terça-feira, março 11, 2014

meu amor,
que ainda não chegou
quando chegar
me traga uma semente 
de laranjeira pra eu plantar

que quando nascer 
a rua vai ficar com cheiro de poesia
porque fruta que nasce
é vida nova que se cria.
ao nascer choramos iguais
mas com o tempo
choramos mais
- muito mais.

pelos medos, receios,
tapa e empurrão
mulher já nasce guerreira
puta, trans e sapatão.

da vida as dores
das dores o grito
às vezes calmo
outras lágrima e barraco
mas nunca calado

esse grito,
meio liberdade
meio vida e esperança
nos arranca pra rua
pois nosso lugar
só pode ser na luta.

sexta-feira, março 07, 2014

me contaram a vida é curta.
teu olhar é mais ainda.
é da cor da primavera
chegando e já indo embora
rodando pelas estações 
não cinema
nem música
é foto que não volta atrás.
te espero
ainda com o silêncio da madrugada
com o relógio desnorteado
e a bússola sem ponteiros.

te espero na avenida
os carros sem rumo,
viagem solitária e perdida
a partida que foi pra longe.

te espero andando
de bicicleta, de metrô e de trem
dando beijos nas paisagens
e abraços na vida que vou largando.

tu, que me guarda naquele dia,
jogou a minha espera no abismo.
na madrugada
(nada veloz)
tua voz passeia 
sonâmbula e distraída
pela cama
suando lembrança e silêncio.
vida, laranjeiras do pomar doce
carregadas de sabor de infância
cai da árvore madura
na cabeça da criança esperta
esta descobre 
não a gravidade, 
mas o desespero de não poder voar

sábado, março 01, 2014

sobre as lágrimas contidas

a vida tem dessas de ludibriar, de fazer labirinto, de esconder o rosto e não dar a cara a tapa, de jogar no deserto as mentiras. 
sem querer de repente o vidro se faz limpo e a rosa aflora, mesmo que a vontade seja a de correr, apesar dos saltos em pedras e montanhas, deixar cair o sentimento por uma cachoeira abaixo que ainda não foi inventada.
mas eu escrevo, eu desenho, eu tatuo na pele água violenta que grita liberdade, que quer ser mundo, e que daria todas suas gotas e sal pra não estar aqui agora.
porque o suicídio em serpentinas nasceu, mas o carnaval ficou mudo. os confetes caídos não foram recolhidos e nem a máscara que te toquei sorriu. não soltou das mãos a flauta, o balanço nem a arma que me calava.
presa na madrugada, preferi deixar o sono te embalar a acordar com o céu nublado dos teus olhos.
a pele cobre a explosão
os nervos seguram o grito
é de pólvora o que escrevo
e sinto?
tu vai
com esses sonhos na mão
acender as estrelas
dos olhares perdidos
cadentes caindo nos quintais vizinhos
invadindo casas e quartos
corações e poemas.

tu não volta
que a terra é redonda
mas tuas asas infinitas
voam pra onde querem
e não desenham caminhos.

domingo, fevereiro 16, 2014

teu beijou desenhou uma tatuagem nas minhas palavras. deixaram de ser linhas tortas para serem desenhos, pinturas e paisagem desse mundo que toco e escondo pela janela.
pinto teu olhar calado, teu respirar receoso pelos tragos que dou, lembrança de te abraçar com calma e amanhecer não quando o sol nasce, mas quando te vejo sorrir.
chora,
que o coração parte
mas volta.

que a vida se reinventa,
e posso te contar?
ela é possível.

que as mãos se dão
se vão
num abraço longo
com gostinho de mar.
na rua, uma lembrança volante
pedalando pela ciclovia
apostando corrida com o esquecimento.

tanta coisa caiu da bicileta
deixou rastro no caminho
pegadas de lugares e segundos fugitivos.

na vida só não se transforma
o que se muda todo dia
é possível o amor ir embora assim
tão vivo,
tão rebelde,
tão recém-nascido?

terça-feira, fevereiro 04, 2014

faço um canto sem demora
de espera e rouquidão
microfone pifado 
e latas vazias.

por aí, girando de braços abertos
o abraço que te guardei
se consolou num tango ameno. 

traguei umas histórias de bar
músicas em tom de babel
guardei a voz fraca
hoje calada e quieta no seu mergulho.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

- estou enlouquecendo, carlos. e não há hospício forte o suficiente para aguentar a minha loucura, a minha queda que é a própria gravidade. 

o homem piscou os olhos, como quem tenta tirar poeira dos cantinhos da vista. talvez uma tentativa de entender o que essa mulher sentia. era dor, era tristeza, era tédio? não sabia, talvez nunca viesse a saber.
mas é na desconfiança que se criam os laços. não na desconfiança dolorosa cheia de rancor, mas na falta de confiança numa certeza.
e agora? onde colocaria sua cabeça encostada? não há ombro que suporte esse peso nem cama que não pegue fogo com o calor dos pensamentos. talvez a jogue num parque com um gramado tão extenso que lembre as ondas do mar.

- são as cores de uma aquarela atiradas na parede de um quarto sem portas ou janela. é a embriaguez sem licor nem vinho, talvez de um café que se esvai com sua fumaça quente pelo mundo. sou o apito do silêncio nesses dias vazios e sem dó.

foi até o umbral respirar o vento, esse desses dias de verão que lembram a infância. talvez dar-lhe as mãos a console, é um gesto de presença forte, de desenho marcado para o momento da solidão. mas como se não lhe resta mais força para agarrar forte em qualquer coisa que emane o agora, o instante e a própria tentativa de escapar de dentro de si?
é o perigo da entrega. não resta força, mas sobra tudo que grita. são as curvas e contorno de frida kahlo, aparentes elevações de todos os sinais do mundo.

- sabe quem eu queria que estivesse aqui? não, eu também não sei. é possível alguém que me olhe e me escreva? também na arte fugimos. não por covardia, mas por libertação. peço apenas algumas linhas tortas, alguém que se faça de deus e que escute minhas orações. e que nesse momento guie meus passos.

não é fé de que precisa. é de sentir-se parte de cada palavra, da imagem que é a criação. é procurar no absurdo algo que seja aceito dentro do que entendemos. afinal, não a tiraria dali. não adiantaria levá-la para um passeio ou para jantar.
cansado, desolado e sem saída, começou a pintar seus contornos.
no voy a dormir,
pero a soñar.
con las alas abertas
vuelo hasta mis ojos cerrar.
você me empurrou do quinto andar.
não o corpo
ou os sapatos
nem as flores que nunca existiram.

foram os gestos que te dei
embrulhados em fitas coloridas
e papéis regados de tempo e saudade.

o corpo livre dos abraços
não há marcas de unhas nas pinturas
nem o som do violão nas tardes de domingo.

não voei quando caí
talvez porque tivesse pernas
talvez porque tivesse mãos que fazem poesia.
mas não voei,
não voei.
e caí.
nasci para a lua
para os rebentos do mar
perdida nas esquinas da vida
sou filha de iemanjá.

nas mãos o cheiro do sopro
fumaça que sobe ao céu
alcança as estrelas distraídas
canto de amor escondido num véu

corpo girando na praia
lâminas ditas na areia
acordo as ondas com os versos
esses que correm nas veias.

terça-feira, janeiro 14, 2014

você nunca me deu uma flor. estando num barquinho em veneza ou num ônibus na suburbana. sequer o cheiro das pétalas passou longe, essência de carinhos, saudades e paixões suaves. 
por que, sendo tão humana, não tenho direito a segurar algo que se esvai como um sopro, mas que é belo, é belo, é belo. é o amor em formato de vida, é a vida em sua esfera mais animal e feliz. 
não quero a delicadeza de uma margarida ou os espinhos de uma rosa. tampouco o sol que gira do girassol amarelo. quero sentir seu cheiro, o sorriso de flor se abrindo para o mundo e pedindo para ser tocada e salva do asfalto, que é a maior solidão que podemos ter.
quero uma flor pra guardar o tempo que cai em seus braços como o orvalho chega toda manhã. quero soprar seu pólen em minhas poesias frágeis e famintas.
você nunca me deu uma flor, porque a madrugada serena sempre volta, porque meus olhos brilham demais e meu corpo parece feito de galhos, folhas e pétalas.
llueve la sonrísa en mi cuerpo poncho
alumbra mi corazón
y házselo arco-íris de tus besos.
tristeza canta o choro da aurora
das reticências entre mim e o adeus
das dores em trânsito, 
viajantes do mundo. 

versos multifacetários
invasores dos sopros de meu pensamento
escrevem sentidos em linhas tortas
e em linhas tortas uma reta sem fim.

retira, tu, essas rimas
de quem não sabe esperar
e foge, impaciente,
pra onde não haja canto
nem aurora
nem caminhos indecifráveis.