fazia dias que não chorava.
incrível que pareça
não aguento mais escrever sobre dor.
virginia estava certa?
o peso
do feminino,
do choro,
a alteridade duvidosa
(uma vez que amor só pode ser outra coisa)
aliás,
saindo do parênteses
pode ser outra coisa?
o quê?
chamar de pássaro
e deixá-lo voar
chamar de pássaro
e matá-lo com a espingarda
sou mulher
mas sou armada
como uma aranha na quina do box.
será que estou atrapalhada?
será que essa dor é um saco de mercado
usado pra me oprimir
e me sufocar?
estou suicidando minha linguagem
preciso escrever sobre a guerra,
sobre o universo
panfletar as palavras?
não confio em semideuses.
não confio em poemas de amor.
sábado, julho 14, 2018
nunca pensei assim:
é abril, e tenho cartas.
é junho, e daí?
não tenho nada.
cada mês deveria ter um segredo
ou talvez seja superfície demais.
se mês fosse um oceano
eu diria que tenho um peixe
mas o que eu faria com isso?
não há memória
quando a conversa se embola
e vira outra história.
se eu transformar
mês em mesa
posso comer o peixe?
há tanta coisa a se fazer
em uma mesa que
seis minutos valem mais que um mês.
é abril, e tenho cartas.
é junho, e daí?
não tenho nada.
cada mês deveria ter um segredo
ou talvez seja superfície demais.
se mês fosse um oceano
eu diria que tenho um peixe
mas o que eu faria com isso?
não há memória
quando a conversa se embola
e vira outra história.
se eu transformar
mês em mesa
posso comer o peixe?
há tanta coisa a se fazer
em uma mesa que
seis minutos valem mais que um mês.
meu bem, juro que se você demorar mais um pouco vou-me embora para pasárgada e te deixo com um sorvete derretendo na mão aguardando um ônibus que possivelmente quebrou na avenida brasil. as coisas mais terríveis da vida acontecem nos momentos de espera, e eu estou evitando horroridades. por isso toda vez que o relógio caduca no silêncio da tarde sei que é hora de ir embora. quando nasci, um pedaço de algodão, soprou por aí um vento estranho e fui sendo carregada rua abaixo. que engraçado! ser algodão é coisa estranha, você se desfarela, se suja, fica impróprio, mas vou te dizer... é de uma leveza! não tenho mais tempo, o mundo consome muito das minhas arestas. tchau.
preciso aceitar estranhezas
como esperar que um seja familiar
se nem eu mesma me reconheço?
às vezes me espanto com uma frase que disse
me pergunto: mas o que é isso?
tenho certeza, não penso
sou pensada
daí que me indigno quando te estranho
imagina que absurdo!
aceito o clichê:
para não entender o outro,
é preciso não se entender primeiro.
como esperar que um seja familiar
se nem eu mesma me reconheço?
às vezes me espanto com uma frase que disse
me pergunto: mas o que é isso?
tenho certeza, não penso
sou pensada
daí que me indigno quando te estranho
imagina que absurdo!
aceito o clichê:
para não entender o outro,
é preciso não se entender primeiro.
sábado, junho 16, 2018
meu cansaço vai a profundezas
autocria barbatana
aprende a língua dos peixes raros
de onde estou ou para onde vou
deitada num barco de papel acalentando estrelas
lanço a âncora nesse meio do nada
profundamente bonito, sabiamente triste
aguardo.
aguardo.
aguardo.
ele retorna e me seduz
eu que sempre fui de me afogar
me jogo nos braços da sereia.
autocria barbatana
aprende a língua dos peixes raros
de onde estou ou para onde vou
deitada num barco de papel acalentando estrelas
lanço a âncora nesse meio do nada
profundamente bonito, sabiamente triste
aguardo.
aguardo.
aguardo.
ele retorna e me seduz
eu que sempre fui de me afogar
me jogo nos braços da sereia.
pensei em te ligar
lembrei que ninguém mais disca
nem discos escutamos mais
que pena
tanta música marcada
tanto encontro retocado
será que compro uma vitrola?
ainda estou pensando em te ligar
não tem tomada aqui em casa
e sei bem que você não é abajur
que pena, comprei uma linda
palavra criei com ela
não é pra isso que serve a saudade?
lembrei que ninguém mais disca
nem discos escutamos mais
que pena
tanta música marcada
tanto encontro retocado
será que compro uma vitrola?
ainda estou pensando em te ligar
não tem tomada aqui em casa
e sei bem que você não é abajur
que pena, comprei uma linda
palavra criei com ela
não é pra isso que serve a saudade?
faz sol lá fora.
aqui dentro chove cântaros
sempre imaginei domingo chuvoso.
é possível ser feliz numa vida sempre à véspera?
o sol não respeita ninguém,
nem meus pensamentos
nascidos da morte, estão
indo em direção a ela
como chocar-se com o absurdo
quer dizer que estive todo esse tempo adormecida?
alienada
não
tenho sofrido todos os domingos
estou sempre à espera desta chegada.
aqui dentro chove cântaros
sempre imaginei domingo chuvoso.
é possível ser feliz numa vida sempre à véspera?
o sol não respeita ninguém,
nem meus pensamentos
nascidos da morte, estão
indo em direção a ela
como chocar-se com o absurdo
quer dizer que estive todo esse tempo adormecida?
alienada
não
tenho sofrido todos os domingos
estou sempre à espera desta chegada.
quando e somente quando estiver prestes a me jogar de braços abertos daquele prédio, após anos de planejamento e estudo sobre qual seria meu último pensamento, se sofreria ou teria um orgasmo ao me quebrar inteira no chão, largando as sílabas pelo ar, é somente aí que escuto teu ronco e consigo soprar barcos de papel no teu sonho que pinga ao meu lado ou talvez eu esteja confusa, a visão turva, são minhas lágrimas de sempre que alagam a cama.
quarta-feira, junho 06, 2018
sinto muitas vezes uma vontade profunda de escrever um texto cru, comê-lo com as mãos, o sangue na saliva, dilatando minhas papilas, o gosto seduzente da vida ao avesso, depois penso o quão estúpido isso é, não existe essa coisa de texto cru, ele está sempre bem bem passado, tão passado que consigo vê-lo a quilômetros quando olho para trás, sozinha na estrada enxergo as palavras formando uma linha do horizonte, penso em tirar uma selfie para que acreditem em mim e não me achem louca, mas pensar sobre isso já é um ato de insanidade, também gostaria de falar sobre papoulas e fazer uma poética, como dizem mesmo?, uma poética solar, tudo que eu queria na vida era uma alma jogada no sol, mas você conhece o mito, ele está aí para edificar minha história, um texto cru, eu teimo em achar que existe aquela tal de mudança de valor linguístico e mando todo mundo esquecer de uma vez por todas a etimologia das coisas, mas existe algum tipo de mágica na origem das palavras, elas têm cheiro, antepassados, há uma inscrição profunda dentro de sua escritura, por isso quando penso em cortar os pulsos é por um texto cru que estou faminta.
olá, meu amor, bom dia, sei que tem pensado muito sobre aquela casa na praia que há anos pensamos em comprar, pensamos, pensamos muito, sei tão bem quanto você o quanto pensamos na areia, nas ondas e até nos tatuís que hoje em dia já nem mais existem de tanta poluição, você sabia disso? não há mais tatuís por aí rodeando nossos pés e beslicando a ponta de nossos dedos. mas não foi culpa sua, eu sei que você esqueceu aquela guimba de cigarro e nunca faria isso de propósito, não quero que se sinta mal pela morte dos tatuís, mas você sabe, você deve lembrar, que quando falávamos da casa da praia, falávamos muito dos tatuís, e você até me disse que levaria seu papel e a aquarela para desenhar esses animais magníficos que ficam reaparecendo na minha cabeça, mas a verdade, a verdade mesmo, por favor não espalhe por aí depois de nossa conversa, é que nunca vi um tatuí, mas apesar disso sei muito bem como eles são e o quão importantes serão quando estivermos num asilo já com a memória em frangalhos, tenho certeza que lembrarei deles e ficarei triste pelas gerações futuras que não terão a oportunidade de vê-los como agora os vejo, que sorte tenho, por outro lado, de nunca tê-los visto, não sei o que seria de mim se tivesse visualisado, mesmo que por um segundo, esse pequenino animal que tantas vezes percorreu meu corpo sem nem saber meu nome, sem saber das noites em claro, dos cortes de cabelo e da vida que gostaria de ter deixado para trás. meu amor, me desculpe, eu te acordei?
quando se está deprimido, maria pensava, que coisa mais louca que é lavar a louça. parece quase um mergulho no livro de dante, com os cacos cortando as mãos. a demora de dias passando pela frente da sujeira, o peso do corpo beirando a pia como vermes beiram o lixo: surgem de repente, como obra divina, e parasitam ali até que sejam expulsos por intervenção humana.
sempre esperou um milagre, não que rezasse, mas fazia sentido a espera. o que mais fazer senão esperar longamente para que a depressão fosse embora? as pessoas acham que depressão é qualquer coisa quando na verdade é um cheiro insuportável, como o da louça acumulada. ela convivia com esse cheiro até que esquecia dele, até que o normal fosse ele mesmo, esse cheiro de merda.
havia dias que descia as escadas do prédio e parecia entrar num labirinto, e olha que as escadas nem faziam círculo. estava já indiferente às baratas mortas e nem filosofava quando via a gosma que saía delas rente aos degraus. não havia o que fazer, e às vezes invejava suas mortes tão sem sentido e tão naturais e tão repentinas, assim como invejava a felicidade amena dos gatos que dormem tão tranquilos, e miam pedindo comida e quando sortudos são atendidos, e quando não, correm pelas ruas sem saber que estão na rua e que existem casas com outros gatos que não correm.
que coisa mais estranha essa de ter que lavar a louça quando o que se quer na verdade é quebrá-la. e não ter mais pratos onde comer, alimentar-se do resto das memórias que ainda invadem as frestas da porta e trazem seu aroma de incenso que sobrepõe o cheiro de comida estragada.
maria tem um grande desentendimento com seu corpo que pede para adormecer por longos dias enquanto é necessário fazer essas coisas da vida, que ninguém nunca tá muito satisfeito mas continua fazendo. comprou uma muleta numa loja perto do seu apê, pra arrastar o corpo pelos cantos, para chegar até a pia onde via essa louça maldita e onde já não sentia muito bem o cheiro da podridão.
este é o momento exato em que olha pra ela e se abisma e suspira e cansada senta no chão, cantarolando em lágrimas aquela música que costumava tocar na rádio na década de 90, onde era fácil lavar a louça e até enxugá-la. que coisa mais louca.
sempre esperou um milagre, não que rezasse, mas fazia sentido a espera. o que mais fazer senão esperar longamente para que a depressão fosse embora? as pessoas acham que depressão é qualquer coisa quando na verdade é um cheiro insuportável, como o da louça acumulada. ela convivia com esse cheiro até que esquecia dele, até que o normal fosse ele mesmo, esse cheiro de merda.
havia dias que descia as escadas do prédio e parecia entrar num labirinto, e olha que as escadas nem faziam círculo. estava já indiferente às baratas mortas e nem filosofava quando via a gosma que saía delas rente aos degraus. não havia o que fazer, e às vezes invejava suas mortes tão sem sentido e tão naturais e tão repentinas, assim como invejava a felicidade amena dos gatos que dormem tão tranquilos, e miam pedindo comida e quando sortudos são atendidos, e quando não, correm pelas ruas sem saber que estão na rua e que existem casas com outros gatos que não correm.
que coisa mais estranha essa de ter que lavar a louça quando o que se quer na verdade é quebrá-la. e não ter mais pratos onde comer, alimentar-se do resto das memórias que ainda invadem as frestas da porta e trazem seu aroma de incenso que sobrepõe o cheiro de comida estragada.
maria tem um grande desentendimento com seu corpo que pede para adormecer por longos dias enquanto é necessário fazer essas coisas da vida, que ninguém nunca tá muito satisfeito mas continua fazendo. comprou uma muleta numa loja perto do seu apê, pra arrastar o corpo pelos cantos, para chegar até a pia onde via essa louça maldita e onde já não sentia muito bem o cheiro da podridão.
este é o momento exato em que olha pra ela e se abisma e suspira e cansada senta no chão, cantarolando em lágrimas aquela música que costumava tocar na rádio na década de 90, onde era fácil lavar a louça e até enxugá-la. que coisa mais louca.
segunda-feira, fevereiro 26, 2018
descobri que não sei ser contemporânea:
acho que meu tempo nunca teceu
escondo o olhar em livros empoeirados
tenho paixão e aversão aos clássicos
não sei falar com os outros
quando vejo um artista
essa palavra pesada
hippie-chic
na rua viro
a cara
cuspo no chão
faço um feitiço no cruzamento e vou embora
de repente é só coisa de gente maluca
ou de um grande silêncio que me pede todos os dias
me pede no ouvido:
quieta-te
quieta-te:
assim posso sussurrar.
acho que meu tempo nunca teceu
escondo o olhar em livros empoeirados
tenho paixão e aversão aos clássicos
não sei falar com os outros
quando vejo um artista
essa palavra pesada
hippie-chic
na rua viro
a cara
cuspo no chão
faço um feitiço no cruzamento e vou embora
de repente é só coisa de gente maluca
ou de um grande silêncio que me pede todos os dias
me pede no ouvido:
quieta-te
quieta-te:
assim posso sussurrar.
plantar a flor no asfalto
não é ato
de coragem
é passo
que parece compasso
e demora
demora
demora
mas ver o asfalto
queimar os pés descalços
pisar num vidro de garrafa abandonada
não parece boa ideia
mas também é ato
acho
uma lágrima
que devo molhar a semente
guardo o choro então
todos os dias
para jogar no asfalto
como quem joga poker
esperando enganar o mundo
não engano nem o reflexo da poça que criei
sempre perdi o embaralho
e também o desejo
outro dia descobri onde estava
por isso escrevi uma flor
um asfalto
e mais nada.
será que nasceu?
não é ato
de coragem
é passo
que parece compasso
e demora
demora
demora
mas ver o asfalto
queimar os pés descalços
pisar num vidro de garrafa abandonada
não parece boa ideia
mas também é ato
acho
uma lágrima
que devo molhar a semente
guardo o choro então
todos os dias
para jogar no asfalto
como quem joga poker
esperando enganar o mundo
não engano nem o reflexo da poça que criei
sempre perdi o embaralho
e também o desejo
outro dia descobri onde estava
por isso escrevi uma flor
um asfalto
e mais nada.
será que nasceu?
por que não gostamos de ler poemas e por que eles são uma forma profunda de aprendizado
quando entramos em contato com a poesia pela primeira vez ou de forma superficial, não importa a idade que temos, se somos crianças ou adultos mesmo que já formados com um grau de leitura regular e profunda, sentimos um estranhamento que beira o desconforto e o abismo.
ler um poema não é uma coisa fácil. e não é porque palavras difíceis são usadas ou porque o escritor resolveu tirar um sarro com a nossa cara. é porque a poesia é uma das formas mais tortuosas de lidar com o inconsciente. ler um poema é então lidar não só com uma floresta escura e cheia de armadilhas, mas com duas estranhas florestas dentro de um mapa desfigurado envoltas por outras florestas.
o desafio é o encontro com o lugar-espanto do outro partindo do nosso próprio espanto. então para ler um poema é preciso mergulhar de uma altura indizível dentro de um oceano inquieto, turbulento e amedrontador.
não basta ler uma vez, é preciso ler milhares. o inconsciente nos larga pistas, mas é preciso usar a lupa e procurar. se não há paciência nem vontade pelo desconhecido é impossível a abertura para a poesia.
não gostamos de ler poemas de início porque estamos desacostumados com nossos sonhos, com os barulhos presos dentro de alguma parte de nossa escuridão. negamos a estranheza. primeiro a nossa mesma, depois e mais ainda a do outro.
quando nos permitimos, porém, a abertura nos leva por caminhos inacreditáveis e que nos sorvem de habitação, comida e sobrevivência. poesia é uma das formas mais íntimas de abraçar o que há de estranho no outro e em nós mesmos. acolher um poema é achar a chave daquele casebre mal iluminado no meio da floresta que sempre quisemos explorar, mas deixamos para depois. para que procurar estrelas quando em tempos como esse acendemos pequenos sóis artificiais em nossos quartos? que bom que sempre toquei estrelas, guardo comigo sempre os dedos queimados de susto e paixão.
ler um poema não é uma coisa fácil. e não é porque palavras difíceis são usadas ou porque o escritor resolveu tirar um sarro com a nossa cara. é porque a poesia é uma das formas mais tortuosas de lidar com o inconsciente. ler um poema é então lidar não só com uma floresta escura e cheia de armadilhas, mas com duas estranhas florestas dentro de um mapa desfigurado envoltas por outras florestas.
o desafio é o encontro com o lugar-espanto do outro partindo do nosso próprio espanto. então para ler um poema é preciso mergulhar de uma altura indizível dentro de um oceano inquieto, turbulento e amedrontador.
não basta ler uma vez, é preciso ler milhares. o inconsciente nos larga pistas, mas é preciso usar a lupa e procurar. se não há paciência nem vontade pelo desconhecido é impossível a abertura para a poesia.
não gostamos de ler poemas de início porque estamos desacostumados com nossos sonhos, com os barulhos presos dentro de alguma parte de nossa escuridão. negamos a estranheza. primeiro a nossa mesma, depois e mais ainda a do outro.
quando nos permitimos, porém, a abertura nos leva por caminhos inacreditáveis e que nos sorvem de habitação, comida e sobrevivência. poesia é uma das formas mais íntimas de abraçar o que há de estranho no outro e em nós mesmos. acolher um poema é achar a chave daquele casebre mal iluminado no meio da floresta que sempre quisemos explorar, mas deixamos para depois. para que procurar estrelas quando em tempos como esse acendemos pequenos sóis artificiais em nossos quartos? que bom que sempre toquei estrelas, guardo comigo sempre os dedos queimados de susto e paixão.
dar à luz é sempre uma oferenda. a gente nasce já doando nosso grito, nossa solidão. sair da escuridão com um choro profundo de aceitação e destino. dar à luz é sempre pagar as contas para o futuro. aquele grito se repete depois com alguns cinco dez anos quando perdemos nossa avó. nascemos já abraçados com o trauma, e ele nos chama e nos exige, pode ter certeza.
por isso quando ando pelas árvores e vejo suas sombras e uso delas para me esconder de qualquer coisa, lembro que o grito está ecoando em suas folhas, em suas sementes. enquanto corro já nascem outras flores, enquanto danço já morrem outras flores. às vezes planto, às vezes pisoteio.
dizem que há milhares de formas de ver o mundo, para mim só existem duas: a de quem o vê sorrindo e a de quem o vê chorando. todo o resto são nuances que se encontram, se desfazem, se misturam em cores. sentar no abismo e ter a felicidade de quem está à beira; sentar no abismo e sentir-se o próprio abismo, e prceber que não existe beira, só queda.
há quem se jogue de paraquedas, quem amarre uma corda na ponta e desça devagar. estou entre os que se jogam de braços abertos e já não sabem quem são enquanto caem.
por isso quando ando pelas árvores e vejo suas sombras e uso delas para me esconder de qualquer coisa, lembro que o grito está ecoando em suas folhas, em suas sementes. enquanto corro já nascem outras flores, enquanto danço já morrem outras flores. às vezes planto, às vezes pisoteio.
dizem que há milhares de formas de ver o mundo, para mim só existem duas: a de quem o vê sorrindo e a de quem o vê chorando. todo o resto são nuances que se encontram, se desfazem, se misturam em cores. sentar no abismo e ter a felicidade de quem está à beira; sentar no abismo e sentir-se o próprio abismo, e prceber que não existe beira, só queda.
há quem se jogue de paraquedas, quem amarre uma corda na ponta e desça devagar. estou entre os que se jogam de braços abertos e já não sabem quem são enquanto caem.
segunda-feira, dezembro 18, 2017
sempre no gerúndio, lendo tantas coisas de sobreaviso, tantas que chegam a parecer cartas sem resposta, sabe, daquelas que lemos um milhão de vezes e não achamos explicação, não, é impossível escrever qualquer linha quando o pensamento tem mais linhas possíveis do que um beija-flor bate asas em um segundo, sempre, sempre num gerúndio passado, um particípio a nascer, é quando me vejo ida, calada, lendo coisas que já estavam sussurradas ao pé do ouvido numa noite em que chorava profundamente a morte que nem havia ainda acontecido, como pode, sempre me perguntei, como pode enlutar-se antes da dor real, passar por cirurgias profundas sem haver ainda adquirido aquele tumor que achara ou achará em algum recanto de sua pele, essa que apanha sol como quem apanha peixes, com um medo estarrecedor de vê-los pular, se debater na dura e triste menção do fim que é a rede de pensamentos, onde agora me encontro, achando que entendo essa náusea que é mais tua do que minha, não, ela é pura, livre das amarras das minhas mãos dos meus olhos que escrevem qualquer coisa quando leem um pedaço de jornal que acha que é poema, porque é assim, assim mesmo, que se faz o que chamamos de salvação.
Assinar:
Postagens (Atom)