sexta-feira, julho 11, 2014

há um hiatus em mim que chora pela partida.
um ia que nunca foi e um tu que permanece.
o relevo sem a tatuagem
a queda sem precipício.
ainda a soma de uma fração perdida
o gosto do beijo desenhado
sem a cor dos lábios
e o toque da despedida.
ponte dos segundos invisíveis
construção sem placa de perigo
é a falta do gesto
para acalmar o silêncio que briga.

sexta-feira, junho 27, 2014

somos imitação de universo:

se não abraçamos o sopro
como a um vento avassalador
cada pequeno gesto e beijo
se perde na esquina
às vezes teima em parar
outras aposta corrida
nunca a mesma volta
nunca o que poderia.
só te digo: sê
que as estrelas já foram
mas ainda temos tempo
para dormir juntos até mais tarde.

sábado, junho 07, 2014

vida,
de novo te invoco,
tantas vezes em minha poesia,
às vezes bela
às vezes divina
hoje doida varrida
descabela e infeliz.

dádiva,
presente do agora
ou castigo do fim?
é do gosto a criação
ou a evolução do desgosto?

ah, como eu queria passear com você,
anos passados
ano novo esperado
e o carnaval marcando o compasso.

vou te contar que danço muito
forró, bolero, funk e samba de raiz
mas hoje, vida,
só restou aquele tango argentino
com a única flor vermelha do mundo
que consegue chorar
(mas é atriz!)

mãos de babel

não nasci pássaro nem borboleta
a beleza deixei para trás 
também o voo livre pelo céu
e minha fuga amarrada no cais.

vim órfã ao mundo:
a noite não dá à luz
mesmo que a lua insista
em ser a flama que a paixão conduz.

fui ser logo morcego errante
cega das nuances do quando
caindo em bares sem permissão
derrubei muralhas apenas voando.

veio do mar nebuloso
com a sobriedade da visão
sabendo poema e inconstância.
crime e paixão.

arrancou-me do corpo as mãos:
"hoje tu amanhece aqui
amanhã não se sabe
com essas linhas de babel
canto, silêncio,
qualquer coisa vale"

não sabia das linhas que tinha
tampouco algo me disse a vidente
pois quando se está cego na vida
só se reescrevendo novamente.

terça-feira, maio 20, 2014

esse sol que toca a aliança
e minhas mãos
é o mesmo sol que seca o nordeste
que faz na áfrica a fome ser mãe.

como posso lavar as mãos singelas
e pedir da miséria o divórcio
se o mundo é o altar dos meus irmãos?

sol,
que às vezes é ouro
outrora música e eclipse,
deixa o grito longe do deserto
pra nascer no caminho,
dando à luz meio mãe e meio filho,
- a aurora.
só canto o abraço
a perda
a poesia. 

o toque me engole a existência
o tempo parado no escuro
a noite silenciosa do adeus

a memória deixa passos no asfalto
se esconde atrás da porta entreaberta
mulher de costas nuas no porta-retrato.

mergulho no arpoador
suicídio do dia
parto doloroso da lua
queria jogar o cigarro pro alto
e viver do enigma ritmado.
ainda há tempo
de esconder as linhas da mão
de fugir do vício do amanhã
de acalmar a fera embaixo da cama.

correr muros de frases soltas
arrombar a casa descuidada
arrumar a bagunça da janela no verão.

subi no mundo e disse calma
que ainda tenho uns segundos
pra decidir se sou freira
puta ou cigana.

ainda há tempo
de cochilar o nunca mais
e desenhar o de repente.
passarinho, me traz qualquer coisa
uma música
um pio
uma frutinha
até um carinho

desses que beijam
e depois voam
desenhando no céu o horizonte
pingando no mar lágrimas de sol. 

deixa aqui tua pena
pra eu brincar de desenhar
pétalas de rosa
casca de laranja
e tudo que há de bom no mundo.
dizem que estou enveredando por caminhos tortos. que da vida não sei medir nem o início nem o fim. que perdi o trem das oito, que o trem das 9 quebrou em santa cruz e tive que ir andando pelos trilhos cantando o silêncio.
não tenho sapatos, por isso os pés queimam no sol e pedem consolo no frio que existe em alguns cantos do país. às vezes correm, depois cansam e choram pela nudez tão sóbria, tão quieta, tão exata. 
acordo e não há sonho que me desperte, não há relógio que me levite. é o arroz cru sem gosto aparente que como, claro e insosso como o hiatus que caiu em mim.
o que dizem também digo, mesmo sem dizer, sem nem mesmo sussurrar, mas quando a gente diz é como se já não tivesse pra onde correr. é como aceitar a missa no domingo e ajoelhar pra rezar até conseguir dar à luz um milagre vivo.
qualquer coisa 
te digo,
para que não parta.

invento desertos
roda-gigante
cachoeira sem queda.

escrevo uma epopeia
canto de pássaro sem rumo
histórias que nunca viveu
(nem viverá) .

te trago nas mãos as estrelas
amantes do tempo
para que desenhe
sem me partir
o universo em mim.

domingo, maio 04, 2014

canta todas as músicas
que não calará o pássaro rebelde
voando dentro de mim. 

pois os rios não são o bastante:
o oceano conhece mundos
derruba terras.

não há órgãos pulsantes
que amansem meu corpo
não há toque tão próximo
que acalme a ânsia.

pode correr pelo deserto
pode buscar os passos
que quando chegar
nem o eco da minha voz estará presente.

segunda-feira, abril 28, 2014

queria viver de frente pro mar. que as ondas tocassem os pés sem arrastá-los, sem exigências de mergulhos profundos ou vida à deriva. apenas o silêncio do horizonte, a alma meio céu e meio água, o alcance da inundação e do voo calmo.
deitada na areia, o sol a pino no corpo cobre, os olhos cheios de maresia e viagem. é possível afagar esse instante, essa calmaria que precede a violência e abraçá-la como um amor que vai embora?
essa leveza que me domina
arranha o caos 
que luta dentro de mim.

entre uma confissão e outra
a doçura beija a raiva
e nasce a música
que canto em silêncio.

o corpo é um mundo em movimento
cheio de prazer e dor viva
que cisma em me empurrar por aí.
foda-se você
e seus óculos escuros
de garoto achando que é ator de cinema
ou poema de bukowski.

vai lavar essa cara 
fumar um cigarro
ler um livro longe de mim. 

que hoje a noite me disse
tá na hora de inventar outra prosa
pro coração nascer
e dormir em paz.
e se eu te disser
que vou embora do mundo
que vou ser raimundo
nas rimas de drummond?

e se eu te jurar 
que pego o barco agora
saio por aí sem rumo
sereia dos mares nunca d'antes navegados?

e se eu te escrever do atacama
com o desenho dos teus olhos
maquiados de sol e sede
e nas minhas mãos a poeira da saudade?

será que assim tu responde meu gesto?
cor de fúria e fuga
que não faz pergunta
mas pede a resposta.
alguma coisa tua ficou em mim
não sei se o beijo no cais
(porque está sempre indo embora)
ou a falta do adeus.
pode ter sido o olhar corriqueiro
a saudade que não existe
ou tua forma de me dizer
garota, talvez eu te veja amanhã
ou quem sabe nunca mais.

a vida é tão só desencontro
que quando os corpos se acham,
assim por achar
faz mal o toque ser uma viagem só de ida
pra lá de marrakesh
ou pra baixo dos lençóis.

deixa o céu chover
queimar a pele em dia de sol
até arder as conversas e o sorriso
esquece o amor e a paixão
mas foge
foge assim pra qualquer lugar comigo.
flor
que é flor
não tem que ter simetria
só ser flor
e morrer um dia.
assim como minhas unhas azuis descascam com o passar do outono, também sinto o peso das folhas caindo. não é prova de que o tempo ou a gravidade existem, mas de que meu corpo quer ser pintado de outras cores e de que as flores estão pedindo para nascer.

segunda-feira, abril 21, 2014

gabo

queria ter te conhecido
pra dizer que o cheiro das amêndoas
e da amargura
são filhos de sangue e suor
dessa américa latina cheia de cólera.

era pra ter vivido mais de cem anos.
podia ser na solidão
ou no campo cheio de pássaros.
(que a vida sempre vale mais)

e agora
que faço eu com os livros interminados
com esse medo de concluir que o amor é um demônio
maior que minha insônia,
eterno derrotado da morte?

da ausência

da faca nasceram as palavras
distantes como o horizonte
ausentes como um olhar nublado.

na casa o adeus nunca dito
fica a boca sem mexer o músculo
mão fechada na mesa de jantar.

não adianta correr
pra pasárgada que não existe
mas aqui também o sabiá não canta.

o abraço sem lembrança
as roupas nunca escolhidas
pegadas sem rastro de passos.

se um dia for embora
é como se nunca tivesse ido
pois para ir
é preciso em tempo antes ter nascido.