terça-feira, fevereiro 04, 2014

faço um canto sem demora
de espera e rouquidão
microfone pifado 
e latas vazias.

por aí, girando de braços abertos
o abraço que te guardei
se consolou num tango ameno. 

traguei umas histórias de bar
músicas em tom de babel
guardei a voz fraca
hoje calada e quieta no seu mergulho.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

- estou enlouquecendo, carlos. e não há hospício forte o suficiente para aguentar a minha loucura, a minha queda que é a própria gravidade. 

o homem piscou os olhos, como quem tenta tirar poeira dos cantinhos da vista. talvez uma tentativa de entender o que essa mulher sentia. era dor, era tristeza, era tédio? não sabia, talvez nunca viesse a saber.
mas é na desconfiança que se criam os laços. não na desconfiança dolorosa cheia de rancor, mas na falta de confiança numa certeza.
e agora? onde colocaria sua cabeça encostada? não há ombro que suporte esse peso nem cama que não pegue fogo com o calor dos pensamentos. talvez a jogue num parque com um gramado tão extenso que lembre as ondas do mar.

- são as cores de uma aquarela atiradas na parede de um quarto sem portas ou janela. é a embriaguez sem licor nem vinho, talvez de um café que se esvai com sua fumaça quente pelo mundo. sou o apito do silêncio nesses dias vazios e sem dó.

foi até o umbral respirar o vento, esse desses dias de verão que lembram a infância. talvez dar-lhe as mãos a console, é um gesto de presença forte, de desenho marcado para o momento da solidão. mas como se não lhe resta mais força para agarrar forte em qualquer coisa que emane o agora, o instante e a própria tentativa de escapar de dentro de si?
é o perigo da entrega. não resta força, mas sobra tudo que grita. são as curvas e contorno de frida kahlo, aparentes elevações de todos os sinais do mundo.

- sabe quem eu queria que estivesse aqui? não, eu também não sei. é possível alguém que me olhe e me escreva? também na arte fugimos. não por covardia, mas por libertação. peço apenas algumas linhas tortas, alguém que se faça de deus e que escute minhas orações. e que nesse momento guie meus passos.

não é fé de que precisa. é de sentir-se parte de cada palavra, da imagem que é a criação. é procurar no absurdo algo que seja aceito dentro do que entendemos. afinal, não a tiraria dali. não adiantaria levá-la para um passeio ou para jantar.
cansado, desolado e sem saída, começou a pintar seus contornos.
no voy a dormir,
pero a soñar.
con las alas abertas
vuelo hasta mis ojos cerrar.
você me empurrou do quinto andar.
não o corpo
ou os sapatos
nem as flores que nunca existiram.

foram os gestos que te dei
embrulhados em fitas coloridas
e papéis regados de tempo e saudade.

o corpo livre dos abraços
não há marcas de unhas nas pinturas
nem o som do violão nas tardes de domingo.

não voei quando caí
talvez porque tivesse pernas
talvez porque tivesse mãos que fazem poesia.
mas não voei,
não voei.
e caí.
nasci para a lua
para os rebentos do mar
perdida nas esquinas da vida
sou filha de iemanjá.

nas mãos o cheiro do sopro
fumaça que sobe ao céu
alcança as estrelas distraídas
canto de amor escondido num véu

corpo girando na praia
lâminas ditas na areia
acordo as ondas com os versos
esses que correm nas veias.

terça-feira, janeiro 14, 2014

você nunca me deu uma flor. estando num barquinho em veneza ou num ônibus na suburbana. sequer o cheiro das pétalas passou longe, essência de carinhos, saudades e paixões suaves. 
por que, sendo tão humana, não tenho direito a segurar algo que se esvai como um sopro, mas que é belo, é belo, é belo. é o amor em formato de vida, é a vida em sua esfera mais animal e feliz. 
não quero a delicadeza de uma margarida ou os espinhos de uma rosa. tampouco o sol que gira do girassol amarelo. quero sentir seu cheiro, o sorriso de flor se abrindo para o mundo e pedindo para ser tocada e salva do asfalto, que é a maior solidão que podemos ter.
quero uma flor pra guardar o tempo que cai em seus braços como o orvalho chega toda manhã. quero soprar seu pólen em minhas poesias frágeis e famintas.
você nunca me deu uma flor, porque a madrugada serena sempre volta, porque meus olhos brilham demais e meu corpo parece feito de galhos, folhas e pétalas.
llueve la sonrísa en mi cuerpo poncho
alumbra mi corazón
y házselo arco-íris de tus besos.
tristeza canta o choro da aurora
das reticências entre mim e o adeus
das dores em trânsito, 
viajantes do mundo. 

versos multifacetários
invasores dos sopros de meu pensamento
escrevem sentidos em linhas tortas
e em linhas tortas uma reta sem fim.

retira, tu, essas rimas
de quem não sabe esperar
e foge, impaciente,
pra onde não haja canto
nem aurora
nem caminhos indecifráveis.
paixão são advérbios exagerados
fugas sem controle e mentiras deslavadas. 
saudade que não cansa em esgotar
o suor dos corpos 
mistura de agora e de uma vida inteira.

mas o amor
o amor é a intensidade dele mesmo.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

samba do desencontro

grita, tambor, 
o dia de ti ausente
passos na saudade pisam
no compasso sem batida.
com essa voz de cuíca
beija a poesia e os cantos distantes.

onde samba você?
danço na praia
acordo nos mirantes
e por aí escuto teu cheiro.
por que o vento apaga o fogo
quando se esconde 
a chama pelas cavernas e celeiros
nas noites frias
de carnaval a janeiro?

carregados de palavras não ditas
queima o mundo em segredos 
rios secos e sem rumo
pelos fósforos nunca acesos.

abre tuas flamas, corcel sem dono
traz o vento nas asas
pula as luas sem ferir cicatriz
porque o que se é só se transforma
quando se grita o que nunca se diz.

domingo, dezembro 29, 2013

te quiero libre
te quiero flor
te quiero hermosa
llena de color.

aún que el mundo cambie 
y la primavera se va
te tomo una fotografía
y doy al mar.
deixa eu te contar um segredo. 
acordaram hoje as horas soprando o tempo contra mim, dizendo baixinho nos meus ouvidos que não há barco no mar nem bicicleta na avenida. 
pediram pr'eu deixar o café da manhã pra depois e correr contra o vento, empurrá-lo para outra direção em que só nós dois conhecemos. 
os abraços não foram embora, apenas descansam em jejum um calor que perpassa o corpo inteiro. corpo que cala, mas que quer cantar um bolero desses espanhóis em que a dança se torna meio beijo e sorrisos.
dança comigo? abre a porta de casa e deixa a janela ser quadro do mundo. passos em falso, corpos girando, pula para o jardim cheio de flores, verdes, azuis e violetas. dança um encontro cheio de desencontros, mas livre para abraçar o agora, o sempre e talvez depois um nunca mais.
não é tão segredo assim, porque meus olhos escancaram o peso da alma, mas a dança, o jardim e o abraço se escondem dentro de mim, e agora te dou tudo com essas palavras que sem controle transbordam pelas brechas de qualquer cadeado.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

às vezes não entende
a poesia
o que se sente.

é incapaz de com suas asas
voar baixo
e tocar a dor, a tristeza
e o amor.
mania de não escutar nada,
de andar com os pés sem rumo,
cabelos perdidos no mundo,
de jogar o corpo inteiro
guardando segredo por todos os lados.

mania de chorar escondida,
de escutar zeca baleiro e 
paulinho da viola,
de cantar a desilusão várias vezes
por ter acreditado em qualquer coisa
que bateu forte quando quebrou.

mania de ir embora depois
mas de sempre acharem que fui antes
de não abraçar forte quando quer
de tentar dormir sem conseguir
e de agora querer um momento a mais com você.

quinta-feira, dezembro 26, 2013

os dias já não têm horas que me esperam,
os anos já não me encontram mais.
calada, guardo nas mãos qualquer coisa:
uma saudade,
um sopro,
um suspiro.

a vida que passou já não me serve
- dos passados guardo apenas os passos
embriagados e tortos como meus pés.
se hoje fosse o domingo que te conheci,
a primavera sorriria feliz
e os cantos seriam abraços.

mas hoje é qualquer dia.

não chove nem faz sol.
é morno como um adeus há muito dado.

teu rosto já esqueci
nas ondas do céu adormecido.
o cheiro se foi e mora hoje
numa Índia não descoberta.

poema para minha vó

deixo para o esquecimento
teus cabelos brancos
a falta de ar
o medo da morte.

ainda não fui te visitar,
pois guardo o choro contido em mim
das idas da escola até em casa, passeios
rápidos com a bengala e boina de meu avô.

tuas sílabas soltas de abraços soluçantes
gritos intactos das lembranças de outrora
pássaros que cantam a memória de todos nós.

te dou fotos, desenhos e beijos
que tanto alimento no baú do quarto da penha
balanços vazios, corredores sem crianças
a cozinha não tem mais pastéis nem bolos.

é natal, e o hospital está cheio
os olhos pedindo casa
a vida pedindo fica.
guardo o adeus nesses versos
tentativa de ser anos atrás.
deitei os olhos no céu
e desenhei com o sentir teu sorriso
cor de nuvem 
e meio tempestade.

o sol pede um abraço
e canta uma lembrança da lua para mim.
tenho medo de incendiar o corpo
e não achar o caminho de volta pro mar.

se eu pairasse o pensamento no vento
ele o levaria para onde você está?
o céu é muito grande
o sol muito explosivo
a lua chama meus delírios
mas o vento
o vento vai para qualquer lugar.
(basta um sopro)

quinta-feira, dezembro 19, 2013

lágrima

não chorei rios
nem um oceano.
tampouco alaguei lembranças
ao som de festas e corais.

caiu uma lágrima
tulipa solitária
pedaço fugidio de mim.

era ela
o abraço nunca dado
os segredos esquecidos
a dor do parto de se nascer felicidade e angústia.