Aqui, por onde vejo as nuvens passar
E por onde o tempo parece estático,
Às vezes consigo sentir cada átomo do
Universo misturar-se à minha alma.
As asas dos anjos roçam por meus cabelos,
Até a vida tornar-se eterna.
E o vento parece ser um sopro de paz,
Em meio a tanto azul que escorre do céu.
Ao lado de Deus pareço estar,
Sem nenhum pecado ou rancor.
Somente impulsionado por este vento
E de corpo e alma pintados de arco-iris.
quinta-feira, abril 12, 2007
quarta-feira, março 28, 2007
quarta-feira, março 14, 2007
SonhoSonharSonhado.
Meu sonho é poder sonhar.
Eu não sei fazê-lo, você pode me ensinar?
O rosa se mistura com o azul,
E o verde com o blue.
Como posso misturar as cores?
Não sei misturar nada, senão dores com amores!
Oh, por favor!
Tome um papel em branco e sinta seu calor.
Minha vida é não saber,
Como posso desenhar e pintar sem escurecer?
Apenas sinta o que deve sentir,
Não tente olhar nem contar, apenas deixe a tinta fluir.
Senhor, bigode e óculos!
Sou jovem, desprotegido, dê-me todos seus votos!
Não posso e não devo!
Você é quem deve descobrir a sorte do trevo!
Eu só quero sonhar,
O que precisa um pobre homem fazer para amar?
Adeus, homem sem sonhos!
Nada mais posso tirar, senão de uma cartola coloridos pombos!
Oh, que se vá!
Aqui eu fico cavando meu túmulo real com uma pá!
Um dia você vai sonhar,
Apena sonhe com isso e sonhando já vai estar!
Talvez eu seja o sonho amado,
O que tanto almejo calado.
Sim, você é.
Agora, por favor, saia do meu pé!
Sairei e voltarei a sonhar!
Adeus, óculos, tesoura e calcanhar!
Eu não sei fazê-lo, você pode me ensinar?
O rosa se mistura com o azul,
E o verde com o blue.
Como posso misturar as cores?
Não sei misturar nada, senão dores com amores!
Oh, por favor!
Tome um papel em branco e sinta seu calor.
Minha vida é não saber,
Como posso desenhar e pintar sem escurecer?
Apenas sinta o que deve sentir,
Não tente olhar nem contar, apenas deixe a tinta fluir.
Senhor, bigode e óculos!
Sou jovem, desprotegido, dê-me todos seus votos!
Não posso e não devo!
Você é quem deve descobrir a sorte do trevo!
Eu só quero sonhar,
O que precisa um pobre homem fazer para amar?
Adeus, homem sem sonhos!
Nada mais posso tirar, senão de uma cartola coloridos pombos!
Oh, que se vá!
Aqui eu fico cavando meu túmulo real com uma pá!
Um dia você vai sonhar,
Apena sonhe com isso e sonhando já vai estar!
Talvez eu seja o sonho amado,
O que tanto almejo calado.
Sim, você é.
Agora, por favor, saia do meu pé!
Sairei e voltarei a sonhar!
Adeus, óculos, tesoura e calcanhar!
domingo, fevereiro 25, 2007
O Trem.
É um trem imenso, por onde todos viajam. Sua plataforma é feita de vento, para que empurre os sentimentos rumo ao futuro. Possui somente cinco vagões, um para cada fase da vida e o último para a não-fase.
Ele pisou no primeiro vagão. O trem parecia ir devagar, as janelas estavam meio fechadas, e o ar entrava de leve. Tudo era mágico: o balançar, os trilhos soltando algumas faíscas, de vez em quando, e a música tocada por ninguém. Olhava por uma das janelas, e os trilhos pareciam não haver fim.
Ele via outros, debruçando-se pelas janelas e brincando e rodando e pulando. Dizia-se, por aí, que este era o mais bagunçado vagão de todos. E também o mais feliz. Ele não sabia se era, afinal, nunca visitara os outros. E não podia fazê-lo, até que um camareiro viesse entregar-lhe a chave para abrir a porta de ligação.
Ele pisou no segundo vagão. A sensação foi estranha. Achava que nunca receberia chave alguma. Mas, enfim, uma porta se abriu. Como este era diferente do primeiro! Umas garotas, que nunca havia reparado antes, piscavam para ele, e alguns de seus amiguinhos bebiam líquidos que os deixavam muito, muito felizes.
Ele sentia como se o trem houvesse disparado. Os trilhos e a paisagem passavam rápido. Ele nem conseguia ver as árvores direito. Começou a sentir uma pontada de saudade do primeiro vagão. E uma saudade dos seus antigos amigos que, agora, estavam tão diferentes do que já foram um dia.
Ele pisou no terceiro vagão. Sua cabeça doía. O trem andava mais rápido do que nunca! Nem chegava mais perto das janelas. Ora, para quê? Conhecia aquele cenário há muito, estava cansado de árvores, casas, trilhos, ah! Tudo se repetia, tudo. Seu coração fora partido e estava sozinho, sem vontade para nada.
Foi quando ele sentiu a vontade louca de voltar os vagões. De fugir para o primeiro, para sua lentidão. Mas não pôde voltar, a porta estava trancada para sempre. Começou a chorar. Estava sozinho, enjoado. Pensou em pular pela janela, mas resolveu sentar-se e esperar pelo que vinha pela frente. Nada poderia piorar.
Ele pisou no quarto vagão. Apaixonou-se por um lindo par de olhos cansados e tristes. Pena tê-la conhecido apenas no penúltimo vagão. Queria viver com ela para sempre! E viveu. Mas o último vagão estava chegando, e ele começou a temer. Afinal, o que vinha após o último? O último de tudo?
Passou a ver graça em tudo novamente, pois era o último vagão chegando! Sentou-se, com sua amada, em uma noite chuvosa, e fez juras de amor eterno. Sentiria sua falta, onde quer que fosse parar. Não é preciso citar o quão doloroso foi o adeus dos dois corações rubros e cheios de vida para oferecer.
Ele pisou no quinto vagão. Lembrou-se de tudo que havia passado até ali e chorou. Era tudo tão colorido, misturado, sereno...
Foi avisado que, na próxima estação, deixaria o trem para sempre.
E soltou. Sozinho, até desfazer-se inteiro e misturar-se com o vento. Perdeu os pensamentos, ou estes simplesmente deixaram-se perder.
Mas o trem continuou.
Sem parar. Sem parar. Sem parar.
Eternamente...
Ele pisou no primeiro vagão. O trem parecia ir devagar, as janelas estavam meio fechadas, e o ar entrava de leve. Tudo era mágico: o balançar, os trilhos soltando algumas faíscas, de vez em quando, e a música tocada por ninguém. Olhava por uma das janelas, e os trilhos pareciam não haver fim.
Ele via outros, debruçando-se pelas janelas e brincando e rodando e pulando. Dizia-se, por aí, que este era o mais bagunçado vagão de todos. E também o mais feliz. Ele não sabia se era, afinal, nunca visitara os outros. E não podia fazê-lo, até que um camareiro viesse entregar-lhe a chave para abrir a porta de ligação.
Ele pisou no segundo vagão. A sensação foi estranha. Achava que nunca receberia chave alguma. Mas, enfim, uma porta se abriu. Como este era diferente do primeiro! Umas garotas, que nunca havia reparado antes, piscavam para ele, e alguns de seus amiguinhos bebiam líquidos que os deixavam muito, muito felizes.
Ele sentia como se o trem houvesse disparado. Os trilhos e a paisagem passavam rápido. Ele nem conseguia ver as árvores direito. Começou a sentir uma pontada de saudade do primeiro vagão. E uma saudade dos seus antigos amigos que, agora, estavam tão diferentes do que já foram um dia.
Ele pisou no terceiro vagão. Sua cabeça doía. O trem andava mais rápido do que nunca! Nem chegava mais perto das janelas. Ora, para quê? Conhecia aquele cenário há muito, estava cansado de árvores, casas, trilhos, ah! Tudo se repetia, tudo. Seu coração fora partido e estava sozinho, sem vontade para nada.
Foi quando ele sentiu a vontade louca de voltar os vagões. De fugir para o primeiro, para sua lentidão. Mas não pôde voltar, a porta estava trancada para sempre. Começou a chorar. Estava sozinho, enjoado. Pensou em pular pela janela, mas resolveu sentar-se e esperar pelo que vinha pela frente. Nada poderia piorar.
Ele pisou no quarto vagão. Apaixonou-se por um lindo par de olhos cansados e tristes. Pena tê-la conhecido apenas no penúltimo vagão. Queria viver com ela para sempre! E viveu. Mas o último vagão estava chegando, e ele começou a temer. Afinal, o que vinha após o último? O último de tudo?
Passou a ver graça em tudo novamente, pois era o último vagão chegando! Sentou-se, com sua amada, em uma noite chuvosa, e fez juras de amor eterno. Sentiria sua falta, onde quer que fosse parar. Não é preciso citar o quão doloroso foi o adeus dos dois corações rubros e cheios de vida para oferecer.
Ele pisou no quinto vagão. Lembrou-se de tudo que havia passado até ali e chorou. Era tudo tão colorido, misturado, sereno...
Foi avisado que, na próxima estação, deixaria o trem para sempre.
E soltou. Sozinho, até desfazer-se inteiro e misturar-se com o vento. Perdeu os pensamentos, ou estes simplesmente deixaram-se perder.
Mas o trem continuou.
Sem parar. Sem parar. Sem parar.
Eternamente...
domingo, fevereiro 04, 2007
Algo além.
Eu luto porque preciso,
Porque, sem lutar, eu morro.
Entregar-me é fácil,
Mas a derrota vem logo após.
Se o mundo cair à minha volta,
Vou a reconstruí-lo.
Já que, se ele cair,
Eu caio para o inferno.
Viver não é difícil.
Difícil é não viver.
E, não vivendo,
A vida desfalece.
Por acabar, preciso surgir
Do meio de tantos pensamentos
E acabar com todos os sentimentos,
Que me apunhalam a cada respirar.
Porque, sem lutar, eu morro.
Entregar-me é fácil,
Mas a derrota vem logo após.
Se o mundo cair à minha volta,
Vou a reconstruí-lo.
Já que, se ele cair,
Eu caio para o inferno.
Viver não é difícil.
Difícil é não viver.
E, não vivendo,
A vida desfalece.
Por acabar, preciso surgir
Do meio de tantos pensamentos
E acabar com todos os sentimentos,
Que me apunhalam a cada respirar.
sábado, janeiro 20, 2007
A Roda Gigante.
Eu me lembro bem do triste rostinho daquela menina de vestido florido. Ela era linda, de seus seis anos tão frágeis como seus olhos azuis iluminados. Devia estar ali há tempos, somente olhando, com uma calma de anjo que chegava a doer a alma. Os pés iam empurando a areia de vez em quando, como quem diz que adoraria sentir o ar do alto, apenas para ver o cabelo balançar.
As outras crianças saíam enjoadas, com medo. Os pais reclamando que odeiam isso tudo, que estão perdendo a novela das oito ou o jornal. Mas a menininha continuava ali, ignorando os rostos de desgosto das crianças que saíam do brinquedo, ignorando os comentários bruscos dos adultos. Parecia que nada poderia desanimá-la.
Sentei-me em um banco, somente para observar a menina. Ela estaria sozinha? Mas era tão pequenina... não poderia estar sem os pais.
Resolvi falar com a doce criança, imagine se estivesse perdida, estava com um rosto tão decepcionado, tão triste...
- Ei, menina, você está bem? - perguntei quase sussurando, para não assustá-la.
Ela não respondeu. Pareceu não ter escutado, estava com toda atenção naquele imenso objeto.
- Menina... está tudo bem? - perguntei novamente, um pouco mais alto.
Ela olhou para mim e moveu os lábios como se fosse responder, mas pareceu que mudou de idéia e virou o rosto subitamente.
- Você está perdida?
- Mamãe diz que não devo falar com estranhos... - disse, e era a voz mais angelical que já ouvira em toda minha vida.
Pensei por um minuto no que falar, ela estava certa. Eu era um completo estranho.
- E onde está sua mãe?
- Ela... ela não sabe que estou aqui, ela não gosta de parques e diz que não tem dinheiro para eu andar nos brinquedos...
A menina pareceu suspirar, continuava a olhar fixamente para sua frente, não me encarava, como se quisesse esconder a tristeza.
- Há quanto tempo está aqui? - bateu-me um aperto no peito, que mãe não teria dinheiro para levar a filha a um parque?
- Desde tardinha...
- E por que só olha para esse brinquedo? Não gosta dos outros?
- É que... eu ouvi um menino dizendo que você pode tocar a lua, lá do alto... mas eu não tenho como tocar... não tenho dinheiro...
Parei por um segundo. Que sonho. Tocar a Lua... que criança mais bela. Que verdade mais linda.
Vi uma lágrima escorrendo de seus olhos. E não é sempre isso que acontece? Quando não conseguimos transformar nossos sonhos em realidade? Nós choramos.
- E se eu for na roda gigante com você? Eu pago sua entrada. - fazer acontecer, pensei.
- Eu... mesmo? Comigo? Lá no alto? - seus olhos encheram-se de sorrisos.
- Sim. - sorri para ela.
Peguei em suas mãos, a filha que nunca tive, e paguei as duas entradas. Sentamos no banco da roda gigante e lá fomos nós. O céu estava abarrotado de estrelas, naquela noite. E a Lua estava bem na nossa frente. Parecia chamar-nos para dançarmos uma cantiga de roda, para lembrarmos do tempo em que não existíamos. Peguei em sua mão e a coloquei no espaço em que a lua se encontrava.
- Viu? Agora você tocou a lua.
Ela abriu um enorme sorriso, daqueles sinceros e únicos.
Ficou maravilhada com o vento batendo em sua pele. Parecia que aquele era o momento mais feliz de toda sua pequena vida. A cada volta, ela suspirava mais, como se estivesse comendo um doce e não quisesse que ele acabasse. Mas o passeio estava acabando e nós já teríamos que descer.
- Bem, parece que acabou. - disse, meio chateado.
Ela soltou um pequeno riso e desceu do brinquedo correndo. Eu não tive tempo nem para levantar-me, e ela já estava na porta do parque, dando adeus para mim...
Não recebi obrigada. Não recebi agradecimento. Fique triste por saber que nunca mais veria aquele sorriso novamente. Mas alegrei-me ao saber que transformara o sonho de uma menina em realidade.
Percebi, então, que ela não agradeceu com palavras, mas agradeceu com a maior felicidade que já tivera. E isso, meus caros, nem mesmo uma palavra de afeto poderia substituir.
As outras crianças saíam enjoadas, com medo. Os pais reclamando que odeiam isso tudo, que estão perdendo a novela das oito ou o jornal. Mas a menininha continuava ali, ignorando os rostos de desgosto das crianças que saíam do brinquedo, ignorando os comentários bruscos dos adultos. Parecia que nada poderia desanimá-la.
Sentei-me em um banco, somente para observar a menina. Ela estaria sozinha? Mas era tão pequenina... não poderia estar sem os pais.
Resolvi falar com a doce criança, imagine se estivesse perdida, estava com um rosto tão decepcionado, tão triste...
- Ei, menina, você está bem? - perguntei quase sussurando, para não assustá-la.
Ela não respondeu. Pareceu não ter escutado, estava com toda atenção naquele imenso objeto.
- Menina... está tudo bem? - perguntei novamente, um pouco mais alto.
Ela olhou para mim e moveu os lábios como se fosse responder, mas pareceu que mudou de idéia e virou o rosto subitamente.
- Você está perdida?
- Mamãe diz que não devo falar com estranhos... - disse, e era a voz mais angelical que já ouvira em toda minha vida.
Pensei por um minuto no que falar, ela estava certa. Eu era um completo estranho.
- E onde está sua mãe?
- Ela... ela não sabe que estou aqui, ela não gosta de parques e diz que não tem dinheiro para eu andar nos brinquedos...
A menina pareceu suspirar, continuava a olhar fixamente para sua frente, não me encarava, como se quisesse esconder a tristeza.
- Há quanto tempo está aqui? - bateu-me um aperto no peito, que mãe não teria dinheiro para levar a filha a um parque?
- Desde tardinha...
- E por que só olha para esse brinquedo? Não gosta dos outros?
- É que... eu ouvi um menino dizendo que você pode tocar a lua, lá do alto... mas eu não tenho como tocar... não tenho dinheiro...
Parei por um segundo. Que sonho. Tocar a Lua... que criança mais bela. Que verdade mais linda.
Vi uma lágrima escorrendo de seus olhos. E não é sempre isso que acontece? Quando não conseguimos transformar nossos sonhos em realidade? Nós choramos.
- E se eu for na roda gigante com você? Eu pago sua entrada. - fazer acontecer, pensei.
- Eu... mesmo? Comigo? Lá no alto? - seus olhos encheram-se de sorrisos.
- Sim. - sorri para ela.
Peguei em suas mãos, a filha que nunca tive, e paguei as duas entradas. Sentamos no banco da roda gigante e lá fomos nós. O céu estava abarrotado de estrelas, naquela noite. E a Lua estava bem na nossa frente. Parecia chamar-nos para dançarmos uma cantiga de roda, para lembrarmos do tempo em que não existíamos. Peguei em sua mão e a coloquei no espaço em que a lua se encontrava.
- Viu? Agora você tocou a lua.
Ela abriu um enorme sorriso, daqueles sinceros e únicos.
Ficou maravilhada com o vento batendo em sua pele. Parecia que aquele era o momento mais feliz de toda sua pequena vida. A cada volta, ela suspirava mais, como se estivesse comendo um doce e não quisesse que ele acabasse. Mas o passeio estava acabando e nós já teríamos que descer.
- Bem, parece que acabou. - disse, meio chateado.
Ela soltou um pequeno riso e desceu do brinquedo correndo. Eu não tive tempo nem para levantar-me, e ela já estava na porta do parque, dando adeus para mim...
Não recebi obrigada. Não recebi agradecimento. Fique triste por saber que nunca mais veria aquele sorriso novamente. Mas alegrei-me ao saber que transformara o sonho de uma menina em realidade.
Percebi, então, que ela não agradeceu com palavras, mas agradeceu com a maior felicidade que já tivera. E isso, meus caros, nem mesmo uma palavra de afeto poderia substituir.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Gota.
Vim dizer-lhe,
Gota de água,
O que meu coração suprime.
Você pode senti-lo bater?
Tum. Tum. Tum.
Ele quebra a sintonia de sua morte.
Cai, gota, ao chão.
Deixa de viver,
Como terra,
Como água,
Como pó.
Cai, gota, nos meus fios de cabelo
E penteia minha alma.
Você consegue descê-los, sem neles tocar?
Vai, vai embora com o vento.
Para longe.
Misture-se com a chuva.
E leve consigo uma lágrima, gota.
- Uma lágrima-gota.
Gota de água,
O que meu coração suprime.
Você pode senti-lo bater?
Tum. Tum. Tum.
Ele quebra a sintonia de sua morte.
Cai, gota, ao chão.
Deixa de viver,
Como terra,
Como água,
Como pó.
Cai, gota, nos meus fios de cabelo
E penteia minha alma.
Você consegue descê-los, sem neles tocar?
Vai, vai embora com o vento.
Para longe.
Misture-se com a chuva.
E leve consigo uma lágrima, gota.
- Uma lágrima-gota.
terça-feira, janeiro 16, 2007
Ainda Assim.
Se eu fosse vestígio
Do que já se passou,
Ainda assim,
você me recordaria?
Se eu fosse um símbolo,
Fechado, cravado: uma incógnita,
Ainda assim,
Você me decifraria?
Se eu fosse a água poluída
De rios mentirosos,
Ainda assim,
Você me nadaria?
Se eu fosse a vida
Com desgraça e sem sorrisos,
Ainda assim,
Você me viveria?
- Pergunto-lhe, ao final:
Se eu fosse o que sou,
Escondida por máscaras,
Atrás de sentimentos não-sentimentais
Se eu fosse um espinho em vez de rosa,
Se eu fosse má poesia em vez de prosa,
Se eu fosse inferno em vez de céu
Se eu fosse amarga em vez de mel,
Ainda assim,
Você me amaria?
[ Se, ainda assim, você me amar, eu lhe pago uma bebida. ]
Do que já se passou,
Ainda assim,
você me recordaria?
Se eu fosse um símbolo,
Fechado, cravado: uma incógnita,
Ainda assim,
Você me decifraria?
Se eu fosse a água poluída
De rios mentirosos,
Ainda assim,
Você me nadaria?
Se eu fosse a vida
Com desgraça e sem sorrisos,
Ainda assim,
Você me viveria?
- Pergunto-lhe, ao final:
Se eu fosse o que sou,
Escondida por máscaras,
Atrás de sentimentos não-sentimentais
Se eu fosse um espinho em vez de rosa,
Se eu fosse má poesia em vez de prosa,
Se eu fosse inferno em vez de céu
Se eu fosse amarga em vez de mel,
Ainda assim,
Você me amaria?
[ Se, ainda assim, você me amar, eu lhe pago uma bebida. ]
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Balançar.
Uma flor em minha consciência desabrochou, quando escutei sua calma voz. Quase um sussurro, vida calma de recém descobertas. Uma criança, para mim. Para outros, apenas um objeto a pisar-se. Quem sabe uma meia suja, sem importância, que jogamos na lata de licho. Era disso que essa criança vivia. De opiniões ante-conceituadas.
Naquela tardezinha, em frente ao banco do parque, ela se balançava. Sua pele negrinha encostava no vento, enquanto suas madechas o acompanhavam. Sorria, sozinha, sempre sozinha, porque era negra. E negros, em 1758, só tinham a si mesmos e ao preconceito de todos, inclusive o deles próprios.
Eu me sentei naquele gramado verde e fique a observá-la. Ela balançava despreocupada, parecia que não tinha nenhum adulto por perto. Não era normal uma crinaça negra por essa parte da cidade, era perigoso para ela. Se alguém maldoso e racista o suficiente a visse, com certeza ela tomaria uma boa sova. Mas parecia que nada poderia mudar sua tranqüilidade.
Adormeci, por um tempo, encostada numa árvore, e fui acordada com um cantarolar gostoso, tão leve, que parecia um sonho.
Mãezinha do céu, eu não sei rezar.
Só sei dizer quero te amar...
Abri os olhos e espreguicei-me. Aquela voz macia vinha da menina negrinha, naquele balançar contínuo. Parecia que nunca cansava de balançar, era quase como se estivesse voando, para lá e para cá. Piscava os olhos quase raramente e, até aquele momento, parecia que não havia me notado. Virou o olhar, para mim, então, subitamente e não se mostrou surpresa ao ver-me ali. Eu, pelo contrário, achei a situação anormal, já que eu era uma mulher branca e desconhecida para a menininha.
Ela continuou com sua calma, em meio àquele ar deserto de vida. Algumas poucas pessoas que passavam olhavam feio para a doce garotinha no balanço e, depois, olhavam mais feio ainda para mim, por estar tão perto de uma negra sem ter nojo ou sem fazer nada para tirá-la de uma pracinha de crianças brancas.
Voltei a pensar comigo. Uma criança sozinha já era estranho de encontrar. O que uma menina negra estaria fazendo sozinha por aqui? Não sentia medo? Não era já tão nova assim, sabia, provavelmente, dos perigos que todos poderiam representar a ela.
Azul é seu manto,
Branco é seu véu...
Voz suave. Voz única. Que menina seria esta? Meu olhar não conseguia sair de perto desta criança! Tão segura de si, tão calma, tão corajosa. Será que estaria sozinha no mundo? Não, mesmo que estivesse, não me permitiriam adotá-la. Meu marido odiaria a situação! Mas... e se ela estiver sozinha?
Não, ela está arrumadinha, parece que veio da igreja, afinal, hoje é domingo. Sim, os pais devem tê-la deixado na escolinha e ela fugiu para cá! Eles devem estar preocupadíssimos.
Pensei em levantar-me, naquela mesma hora, para poder comunicar-me com a criança. Mas paralizei-me, quando ela voltou a cantar. Sua voz era quase... mágica.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu...
Então ela finalizou a voz e a música. Parou também de balançar-se. Eu levantei e fui em sua direção, ela levantou o doce rostinho para mim e alargou um grande sorriso. Meus passos foram devagando, pensativos, até chegarem em frente à pequena figura de branco. Respirei e pousei a mão sobre seu cabelo, fiz um carinho.
- Menina, está sozinha? - perguntei, o mais gentil possível.
- Não, nunca estou sozinha!
- Como não!? Onde estão seus pais?
- Eu não tenho pais, não aqui!
- E onde os tem?
Ela deu uma risada gostosa, bem infatil, e levantou as sombrancelhas. Dobrou um pouco o rosto e pegou em uma das minhas mãos. Ergueu-a e fez com que um de meus dedos apontassem para o céu. Eu me surpreendi com aquele gesto, mas minha fé sempre foi muito escassa. Porém, não queria acabar com toda a esperança de uma criança nesse mundo.
- Ah, sim... você quer dizer que Deus é seu pai?
- Uhum.
- Mas para aonde foram seus pais daqui, sabe? A mamãe e o papai?
- Não há mamãe e papai, ora!
Então, ela correu. Correu realmente como quem tem força de vontade. E eu corri atrás, não podia deixá-la sozinha! Ela atravessou a rua sem nem mesmo olhar para o lado e se encaminhou para dentro de um prédio. Entrei logo após, e tudo estava vazio. Vi seus cabelos balançarem pela escadaria e, cansada, segui-a, degrau por degrau.
Subi muitas escadas, o suor já estava batendo no meu rosto. Chegamos até o final de tudo, só havia, agora, o que descer. Abri uma porta que dava para o andar mais alto e a vi, o vento sempre em sua direção. Meu coração acelerou! Ela estava em cima da borda, mais um passo e despencaria no ar.
- Menina! O que está fazendo?!!! Vamos, desça já daí!
Ela virou seu rosto sorridente para mim e deu uma longa piscada. Jogou-me um rosário azul, ao qual eu agarrei com toda minha vida.
E logo depois... caiu.
Ao menos foi o que pensei naquele instante.
Corri para onde a menina estava e, ao longe, eu a vi. Ela estava um pouco distante, mas seus cabelos não me enganaram.
Consigo, batiam duas longas e brancas asas, que refletiam em constrate à sua eterna beleza negra.
Apertei o rosário bem forte e voltei para a escadaria, escutando uma música suave entoar em minha mente...
Naquela tardezinha, em frente ao banco do parque, ela se balançava. Sua pele negrinha encostava no vento, enquanto suas madechas o acompanhavam. Sorria, sozinha, sempre sozinha, porque era negra. E negros, em 1758, só tinham a si mesmos e ao preconceito de todos, inclusive o deles próprios.
Eu me sentei naquele gramado verde e fique a observá-la. Ela balançava despreocupada, parecia que não tinha nenhum adulto por perto. Não era normal uma crinaça negra por essa parte da cidade, era perigoso para ela. Se alguém maldoso e racista o suficiente a visse, com certeza ela tomaria uma boa sova. Mas parecia que nada poderia mudar sua tranqüilidade.
Adormeci, por um tempo, encostada numa árvore, e fui acordada com um cantarolar gostoso, tão leve, que parecia um sonho.
Mãezinha do céu, eu não sei rezar.
Só sei dizer quero te amar...
Abri os olhos e espreguicei-me. Aquela voz macia vinha da menina negrinha, naquele balançar contínuo. Parecia que nunca cansava de balançar, era quase como se estivesse voando, para lá e para cá. Piscava os olhos quase raramente e, até aquele momento, parecia que não havia me notado. Virou o olhar, para mim, então, subitamente e não se mostrou surpresa ao ver-me ali. Eu, pelo contrário, achei a situação anormal, já que eu era uma mulher branca e desconhecida para a menininha.
Ela continuou com sua calma, em meio àquele ar deserto de vida. Algumas poucas pessoas que passavam olhavam feio para a doce garotinha no balanço e, depois, olhavam mais feio ainda para mim, por estar tão perto de uma negra sem ter nojo ou sem fazer nada para tirá-la de uma pracinha de crianças brancas.
Voltei a pensar comigo. Uma criança sozinha já era estranho de encontrar. O que uma menina negra estaria fazendo sozinha por aqui? Não sentia medo? Não era já tão nova assim, sabia, provavelmente, dos perigos que todos poderiam representar a ela.
Azul é seu manto,
Branco é seu véu...
Voz suave. Voz única. Que menina seria esta? Meu olhar não conseguia sair de perto desta criança! Tão segura de si, tão calma, tão corajosa. Será que estaria sozinha no mundo? Não, mesmo que estivesse, não me permitiriam adotá-la. Meu marido odiaria a situação! Mas... e se ela estiver sozinha?
Não, ela está arrumadinha, parece que veio da igreja, afinal, hoje é domingo. Sim, os pais devem tê-la deixado na escolinha e ela fugiu para cá! Eles devem estar preocupadíssimos.
Pensei em levantar-me, naquela mesma hora, para poder comunicar-me com a criança. Mas paralizei-me, quando ela voltou a cantar. Sua voz era quase... mágica.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu...
Então ela finalizou a voz e a música. Parou também de balançar-se. Eu levantei e fui em sua direção, ela levantou o doce rostinho para mim e alargou um grande sorriso. Meus passos foram devagando, pensativos, até chegarem em frente à pequena figura de branco. Respirei e pousei a mão sobre seu cabelo, fiz um carinho.
- Menina, está sozinha? - perguntei, o mais gentil possível.
- Não, nunca estou sozinha!
- Como não!? Onde estão seus pais?
- Eu não tenho pais, não aqui!
- E onde os tem?
Ela deu uma risada gostosa, bem infatil, e levantou as sombrancelhas. Dobrou um pouco o rosto e pegou em uma das minhas mãos. Ergueu-a e fez com que um de meus dedos apontassem para o céu. Eu me surpreendi com aquele gesto, mas minha fé sempre foi muito escassa. Porém, não queria acabar com toda a esperança de uma criança nesse mundo.
- Ah, sim... você quer dizer que Deus é seu pai?
- Uhum.
- Mas para aonde foram seus pais daqui, sabe? A mamãe e o papai?
- Não há mamãe e papai, ora!
Então, ela correu. Correu realmente como quem tem força de vontade. E eu corri atrás, não podia deixá-la sozinha! Ela atravessou a rua sem nem mesmo olhar para o lado e se encaminhou para dentro de um prédio. Entrei logo após, e tudo estava vazio. Vi seus cabelos balançarem pela escadaria e, cansada, segui-a, degrau por degrau.
Subi muitas escadas, o suor já estava batendo no meu rosto. Chegamos até o final de tudo, só havia, agora, o que descer. Abri uma porta que dava para o andar mais alto e a vi, o vento sempre em sua direção. Meu coração acelerou! Ela estava em cima da borda, mais um passo e despencaria no ar.
- Menina! O que está fazendo?!!! Vamos, desça já daí!
Ela virou seu rosto sorridente para mim e deu uma longa piscada. Jogou-me um rosário azul, ao qual eu agarrei com toda minha vida.
E logo depois... caiu.
Ao menos foi o que pensei naquele instante.
Corri para onde a menina estava e, ao longe, eu a vi. Ela estava um pouco distante, mas seus cabelos não me enganaram.
Consigo, batiam duas longas e brancas asas, que refletiam em constrate à sua eterna beleza negra.
Apertei o rosário bem forte e voltei para a escadaria, escutando uma música suave entoar em minha mente...
terça-feira, janeiro 02, 2007
Quandos de Eternidade.
Quando te vi, ainda era pequeno.
Gota de água, sem cor e sem vestígio.
Uma criança de vida nova.
Quando te sorri, já era moço.
Verdades de mentiras em tua face.
Gritei: Vive tua existência!
Quando te amei, homem se formara.
Lindo tu eras, com graças e paixões.
Tudo passageiro, à flor da pele.
Quando te dei adeus, a morte me chamava.
Minha pele estava seca, e tu estavas divino.
Amor, minha criança, cravei-te um beijo na alma.
Gota de água, sem cor e sem vestígio.
Uma criança de vida nova.
Quando te sorri, já era moço.
Verdades de mentiras em tua face.
Gritei: Vive tua existência!
Quando te amei, homem se formara.
Lindo tu eras, com graças e paixões.
Tudo passageiro, à flor da pele.
Quando te dei adeus, a morte me chamava.
Minha pele estava seca, e tu estavas divino.
Amor, minha criança, cravei-te um beijo na alma.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Do Silêncio Se Faz A Fé?
O homem entrou na igreja mancando, sua perna estava sendo arrastada por seu corpo quente e eufórico. Algumas pessoas estavam ajoelhadas, rezando para as imagens com faces tão duras. Não repararam quando e como o tapete central estava sendo sujo, enquanto o homem passava lentamente, até conseguir chegar ao centro das imagens, onde havia uma grande cruz de um Jesus crucificado.
Ajoelhou-se com muita dor e dificuldade e olhou para os lados. Cerca de umas quinze pessoas rezando, três crianças conversando. Suspirou o silêncio. As coisas não precivam ser assim, ele sabia. Mas agora já havia começado. Iria até o final, como prometera à sua família, cheia de ambições.
- Deus! Eu sou um homem pecador, como tantos outros. Eu errei e logo voltarei para meus erros. Nasci naquele lugar, cheio de morte e violência. Drogas, prostituição, não havia fé! Deus, por onde Você esteve? Precisei tanto de Você, quando fui preso, maltratado, quando vi criança morrer! Oh, não, minha irmã de dez anos se foi, baleada por um policial! Por quê?, meu Deus, por quê?
O homem chorou e abaixou a cabeça. Sua perna doía, sabia que logo iria morrer. Um policial o pegou de vez. Hoje foi o dia do terror e da morte para muitas pessoas. Ônibus foram queimados, granadas foram soltas, pessoas foram baleadas. Agora, sim, a verdade iria aparecer aos olhos de todos. E isso é apenas o começo.
Todos os dias, pessoas morrem por violência. Todos os dias, alguma criança é iniciada no tráfico. Todos os dias, alguém perde a esperança.
Quem nasce em uma favela quase não tem escapatória. Cresce com a morte, com as drogas, com maldade ao lado. Para onde foram as pessoas boas? Para onde foram todos? Parecem animais, sem vida, sem piedade, apenas se importam com seu lucro pessoal. Não ligam de matar, de roubar, de culpar! Culpa? A culpa é de quem?
- Deus! Ah, Deus! Eu quis matar! Eu não me arrependo. Eu não tenho nada, nosso povo não tem nada, precisamos nos expor. Eu não queria ter crescido assim, com arma na mão. Não queria ter perdido a fé. Mas, Deus, onde Você está? Porque não me ajuda? Eu precisava tanto de alguém para me guiar. Eu sou errado, todos são errados! Onde está a certeza?
Fez-se um pausa, as lágrimas caíam sem parar. Todos os culpavam, sem antes olhar seus motivos. Nada justifica, é verdade. Mas também nada justifica a situação em que estão. Por que uns podem tudo e outros não podem nada? Por que tanta ganância? Por quê? Para onde foram os bons, os amigos, os verdadeiros? Por que a maldade prevalece tanto? Por quê?
A resposta está dentro do coração de cada um.
- Venho aqui pedir-lhe perdão. Não fui certo e, antes de morrer, também não serei. Hoje se esgotou meu acreditar. Hoje eu matei a muitos e a mim mesmo. Hoje eu matei um pouco de Você, Deus, como todos fazem um pouco todos os dias. Desisto, aqui, e agora. E sei que o inferno me aguarda. Amém.
Levantou-se, com a maior dificuldade do mundo e fez o sinal da cruz. Abriu uma grande bolsa que carregou até ali e tirou uma grande arma de lá de dentro. Olhou para a cruz e pediu perdão. Começou a atirar em todos que estavam rezando. As crianças gritaram, mas o sangue escorreu de seu pequenos corpinhos recém-vividos. Todos morreram, sem piedade. Após o massacre, virou a arma para si mesmo e deixou de existir, com todos os seus pecados e com todas as suas mortes inocentes.
A Igreja continuava no silêncio, agora com sofrimento e sem vida.
Mais tarde, no jornal, mostrou-se uma pequena notícia, bem espremidinha, no canto, sobre a morte de algumas pessoas dentro de uma certa igrejinha.
E a vida continua.
Ajoelhou-se com muita dor e dificuldade e olhou para os lados. Cerca de umas quinze pessoas rezando, três crianças conversando. Suspirou o silêncio. As coisas não precivam ser assim, ele sabia. Mas agora já havia começado. Iria até o final, como prometera à sua família, cheia de ambições.
- Deus! Eu sou um homem pecador, como tantos outros. Eu errei e logo voltarei para meus erros. Nasci naquele lugar, cheio de morte e violência. Drogas, prostituição, não havia fé! Deus, por onde Você esteve? Precisei tanto de Você, quando fui preso, maltratado, quando vi criança morrer! Oh, não, minha irmã de dez anos se foi, baleada por um policial! Por quê?, meu Deus, por quê?
O homem chorou e abaixou a cabeça. Sua perna doía, sabia que logo iria morrer. Um policial o pegou de vez. Hoje foi o dia do terror e da morte para muitas pessoas. Ônibus foram queimados, granadas foram soltas, pessoas foram baleadas. Agora, sim, a verdade iria aparecer aos olhos de todos. E isso é apenas o começo.
Todos os dias, pessoas morrem por violência. Todos os dias, alguma criança é iniciada no tráfico. Todos os dias, alguém perde a esperança.
Quem nasce em uma favela quase não tem escapatória. Cresce com a morte, com as drogas, com maldade ao lado. Para onde foram as pessoas boas? Para onde foram todos? Parecem animais, sem vida, sem piedade, apenas se importam com seu lucro pessoal. Não ligam de matar, de roubar, de culpar! Culpa? A culpa é de quem?
- Deus! Ah, Deus! Eu quis matar! Eu não me arrependo. Eu não tenho nada, nosso povo não tem nada, precisamos nos expor. Eu não queria ter crescido assim, com arma na mão. Não queria ter perdido a fé. Mas, Deus, onde Você está? Porque não me ajuda? Eu precisava tanto de alguém para me guiar. Eu sou errado, todos são errados! Onde está a certeza?
Fez-se um pausa, as lágrimas caíam sem parar. Todos os culpavam, sem antes olhar seus motivos. Nada justifica, é verdade. Mas também nada justifica a situação em que estão. Por que uns podem tudo e outros não podem nada? Por que tanta ganância? Por quê? Para onde foram os bons, os amigos, os verdadeiros? Por que a maldade prevalece tanto? Por quê?
A resposta está dentro do coração de cada um.
- Venho aqui pedir-lhe perdão. Não fui certo e, antes de morrer, também não serei. Hoje se esgotou meu acreditar. Hoje eu matei a muitos e a mim mesmo. Hoje eu matei um pouco de Você, Deus, como todos fazem um pouco todos os dias. Desisto, aqui, e agora. E sei que o inferno me aguarda. Amém.
Levantou-se, com a maior dificuldade do mundo e fez o sinal da cruz. Abriu uma grande bolsa que carregou até ali e tirou uma grande arma de lá de dentro. Olhou para a cruz e pediu perdão. Começou a atirar em todos que estavam rezando. As crianças gritaram, mas o sangue escorreu de seu pequenos corpinhos recém-vividos. Todos morreram, sem piedade. Após o massacre, virou a arma para si mesmo e deixou de existir, com todos os seus pecados e com todas as suas mortes inocentes.
A Igreja continuava no silêncio, agora com sofrimento e sem vida.
Mais tarde, no jornal, mostrou-se uma pequena notícia, bem espremidinha, no canto, sobre a morte de algumas pessoas dentro de uma certa igrejinha.
E a vida continua.
domingo, dezembro 10, 2006
Páginas em Branco.
Eu sou um livro sem palavras. Apenas com páginas em branco, prontas para serem escritas por você. Tome um lápis, escreva sentimentos. Apague-os! Mas, cuidado, a cada palavra apagada, uma parte de minha alma se perde. Ela voa para o esquecimento, como se você a houvesse matado a punhaladas e limpado seu sangue com suas páginas rasgadas.
Não, não suje minha brancura com promessas que serão perjuradas. Se, a cada lágrima caída em minhas folhas, você arranhar meu corpo com as unhas, eu me desgasto e acabo virando uma folha seca de outono. Uma folha que, ao menor toque, mesmo de serenidade, decompõe-se, sem querer, e ao céu se esvai. Portanto, não as derrame em minhas folhas. Use a sinceridade apenas quando ela é verdadeira.
Escritor, alimente-me com sua poesia, preciso dela para manter meus sonhos. Escreva suas figuras, sua coloração, crave em mim todos os seus sentidos, todo o seu mundo e desmundos. Porque eu preciso de suas palavras, sem elas, eu nada sou. Minha dependência surgiu quando minha capa foi aberta. Agora, não consigo mais deixar de respirar conotações.
" Palavra, doce menina,
Não me machuque,
Nem de noite nem de dia,
Porque machucar-me
É como feri-la de volta. "
Sei que um dia serei esquecido. Serei jogado no lixo, no esquecimento. E, então, perguntar-me-ei: "Para aonde foi o Era Uma vez?" E as palavras surgirão em mim, respondendo: "Ele se foi para longe, muito longe. E você não viveu feliz para sempre." Minhas folhas envelhecerão, até ficarem amareladas, serão solitárias e sem essência. Um dia, serei lançado ao mar, desprotegido, até cair em seu fundo e por lá apodrecer durante séculos.
Lixo? Serei pior que lixo. O meu valor terá sumido há muito. E aonde estará você, poeta que me criou? Cansou-se de mim, de suas histórias, que, com o esquecimento, viraram apenas estórias.
" Não voes para longe, ó poesia.
Arranca tuas asas
E fica comigo,
Em palavras,
Para sempre. "
Não o culpo, afinal. Culpo a mim. Por ter absorvido tanto sentir! Tudo se unia à minha alma. Cada sí-la-ba. Eram, enfim, meus pedaços pedindo por sustentação. Por sentimentos, por utopias. Principalmente pelo que emanava de você. Não conseguia sentir os risos, nem o drama, eu não conseguia comunicar-me!
Já fui esquecido. Por que usei do futuro, se tudo é passado? Tentativa frustrada de enganar-me. Quero meu conto-de-fadas de volta. Quero ter princesas, guerreiros, vilões. Quero ter uma simples menina, que escreve em seu diário, todos os dias, sobre seus pequenos problemas. Eu quero amor! Quero ódio! Quero vazio!
Eu sei porque me machuco. Sei porque minhas folhas pedem por leitura. Você, poeta, está morto. E morreu antes de terminar-me.
Deixou minhas folhas.
Em branco.
" Deixa-me seu vestígio,
Para que eu possa segui-la.
Caso contrário,
Morrerei, eternamente,
Sem absorvê-la. "
E fechou-se, adormecido.
Quem sabe, um dia, um principe encantado venha beijar suas folhas em branco, com palavras nuas...
Não, não suje minha brancura com promessas que serão perjuradas. Se, a cada lágrima caída em minhas folhas, você arranhar meu corpo com as unhas, eu me desgasto e acabo virando uma folha seca de outono. Uma folha que, ao menor toque, mesmo de serenidade, decompõe-se, sem querer, e ao céu se esvai. Portanto, não as derrame em minhas folhas. Use a sinceridade apenas quando ela é verdadeira.
Escritor, alimente-me com sua poesia, preciso dela para manter meus sonhos. Escreva suas figuras, sua coloração, crave em mim todos os seus sentidos, todo o seu mundo e desmundos. Porque eu preciso de suas palavras, sem elas, eu nada sou. Minha dependência surgiu quando minha capa foi aberta. Agora, não consigo mais deixar de respirar conotações.
" Palavra, doce menina,
Não me machuque,
Nem de noite nem de dia,
Porque machucar-me
É como feri-la de volta. "
Sei que um dia serei esquecido. Serei jogado no lixo, no esquecimento. E, então, perguntar-me-ei: "Para aonde foi o Era Uma vez?" E as palavras surgirão em mim, respondendo: "Ele se foi para longe, muito longe. E você não viveu feliz para sempre." Minhas folhas envelhecerão, até ficarem amareladas, serão solitárias e sem essência. Um dia, serei lançado ao mar, desprotegido, até cair em seu fundo e por lá apodrecer durante séculos.
Lixo? Serei pior que lixo. O meu valor terá sumido há muito. E aonde estará você, poeta que me criou? Cansou-se de mim, de suas histórias, que, com o esquecimento, viraram apenas estórias.
" Não voes para longe, ó poesia.
Arranca tuas asas
E fica comigo,
Em palavras,
Para sempre. "
Não o culpo, afinal. Culpo a mim. Por ter absorvido tanto sentir! Tudo se unia à minha alma. Cada sí-la-ba. Eram, enfim, meus pedaços pedindo por sustentação. Por sentimentos, por utopias. Principalmente pelo que emanava de você. Não conseguia sentir os risos, nem o drama, eu não conseguia comunicar-me!
Já fui esquecido. Por que usei do futuro, se tudo é passado? Tentativa frustrada de enganar-me. Quero meu conto-de-fadas de volta. Quero ter princesas, guerreiros, vilões. Quero ter uma simples menina, que escreve em seu diário, todos os dias, sobre seus pequenos problemas. Eu quero amor! Quero ódio! Quero vazio!
Eu sei porque me machuco. Sei porque minhas folhas pedem por leitura. Você, poeta, está morto. E morreu antes de terminar-me.
Deixou minhas folhas.
Em branco.
" Deixa-me seu vestígio,
Para que eu possa segui-la.
Caso contrário,
Morrerei, eternamente,
Sem absorvê-la. "
E fechou-se, adormecido.
Quem sabe, um dia, um principe encantado venha beijar suas folhas em branco, com palavras nuas...
sexta-feira, dezembro 08, 2006
Realidade Que Não Deveria Ser Real.
Hoje não irei falar de amor. Não irei mostrar, com palavras, o quanto sempre, por trás dos finais tristes, há uma grande luz de felicidade. Não irei prolongar-me com bons finais, que nem são tão bons assim, às vezes. Hoje eu irei falar do egoísmo. Dos maus sentimentos, dos que mais sobrevivem durante o passar da vida. Aquela pontada de pecados e horrores que emana todo dia da boca e da mente do ser humano.
Vejo uma menina correndo na rua. Ela é linda e tem toda uma esperança pela frente. Não descobriu a realidade: ainda. Logo, perderá a fé em Deus. Queimará seus antigos brinquedos, e jogará suas roupas infantis fora. Logo, essa menina não terá sustento e perderá os pais no tiroteio. Deviam ter-lhe dito: Voa, menina! Vai embora daqui, fica nos teus sonhos, porque a realidade é dura. É dura demais e a mais. E ela cedo descobriu. Com doze anos, já veio a prostituição. O dinheiro, que ganhava, não compensava sua dor íntima de repulsa. Sentia nojo de si, sentia medo de seu futuro. O que será de amanhã? O diabo, quem sabe, vir-se-ia à sua porta, para levá-la diretamente para o inferno. O inferno, provavelmente, não seria tão diferente de sua vida.
Envolveu-se com drogas. Tarde de mais, ela pensava, agora, não tem mais volta. Não tinha ninguém. Nem mesmo uma amiga. Afinal, quem iria importar-se com uma vida tão "medíocre" como a dela? Ninguém. Porque a verdade é uma só e única. E, nesse caso, não há relativismos. Apenas exceções, não relativas. Quem passava por ela, apenas nutria o preconceito: "Drogada, perdida! Puta." Nem uma, nenhuma pessoa parou e deu a mão para sua alma. A visão do ser humano é tão perfeita, que só vêem o que querem ver. Mas o pedido de socorro, que vinha dos olhos daquela menina, nunca foi visto.
Procurou Deus, novamente tentou construir sua fé de criança. Mas não adiantou. Nada, nada sentia que viesse daquelas imagens de santos. Nem uma palavra de conforto. Começou a entender que tudo era uma grande mentira! Deus? Que Deus é esse? Que deixa uns perderem a vida, e outros sorrirem sempre para ela? Não! Estava sendo egoísta. Não devia sentir inveja dos que estão felizes. Deixe-os em paz, felizes como estão. Não têm culpa de sua miséria! Ou têm? Ei, dá-me o entendimento! É claro que têm. Só se importam consigo mesmos. Não vêem a dor de quem realmente sofre. E, se a vêem, não se importam de fazer algo para acabar com ela.
O motivo de seu desgaste veio mesmo quando engravidou. Chorou demais, quando a barriga começou a aparecer. O que seria desta criança? Por favor, que sua vida não seja como a minha! Mas iria ser. E ela sabia. Sabia até demais. Disso, infelizmente, ela tinha conhecimento. Quase uma sábia. Sim, uma sábia do sofrimento. Ela, em nenhum momento, pensou em deixá-la viver. Viver? Viver o quê? Essa vida de desgraça? Essa vida de morte, de droga, de luxúria SUJA? Essa vida sem amor, sem vontade, sem paz. Essa vida sem alguém para contar! E se ela morrese ao dar à luz? O que seria da criança?
- Não seria, eis o uso correto.
Hoje ela não mais agüentou. E quem o faria? Muita gente, muita gente. Mas não é a mesma coisa. Tudo dói, e ela não era forte. Tudo dói, e ela apenas queria chorar e ter um lenço para enxugar suas lágrimas. Ela foi até uma das praias do Rio De Janeiro, queria ver o mar, uma última vez. Sim, uma última vez. Ela iria para a morte, de braços abertos e não feliz. Mas da vida não havia mais o que esperar. Acariciou sua barriga e não olhou para trás, jogou-se nas pedras.
O sangue escorreu. A vida acabou, passou pelos seus dedos, passou pela alma de seu filho. E, mais uma vez, foi-se embora para sempre.
Sim, é verdade. Ninguém nunca disse à pobre menina que sua esperança não devia morrer. Ninguém nunca a amou tão de verdade, como a vida a odiou. E, por isso, ela se foi. E se foi sem diferença, para toda e grande perfeita humanidade.
Assim é a vida e a morte de muitos. Mas quem realmente se importa?
Quem sabe as bactérias que irão deteriorar o corpo, após o final.
Eis seu real valor.
Vejo uma menina correndo na rua. Ela é linda e tem toda uma esperança pela frente. Não descobriu a realidade: ainda. Logo, perderá a fé em Deus. Queimará seus antigos brinquedos, e jogará suas roupas infantis fora. Logo, essa menina não terá sustento e perderá os pais no tiroteio. Deviam ter-lhe dito: Voa, menina! Vai embora daqui, fica nos teus sonhos, porque a realidade é dura. É dura demais e a mais. E ela cedo descobriu. Com doze anos, já veio a prostituição. O dinheiro, que ganhava, não compensava sua dor íntima de repulsa. Sentia nojo de si, sentia medo de seu futuro. O que será de amanhã? O diabo, quem sabe, vir-se-ia à sua porta, para levá-la diretamente para o inferno. O inferno, provavelmente, não seria tão diferente de sua vida.
Envolveu-se com drogas. Tarde de mais, ela pensava, agora, não tem mais volta. Não tinha ninguém. Nem mesmo uma amiga. Afinal, quem iria importar-se com uma vida tão "medíocre" como a dela? Ninguém. Porque a verdade é uma só e única. E, nesse caso, não há relativismos. Apenas exceções, não relativas. Quem passava por ela, apenas nutria o preconceito: "Drogada, perdida! Puta." Nem uma, nenhuma pessoa parou e deu a mão para sua alma. A visão do ser humano é tão perfeita, que só vêem o que querem ver. Mas o pedido de socorro, que vinha dos olhos daquela menina, nunca foi visto.
Procurou Deus, novamente tentou construir sua fé de criança. Mas não adiantou. Nada, nada sentia que viesse daquelas imagens de santos. Nem uma palavra de conforto. Começou a entender que tudo era uma grande mentira! Deus? Que Deus é esse? Que deixa uns perderem a vida, e outros sorrirem sempre para ela? Não! Estava sendo egoísta. Não devia sentir inveja dos que estão felizes. Deixe-os em paz, felizes como estão. Não têm culpa de sua miséria! Ou têm? Ei, dá-me o entendimento! É claro que têm. Só se importam consigo mesmos. Não vêem a dor de quem realmente sofre. E, se a vêem, não se importam de fazer algo para acabar com ela.
O motivo de seu desgaste veio mesmo quando engravidou. Chorou demais, quando a barriga começou a aparecer. O que seria desta criança? Por favor, que sua vida não seja como a minha! Mas iria ser. E ela sabia. Sabia até demais. Disso, infelizmente, ela tinha conhecimento. Quase uma sábia. Sim, uma sábia do sofrimento. Ela, em nenhum momento, pensou em deixá-la viver. Viver? Viver o quê? Essa vida de desgraça? Essa vida de morte, de droga, de luxúria SUJA? Essa vida sem amor, sem vontade, sem paz. Essa vida sem alguém para contar! E se ela morrese ao dar à luz? O que seria da criança?
- Não seria, eis o uso correto.
Hoje ela não mais agüentou. E quem o faria? Muita gente, muita gente. Mas não é a mesma coisa. Tudo dói, e ela não era forte. Tudo dói, e ela apenas queria chorar e ter um lenço para enxugar suas lágrimas. Ela foi até uma das praias do Rio De Janeiro, queria ver o mar, uma última vez. Sim, uma última vez. Ela iria para a morte, de braços abertos e não feliz. Mas da vida não havia mais o que esperar. Acariciou sua barriga e não olhou para trás, jogou-se nas pedras.
O sangue escorreu. A vida acabou, passou pelos seus dedos, passou pela alma de seu filho. E, mais uma vez, foi-se embora para sempre.
Sim, é verdade. Ninguém nunca disse à pobre menina que sua esperança não devia morrer. Ninguém nunca a amou tão de verdade, como a vida a odiou. E, por isso, ela se foi. E se foi sem diferença, para toda e grande perfeita humanidade.
Assim é a vida e a morte de muitos. Mas quem realmente se importa?
Quem sabe as bactérias que irão deteriorar o corpo, após o final.
Eis seu real valor.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Flores de Vida.
Sentimentos não existem para ser mentidos. Existem para ser sentidos.
Quando entrei naquele quarto, não imaginei que a veria sorrindo. Era um sorriso daqueles verdadeiros, que dá uma pontada na alma de prazer. Paralizei-me ao vê-la assim, no esplendor de uma estrela. Parecia realmente um anjo.
Há um dia atrás, ela estava aos prantos, ligando-me a cada meia hora, pedindo por apoio e um ombro amigo. Hoje, ligou-me e pediu que eu fosse até sua casa. Esperava, não por mal, lágrimas de tristeza, de saudade e de agonia. Mas minha recepção foi muito mais calorosa. Esse sorriso me doía a alma de alegria e, também, de medo.
- Lúcia? - eu perguntei.
- Ah! Que bom que veio! Preciso contar-lhe : estou feliz, vê? Muito feliz, tomei uma decisão!
- Que decisão? - tentei conter o susto.
- Ah, querida, não posso contá-la. É segredo, sabe? Mas somente até amanhã! Sim, amanhã você me verá e ficará muito feliz por mim.
Calei-me. Definitivamente, ela estava estranha. Como não percebi no momento? Nao sei. Mas devia tê-lo feito. Procurei disfarçar minha ansiedade em prol de minha expressão. Queria sacudi-la e perguntar se estava enlouquecendo. Pois era o que parecia. Vi que estava cantarolando para cá e para lá, da sala para o quarto, todo o tempo. Parecia estar em transe, ou algo do gênero, mas aquele sorriso nunca desaparecia de sua face.
Ofereceu-me água, dizendo que purificava a alma. Ora, mas para que eu iria querer purificar minha alma? Eu pensava e pensava, contudo não havia resposta para essa tão rápida mudança
de sentimento. Resolvi, enfim, levantar-me para ir embora.
- Lúcia, acho que já me vou...
- Oh! Jasmins! Tão brancas! Como gosto de jasmins!
- Jasmins? - essa era nova.
- Sim, jasmins! Venha ver-me amanhã, sim? Traga-me jasmins?
- Mas por quê?! - não agüentava mais essa situação.
- Porque eu as amo! E entre sem bater. Estarei esperando-a no meu quarto.
Fui para casa meio atordoada. Por que essa obsessão por tais flores? Não conseguia entender e tentei fazê-lo durante horas, em contato com o escuro teto do meu quarto. Aquele sorriso não saiu de minha mente. Como ela podia sorrir tanto?! Seu casamento seria daqui a duas semanas e seu noivo estava morto! Morto, sem volta, em baixo da terra. Ela não havia dito nenhuma palavra, durante o enterro. Apenas dirigiu-se ao caixão e sussurou algumas palavras no ouvido de seu amado.
Ela não podia ter-se recuperado assim tão fácil. Poderia ter tomado anti-depressivo, quem sabe os efeitos que podem causar? Nesse caso, não a culpo de estar louca. Mas e se é o tipo de pessoa insensível que esquece que um dia amou alguém ferozmente? Não, Lúcia é um poço de bondade e sentimentos...
Cansei-me de deduções e fui dormir.
No dia seguinte, acordei bem cedo e fui até a floricultura. Jasmins. Havia de comprar essas flores. Escolhi as mais belas que pude e rumei em direção à casa de Lúcia. No caminho, fui lembrando de tudo que ela e o noivo haviam vivenciado. Eram tão apaixonados. Ela dizia que ele seria seu último homem. Pobre menina.
Quando cheguei em frente a sua casa, respirei fundo. Não sabia se agüentaria mais sorrisos como aqueles. Senti o cheiro das flores invadindo meu corpo e acalmei-me um pouco. Tudo parecia tão irreal. As flores, os sorrisos, a água. Lúcia.
Resolvi entrar. Passei pelo corredor, que passava quase todos os dias, até chegar ao quarto e encontrar um bilhete grudado na porta:
"Trouxe as Jasmins? Se não, volte depois com elas! Só entre com minhas pequenas flores! "
- Estranho. - sussurei.
Bati na porta uma, duas, três vezes. Então, resolvi abri-la. O quarto cheirava a... Jasmins! Havia água na mesinha de cabeceira, e um retrato dos dois juntos, uma foto recente. Lúcia estava deitada, na cama, parecia que estava a dormir. Aproximei-me e percebi um envelope em cima de sua barriga. Peguei-o de leve, para não acordá-la.
"Eleonora, se está aqui, lendo isso, é porque não me faltou com a palavra. Obrigada pelas flores, é tudo que eu desejaria hoje.
Mas o amor, meu amor, me chama. E, para com ele, nunca negaria nada.
Lembra dos sussurros? Não eram simples lamentos. Eram minha promessa, e, hoje, hei de cumpri-la.
Quero estar ao lado dele, até embaixo da terra. Lembre-se disso, por favor.
E todos meus sorrisos baseavam-se no fato que logo o encontrarei.
Adeus.
E sorria para mim."
Eu chorei. Larguei a carta e chorei. Como nunca havia feito antes. Ajoelhei-me e abracei-a. As lágrimas escorriam incessantemente. Eu abraçava um anjo, uma menina que amou e ama. E continuará a amar. Sempre. Dentro de mim, dentro de cada um.
Peguei as jasmins e tirei a mais bonita do ramo. Coloquei-a junto de suas pequeninas mãos, tão jovens, tão frágeis. Tão cheias de sentimento.
Voltei-me para a porta de sua casa com todas as outras jasmins. E, para cada pessoa que passava por mim, eu entregava uma delas e dizia: "Sorria por seu amor! Sorria por sua vida!"
A última jasmin, eu guardei-a para mim, e até hoje a tenho. Ela me lembra aqueles últimos sorrisos de Lúcia e, principalmente, o grande sacrifício de amor que emanou de sua alma para o mundo, até o momento em que se despediu dele com flores, alegria e coragem.
Quando entrei naquele quarto, não imaginei que a veria sorrindo. Era um sorriso daqueles verdadeiros, que dá uma pontada na alma de prazer. Paralizei-me ao vê-la assim, no esplendor de uma estrela. Parecia realmente um anjo.
Há um dia atrás, ela estava aos prantos, ligando-me a cada meia hora, pedindo por apoio e um ombro amigo. Hoje, ligou-me e pediu que eu fosse até sua casa. Esperava, não por mal, lágrimas de tristeza, de saudade e de agonia. Mas minha recepção foi muito mais calorosa. Esse sorriso me doía a alma de alegria e, também, de medo.
- Lúcia? - eu perguntei.
- Ah! Que bom que veio! Preciso contar-lhe : estou feliz, vê? Muito feliz, tomei uma decisão!
- Que decisão? - tentei conter o susto.
- Ah, querida, não posso contá-la. É segredo, sabe? Mas somente até amanhã! Sim, amanhã você me verá e ficará muito feliz por mim.
Calei-me. Definitivamente, ela estava estranha. Como não percebi no momento? Nao sei. Mas devia tê-lo feito. Procurei disfarçar minha ansiedade em prol de minha expressão. Queria sacudi-la e perguntar se estava enlouquecendo. Pois era o que parecia. Vi que estava cantarolando para cá e para lá, da sala para o quarto, todo o tempo. Parecia estar em transe, ou algo do gênero, mas aquele sorriso nunca desaparecia de sua face.
Ofereceu-me água, dizendo que purificava a alma. Ora, mas para que eu iria querer purificar minha alma? Eu pensava e pensava, contudo não havia resposta para essa tão rápida mudança
de sentimento. Resolvi, enfim, levantar-me para ir embora.
- Lúcia, acho que já me vou...
- Oh! Jasmins! Tão brancas! Como gosto de jasmins!
- Jasmins? - essa era nova.
- Sim, jasmins! Venha ver-me amanhã, sim? Traga-me jasmins?
- Mas por quê?! - não agüentava mais essa situação.
- Porque eu as amo! E entre sem bater. Estarei esperando-a no meu quarto.
Fui para casa meio atordoada. Por que essa obsessão por tais flores? Não conseguia entender e tentei fazê-lo durante horas, em contato com o escuro teto do meu quarto. Aquele sorriso não saiu de minha mente. Como ela podia sorrir tanto?! Seu casamento seria daqui a duas semanas e seu noivo estava morto! Morto, sem volta, em baixo da terra. Ela não havia dito nenhuma palavra, durante o enterro. Apenas dirigiu-se ao caixão e sussurou algumas palavras no ouvido de seu amado.
Ela não podia ter-se recuperado assim tão fácil. Poderia ter tomado anti-depressivo, quem sabe os efeitos que podem causar? Nesse caso, não a culpo de estar louca. Mas e se é o tipo de pessoa insensível que esquece que um dia amou alguém ferozmente? Não, Lúcia é um poço de bondade e sentimentos...
Cansei-me de deduções e fui dormir.
No dia seguinte, acordei bem cedo e fui até a floricultura. Jasmins. Havia de comprar essas flores. Escolhi as mais belas que pude e rumei em direção à casa de Lúcia. No caminho, fui lembrando de tudo que ela e o noivo haviam vivenciado. Eram tão apaixonados. Ela dizia que ele seria seu último homem. Pobre menina.
Quando cheguei em frente a sua casa, respirei fundo. Não sabia se agüentaria mais sorrisos como aqueles. Senti o cheiro das flores invadindo meu corpo e acalmei-me um pouco. Tudo parecia tão irreal. As flores, os sorrisos, a água. Lúcia.
Resolvi entrar. Passei pelo corredor, que passava quase todos os dias, até chegar ao quarto e encontrar um bilhete grudado na porta:
"Trouxe as Jasmins? Se não, volte depois com elas! Só entre com minhas pequenas flores! "
- Estranho. - sussurei.
Bati na porta uma, duas, três vezes. Então, resolvi abri-la. O quarto cheirava a... Jasmins! Havia água na mesinha de cabeceira, e um retrato dos dois juntos, uma foto recente. Lúcia estava deitada, na cama, parecia que estava a dormir. Aproximei-me e percebi um envelope em cima de sua barriga. Peguei-o de leve, para não acordá-la.
"Eleonora, se está aqui, lendo isso, é porque não me faltou com a palavra. Obrigada pelas flores, é tudo que eu desejaria hoje.
Mas o amor, meu amor, me chama. E, para com ele, nunca negaria nada.
Lembra dos sussurros? Não eram simples lamentos. Eram minha promessa, e, hoje, hei de cumpri-la.
Quero estar ao lado dele, até embaixo da terra. Lembre-se disso, por favor.
E todos meus sorrisos baseavam-se no fato que logo o encontrarei.
Adeus.
E sorria para mim."
Eu chorei. Larguei a carta e chorei. Como nunca havia feito antes. Ajoelhei-me e abracei-a. As lágrimas escorriam incessantemente. Eu abraçava um anjo, uma menina que amou e ama. E continuará a amar. Sempre. Dentro de mim, dentro de cada um.
Peguei as jasmins e tirei a mais bonita do ramo. Coloquei-a junto de suas pequeninas mãos, tão jovens, tão frágeis. Tão cheias de sentimento.
Voltei-me para a porta de sua casa com todas as outras jasmins. E, para cada pessoa que passava por mim, eu entregava uma delas e dizia: "Sorria por seu amor! Sorria por sua vida!"
A última jasmin, eu guardei-a para mim, e até hoje a tenho. Ela me lembra aqueles últimos sorrisos de Lúcia e, principalmente, o grande sacrifício de amor que emanou de sua alma para o mundo, até o momento em que se despediu dele com flores, alegria e coragem.
sábado, dezembro 02, 2006
Dessa Forma.
Se eu pudesse ainda me perder nesses olhos cor-marfim,
Se eu pudesse dizer-lhe o quanto de você ainda resta em mim.
Caso eu visse suas cores sem coloração batendo com força na minha alma,
Caso eu entendesse antes o quanto sua respiração e seu olhar cedem-me calma.
Talvez eu não tivesse te deixado partir,
Talvez eu nunca tivesse pensado em desexistir.
E teria agarrado suas asas, para você nunca voar,
Seria egoísmo, mas, contigo, para sempre eu iria sonhar.
Sonhar?
- Viver.
Se eu pudesse dizer-lhe o quanto de você ainda resta em mim.
Caso eu visse suas cores sem coloração batendo com força na minha alma,
Caso eu entendesse antes o quanto sua respiração e seu olhar cedem-me calma.
Talvez eu não tivesse te deixado partir,
Talvez eu nunca tivesse pensado em desexistir.
E teria agarrado suas asas, para você nunca voar,
Seria egoísmo, mas, contigo, para sempre eu iria sonhar.
Sonhar?
- Viver.
quarta-feira, novembro 29, 2006
Porta que se fecha, Luz que se apaga.
Foi naquela manhã de vênus, ele estava parado na porta, quase uma estátua de alma viva. Eu nunca havia reparado no seu olhar sóbrio, atento a todos os detalhes que o mundo vomita em imagens e sons. Definitivamente, o peso da lua criava feridas, e eu nunca imaginei que só sua presença me faria tanto mal.
Nem ao menos se moveu para olhar-me. Continuou parado, sem expressão. Eu não me contive, queria gritar, chorar... morrer! Tudo justificava as minhas vontades, mas nada era suficiente para mantê-las vivas. Imaginei, por um momento, estar errada sobre tudo. Você ainda era meu, como o oceano e a linha do horizonte, como o sol e a lua. Mas era o doce engano, e, quando pisquei, a realidade respondeu com um sorriso.
Tinha uma garrafa de vodka na mão, olheiras profundas e parecia não respirar. Eu respirava descontroladamente e arranhava as mãos com as próprias unhas. Algumas lágrimas escorriam do meu rosto, mas os óculos as escondiam.
Senti sua face virando em minha direção. E seus lábios começavam, em frênesi, a formar os primeiros fonemas.
- Pare - eu disse. - De sua boca, agora, não quero ouvir palavras.
Ele não teve coragem de encarar-me. Abaixou a cabeça, como um cachorro com medo do dono. A mim, ele era um estranho. E, com toda paixão, para ele eu era o mesmo. Passou as mãos pelo cabelo. Sempre que fazia isto, era sinal de medo. Eu o conhecia melhor do que ninguém, era quase sangue em sangue, sem sangue.
Senti a janela trazer as lembranças. Pensei em correr e abraçá-lo e nunca mais ir para longe. Mas meus pés não se moviam e eu não lhes tirava a razão.
Há tanto tempo que o vazio dominava as paredes. Não era algo novo, essa sensação de desprezo que vivenciávamos naquele momento. O que eu sentia não era mais amor; era sentir apenas por sentir. E, pela forma que ele não respondia com a alma, sentia, também, a angústia.
- Acabou - as palavras saíram arrastadas, fui pega de súbito. - Esgotou-se o que achávamos que iria durar.
Eu abri a boca para tentar impedi-lo, mas ele já saia pela porta que estava encarando há horas. Corri até a janela e o vi, com seu andar apressado, pegando um taxi e provavelmente indo para longe, muito longe. Tentei gritar: "Não!". Mas nada de minha boca saiu, eu fiquei paralizada durante muito tempo, senti os primeiros raios solares encostando em minha pele, debruçada na janela.
Não conseguia pensar em mais nada. A mente estava vazia. Mas, afinal, não era isso que eu queria? Ver-me livre de um falso sentimento? Sentimento, que, junto ao ermo, parecia voltar a existir em verdade.
- Amor... amor.
Era essa voz suspirando na minha cabeça. Tentei calá-la, tentativas frustradas. Continuou durante horas, até que reparei os sentidos com pancadas na parede. Gritava com a minha mente, em briga contínua, mas, enfim, ganhei a guerra.
Vi o que não queria ver: eu estava sozinha. E dessa vez era para sempre, nada mais completaria o que eu costumava chamar de vontade de viver. Ele foi embora, pela mesma porta que entrava tantas vezes sorrindo e dizendo que me amava. Um amor que também por sua boca se fez extinto. Um amor que, somente em mim, será eterno.
Sentada hoje, na mesma janela por onde o vi partir, posso ver as luzes da cidade, ao longe, crescendo e diminuindo.
Crescendo e diminuindo...
E, enfim, apagando-se por completo.
Somente um pequeno vaga-lume continua a iluminar a triste cidade, que ainda sonha em ter suas grande luzes, crescentes e dimutas, de volta em seus braços.
Nem ao menos se moveu para olhar-me. Continuou parado, sem expressão. Eu não me contive, queria gritar, chorar... morrer! Tudo justificava as minhas vontades, mas nada era suficiente para mantê-las vivas. Imaginei, por um momento, estar errada sobre tudo. Você ainda era meu, como o oceano e a linha do horizonte, como o sol e a lua. Mas era o doce engano, e, quando pisquei, a realidade respondeu com um sorriso.
Tinha uma garrafa de vodka na mão, olheiras profundas e parecia não respirar. Eu respirava descontroladamente e arranhava as mãos com as próprias unhas. Algumas lágrimas escorriam do meu rosto, mas os óculos as escondiam.
Senti sua face virando em minha direção. E seus lábios começavam, em frênesi, a formar os primeiros fonemas.
- Pare - eu disse. - De sua boca, agora, não quero ouvir palavras.
Ele não teve coragem de encarar-me. Abaixou a cabeça, como um cachorro com medo do dono. A mim, ele era um estranho. E, com toda paixão, para ele eu era o mesmo. Passou as mãos pelo cabelo. Sempre que fazia isto, era sinal de medo. Eu o conhecia melhor do que ninguém, era quase sangue em sangue, sem sangue.
Senti a janela trazer as lembranças. Pensei em correr e abraçá-lo e nunca mais ir para longe. Mas meus pés não se moviam e eu não lhes tirava a razão.
Há tanto tempo que o vazio dominava as paredes. Não era algo novo, essa sensação de desprezo que vivenciávamos naquele momento. O que eu sentia não era mais amor; era sentir apenas por sentir. E, pela forma que ele não respondia com a alma, sentia, também, a angústia.
- Acabou - as palavras saíram arrastadas, fui pega de súbito. - Esgotou-se o que achávamos que iria durar.
Eu abri a boca para tentar impedi-lo, mas ele já saia pela porta que estava encarando há horas. Corri até a janela e o vi, com seu andar apressado, pegando um taxi e provavelmente indo para longe, muito longe. Tentei gritar: "Não!". Mas nada de minha boca saiu, eu fiquei paralizada durante muito tempo, senti os primeiros raios solares encostando em minha pele, debruçada na janela.
Não conseguia pensar em mais nada. A mente estava vazia. Mas, afinal, não era isso que eu queria? Ver-me livre de um falso sentimento? Sentimento, que, junto ao ermo, parecia voltar a existir em verdade.
- Amor... amor.
Era essa voz suspirando na minha cabeça. Tentei calá-la, tentativas frustradas. Continuou durante horas, até que reparei os sentidos com pancadas na parede. Gritava com a minha mente, em briga contínua, mas, enfim, ganhei a guerra.
Vi o que não queria ver: eu estava sozinha. E dessa vez era para sempre, nada mais completaria o que eu costumava chamar de vontade de viver. Ele foi embora, pela mesma porta que entrava tantas vezes sorrindo e dizendo que me amava. Um amor que também por sua boca se fez extinto. Um amor que, somente em mim, será eterno.
Sentada hoje, na mesma janela por onde o vi partir, posso ver as luzes da cidade, ao longe, crescendo e diminuindo.
Crescendo e diminuindo...
E, enfim, apagando-se por completo.
Somente um pequeno vaga-lume continua a iluminar a triste cidade, que ainda sonha em ter suas grande luzes, crescentes e dimutas, de volta em seus braços.
terça-feira, novembro 21, 2006
As Quatro.
E, quando você menos espera, aquele gosto de não-sentir lhe vem ao pensamento.
Simplesmente, a cor da folha é verde. É verde porque é verde. E ponto. Não há o que discutir com relação a isso. O outono sempre vem para transformar sua cor: não importa, a alma é verde. Esta estação, de fato, acaba com a esperança de muitas folhas.
Conseguiu, alguma vez, ver a dor da folha ao cair da árvore? E o sentimento de vazio, que esta sente ao cair no chão e entender que nunca mais poderá encostar naqueles galhos altos de sua eterna mãe?
Dói na alma ver o outono chegar.
Vem-se a primavera. Não importa a ordem, eu apenas sei que um dia ela vem. E mata a inocência das flores. De crianças puras e até mesmo com cheiro de rosa, passam a gigantescas pétalas sortidas, que muitos dizem ser maravilhosas.
Imagine, então, que, um dia, uma linda criança do maravilhosíssimo reino metazoa, que não sabe nem ao menos o que vem a ser fotossíntese, vê uma linda margarida, que acabara de desabrochar para o mundo.
O que essa magnífica criança faz?
- Adeus, minha flor!
Enfim, mais uma história florida, que não se acabou em final feliz.
Pulemos o verão. Dele não gosto.
sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol
E lá se vai uma latinha de Coca-Cola pela praia de Copacabana.
De repente, é um frio que bate na minha janela, e eu tento ver a neblina que sai dos céus e vem me visitar. Às vezes, eu consigo pegá-la e guardá-la um pouco no coração. Outras, ela simplesmente passa por mim com um pulo sem sair do solo.
E a cor do inverno é azul. Azul mais puro. Azul de tristeza, azul de alegria. Apenas azul, como o verde da folha.
Mas o inverno congela as almas, mata as pessoas de frio na rua. E o pesar que levamos de palavras, são menores, infelizmente, do que as dores físicas dos muitos que sofrem.
Mais um ano se passa.
Mais folhas verdes caem.
Mais flores crescem e perdem a inocência.
O sol ilumina forte.
Também o frio ilumina as almas e apaga os sentimentos.
E eu posso encostar nas lágrimas descontentes de Deus, ao perceber que a natureza é o fim da natureza. Ao perceber que a beleza destrói a beleza, para que outra beleza possa renascer em verdade.
Simplesmente, a cor da folha é verde. É verde porque é verde. E ponto. Não há o que discutir com relação a isso. O outono sempre vem para transformar sua cor: não importa, a alma é verde. Esta estação, de fato, acaba com a esperança de muitas folhas.
Conseguiu, alguma vez, ver a dor da folha ao cair da árvore? E o sentimento de vazio, que esta sente ao cair no chão e entender que nunca mais poderá encostar naqueles galhos altos de sua eterna mãe?
Dói na alma ver o outono chegar.
Vem-se a primavera. Não importa a ordem, eu apenas sei que um dia ela vem. E mata a inocência das flores. De crianças puras e até mesmo com cheiro de rosa, passam a gigantescas pétalas sortidas, que muitos dizem ser maravilhosas.
Imagine, então, que, um dia, uma linda criança do maravilhosíssimo reino metazoa, que não sabe nem ao menos o que vem a ser fotossíntese, vê uma linda margarida, que acabara de desabrochar para o mundo.
O que essa magnífica criança faz?
- Adeus, minha flor!
Enfim, mais uma história florida, que não se acabou em final feliz.
Pulemos o verão. Dele não gosto.
sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol
E lá se vai uma latinha de Coca-Cola pela praia de Copacabana.
De repente, é um frio que bate na minha janela, e eu tento ver a neblina que sai dos céus e vem me visitar. Às vezes, eu consigo pegá-la e guardá-la um pouco no coração. Outras, ela simplesmente passa por mim com um pulo sem sair do solo.
E a cor do inverno é azul. Azul mais puro. Azul de tristeza, azul de alegria. Apenas azul, como o verde da folha.
Mas o inverno congela as almas, mata as pessoas de frio na rua. E o pesar que levamos de palavras, são menores, infelizmente, do que as dores físicas dos muitos que sofrem.
Mais um ano se passa.
Mais folhas verdes caem.
Mais flores crescem e perdem a inocência.
O sol ilumina forte.
Também o frio ilumina as almas e apaga os sentimentos.
E eu posso encostar nas lágrimas descontentes de Deus, ao perceber que a natureza é o fim da natureza. Ao perceber que a beleza destrói a beleza, para que outra beleza possa renascer em verdade.
terça-feira, novembro 14, 2006
Sanque Que Leva a Sangue.
- Noite linda, não?
Abaixou-se, acendeu um cigarro.
- Não, a noite não está linda - vai-se fumaça.
Expressão de espanto.
- Como não!
- Não, simples. Está suja. Cada estrela, um tiro no peito.
- Cala-te, homem! Quanto pessimismo!
- Tenho olhos para ver, não para enganar-me.
Silêncio. Os olhares não batiam. A verdade estava no céu e na terra e em qualquer lugar. Doce polissíndeto. Mas a noite era bonita. E, também, era abominável. Duas vidas distintas numa praça comum, um sofrimento e uma alegria. Ou uma alegria e um sofrimento? Velejavam
pelos campos cinzas do infinito.
- Arre! Como pode, de onde tira tanta amargura?
- Do mundo, caro amigo. Olhe ao seu redor, pobre ignorante. Não vê que é exceção?
- Exceção de quê?
- De sofrimento.
Locução dura. Vencida de tempos, aceitada há muito. Os risos estão poluídos com merda. Os abraços verdadeiros já se foram. O escárnio, de hoje, será vida de amanhã.
- Você sofre?
- Eu, como o mundo.
- Eu não sofro.
- Não há por que fazê-lo. Nunca precisou.
- E você já?
- Inúmeras vezes. Meu sofrimento é maior: está na alma.
Mais uma vez, o barulho de vozes cessou. Uma alma machucada por percepção além do que merecia. Um bocejo sem importância. Pobre é de quem nada percebe. Pobre de é quem tudo o faz. Jamais diria, pois, sorte destes e azar daqueles.
- Alma? Não acredito lá nisso!
- Ora, por isso não sofre de tal moléstia!
- Tenho dores de carne, de velhice, de rugas. Mas não sou sentimental.
- Justo.
- Justo o quê?
- Vindo de você.
- Como assim?
- Tem sorte, apenas.
Um soco na escuridão. Pisou no cigarro com expressão vazia. Queria fechar os olhos, mas, se o fizesse, veria tudo que se tem forçado a não ver.
O outro pensava em dinheiro.
- Sorte? Não ganhei na loteria, ainda.
- Sorte de ser qualquer pessoa que não me seja.
- Oh, pretensão!
- Quem dera que o fosse.
- Se isto não é pretensão, o que é?
- Desejo de matar-me a consciência.
- Não o entendo!
- Factualmente.
- Deixa disso! Vamos aproveitar a noite!
- Vai você.
- Vou-me, um beijo à sua consciência que não consigo entender.
Sem resposta, colocou seu chapéu e foi-se para as gargalhadas, puros prazeres da carne. Pernas, saias, dinheiro. Tudo que um homem poderia desejar.
Ele, sentado no meio-fio, permaneceu por lá até amanhecer. Observando a noite, sem conseguir levantar e tentar alegrar-se um pouco. Quando o sol nasceu, não conseguiu ver seu brilho, o cheiro de sangue ainda era insurpotável.
Pensava em seus filhos e em sua mulher. Como fora egoísta em reagir. Deveria ter entregue o dinheiro, ao invés de tê-lo segurado fixo em suas mãos.
Beirava à morte, e o homem, que o esfaqueou, beirava renascer na luxúria.
Abaixou-se, acendeu um cigarro.
- Não, a noite não está linda - vai-se fumaça.
Expressão de espanto.
- Como não!
- Não, simples. Está suja. Cada estrela, um tiro no peito.
- Cala-te, homem! Quanto pessimismo!
- Tenho olhos para ver, não para enganar-me.
Silêncio. Os olhares não batiam. A verdade estava no céu e na terra e em qualquer lugar. Doce polissíndeto. Mas a noite era bonita. E, também, era abominável. Duas vidas distintas numa praça comum, um sofrimento e uma alegria. Ou uma alegria e um sofrimento? Velejavam
pelos campos cinzas do infinito.
- Arre! Como pode, de onde tira tanta amargura?
- Do mundo, caro amigo. Olhe ao seu redor, pobre ignorante. Não vê que é exceção?
- Exceção de quê?
- De sofrimento.
Locução dura. Vencida de tempos, aceitada há muito. Os risos estão poluídos com merda. Os abraços verdadeiros já se foram. O escárnio, de hoje, será vida de amanhã.
- Você sofre?
- Eu, como o mundo.
- Eu não sofro.
- Não há por que fazê-lo. Nunca precisou.
- E você já?
- Inúmeras vezes. Meu sofrimento é maior: está na alma.
Mais uma vez, o barulho de vozes cessou. Uma alma machucada por percepção além do que merecia. Um bocejo sem importância. Pobre é de quem nada percebe. Pobre de é quem tudo o faz. Jamais diria, pois, sorte destes e azar daqueles.
- Alma? Não acredito lá nisso!
- Ora, por isso não sofre de tal moléstia!
- Tenho dores de carne, de velhice, de rugas. Mas não sou sentimental.
- Justo.
- Justo o quê?
- Vindo de você.
- Como assim?
- Tem sorte, apenas.
Um soco na escuridão. Pisou no cigarro com expressão vazia. Queria fechar os olhos, mas, se o fizesse, veria tudo que se tem forçado a não ver.
O outro pensava em dinheiro.
- Sorte? Não ganhei na loteria, ainda.
- Sorte de ser qualquer pessoa que não me seja.
- Oh, pretensão!
- Quem dera que o fosse.
- Se isto não é pretensão, o que é?
- Desejo de matar-me a consciência.
- Não o entendo!
- Factualmente.
- Deixa disso! Vamos aproveitar a noite!
- Vai você.
- Vou-me, um beijo à sua consciência que não consigo entender.
Sem resposta, colocou seu chapéu e foi-se para as gargalhadas, puros prazeres da carne. Pernas, saias, dinheiro. Tudo que um homem poderia desejar.
Ele, sentado no meio-fio, permaneceu por lá até amanhecer. Observando a noite, sem conseguir levantar e tentar alegrar-se um pouco. Quando o sol nasceu, não conseguiu ver seu brilho, o cheiro de sangue ainda era insurpotável.
Pensava em seus filhos e em sua mulher. Como fora egoísta em reagir. Deveria ter entregue o dinheiro, ao invés de tê-lo segurado fixo em suas mãos.
Beirava à morte, e o homem, que o esfaqueou, beirava renascer na luxúria.
domingo, novembro 05, 2006
Amor de Piscada.
Foi até a esquina, era tarde da noite, voou os pensamentos até a janela da outra ponta da rua. As cortinas estavam fechadas. Com uma tristeza volvendo o rosto, sentou-se no meio-fio, esperando alguma luz acender-se na casa e, também, em seu coração.
Passou-se muito tempo: a agonia batia à porta. Nada acontecia. Já estava esperando há muito, as esperanças de aquilo acontecer já eram escassas. Mas não desistiria tão fácil. Esperara a semana inteira por aquele dia, por aquela noite tão difícil de obter-se mais de uma vez na semana. Em todo caso, nunca nenhum movimento era igual.
Um bêbado vinha virando o cruzamento, não temeu nem mesmo isso. Não sairia dali, enquanto seu principal objetivo não fosse cumprido. O homem vinha cambaleando e falando com algum amigo imaginário.
- Ae... cê sabe me dizer onde arranjo mais birita.. blow..?
Sentado no meio fio, com os olhos fixos na janela, não respondeu. Pensava apenas no momento em que perderia os sentidos e sua mente fugir-se-ia até o céu, junto com os deuses. Seus olhos perceberam o bêbado continuar seu caminho, levando aquele hálito de vida sem rumo. Ai, que nada mais importava. Poderiam explodir cidades e corações desgarrados, que ele não desgrudaria seus olhos dali.
Todo sábado à noite era a mesma coisa. Fugia de casa para ir até a esquina, e, depois de completada sua vontade, voltava para sua cama, sorrateiramente, e ia dormir, sonhando com o próximo dia que aquilo se repetiria novamente. Sonhava e via estrelas tão luminosas, que o cegavam da realidade de não possuí-las.
Estava perdido em pensamentos, quando seu coração acelerou mais rápido do que uma poerira repentina. A luz do andar de baixo fora acesa. Estava perto, conseguiu ouvir os passos lentos subirem degrau por degrau, cada toque ao chão era um apertar em seu peito.
A luz do quarto, a qual observara toda a noite, foi acesa. Deu um pulo e arregalou os olhos. Era agora, seu coração estava disparando a mil vaga-lumes. Uma música começou a tocar e enxarcar-lhe os lábios.
Respirou fundo e sonhou: talvez hoje me perceba, porque para sempre não hei de ficar escondido.
A janela foi aberta e todos os mundos coloridos também o foram. Beleza de deusa, tão rara quanto seus fios de cabelos louros e compridos. Ela respirou o ar da rua deserta, não reparou no pobre coração perdido olhando-a da escuridão. Apoiou um pouco os braços no umbral e tentou ler a carta que haviam deixado em sua porta, uma carta apócrifa e quase sem nexo.
"Ao amor, que vem a mim todas essas noites, ó deusa!
De você meu mundo é feito.
Vivo de ti,
De seu ar repentino.
Acorda-te!
Alguém está a te amar."
Deveria ser algum tipo de brincadeira, pensou. Suspirou um pouco, não podendo conter seus desejos íntimos de amor. Seria bela uma vida em conjunto incondiconal, pura de mais olhares.
Ele não aguentava mais olhá-la sem tê-la nos braços. Queria gritar: "Oh, amor, aqui eu estou!" Mas, bem sabia, isso não seria possível agora. Era apenas um mero garoto em contraste a uma deusa de beleza e sentimentos exuberantes. Guardou-se para si a agonia de não possuir seu amor.
Ela se cansou de olhar e nada ver. Resolveu ir dormir, o dia seguinte já estava a esperá-la. Olhou para a rua mais uma vez, e pareceu ter visto um vulto. Não deu importância e, com um piscar de olhos, fechou as janelas.
Caiu ao chão o pobre coração sozinho, chorou lágrimas de saudades. Pareceu-lhe que a eternidade não o pouparia de mais uma vista rápida da dona de suas dores. Conformou-se e levantou-se para voltar à sua casa, já sem vontade alguma de andar.
Ao dobrar a esquina, mandou beijos de saudade àquela janela de poucos instantes. Pousou-se em casa e se foi sonhar com aqueles olhos tão puros e dignos, os quais sempre tiravam-lhe o sono.
Em apenas um piscar de olhos, pensou, eu a amei.
E voltou-se à realidade.
Passou-se muito tempo: a agonia batia à porta. Nada acontecia. Já estava esperando há muito, as esperanças de aquilo acontecer já eram escassas. Mas não desistiria tão fácil. Esperara a semana inteira por aquele dia, por aquela noite tão difícil de obter-se mais de uma vez na semana. Em todo caso, nunca nenhum movimento era igual.
Um bêbado vinha virando o cruzamento, não temeu nem mesmo isso. Não sairia dali, enquanto seu principal objetivo não fosse cumprido. O homem vinha cambaleando e falando com algum amigo imaginário.
- Ae... cê sabe me dizer onde arranjo mais birita.. blow..?
Sentado no meio fio, com os olhos fixos na janela, não respondeu. Pensava apenas no momento em que perderia os sentidos e sua mente fugir-se-ia até o céu, junto com os deuses. Seus olhos perceberam o bêbado continuar seu caminho, levando aquele hálito de vida sem rumo. Ai, que nada mais importava. Poderiam explodir cidades e corações desgarrados, que ele não desgrudaria seus olhos dali.
Todo sábado à noite era a mesma coisa. Fugia de casa para ir até a esquina, e, depois de completada sua vontade, voltava para sua cama, sorrateiramente, e ia dormir, sonhando com o próximo dia que aquilo se repetiria novamente. Sonhava e via estrelas tão luminosas, que o cegavam da realidade de não possuí-las.
Estava perdido em pensamentos, quando seu coração acelerou mais rápido do que uma poerira repentina. A luz do andar de baixo fora acesa. Estava perto, conseguiu ouvir os passos lentos subirem degrau por degrau, cada toque ao chão era um apertar em seu peito.
A luz do quarto, a qual observara toda a noite, foi acesa. Deu um pulo e arregalou os olhos. Era agora, seu coração estava disparando a mil vaga-lumes. Uma música começou a tocar e enxarcar-lhe os lábios.
Respirou fundo e sonhou: talvez hoje me perceba, porque para sempre não hei de ficar escondido.
A janela foi aberta e todos os mundos coloridos também o foram. Beleza de deusa, tão rara quanto seus fios de cabelos louros e compridos. Ela respirou o ar da rua deserta, não reparou no pobre coração perdido olhando-a da escuridão. Apoiou um pouco os braços no umbral e tentou ler a carta que haviam deixado em sua porta, uma carta apócrifa e quase sem nexo.
"Ao amor, que vem a mim todas essas noites, ó deusa!
De você meu mundo é feito.
Vivo de ti,
De seu ar repentino.
Acorda-te!
Alguém está a te amar."
Deveria ser algum tipo de brincadeira, pensou. Suspirou um pouco, não podendo conter seus desejos íntimos de amor. Seria bela uma vida em conjunto incondiconal, pura de mais olhares.
Ele não aguentava mais olhá-la sem tê-la nos braços. Queria gritar: "Oh, amor, aqui eu estou!" Mas, bem sabia, isso não seria possível agora. Era apenas um mero garoto em contraste a uma deusa de beleza e sentimentos exuberantes. Guardou-se para si a agonia de não possuir seu amor.
Ela se cansou de olhar e nada ver. Resolveu ir dormir, o dia seguinte já estava a esperá-la. Olhou para a rua mais uma vez, e pareceu ter visto um vulto. Não deu importância e, com um piscar de olhos, fechou as janelas.
Caiu ao chão o pobre coração sozinho, chorou lágrimas de saudades. Pareceu-lhe que a eternidade não o pouparia de mais uma vista rápida da dona de suas dores. Conformou-se e levantou-se para voltar à sua casa, já sem vontade alguma de andar.
Ao dobrar a esquina, mandou beijos de saudade àquela janela de poucos instantes. Pousou-se em casa e se foi sonhar com aqueles olhos tão puros e dignos, os quais sempre tiravam-lhe o sono.
Em apenas um piscar de olhos, pensou, eu a amei.
E voltou-se à realidade.
sexta-feira, novembro 03, 2006
Ponto de Fuga.
Vem, agora, aquele gosto tão salgado à garganta, como se o choro não conseguisse escapar e resolvesse voltar para a alma. Muitas vezes, é apenas isso que acontece: um esquecimento. Em outras, a falta de amor e de gratidão crescem ao ponto de matar o esquecimento de tão incompleto.
Sonhei com você, mil perdões. Ainda que o sonho seja meu, e que o pensamento não tenha dono, a culpa é toda minha. Poderia ter velejado por outras praias, tombado em outros mares. Mas, ao sentir suas ondas brancas tocarem meus desprotegidos pés, todos os pecados somem, tal que nunca existiram.
Você se foi. Não quis impedi-lo. Sem motivos, em um segundo. Adeus, lembro de vê-lo acenando e indo embora naquela esquina sem fogo. Nesse dia, fui-me ao último andar de meu prédio. Pensei em pular, mas a coragem me faltou, uma lembrança foi o suficiente para deter-me.
Acalentei todas as flores em seu pequeno túmulo imaginário. Todos os dias, à noite, sem demora, jogava-lhe uma rosa. Ao dormir, escutava suas tentativas de ressuscitar, gemia alto, querendo tirar a terra da garganta. Porém, força de alma é maior do que força de migalhas. Você não conseguiu.
Os dias passaram lentos, as noites passaram em branco. O calendário era sempre igual. Uma tarde, quando passeava pelo meu jardim, senti ter ouvido sua voz, lá longe, dentro de minha mente. Sentei-me na grama, e olhei o sol. Ele me lembrava suas idéias. Você queria, como Hícaro, alcançá-lo. Morreria queimado, eu bem sabia. Isso era o que mais amava em seus olhos: a falta de medo.
Quando o tempo passou renovado, e eu finalmente achei que o tinha esquecido, sonhei com você. Vinha a mim, com todas suas palavras em falso, nas quais sempre acreditei, com toda a certeza da falácia. Desesperei-me, com razão. Lembrar de seu rosto era a morte, lembrar de suas palavras, o silêncio.
Mas hoje é diferente. Eu sinto as lágrimas descendo, uma por uma, sem importar-me com os sentidos. Agora, você vai acabar. Você vai sumir. Vai deixar-me. Sem explicação, sem volta. Eu vou matá-lo. Com seus olhos me acompanhando para sempre, não há mais para onde sonhar.
Pegou um punhal, que tinha guardado há vidas, e, com apenas um movimento, apunhalou seu próprio coração.
Sonhei com você, mil perdões. Ainda que o sonho seja meu, e que o pensamento não tenha dono, a culpa é toda minha. Poderia ter velejado por outras praias, tombado em outros mares. Mas, ao sentir suas ondas brancas tocarem meus desprotegidos pés, todos os pecados somem, tal que nunca existiram.
Você se foi. Não quis impedi-lo. Sem motivos, em um segundo. Adeus, lembro de vê-lo acenando e indo embora naquela esquina sem fogo. Nesse dia, fui-me ao último andar de meu prédio. Pensei em pular, mas a coragem me faltou, uma lembrança foi o suficiente para deter-me.
Acalentei todas as flores em seu pequeno túmulo imaginário. Todos os dias, à noite, sem demora, jogava-lhe uma rosa. Ao dormir, escutava suas tentativas de ressuscitar, gemia alto, querendo tirar a terra da garganta. Porém, força de alma é maior do que força de migalhas. Você não conseguiu.
Os dias passaram lentos, as noites passaram em branco. O calendário era sempre igual. Uma tarde, quando passeava pelo meu jardim, senti ter ouvido sua voz, lá longe, dentro de minha mente. Sentei-me na grama, e olhei o sol. Ele me lembrava suas idéias. Você queria, como Hícaro, alcançá-lo. Morreria queimado, eu bem sabia. Isso era o que mais amava em seus olhos: a falta de medo.
Quando o tempo passou renovado, e eu finalmente achei que o tinha esquecido, sonhei com você. Vinha a mim, com todas suas palavras em falso, nas quais sempre acreditei, com toda a certeza da falácia. Desesperei-me, com razão. Lembrar de seu rosto era a morte, lembrar de suas palavras, o silêncio.
Mas hoje é diferente. Eu sinto as lágrimas descendo, uma por uma, sem importar-me com os sentidos. Agora, você vai acabar. Você vai sumir. Vai deixar-me. Sem explicação, sem volta. Eu vou matá-lo. Com seus olhos me acompanhando para sempre, não há mais para onde sonhar.
Pegou um punhal, que tinha guardado há vidas, e, com apenas um movimento, apunhalou seu próprio coração.
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