sexta-feira, novembro 22, 2013

já não sou mais tão nova quanto antes,
mas ainda não tenho 25 anos de sonho e de sangue e de américa do sul.
estou na idade do desencontro
de andar de olhos fechados na corda bamba.
se cair, ainda voo?
se voar, ainda sonho?
em cada manhã, uma porta.
caminhos de pedras e poemas,
sem ritmo, sem setas
sem reta final.
(por hoje só)
um poema para alegrar o dia
e entristecer a noite.
longos versos de carinho e solidão
samba escondido por entre as rimas soltas
dançando na imensidão.

nada pelas ondas de imagens
ora afogadas, ora flutuantes.
ah, poema de tinta negra!
marca na pele a tatuagem
do riso e do choro fumegantes.

domingo, novembro 17, 2013

sorte tem o coração distraído
dorme um sono tranquilo
enquanto perambulam à noite
os amantes desesperados.

rasguei o coração do peito
e joguei no abismo
fingiu ser avião de papel
e caiu num livro inundado.

ai, coração inventado
vai dar susto no mundo
e deixa o poema dormir.
no lo sé quién tú eres
ni cuándo se fue
solamente que me hieres
y que imita el amor.

no lo creo en el pasado
hoy poesía de mi dolor 
pues él tambiém fue engañado
como mis oídos, boca y color.

terça-feira, outubro 22, 2013

foi ontem que quebramos o vidro daquela casa. só que não sabíamos que ao deixar as pedras caírem no chão o que caíam eram nossos sonhos. pesados, escondidos e com o gostinho de travessura, mas ainda assim não imunes à gravidade do tempo.
você foi embora e levou as assombrações daquelas salas, os olhos atentos às árvores sombrias do quintal e seus penduricalhos que nos lembravam bruxarias.
também foi outro dia que sentei no sofá e chorei. escrevi minha primeira carta inventada. eram palavras para minha juventude adormecida, escondida entre as palavras corridas e longínquas. era uma vontade de amar alguém que dorme, alguém em coma, que pudesse descansar em paz enquanto eu lhe dava amor e poesia.
hoje escancarei os olhos pelo ônibus. as casas e árvores correndo do lado de fora. minha vida ficando para trás, mudando a cada sinal vermelho, transfigurando as pedras e cartas já partidas. se pudesse escolher um momento, não pediria por ontem ou pelo outro dia, mas um segundo de silêncio nesse mundo.

domingo, outubro 13, 2013

encaro o mundo de olhos fechados. assim, sinto o vento nos cabelos e o céu misturado com meus gestos. é necessário respirar o silêncio, abraçar as cores criadas pelas mãos quietas. não vejo a luz das estrelas, mas sei do peso dos anos que voam sobre nós. nada escuto do tempo, mas a dor do presente paira meio em festa meio em túmulo em nossas casas.

mundo!
grita tuas curvas sobre mim! me enlaça nessas águas de enigmas e segredos. abre as asas nas ondas de incerteza, de caminhos cruzados e tortos. me faz sonhar com canções antigas e ternas.
não deixe explodir os vulcões, desesperos de sentimentos inundados.
que apenas as lavas da liberdade me alcancem.
a flor somos nós,
o orvalho é o tempo.

vem do sereno
e nos suja de solidão.

também nos limpa de esperança
para depois cair no chão.
o operário boceja as horas de trabalho
mas o galo não canta com os outros galos 
ele vai amassado com muitos homens no ônibus.

nunca leu fernando pessoa nem olavo bilac
o que sabe são as notícias tristes e monótonas
estampadas cheirando à fumaça 
das fábricas e dos cigarros. 

nunca foi homem de escrever ou de cantar
não sabia o que era tom nem coda
de rima só simples, nunca rica.

não havia tempo para mudar
no emaranhado de nada e nunca mais
só o que soube é que talvez pudesse se libertar
quando um panfleto recebeu
de um desses comunistas que dizia
que queremos direito ao pão, mas também à poesia.

domingo, agosto 25, 2013

anoiteci precisando ser poesia:
um grito no escuro
e o fósforo nos lábios.

não tenho abraços,
apenas flores.
mas nessa noite nada me basta:
quero pétalas
pele
perdas.

a poesia é faminta.
ai que bonitos seriam os campos
se a terra fosse de todos
e os frutos fossem livres.

o amanhecer não seria uníssono
mas uma ópera nascente
como o orvalho que
ao cair do céu 
escreve na folha
e deságua no mar. 

é preciso cantar a liberdade
essa filha nossa
de gritos de sangue e de guerra
que aguarda apenas
o dia de nos dar à luz.
minhas mãos tão pequenas
parecem não suportar o peso do mundo
nem a tristeza desses olhos cansados
do dia perseguindo o sono.

será que da vida nasce o amanhã?
e as estrelas são sorrisos de nossa história?
quieta, alcanço com os dedos a revolução.

o céu é cúmplice da miséria,
mas também da liberdade.
abro a mão e sopro as estrelas guardadas.

domingo, julho 07, 2013

sem título

tempo, 
motor dos pés, do meu choro e do 
vento
que, leve, surrupia dos lábios 
os segredos e as novas histórias
antigos presentes que não freiam. 

vida,
arrastada, traiçoeira, não há
saída
aqui e do outro lado do mundo
o que foge, o que fica, mesmo que anseie
não é um pedido, mas uma intimação.

solidão

solidão é o que nos resta quando os dedos se perdem na longa distância do adeus. é aquela fome tardia e sem pressa posta em cima da mesa numa tarde de domingo, são as horas marcadas por um relógio quebrado (e mesmo assim teimamos em querer acreditar nesse tempo).
às vezes (e hoje percebo que são incontáveis), ela se manifesta nesse mergulho longo e sem ar entre nós dois. os olhos se arrancam dos corpos e vão passear, saboreando a paisagem e bocejando o cansaço dos dias.

domingo, março 31, 2013

o corpo teu amanheceu
sem mapas e cheio de contornos.
era um navio perdido ondulando saudades.

dei adeus ao subir na proa
olhares e distâncias deixei para trás
enquanto na terra
teus pés construíam um mundo novo.

o céu me derrama:
quer dividir para me tomar.
mas rasgar eficaz seria
pois esse poema é todo dono de mim.

segunda-feira, março 11, 2013


você é como uma estrela
que vai cair no jardim
será raiz,
depois fruto
e então flor

carrega sempre essa cadência
meio universo
meio terra
meio nós dois.

te chamei pra nascer comigo
andar por essa vida
com os pés no chão
e os olhos lá em cima
nessa paz cheia de céu.
faz tanto tempo que não me deito assim no chão e deixo o vento me tocar, bem de leve, com suas plumagens e segredos. cada passo é uma nova pergunta, mas sem pressa para as respostas. agora eu consigo entender alguns ritmos, algumas letras. é que meu corpo respira fundo.
cartola dizia que o mundo é um moinho, mas eu penso que o mundo está mais para o que ele é: um grande mar azul, cheio de ilhas e vontades de acordar ao seu lado com os raios de sol. tudo está tão bonito que eu até estranho. mas a vida então é isso: um surpreendente sorriso depois de uma enchente devastadora.

domingo, março 10, 2013

olha, durante muito tempo acreditei em coisas que não faziam o menor sentido. coisas da vida, de saudade, de amor, de como será, de como foi, de como vou resistir... e hoje, aqui deitada na rede, olhando para o céu, deixando o tempo refletir suas dores em meu corpo recém-nascido, percebo o quanto preciso varrer as cinzas que deixei espalhadas por aí.
cada dia, um vestígio.
silêncios e abraços
de uma vida a nascer.

dedos trêmulos, olhos embaçados.
é possível um beijo não tocar os lábios?

a alma pede corpo,
mas os carinhos se escondem embaixo do tapete.

segunda-feira, março 04, 2013

pensei em você
talvez por alguns segundos
(ou dias)
olhos mãos cheiro e roupa
dançando um tango comigo.

me levou para um jardim
depois me girou para a praia
meu corpo se curvou
em ondas sinceras
quando o mar me tomou dos seus braços.

whenever I feel

meu deus, o que é essa angústia tão forte dentro de mim? parece que tenho uma bomba no corpo, pulsando mais forte que meu próprio coração. diz que precisa sair, que vai explodir a qualquer momento, ando de um lado pro outro, querendo que isso me deixe em paz, que vá embora, que pare de me possuir. mas isso continua, e parece que não tenho mais forças pra aguentar.
chorar adianta? escutar uma música que me abrace, que me ame tão profundamente ao ponto d'eu esquecer onde estou e para onde vou. pintar, escrever, tocar, desenhar? há alguma forma de isso sair de dentro de mim? posso devolver ao lugar que pertence? posso nunca querer ter sentido isso?
suspiros na noite sem estrelas, o barulho da chuva gotejando a rua ali fora, minhas mãos correndo do rosto até o estômago, pedindo para ficar só comigo mesma, sem essa sensação de que sempre terei essa companhia que me deixa sem respirar.
por quê? queria as respostas, as perguntas, o caminho entre esses dois enigmas, suas mãos para me ajudar a sair desse labirinto. não tenho nada e preciso me contentar com esse barulho sem notas e instrumento.