quarta-feira, junho 08, 2016

há outras formas de escrever poesia.
sem essa de nos papéis da vida
imaginar figuras que sombreiam outros passos.
há o vento no cabelo,
e a música fazendo o caminho sorrir.
há o chocolate esquecido na bolsa
e aquele abraço que lembra o tempo em que ainda escrevíamos cartas.
falando nisso, tenho te escrito muitas cartas.
pena que não te envio.
porque ficam aqui, as palavras
rodando minhas manhãs ainda de insônia,
e minhas noites viciadas em café meio amargo.
ah, sempre preferi as coisas doces.
mas o açúcar sempre acaba,
ou é carregado pelas formigas,
sempre mais famintas que eu.
pra onde foi minha fome?
essa que me fazia comer sopa de entrelinhas.
sim, há outras formas de escrever poesia.
mas sinto falta da sombra que me seguia,
sem ter meu corpo,
sem ter meus passos,
ah! não se pode ser pássaro todos os dias.

terça-feira, abril 26, 2016

ela levantou, foi até o banheiro e depois pegou seu café. o rito de depois das duas da tarde já dizia que perdera mais horas do que deveria se permitir, e tudo estava normal. como qualquer acordar, como todos os dias - as paredes em seu lugar, as gatas sobrevivendo, o vento sendo capaz de tocar o instrumento musical que é o penduricalho na varanda.
exceto pela goteira. demorou pra esvaziar o copo de café, assim como todos os pensamentos em sua cabeça. e de repente o silêncio completo de estar só (ou quase). a goteira. a goteira. e percebeu que algo quebrava seu momento flutuante, o segundo que se descobre que respira seu pulmão já escuro dos cigarros. havia uma goteira.
o chão estava formando um poça e as gatas bebiam tranquilas o que parecia ser uma fonte de novidade. mas não, ela bem sabia: era uma ferida na casa. precisava tomar banho. imediatamente colocou um potinho pra acabar com a poça. terminou. e já transbordava. meu deus, quanto tempo demorou no banho? como uma simples e minúscula goteira teve a capacidade de transbordar um pote daquele tamanho?
colocou um balde, e foi ao mercado. precisava lembrar, lembrar de chamar alguém para consertar aquele incômodo. logo sua casa que nunca tivera problemas de infiltração, sua casa escura e sonolenta, sua pequena gaiola de palavras! nunca húmida, sempre morna, nunca fria, sempre morna. sua morada impenetrável... uma goteira!
abriu a porta de casa, carregando compras inúteis para completar o dia. e a água já estava em seus calcanhares. aquela goteira maldita havia transbordado o balde e sua casa agora estava inundada! começou a ligar para pessoas que pudessem resolver seu problema, mas ninguém podia fazer nada por ela naquele momento.
já não havia goteira, mas uma chuva dentro de casa. jurou que podia ouvir barulhos de trovões. começou a nadar na própria sala. deu um mergulho fundo e, ao abrir os olhos, não viu mais seus móveis silenciosos ou livros empoeirados. o copo de café na mesa havia desaparecido, pois tampouco havia mesa.
estava à deriva, no meio do mar. não havia mais nada à sua volta, senão água e um céu escuro e estrelado. ondas gigantes se aproximavam, mas não sentia medo. sabia que finalmente havia deixado o deserto para trás com suas miragens atrofiantes.
o som do despertador. é hora de acordar. é hora de acordar.
pulou da cama assustada. parecia tão real. meu deus, o que estou fazendo com minha vida?
e, de repente, escutou um barulho estranho e familiar vindo da sala. era o ruído de uma goteira.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

sobre o abismo e a queda

sou essa imensa e interminável escuridão, algo dizia em minha cabeça. não, não é uma metáfora - é o que me cabe quando não existem horas entre nós. disforme e instransponível, sou também o tempo estático que é o silêncio.
risco um fósforo: meu deus, começo a ver meus dedos! a pele sem tom definido, unhas imensas e os cabelos caindo como uma capa em minhas costas. sem espelho ao meu redor, sem ninguém a me ensinar como nascer, não posso ser mais nada senão pedaços de um rascunho deformado.
agora já consigo andar. tenho qualquer coisa chamada segundos até o fósforo se esvair. abro uma fresta na parede, taco fogo no pano que cobre o que não vejo, tudo incendeia ao meu redor. o espaço que abri: mais escuridão, mais do que me deu à luz.
há chamas por todos os lados. preciso sair. não sei se é uma janela do mundo ou um abismo. meus sentidos, que até agora não me faltaram, dizem que é o lado de fora.
vou, que só há o que ir. atravesso para onde quer que seja e sinto o peso da queda. caio tanto que parece que flutuo. já sem fósforo nenhum e o incêndio já distante, comecei a me tornar novamente escuridão. não tenho mais olhos, apenas um pulsar acelerado em meu peito dizendo adeus e sílabas soluçantes em minha cabeça.
estou indo. estou indo embora. mas só uma pergunta ainda existe dentro de mim:
de onde surgiu o fósforo?
tenho olhado muito pras paredes. sinto nelas um corpo vivo escorrendo minha solidão. são elas as únicas irmãs que me abraçam enquanto choro, que seguram minhas mãos nestes dias que já parecem uma vida inteira.
posso encostar a cabeça em sua pele fria e escutar, devagar, um ruído que são os dentes do passado, a calmaria de mastigar o vazio. há dias meus olhos são como estátuas fugindo da arte...
olho pras paredes como quem espera um milagre. espero, cansada, que desmoronem, mas cada vez mais se edificam. são como um padre aguardando a confissão. santificadas, me pedem paciência. desesperada, quase crio um altar e peço pra que me salvem.
há dias que falo com as paredes, há dias em que escrevo. não é a mesma coisa? esse pedaço de loucura que é dar a mão a si mesmo. essa espera de que uma bomba exploda na rua ou de que alguma palavra se torne, enfim, um gesto...
entender
entender a poesia e calar-se
abrir a cortina
e achar outra cortina
ver pelas frestas o dia
ou será uma música que descansa
movendo o pano,
ondulando os olhos que pedem?

segunda-feira, janeiro 25, 2016

estou faminta:
um pássaro fugiu do meu peito.
carregou em suas asas a seiva que me movia.
foi pra longe, com a voz do meu canto,
deixou o desencanto em minha morada.
arrasto o corpo ensanguentado,
a gaiola que é o meu peito rasgado
agora virou vazio
e o abismo ecoa, solitária.
saquei do porão a espingarda
e atirei no bandido
agora morto, de volta ao meu peito
já não tenho nada:
nem canto,
nem seiva,
nem asa.
a cama
que não ama
que não é lama
(às vezes sim)
não foi feita pra rimar.
é feita de silêncios
e canções repetidas
uma coisa se torna a outra
nessa minha solidão
que é sonâmbula:
escreve dormindo qualquer coisa
esse gesto de salvação...

segunda-feira, dezembro 28, 2015

à espera

de um milagre?
de um trovão
de um tombo
de um grito no escuro
de qualquer coisa que nasça da espera o agora.
não escolho o dia pra morrer.
tampouco a hora de acabar meu cigarro.
desconcentrada, o peso do ar em meu pulmão.
pensei na janela, na ponte e no décimo andar.
na faca da cozinha, na tesoura em minha gaveta.
os remédio infinitos, o travesseiro em meu pescoço.
despensei o telefone, a caixa de e-mail,
teu abraço que já não significa nada
quando não despenso.
e aí, que digitais deixo
como um crime imperfeito
que larga a memória como prova?
não sei se parto
cada folha que há em mim
às vezes árvore
às vezes rabisco
não sei
não sei se parto
e nunca olho para trás
com os olhos caídos e também partidos
não sei se parto
e nasço novamente
e renasço
depois de voltar.

corda-bamba

te pedi a mão
me mandou um beijo:
de longe um sopro
de perto um susto
quando eu cair,
vai chorar
ou aplaudir?
como estão silenciosas minhas mãos
e os olhos em profundo afogamento.
é de escuridão esta falta?,
esta casa sem chão,
um lamento, um pedido de socorro, uma lata vazia.
como ainda não descobri meu corpo?
é que morro de frio,
preciso me esconder sob os retalhos de vidro,
cantar baixinho um grito sem significado.
pedra atrás de pedra,
os lábios um muro calado
mastigando a dureza de se estar vivo

quarta-feira, outubro 28, 2015

há uma flor na beira do abismo
(não é a mesma do asfalto)
esfinge de pétalas passageiras
esperando o pulo ou o abraço.
sou o choro desesperado
nas noites mal dormidas
de um amor inacabado.
sou aquela angústia que plana 
voa pelo corpo calado
e aterriza na solidão da cama.
queria do beijo o retrato
que a memória me chama
pois este presente jamais acato.
há dias em que precisamos ir embora
levar conosco as flores do vaso
e plantá-las na terra.
deixar na pia do banheiro as lágrimas pingando,
pingando a solidão
que a inundação venha pela estrada
que me carregue pruma noite cheia de abraços.
confesso que há dias em que preciso andar
o rumo incerto, a arma certeira
as mãos vazias de mim mesma
arrancando sementes e raízes dos jardins recém-nascidos
há dias em que se batem portas
e o estrondo jamais será o silêncio de antes...
no fundo, a harmonia do que poderia ter sido.
há dias já não te reconheço mais.
posso soprar uma pena?
leve o medo pra outro tempo
voa com o compasso incerto
acerta meu corpo num canto torto
posso receber uma pena?
presa, mas ainda viva
grade, mas ainda sol
louca, mas ainda...
posso escrever uma pena?
nas lágrimas a matéria
nos dedos a procura
nessa pena a saída.

terça-feira, agosto 25, 2015

esqueci como se escreve um poema

antes tivessem me assaltado as palavras, que o esquecimento é o pior jardim para se nascer.
aliás, não nasce: vira túmulo na lama, com raízes secas e flores já cansadas.
queria tê-lo achado no bolso, mas vai ver estava furado, e ele foi por aí se apagando pelas estradas.
sei lá, esqueci. não julguem minha mente de senhora.
sempre achei a velhice um charme - essa história de se fazer poesia do nada.

spring waltz

there are flowers everywhere
e cores girando em marcha ré.
my body is a piece of lark
desritmado, seguindo a tarde.
the piano whispers me the wind
o poema desentardece, esfinge!
flowers, body, piano,
floresço, escrevendo...
o córrego não corre mais,
nem carrega minha dor.
pediu licença pra ser água-viva,
transformar peixes em pássaros,
libélulas em borboletas
água em tinta.
onde vou agora depositar as lágrimas?
que dava ao choro tempo pra existir e ir embora,
(subterfúgio de ser um pouquinho de mar.)
vou guardar tudo num jardim
fazer delas um ou dois orvalhos
quem sabe assim nasça uma flor...
dorme em meu ombro teu assombro.
deixa cair dos cabelos o susto do segundo.
é em cada respiração a incerteza,
em cada carícia a saída para, ainda, lugar nenhum.
se há no abraço o silêncio,
há no adeus apenas a sugestão.
ficaram também rastros,
que não há pegadas sobreviventes à arte da memória,
nem gosto que permaneça fresco.
o gesto é somente o inverso
a intenção não é o poema,
mas talvez a chave de alguma invenção.