tempo, mesmo com tempestades o ritual era refeito. voltar para o meu quarto e acender velas, pegar nas mãos livros estranhos que me confundiam e já começar a colocar no meu pequeno diário colorido a conversa que eu tinha tido com meu amigo iago, sentada na calçada do lado da feira.
o silêncio do meu corpo inebriado ainda pela manhã que já acabara. o gosto da lembrança muito prodigiosa me abraçava, exatamente como me abraça agora.
era nesse crepúsculo que chorava. sem saber muito bem por quê, com minhas mãos de crianças e meu coração ainda sem enfartos, a feira era já um abismo, e eu andava na corda bamba.

segunda-feira, abril 24, 2017

vou te contar uma coisa. tu não precisa ler, não precisa me dizer nada, juro: mas é que corto os cabelos para não cortar os pulsos. sabe de repente eu acordo numa manhã fria dessas de são paulo com o ar todo poluído, e eu percebo que quem tá poluída sou eu. não é o ar, não é. é o meu corpo inflamado de sujeira, de tanta coisa pra ser limpa. a gente pode limpar a casa (mas prefiro não perder meu tempo com isso) organizar os livros na prateleira soprar um pouco a poeira e fingir que tá tudo bem. a gente pode. a gente pode tanta coisa. mas o corpo continua imundo. imersonomundo. e é muita vastidão para ser só uma coisa, o corpo balança escorrega gira. contaminação pura que nem quando ando pelas ruas de são paulo e sinto vontade de chorar. é verdade - outro dia bem sentei num cantinho da avenida paulista e chorei durante meia hora até conseguir olhar pra cima. os olhos choraram tanto que nem pareciam mais ser meus olhos e choravam tanto que nem sabia mais por que chorava ou nem onde estava e quando olhei pra cima, olhei bem fundo, e vi que era eu que estava ali, chorando.
desculpa, me embolei na narrativa. nunca fui de contar coisas, só as gotas da chuva, sim, sempre contei gotas, talvez porque contá-las seja impossível. então é o mesmo que não contar nada. mas preciso contar até dez e me acalmar e te contar finalmente o que preciso. sabe o que é uma salvação? eu também não. mas eis que sinto que a salvação é sempre cortar os cabelos. como um milagre. a gente reza tanto pra nós mesmos, por que não atender as preces? essas que vêm sem nem sabermos de onde, mas que definitivamente estão ali mais do que o sapato que estamos usando.
então todos os dias tenho cortado os cabelos. normalmente só as pontas e já basta. mas esses dias cortei a franja toda torta e não é que respirei fundo e senti a calma do mundo? faz tanto tempo que não sentia essa pacificação, esse banho. há momentos porém que não aguento e meto a tesoura bem no meio do meu couro cabeludo e fico com vários buracos. é aí que consigo rir. rir de verdade. sabe a verdade do riso? é essa. estar cheia de buracos na cabeça e ao mesmo tempo entender que são só buracos na cabeça e nada mais.
ainda com a tesoura enferrujada de lágrimas e a sujeira contaminando das pontas das unhas quebradas até o último átomo que acha que me encosta preservo em sangue e palavras as células, essas mesmo, as células vivas.

segunda-feira, abril 17, 2017

amizade é a camisa com o botão descosturado
a gente perde em algum bar o maldito
ou no metrô cheio de botões também perdidos.
e de repente se dá conta, no espelho,
com o buraco feito abismo à mostra.
mas nosso corpo respira sem o botão
dá cicatriz, arrepio, tatuagem pro mundo.
e não é que a gente descobre qualquer dia
que aquele botão perdido virou flor na rua?
pra que falar da vida
se ela é guarda do próprio nome
armada com suas sílabas
só duas, mas inteiras
de um vazio que não lhe pertence.
rapta meu pensamento
minha loucura, minha dúvida
de na boca mover o som que rapidamente
ela me rouba.
sabe o que é engraçado?
a chuva me diz muita coisa
voltando com ela do trabalho
numa carona desavisada
guardei um segredo.
achei ridículo que logo ela
cinematográfica, ouvinte de mágoas
me fizesse esse pedido
tão sóbrio, mas inesperado:
- promete.
pulando poças, escutando suas sílabas
lembrei daquele dia
que te falei da chuva
sabe?
e não era preciso:
você já conhecia todos os segredos.

segunda-feira, março 27, 2017

deitada no chão da casa que chove
(sim, chove muito)
o café quente lendo o livro que mais amo
amor numa tarde que chove
e escurece lentamente
amor que é a felicidade menos incômoda da vida
esse amor que sinto o cheiro de longe
já misturado ao do café
e também ao da chuva
é o amor que afago
com um gesto despreocupado
nessa tarde
que não chove
e preciso levantar.

segunda-feira, março 06, 2017

total eclipse of the heart

Once upon a time
I was falling in love
But now I'm only falling apart
There's nothing I can do
A total eclipse of the heart


1 fevereiro de 2017. sonhei com um eclipse solar. foi angustiante. o mundo se fechava, e eu saía correndo de casa para o outro lado da rua. quando tentava voltar, já não sabia onde morava, onde eu estava. invadia um prédio qualquer. era perseguida. e não encontrava meu caminho de volta.

1 de março de 2017. aconteceu o eclipse solar. mas o mundo estava nublado. era carnaval, e havia uma purpurina falsa na minha pele. foi também quando tudo acabou. eu já sabia, antes de tudo realmente começar, que o caos era eminente? que eu estaria perdida, completamente angustiada, ainda sem encontrar a porta que deixei escancarada?

sexta-feira, março 03, 2017

abraço

o teu cheiro em mim.

I was born in a thunderstorm

como eu queria, no meio da minha bebedeira, escrever palavras bonitas. mas nem digitar direito eu consigo. por que não dormir? com toda a ânsia que estou e guardar na cama, lugar para reflexão e choros baixinhos.
mas já não consigo chorar. não consigo mais sentir. quero mais um copo de cerveja. mais um. mais um. esquecer tudo que está acontecendo à minha volta, um momento de transposição. não é isso que faço? um transpor-me do meu corpo para lugar nenhum, em absoluto nenhum.
agora, com as borboletas voando pela sala, e a vida pulsando no meu peito, é tão bom estar aqui. no meio de absoluto som nenhum. mentira, sia toca na minha cabeça. e daí? tudo passa, tudo inquestionavelmente passa...
e as coisas, o sentimentos, mudam num sentido acelerado, maior do que eu posso acompanhar, nessa minha silenciosa pergunta.

quarta-feira, março 01, 2017

you met me at a very strange time in my life

quando estou com você, o dia se desdobra: passa rápido, mas parece que vivi um ano inteiro. não é só porque rio, ou converso horas a fio. é coisa de gesto, de cheiro, do teu olhar no meu.
cada dia que não estou com você ou que não converso com você parece que não vale à pena. parece que está faltando um pedaço de mim, que o mundo está sem graça.
ao mesmo tempo que te amo de forma visceral, tenho um medo aberto nas minhas veias. ele diz ao pé do ouvido: vai embora, esse não é o seu lugar. baixinho, mas firme, calcula a hesitação no meu caminho.
e você faz coisas que não consigo entender. me machuca de um jeito que só você pode machucar.

do carnaval só restou o querer que você me invadisse, que me puxasse pelo braço e me abraçasse, que não me deixasse ir. mas a vida é complicada e às vezes imita a arte: momento estranho, quem sabe em outra vida.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

nós

há um sorriso entalado na minha garganta 
tem gosto de barulho de chuva 
de sábado à noite 
de banho fresco no verão.
se esconde no silêncio escuro da voz que nunca vem
do pedido jamais feito
das mãos que já não se encontram
e dos nós que não conseguimos romper.
que faço com esse sorriso sem utilidade?
tinha guardado pra quando fosse te ver
numa tarde sentada na praça, fumando um cigarro
guardei esse sorriso, agora entalado
pra qualquer dia, qualquer vida,
pra quando você voltar.

poema pós moderno sobre vazio existencial em um mergulho de tédio no calor do rio de janeiro

não, não quero nada
não me venham com conclusões
a única conclusão é morrer.
quem me dera a morte fosse uma conclusão
um emaranhado de não querer
o fim descoberto de um abismo com frio
é apenas a invenção do meu tédio
da loucura que acha que é loucura
(na verdade é um puro dia comum)
sentada refletindo, com a mão apoiadora de pensamentos
bebo um café adocicado
termino e não há sorte pra se ler no fundo do copo.
é esse café o presságio da morte?
de novo, achando que é loucura,
só um café açucarado aceitando a fé da palavra.
há uma rua em meu peito 
e um grito bêbado na madrugada.
os paralelepípedos já não sabem o caminho para aquele lugar
onde sentada calmamente fumo meu cigarro.
a desordem das folhas secas já não me guiam para o destroço de ontem
e sábia a noite não me traz mais paz.

terça-feira, janeiro 24, 2017

há muitas pedras no nosso caminho.
talvez, em outra vida, pegaríamos essas pedras filhas da puta do caralho e jogaríamos no mar. quem sabe faríamos de bola de futebol.
agora não dá pra fazer nem casinha nem amontoado deixado por fadas. são só pedras maciças embargando a estrada.
o que a gente faz, quando há mais pedras que terra, quando a carroça que temos quebra no meio da chuva e o burro que tava na frente sai correndo? que bom que saiu, porque não é legal animal ser usado pra isso, mas como que a gente segue, cheias de lama carregando nossas bagagens que são mais pesadas que as próprias pedras?
no meio do caminho tem um monte de pedra. mas tem também a gente pegando uma pedrinha e jogando na cabeça da outra, e rindo até desmaiar de como essa pedra é um teatro grego.
tem a pedra com cara de história impossível do passado, que se a gente conta pra alguém, essa pessoa não acredita.
tem pedra que tem gosto estranho e dá até pra comer bebendo uma cerveja. tinha uma outra que, depois de tanto a gente socar, virou uma obra de arte.
então é isso. tem uma porrada de pedra no nosso caminho. tem dias que choro, tem dias que chuto as pedras e machuco meu dedão.
nesse momento de raiva e impotência, me sento do lado das pedras. e quer saber mesmo? de verdade?
desisto de atravessar. porque, no fim das contas, nós também estamos no meio do caminho.
para minha amiga, Dan Villela

sábado, janeiro 07, 2017

teus olhos são oceano.
te explico: a pequena e solitária onda despencou na areia que respira.
o mar branco com seus pequenos trovões vermelhos morre e renasce em segundelas.
o sol castanho tudo vê mas também é eclipsado.
abro as mãos e recebo tuas ondas: preciso.
é um dia quente, e o que tenho é só um deserto solitário.

segunda-feira, novembro 28, 2016

o de repente, filho do tempo, casou-se com a paixão.
viveram felizes até que de repente se olhou no espelho:
estava todo desrepenteado pela paixão.
pegou o pente, presente do seu pai, e se repenteou.
quando a paixão se encontrou com ele, não o reconheceu mais. chorou.
e o de repente também nem sabia mais de onde tinha vindo, quem era aquela mulher e o que estava fazendo ali.
se separaram. de repente voltou para o colo de seu pai.
a paixão, sempre sem rumo, foi.
passou pelo espelho e viu o pente. foi tentar também repentear seu cabelo, mas não conseguiu.
o pente quebrou. revoltada, quebrou o espelho.
e não é que dos cacos no chão ela se viu diferente... uma ali, outra aqui. ela era o mergulho num caleidoscópio.
agora, sim, entendeu porque de repente se foi.

segunda-feira, novembro 21, 2016

às vezes a gente se perde
que nem chuva em dia de domingo 
que saudade da praia!
o coração é só nublagem 
não dá pra ver mar
nem quem a gente era
o passado assombra
faz guerra, mata os soldados
mas traz espelho, mesmo um quebrado.
no meio dessa crise
um pouco nossa
as vezes só minhas
esqueço a crase 
me perdoa?
não tenho cabeça pra fala
nem pra te escrever uma carta
essa crise me entorta
acentuo o sotaque
deixo pra lá a porta.

domingo, outubro 23, 2016

maybe in another life when we are both cats

te imaginei acordando lentamente. o dia, que deveria clarear, escurecendo e trazendo uma tempestade e um cheiro de terra molhada que me lembrava da infância. acendemos um cigarro. a vida é engraçada, quando queremos que parte, uma pequena parte dela, seja o imprevisível ou uma vontade descarada de a morte ser o instante seguinte que bate à porta.
imaginei o teu cheiro junto ao meu corpo. são amêndoas amargas com frutas cítricas que invadem o quarto, como um incenso de igreja. há tanto pecado, tanta culpa cristã em imaginar qualquer coisa, que o cheiro se transforma em fumaça de cigarro depois de uma grande e gloriosa ressaca de um domingo ameno.
imaginei muitas coisas. algumas loucuras como vamos imediatamente para o paraná, porque lá deve haver bares incríveis e fumos novos para se experimentar. ou que tal pularmos nus em alguma praia no meio da noite e fazer sexo até que algum guardinha frustrado com a vida nos prenda? mas nem imagino como seja o gosto de transar com você, já que o beijo já foi uma briga de torcida organizada.
o corpo no outro, as bocas quentes, mas a mente ensandecidamente em algum lugar que não o corpo, que não a boca, quem sabe um meio termo em alguma vida passada?
desistir nem sempre é desistir. pode ser também um gosto de vida nova, de vitória, de novos caminhos. e é com essa certeza (mentira, certeza alguma) que enterro junto com essas palavras qualquer sentimento extrapolado, corrente em rio sem rumo, que sinto e grito e choro por você.

domingo, outubro 02, 2016

há em mim uma matéria de reclusão
atração por estantes empoeiradas,
o dia namorando o corpo livre
e chegar lentamente com os livros na cama. 
estar em absoluto silêncio 
e ainda assim conversar em muitas línguas
falar sobre a morte das papoulas
e sobre o que pensa quem agora acorda do outro lado do mundo.
parece que atravessei um espelho
achando que era mergulho em qualquer água
não morro afogada, felizmente
mas será que morro cortada?

quarta-feira, setembro 28, 2016

essa chuva me deu vontade de escrever qualquer coisa. então fiquei tentando lembrar de todos os poemas e contos que me vêm prontos na cabeça, e eu fico escrevendo coisas na minha mente atribulada. são muitas mulheres esquisitas, descalças, bêbadas e fumantes, perdidas com certeza, que me assombram todos os dias, enquanto vou andando pro trabalho escutando rádio. 
aparecem às vezes algumas rimas, ritmos, palavras trocadas. sempre digo pra mim mesma: vou escrever absolutamente em qualquer lugar assim que tiver um papel e uma caneta, ou assim que pegar meu celular onde não possa ser assaltada. mas chego no bendito lugar, onde quer que seja, e já estou pensando em outra coisa, como por exemplo todos os livros que tenho deixado pela metade ao lado da minha cama.
quando estou tomando banho acontece quase o mesmo, mas mergulho mais fundo em abismos. enquanto a água cai, entro em transe, vejo paisagens, nuvens obscuras, dias de sonolência em sarajevo. saio do banho e o cabelo toma minha atenção, ou a música que já começou a tocar no laptop.
mas essa chuva, esse alagamento na rua, o cigarro que fumei tão rápido me trazem de volta o esquecimento, e sinto uma pequena, mas sincera, vontade de chorar por tanta coisa que nem tive, mas já perdi.
antes quebrar pratos e garrafas
do que o coração,
que não se jogam os cacos no lixo
- remenda-se
e nunca mais é bateria do salgueiro
vira qualquer coisa desafinada,
rachado como o muro de berlim.
baby, não mexe no meu cabelo.
deixa ele assim, despenteado
fingindo que é linha em colcha de retalhos.
não me diga o que eu posso ser
aprende: há uma imensidão no que já sou
um mar revoltoso, desconhecido.
não sou a pedra que suporta e impõe,
mas o choro dessas águas perdidas
e o encontro de uma onda com a outra.

quinta-feira, setembro 01, 2016

só preciso de um maço de cigarro,
uma garrafa inteira de vodka
e teu silêncio.
não, não diga nada
cala a boca na tua inocência
na tua burrice pedante
e me deixa pensar

sobre o nada
(o choro da garota todos os dias às 3 da manhã em uma casa vazia)
sobre cada
minuto que
porta que
adeus que
você não deu
(faz mais sentido que teus olhos em mim)

o depois é sempre um antes estragado.

 
entender, entender o outro na mais profunda leveza
abraçar-lhe em silêncio, dar-lhe de comer sem questionar
cantar uma canção de outra vida, contar histórias da infância
correr na rua de mãos dadas,
pular poças como se pula oceanos:
- sempre o desconhecido, mas sempre a coragem.
um olhar que se perde na constelação que é o outro olhar,
um gesto vivo de compreensão quando se pede amor
amar como se fuera diós, rezar como se fuera hombre
ter e não ter este segundo que é belo e incrivelmente impreciso.

terça-feira, agosto 23, 2016

sentada com os pés balançando no abismo,
observando profundamente esse salto,
onde não há pássaro
nem sementes no vento
tampouco uma pétala que voa
me pergunto onde está meu all star vermelho.
estou descalça,
cansada sem um pingo de suor
por que estar estático cansa?
a verdade está aqui, nas minhas mãos pequenas
mas não sou vidente nem adivinha.
sou apenas uma pessoa sentada com os pés balançando no abismo
esperando que alguma coisa me responda
além dos ecos desse grito
que, silencioso, me abraça.
um silêncio duradouro, meu acompanhante insone
parceiro da surdez e da cegueira que sempre tive.
e o que mais sempre tive,
além desse corpo que treme, que se arrepia
e alguns passos que me trouxeram aqui?
tanto caminho pra seguir,
fui escolher logo a rua dos cacos de vidro
cheguei nesse chão,
os pés sangrando,
o mundo girando,
a roda viva.
amanhece
o dia
o sol
o frio
a flor
a ave
a dor.
e eu
aqui
sem
amar
ou crer
sou.
que só
a
noite
ser.
olho para o lado e já não tenho flores.
não é tempo de primavera.
talvez outono, porque venta
tentada nesta janela
mirando o imenso chão em que jaz uma formiga
liberta de qualquer pensamento vão.
trabalha, ao som de meus lamentos
sou quase uma cigarra desafinada
contando as folhas que caem em seu lar
- o mundo. há sempre uma casa para ir.
saudade de cheirar jasmins.
quando volta a primavera?
quando voltar minha infância
livre de beijos, de choros na madrugada.
que lugar é esse, onde agora estou sentada?
é a preparação para o suicídio?
(ao menos assim terei flores)
ou a espera de coisa nenhuma?
assim tão louca, tão incrédula,
o que será que essa formiga vai pensar de mim?
ai vida, ah!, e essa mania de ser sopro
de ser vento, de querer mandar um beijo pelo ar
sai por aí voando, tal pássaro,
às vezes semente, caindo em qualquer lugar.
queria te colocar num bauzinho
cavar fundo na terra e fazer tu virar raiz.
mas não, tu cresce, me despenteia os cabelos
não mudo, que não sou planta, talvez uma flor de liz...
e esses incontáveis poemas que fiz pra tu
com cor de almíscar, cheiro de benjoim
vai, cicatriza meu corpo pequeno e frágil
vai, me joga, me enterra, me renasce em nosso jardim.
te quero como um amanhecer que nunca vem
ou que se vem, nasce escondido
por trás das nuvens nublando o caminho
e os pensamentos sempre na marcha ré.
te quero um pouquinho
e é uma grande mentira
quero teu corpo inteiro
e os sussurros na madrugada só nossa.
um cigarro demorado e a bebida latente
das frases descontroladas
do beijo fugitivo
te quero, sei lá,
esse hálito do que poderia ser.
a vida
ela foi dar um mergulho no mar
mas no meio do caminho
havia uma pedra
a vida
ela tropeçou, pulou
e caiu no azul cheio de peixes
turbulências e idas e voltas.
navegar é preciso,
mas não o mar,
é melhor viajar de avião,
do que naufragar assim,
já tão longe,
sozinha e sem explicação.
gosto da madrugada. é o meu momento silencioso de escavar, como quem procura um baú desesperadamente, por palavras que me façam respirar em paz. 
preciso de alguns versos que compreendam o pássaro azul dentro do meu peito. que afaguem a tristeza, que me deem um dia para chorar. mente quem diz dar a mão à solidão e dançar com ela, mesmo um tango argentino. a verdade é que ela, sorrateira, te apunhala pelas costas. ou melhor, te dá a arma e mostra tua cabeça. 
conforme o dia vai amanhecendo, percebo que cavei um buraco imenso, quase um abismo. e não há nada ali dentro. 
o que me resta é enterrar as palavras que eu mesma crio e morrer soterrada. 
ah, madrugada, tu é meu túmulo e minha ressurreição.
em noites como essa,
a madrugada apontando uma arma pro teu peito,
o relógio na parede te dando avisos
ameaças, como uma casa que que transpira e te sufoca,
sim, em noites como essa,
eu já não sei como é rezar,
já não consigo lembrar onde deixei os sapatos
e os pés descalços me trazem de volta
pro chão duro, frio e amargo onde estou agora.
em noites como essa,
casei-me com as ruas desertas,
o silêncio é o único grito que me acorda
essa insônia que parece falar comigo
é surda e cega, como os passos que dou ao tentar a sorte
de tatear no escuro algo que me salve.
em noites como essa,
não tenho palavras.
tenho talvez um eco que se esconde...
(o abismo nunca pode ser tão óbvio)

segunda-feira, julho 25, 2016

mais um copo, por favor
diz a moça que bebe.
é que se morre cedo
e a vida está atrasada.
mais um verso, por favor
diz a moça que escreve.
não há hora pra nascer,
mas é que tenho pressa.

quarta-feira, julho 20, 2016

as pequenas coisas
esses gestos quase passarinhos
devagar caminham
bom dia, meu amor,
uma carta e um desejo
que a estrada seja linda
toma uma flor,
cheira devagar pra ela não morrer.
fiz café forte
pra não desmaiarmos no meio da vida
será que o ônibus espera?
espera sim.
mas o café esfria...

quarta-feira, junho 08, 2016

há outras formas de escrever poesia.
sem essa de nos papéis da vida
imaginar figuras que sombreiam outros passos.
há o vento no cabelo,
e a música fazendo o caminho sorrir.
há o chocolate esquecido na bolsa
e aquele abraço que lembra o tempo em que ainda escrevíamos cartas.
falando nisso, tenho te escrito muitas cartas.
pena que não te envio.
porque ficam aqui, as palavras
rodando minhas manhãs ainda de insônia,
e minhas noites viciadas em café meio amargo.
ah, sempre preferi as coisas doces.
mas o açúcar sempre acaba,
ou é carregado pelas formigas,
sempre mais famintas que eu.
pra onde foi minha fome?
essa que me fazia comer sopa de entrelinhas.
sim, há outras formas de escrever poesia.
mas sinto falta da sombra que me seguia,
sem ter meu corpo,
sem ter meus passos,
ah! não se pode ser pássaro todos os dias.

terça-feira, abril 26, 2016

ela levantou, foi até o banheiro e depois pegou seu café. o rito de depois das duas da tarde já dizia que perdera mais horas do que deveria se permitir, e tudo estava normal. como qualquer acordar, como todos os dias - as paredes em seu lugar, as gatas sobrevivendo, o vento sendo capaz de tocar o instrumento musical que é o penduricalho na varanda.
exceto pela goteira. demorou pra esvaziar o copo de café, assim como todos os pensamentos em sua cabeça. e de repente o silêncio completo de estar só (ou quase). a goteira. a goteira. e percebeu que algo quebrava seu momento flutuante, o segundo que se descobre que respira seu pulmão já escuro dos cigarros. havia uma goteira.
o chão estava formando um poça e as gatas bebiam tranquilas o que parecia ser uma fonte de novidade. mas não, ela bem sabia: era uma ferida na casa. precisava tomar banho. imediatamente colocou um potinho pra acabar com a poça. terminou. e já transbordava. meu deus, quanto tempo demorou no banho? como uma simples e minúscula goteira teve a capacidade de transbordar um pote daquele tamanho?
colocou um balde, e foi ao mercado. precisava lembrar, lembrar de chamar alguém para consertar aquele incômodo. logo sua casa que nunca tivera problemas de infiltração, sua casa escura e sonolenta, sua pequena gaiola de palavras! nunca húmida, sempre morna, nunca fria, sempre morna. sua morada impenetrável... uma goteira!
abriu a porta de casa, carregando compras inúteis para completar o dia. e a água já estava em seus calcanhares. aquela goteira maldita havia transbordado o balde e sua casa agora estava inundada! começou a ligar para pessoas que pudessem resolver seu problema, mas ninguém podia fazer nada por ela naquele momento.
já não havia goteira, mas uma chuva dentro de casa. jurou que podia ouvir barulhos de trovões. começou a nadar na própria sala. deu um mergulho fundo e, ao abrir os olhos, não viu mais seus móveis silenciosos ou livros empoeirados. o copo de café na mesa havia desaparecido, pois tampouco havia mesa.
estava à deriva, no meio do mar. não havia mais nada à sua volta, senão água e um céu escuro e estrelado. ondas gigantes se aproximavam, mas não sentia medo. sabia que finalmente havia deixado o deserto para trás com suas miragens atrofiantes.
o som do despertador. é hora de acordar. é hora de acordar.
pulou da cama assustada. parecia tão real. meu deus, o que estou fazendo com minha vida?
e, de repente, escutou um barulho estranho e familiar vindo da sala. era o ruído de uma goteira.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

sobre o abismo e a queda

sou essa imensa e interminável escuridão, algo dizia em minha cabeça. não, não é uma metáfora - é o que me cabe quando não existem horas entre nós. disforme e instransponível, sou também o tempo estático que é o silêncio.
risco um fósforo: meu deus, começo a ver meus dedos! a pele sem tom definido, unhas imensas e os cabelos caindo como uma capa em minhas costas. sem espelho ao meu redor, sem ninguém a me ensinar como nascer, não posso ser mais nada senão pedaços de um rascunho deformado.
agora já consigo andar. tenho qualquer coisa chamada segundos até o fósforo se esvair. abro uma fresta na parede, taco fogo no pano que cobre o que não vejo, tudo incendeia ao meu redor. o espaço que abri: mais escuridão, mais do que me deu à luz.
há chamas por todos os lados. preciso sair. não sei se é uma janela do mundo ou um abismo. meus sentidos, que até agora não me faltaram, dizem que é o lado de fora.
vou, que só há o que ir. atravesso para onde quer que seja e sinto o peso da queda. caio tanto que parece que flutuo. já sem fósforo nenhum e o incêndio já distante, comecei a me tornar novamente escuridão. não tenho mais olhos, apenas um pulsar acelerado em meu peito dizendo adeus e sílabas soluçantes em minha cabeça.
estou indo. estou indo embora. mas só uma pergunta ainda existe dentro de mim:
de onde surgiu o fósforo?
tenho olhado muito pras paredes. sinto nelas um corpo vivo escorrendo minha solidão. são elas as únicas irmãs que me abraçam enquanto choro, que seguram minhas mãos nestes dias que já parecem uma vida inteira.
posso encostar a cabeça em sua pele fria e escutar, devagar, um ruído que são os dentes do passado, a calmaria de mastigar o vazio. há dias meus olhos são como estátuas fugindo da arte...
olho pras paredes como quem espera um milagre. espero, cansada, que desmoronem, mas cada vez mais se edificam. são como um padre aguardando a confissão. santificadas, me pedem paciência. desesperada, quase crio um altar e peço pra que me salvem.
há dias que falo com as paredes, há dias em que escrevo. não é a mesma coisa? esse pedaço de loucura que é dar a mão a si mesmo. essa espera de que uma bomba exploda na rua ou de que alguma palavra se torne, enfim, um gesto...
entender
entender a poesia e calar-se
abrir a cortina
e achar outra cortina
ver pelas frestas o dia
ou será uma música que descansa
movendo o pano,
ondulando os olhos que pedem?

segunda-feira, janeiro 25, 2016

estou faminta:
um pássaro fugiu do meu peito.
carregou em suas asas a seiva que me movia.
foi pra longe, com a voz do meu canto,
deixou o desencanto em minha morada.
arrasto o corpo ensanguentado,
a gaiola que é o meu peito rasgado
agora virou vazio
e o abismo ecoa, solitária.
saquei do porão a espingarda
e atirei no bandido
agora morto, de volta ao meu peito
já não tenho nada:
nem canto,
nem seiva,
nem asa.
a cama
que não ama
que não é lama
(às vezes sim)
não foi feita pra rimar.
é feita de silêncios
e canções repetidas
uma coisa se torna a outra
nessa minha solidão
que é sonâmbula:
escreve dormindo qualquer coisa
esse gesto de salvação...

segunda-feira, dezembro 28, 2015

à espera

de um milagre?
de um trovão
de um tombo
de um grito no escuro
de qualquer coisa que nasça da espera o agora.
não escolho o dia pra morrer.
tampouco a hora de acabar meu cigarro.
desconcentrada, o peso do ar em meu pulmão.
pensei na janela, na ponte e no décimo andar.
na faca da cozinha, na tesoura em minha gaveta.
os remédio infinitos, o travesseiro em meu pescoço.
despensei o telefone, a caixa de e-mail,
teu abraço que já não significa nada
quando não despenso.
e aí, que digitais deixo
como um crime imperfeito
que larga a memória como prova?
não sei se parto
cada folha que há em mim
às vezes árvore
às vezes rabisco
não sei
não sei se parto
e nunca olho para trás
com os olhos caídos e também partidos
não sei se parto
e nasço novamente
e renasço
depois de voltar.

corda-bamba

te pedi a mão
me mandou um beijo:
de longe um sopro
de perto um susto
quando eu cair,
vai chorar
ou aplaudir?
como estão silenciosas minhas mãos
e os olhos em profundo afogamento.
é de escuridão esta falta?,
esta casa sem chão,
um lamento, um pedido de socorro, uma lata vazia.
como ainda não descobri meu corpo?
é que morro de frio,
preciso me esconder sob os retalhos de vidro,
cantar baixinho um grito sem significado.
pedra atrás de pedra,
os lábios um muro calado
mastigando a dureza de se estar vivo

quarta-feira, outubro 28, 2015

há uma flor na beira do abismo
(não é a mesma do asfalto)
esfinge de pétalas passageiras
esperando o pulo ou o abraço.
sou o choro desesperado
nas noites mal dormidas
de um amor inacabado.
sou aquela angústia que plana 
voa pelo corpo calado
e aterriza na solidão da cama.
queria do beijo o retrato
que a memória me chama
pois este presente jamais acato.
há dias em que precisamos ir embora
levar conosco as flores do vaso
e plantá-las na terra.
deixar na pia do banheiro as lágrimas pingando,
pingando a solidão
que a inundação venha pela estrada
que me carregue pruma noite cheia de abraços.
confesso que há dias em que preciso andar
o rumo incerto, a arma certeira
as mãos vazias de mim mesma
arrancando sementes e raízes dos jardins recém-nascidos
há dias em que se batem portas
e o estrondo jamais será o silêncio de antes...
no fundo, a harmonia do que poderia ter sido.
há dias já não te reconheço mais.
posso soprar uma pena?
leve o medo pra outro tempo
voa com o compasso incerto
acerta meu corpo num canto torto
posso receber uma pena?
presa, mas ainda viva
grade, mas ainda sol
louca, mas ainda...
posso escrever uma pena?
nas lágrimas a matéria
nos dedos a procura
nessa pena a saída.

terça-feira, agosto 25, 2015

esqueci como se escreve um poema

antes tivessem me assaltado as palavras, que o esquecimento é o pior jardim para se nascer.
aliás, não nasce: vira túmulo na lama, com raízes secas e flores já cansadas.
queria tê-lo achado no bolso, mas vai ver estava furado, e ele foi por aí se apagando pelas estradas.
sei lá, esqueci. não julguem minha mente de senhora.
sempre achei a velhice um charme - essa história de se fazer poesia do nada.

spring waltz

there are flowers everywhere
e cores girando em marcha ré.
my body is a piece of lark
desritmado, seguindo a tarde.
the piano whispers me the wind
o poema desentardece, esfinge!
flowers, body, piano,
floresço, escrevendo...