tenho esquecido
nomes
lugares
acontecimentos
aquele olhar que
tenho esquecido
no peito.
esqueço uma
síla
baíamos descobrir
o mundo.
tristeza te faz viver pela metade.
sábado, julho 14, 2018
olha, olha fundo, até alcançar o epicentro dessas rugas que se formam embaixo dos meus olhos, tenho vinte e seis anos e algumas rugas que tenho certeza que se formaram de tanto que choro ou de tanto que fumo, ou uma mistura das duas coisas, acho que elas não deveriam estar ali tão cedo, daí que quando sorrio aparece a velhice do pensamento, tem dias que me sinto assim, profundamente velha, e isso não tem a ver com as rugas, mas com um peso estranho que sempre esteve comigo desde quando era criança e sentava escondida dentro de um armário para ler livros, ou quando chorava no canto do quarto, do lado da escrivaninha, toda vez que o dia anoitecia, eu carregava o peso do tempo, imaginei tantos funerais, a solidão tem um cheiro que já reconheço, quando ela se aproxima entendo seu perfume e sei que estou viciada em sentir-me só, estar muito tempo ao lado de outras pessoas me causa abstinência, preciso enfiar a cabeça em bueiros, dar de cara com ratos que me enxergam como realmente sou, eles sabem mais que eu sobre a vida, sabem mais que eu sobre minhas rugas, e enxergam, enxergam realmente o significado de um rastro nessa coisa esquisita que nomeamos de corpo.
fazia dias que não chorava.
incrível que pareça
não aguento mais escrever sobre dor.
virginia estava certa?
o peso
do feminino,
do choro,
a alteridade duvidosa
(uma vez que amor só pode ser outra coisa)
aliás,
saindo do parênteses
pode ser outra coisa?
o quê?
chamar de pássaro
e deixá-lo voar
chamar de pássaro
e matá-lo com a espingarda
sou mulher
mas sou armada
como uma aranha na quina do box.
será que estou atrapalhada?
será que essa dor é um saco de mercado
usado pra me oprimir
e me sufocar?
estou suicidando minha linguagem
preciso escrever sobre a guerra,
sobre o universo
panfletar as palavras?
não confio em semideuses.
não confio em poemas de amor.
incrível que pareça
não aguento mais escrever sobre dor.
virginia estava certa?
o peso
do feminino,
do choro,
a alteridade duvidosa
(uma vez que amor só pode ser outra coisa)
aliás,
saindo do parênteses
pode ser outra coisa?
o quê?
chamar de pássaro
e deixá-lo voar
chamar de pássaro
e matá-lo com a espingarda
sou mulher
mas sou armada
como uma aranha na quina do box.
será que estou atrapalhada?
será que essa dor é um saco de mercado
usado pra me oprimir
e me sufocar?
estou suicidando minha linguagem
preciso escrever sobre a guerra,
sobre o universo
panfletar as palavras?
não confio em semideuses.
não confio em poemas de amor.
nunca pensei assim:
é abril, e tenho cartas.
é junho, e daí?
não tenho nada.
cada mês deveria ter um segredo
ou talvez seja superfície demais.
se mês fosse um oceano
eu diria que tenho um peixe
mas o que eu faria com isso?
não há memória
quando a conversa se embola
e vira outra história.
se eu transformar
mês em mesa
posso comer o peixe?
há tanta coisa a se fazer
em uma mesa que
seis minutos valem mais que um mês.
é abril, e tenho cartas.
é junho, e daí?
não tenho nada.
cada mês deveria ter um segredo
ou talvez seja superfície demais.
se mês fosse um oceano
eu diria que tenho um peixe
mas o que eu faria com isso?
não há memória
quando a conversa se embola
e vira outra história.
se eu transformar
mês em mesa
posso comer o peixe?
há tanta coisa a se fazer
em uma mesa que
seis minutos valem mais que um mês.
meu bem, juro que se você demorar mais um pouco vou-me embora para pasárgada e te deixo com um sorvete derretendo na mão aguardando um ônibus que possivelmente quebrou na avenida brasil. as coisas mais terríveis da vida acontecem nos momentos de espera, e eu estou evitando horroridades. por isso toda vez que o relógio caduca no silêncio da tarde sei que é hora de ir embora. quando nasci, um pedaço de algodão, soprou por aí um vento estranho e fui sendo carregada rua abaixo. que engraçado! ser algodão é coisa estranha, você se desfarela, se suja, fica impróprio, mas vou te dizer... é de uma leveza! não tenho mais tempo, o mundo consome muito das minhas arestas. tchau.
preciso aceitar estranhezas
como esperar que um seja familiar
se nem eu mesma me reconheço?
às vezes me espanto com uma frase que disse
me pergunto: mas o que é isso?
tenho certeza, não penso
sou pensada
daí que me indigno quando te estranho
imagina que absurdo!
aceito o clichê:
para não entender o outro,
é preciso não se entender primeiro.
como esperar que um seja familiar
se nem eu mesma me reconheço?
às vezes me espanto com uma frase que disse
me pergunto: mas o que é isso?
tenho certeza, não penso
sou pensada
daí que me indigno quando te estranho
imagina que absurdo!
aceito o clichê:
para não entender o outro,
é preciso não se entender primeiro.
sábado, junho 16, 2018
meu cansaço vai a profundezas
autocria barbatana
aprende a língua dos peixes raros
de onde estou ou para onde vou
deitada num barco de papel acalentando estrelas
lanço a âncora nesse meio do nada
profundamente bonito, sabiamente triste
aguardo.
aguardo.
aguardo.
ele retorna e me seduz
eu que sempre fui de me afogar
me jogo nos braços da sereia.
autocria barbatana
aprende a língua dos peixes raros
de onde estou ou para onde vou
deitada num barco de papel acalentando estrelas
lanço a âncora nesse meio do nada
profundamente bonito, sabiamente triste
aguardo.
aguardo.
aguardo.
ele retorna e me seduz
eu que sempre fui de me afogar
me jogo nos braços da sereia.
pensei em te ligar
lembrei que ninguém mais disca
nem discos escutamos mais
que pena
tanta música marcada
tanto encontro retocado
será que compro uma vitrola?
ainda estou pensando em te ligar
não tem tomada aqui em casa
e sei bem que você não é abajur
que pena, comprei uma linda
palavra criei com ela
não é pra isso que serve a saudade?
lembrei que ninguém mais disca
nem discos escutamos mais
que pena
tanta música marcada
tanto encontro retocado
será que compro uma vitrola?
ainda estou pensando em te ligar
não tem tomada aqui em casa
e sei bem que você não é abajur
que pena, comprei uma linda
palavra criei com ela
não é pra isso que serve a saudade?
faz sol lá fora.
aqui dentro chove cântaros
sempre imaginei domingo chuvoso.
é possível ser feliz numa vida sempre à véspera?
o sol não respeita ninguém,
nem meus pensamentos
nascidos da morte, estão
indo em direção a ela
como chocar-se com o absurdo
quer dizer que estive todo esse tempo adormecida?
alienada
não
tenho sofrido todos os domingos
estou sempre à espera desta chegada.
aqui dentro chove cântaros
sempre imaginei domingo chuvoso.
é possível ser feliz numa vida sempre à véspera?
o sol não respeita ninguém,
nem meus pensamentos
nascidos da morte, estão
indo em direção a ela
como chocar-se com o absurdo
quer dizer que estive todo esse tempo adormecida?
alienada
não
tenho sofrido todos os domingos
estou sempre à espera desta chegada.
quando e somente quando estiver prestes a me jogar de braços abertos daquele prédio, após anos de planejamento e estudo sobre qual seria meu último pensamento, se sofreria ou teria um orgasmo ao me quebrar inteira no chão, largando as sílabas pelo ar, é somente aí que escuto teu ronco e consigo soprar barcos de papel no teu sonho que pinga ao meu lado ou talvez eu esteja confusa, a visão turva, são minhas lágrimas de sempre que alagam a cama.
quarta-feira, junho 06, 2018
sinto muitas vezes uma vontade profunda de escrever um texto cru, comê-lo com as mãos, o sangue na saliva, dilatando minhas papilas, o gosto seduzente da vida ao avesso, depois penso o quão estúpido isso é, não existe essa coisa de texto cru, ele está sempre bem bem passado, tão passado que consigo vê-lo a quilômetros quando olho para trás, sozinha na estrada enxergo as palavras formando uma linha do horizonte, penso em tirar uma selfie para que acreditem em mim e não me achem louca, mas pensar sobre isso já é um ato de insanidade, também gostaria de falar sobre papoulas e fazer uma poética, como dizem mesmo?, uma poética solar, tudo que eu queria na vida era uma alma jogada no sol, mas você conhece o mito, ele está aí para edificar minha história, um texto cru, eu teimo em achar que existe aquela tal de mudança de valor linguístico e mando todo mundo esquecer de uma vez por todas a etimologia das coisas, mas existe algum tipo de mágica na origem das palavras, elas têm cheiro, antepassados, há uma inscrição profunda dentro de sua escritura, por isso quando penso em cortar os pulsos é por um texto cru que estou faminta.
olá, meu amor, bom dia, sei que tem pensado muito sobre aquela casa na praia que há anos pensamos em comprar, pensamos, pensamos muito, sei tão bem quanto você o quanto pensamos na areia, nas ondas e até nos tatuís que hoje em dia já nem mais existem de tanta poluição, você sabia disso? não há mais tatuís por aí rodeando nossos pés e beslicando a ponta de nossos dedos. mas não foi culpa sua, eu sei que você esqueceu aquela guimba de cigarro e nunca faria isso de propósito, não quero que se sinta mal pela morte dos tatuís, mas você sabe, você deve lembrar, que quando falávamos da casa da praia, falávamos muito dos tatuís, e você até me disse que levaria seu papel e a aquarela para desenhar esses animais magníficos que ficam reaparecendo na minha cabeça, mas a verdade, a verdade mesmo, por favor não espalhe por aí depois de nossa conversa, é que nunca vi um tatuí, mas apesar disso sei muito bem como eles são e o quão importantes serão quando estivermos num asilo já com a memória em frangalhos, tenho certeza que lembrarei deles e ficarei triste pelas gerações futuras que não terão a oportunidade de vê-los como agora os vejo, que sorte tenho, por outro lado, de nunca tê-los visto, não sei o que seria de mim se tivesse visualisado, mesmo que por um segundo, esse pequenino animal que tantas vezes percorreu meu corpo sem nem saber meu nome, sem saber das noites em claro, dos cortes de cabelo e da vida que gostaria de ter deixado para trás. meu amor, me desculpe, eu te acordei?
quando se está deprimido, maria pensava, que coisa mais louca que é lavar a louça. parece quase um mergulho no livro de dante, com os cacos cortando as mãos. a demora de dias passando pela frente da sujeira, o peso do corpo beirando a pia como vermes beiram o lixo: surgem de repente, como obra divina, e parasitam ali até que sejam expulsos por intervenção humana.
sempre esperou um milagre, não que rezasse, mas fazia sentido a espera. o que mais fazer senão esperar longamente para que a depressão fosse embora? as pessoas acham que depressão é qualquer coisa quando na verdade é um cheiro insuportável, como o da louça acumulada. ela convivia com esse cheiro até que esquecia dele, até que o normal fosse ele mesmo, esse cheiro de merda.
havia dias que descia as escadas do prédio e parecia entrar num labirinto, e olha que as escadas nem faziam círculo. estava já indiferente às baratas mortas e nem filosofava quando via a gosma que saía delas rente aos degraus. não havia o que fazer, e às vezes invejava suas mortes tão sem sentido e tão naturais e tão repentinas, assim como invejava a felicidade amena dos gatos que dormem tão tranquilos, e miam pedindo comida e quando sortudos são atendidos, e quando não, correm pelas ruas sem saber que estão na rua e que existem casas com outros gatos que não correm.
que coisa mais estranha essa de ter que lavar a louça quando o que se quer na verdade é quebrá-la. e não ter mais pratos onde comer, alimentar-se do resto das memórias que ainda invadem as frestas da porta e trazem seu aroma de incenso que sobrepõe o cheiro de comida estragada.
maria tem um grande desentendimento com seu corpo que pede para adormecer por longos dias enquanto é necessário fazer essas coisas da vida, que ninguém nunca tá muito satisfeito mas continua fazendo. comprou uma muleta numa loja perto do seu apê, pra arrastar o corpo pelos cantos, para chegar até a pia onde via essa louça maldita e onde já não sentia muito bem o cheiro da podridão.
este é o momento exato em que olha pra ela e se abisma e suspira e cansada senta no chão, cantarolando em lágrimas aquela música que costumava tocar na rádio na década de 90, onde era fácil lavar a louça e até enxugá-la. que coisa mais louca.
sempre esperou um milagre, não que rezasse, mas fazia sentido a espera. o que mais fazer senão esperar longamente para que a depressão fosse embora? as pessoas acham que depressão é qualquer coisa quando na verdade é um cheiro insuportável, como o da louça acumulada. ela convivia com esse cheiro até que esquecia dele, até que o normal fosse ele mesmo, esse cheiro de merda.
havia dias que descia as escadas do prédio e parecia entrar num labirinto, e olha que as escadas nem faziam círculo. estava já indiferente às baratas mortas e nem filosofava quando via a gosma que saía delas rente aos degraus. não havia o que fazer, e às vezes invejava suas mortes tão sem sentido e tão naturais e tão repentinas, assim como invejava a felicidade amena dos gatos que dormem tão tranquilos, e miam pedindo comida e quando sortudos são atendidos, e quando não, correm pelas ruas sem saber que estão na rua e que existem casas com outros gatos que não correm.
que coisa mais estranha essa de ter que lavar a louça quando o que se quer na verdade é quebrá-la. e não ter mais pratos onde comer, alimentar-se do resto das memórias que ainda invadem as frestas da porta e trazem seu aroma de incenso que sobrepõe o cheiro de comida estragada.
maria tem um grande desentendimento com seu corpo que pede para adormecer por longos dias enquanto é necessário fazer essas coisas da vida, que ninguém nunca tá muito satisfeito mas continua fazendo. comprou uma muleta numa loja perto do seu apê, pra arrastar o corpo pelos cantos, para chegar até a pia onde via essa louça maldita e onde já não sentia muito bem o cheiro da podridão.
este é o momento exato em que olha pra ela e se abisma e suspira e cansada senta no chão, cantarolando em lágrimas aquela música que costumava tocar na rádio na década de 90, onde era fácil lavar a louça e até enxugá-la. que coisa mais louca.
segunda-feira, fevereiro 26, 2018
descobri que não sei ser contemporânea:
acho que meu tempo nunca teceu
escondo o olhar em livros empoeirados
tenho paixão e aversão aos clássicos
não sei falar com os outros
quando vejo um artista
essa palavra pesada
hippie-chic
na rua viro
a cara
cuspo no chão
faço um feitiço no cruzamento e vou embora
de repente é só coisa de gente maluca
ou de um grande silêncio que me pede todos os dias
me pede no ouvido:
quieta-te
quieta-te:
assim posso sussurrar.
acho que meu tempo nunca teceu
escondo o olhar em livros empoeirados
tenho paixão e aversão aos clássicos
não sei falar com os outros
quando vejo um artista
essa palavra pesada
hippie-chic
na rua viro
a cara
cuspo no chão
faço um feitiço no cruzamento e vou embora
de repente é só coisa de gente maluca
ou de um grande silêncio que me pede todos os dias
me pede no ouvido:
quieta-te
quieta-te:
assim posso sussurrar.
plantar a flor no asfalto
não é ato
de coragem
é passo
que parece compasso
e demora
demora
demora
mas ver o asfalto
queimar os pés descalços
pisar num vidro de garrafa abandonada
não parece boa ideia
mas também é ato
acho
uma lágrima
que devo molhar a semente
guardo o choro então
todos os dias
para jogar no asfalto
como quem joga poker
esperando enganar o mundo
não engano nem o reflexo da poça que criei
sempre perdi o embaralho
e também o desejo
outro dia descobri onde estava
por isso escrevi uma flor
um asfalto
e mais nada.
será que nasceu?
não é ato
de coragem
é passo
que parece compasso
e demora
demora
demora
mas ver o asfalto
queimar os pés descalços
pisar num vidro de garrafa abandonada
não parece boa ideia
mas também é ato
acho
uma lágrima
que devo molhar a semente
guardo o choro então
todos os dias
para jogar no asfalto
como quem joga poker
esperando enganar o mundo
não engano nem o reflexo da poça que criei
sempre perdi o embaralho
e também o desejo
outro dia descobri onde estava
por isso escrevi uma flor
um asfalto
e mais nada.
será que nasceu?
por que não gostamos de ler poemas e por que eles são uma forma profunda de aprendizado
quando entramos em contato com a poesia pela primeira vez ou de forma superficial, não importa a idade que temos, se somos crianças ou adultos mesmo que já formados com um grau de leitura regular e profunda, sentimos um estranhamento que beira o desconforto e o abismo.
ler um poema não é uma coisa fácil. e não é porque palavras difíceis são usadas ou porque o escritor resolveu tirar um sarro com a nossa cara. é porque a poesia é uma das formas mais tortuosas de lidar com o inconsciente. ler um poema é então lidar não só com uma floresta escura e cheia de armadilhas, mas com duas estranhas florestas dentro de um mapa desfigurado envoltas por outras florestas.
o desafio é o encontro com o lugar-espanto do outro partindo do nosso próprio espanto. então para ler um poema é preciso mergulhar de uma altura indizível dentro de um oceano inquieto, turbulento e amedrontador.
não basta ler uma vez, é preciso ler milhares. o inconsciente nos larga pistas, mas é preciso usar a lupa e procurar. se não há paciência nem vontade pelo desconhecido é impossível a abertura para a poesia.
não gostamos de ler poemas de início porque estamos desacostumados com nossos sonhos, com os barulhos presos dentro de alguma parte de nossa escuridão. negamos a estranheza. primeiro a nossa mesma, depois e mais ainda a do outro.
quando nos permitimos, porém, a abertura nos leva por caminhos inacreditáveis e que nos sorvem de habitação, comida e sobrevivência. poesia é uma das formas mais íntimas de abraçar o que há de estranho no outro e em nós mesmos. acolher um poema é achar a chave daquele casebre mal iluminado no meio da floresta que sempre quisemos explorar, mas deixamos para depois. para que procurar estrelas quando em tempos como esse acendemos pequenos sóis artificiais em nossos quartos? que bom que sempre toquei estrelas, guardo comigo sempre os dedos queimados de susto e paixão.
ler um poema não é uma coisa fácil. e não é porque palavras difíceis são usadas ou porque o escritor resolveu tirar um sarro com a nossa cara. é porque a poesia é uma das formas mais tortuosas de lidar com o inconsciente. ler um poema é então lidar não só com uma floresta escura e cheia de armadilhas, mas com duas estranhas florestas dentro de um mapa desfigurado envoltas por outras florestas.
o desafio é o encontro com o lugar-espanto do outro partindo do nosso próprio espanto. então para ler um poema é preciso mergulhar de uma altura indizível dentro de um oceano inquieto, turbulento e amedrontador.
não basta ler uma vez, é preciso ler milhares. o inconsciente nos larga pistas, mas é preciso usar a lupa e procurar. se não há paciência nem vontade pelo desconhecido é impossível a abertura para a poesia.
não gostamos de ler poemas de início porque estamos desacostumados com nossos sonhos, com os barulhos presos dentro de alguma parte de nossa escuridão. negamos a estranheza. primeiro a nossa mesma, depois e mais ainda a do outro.
quando nos permitimos, porém, a abertura nos leva por caminhos inacreditáveis e que nos sorvem de habitação, comida e sobrevivência. poesia é uma das formas mais íntimas de abraçar o que há de estranho no outro e em nós mesmos. acolher um poema é achar a chave daquele casebre mal iluminado no meio da floresta que sempre quisemos explorar, mas deixamos para depois. para que procurar estrelas quando em tempos como esse acendemos pequenos sóis artificiais em nossos quartos? que bom que sempre toquei estrelas, guardo comigo sempre os dedos queimados de susto e paixão.
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