- Uma estória, vamos lá, você consegue. Feliz...
Ela se chamava Helena, com tempo passado. Era uma escritora de barzinho, daquelas que se matavam para que algumas palavras fossem lidas e aceitas com entusiasmo. Quase ninguém a compreendia, pois sua visão do mundo era um pouco diferente, um tanto niilista, uma pitada de solidão.
Quando começou a escrever devia ter seus dezesseis anos. Era muito imatura para a idade, portanto não escrevia muita coisa que prestasse na real visão literária (oh, olhar!), mas sua paixão viva por tudo que se formava em linguagem era tão avassaladora, que teimou com as palavras, até que estas já não conseguiam viver sem ela. Seus familiares achavam que não tinha futuro como escritora. Aliás, não conseguiam ver futuro algum para Helena, aquela ovelha negra, que não presta para nada.
Um dia, decidiu que iria embora de casa, para bem longe, além-mar. Costumava apanhar daquele monstro bêbado, que não conseguia chamar de pai. Recolheu seus livros, suas poesias, um pouco de dinheiro e roupa, e se foi. Foi-se como a brisa que toca o rosto da manhã. Alojou-se num banco de praça, de uma cidade vizinha à sua. A noite veio, o medo cresceu: estava sozinha, numa praça deserta e sem vida, porém conseguiu acalmar-se e dormir. Quando acordou no dia seguinte, sua mochila havia sumido... Desatou a chorar.
Bem, foi mais ou menos por aí que foi parar em seu barzinho. Com fome, sem dinheiro e sem esperanças, uma doce senhora, de nome indiferente, encontrou-a chorando.
- Menina, por que choras? - parecia ter um sutaque diferente.
- Moça, moça, por favor, me ajude! - arrastou-se até a senhora. - Tenho frio... e medo! - soluçou em lágrimas.
- Guria, tu já estás na idade de virar-te sozinha! Vamos, pára de chorar... vem, levar-te-ei a um lugar aquecido.
Seguiu a senhora por umas ruas não muito agradáveis, até chegar à frente de um bar barulhento, escutava-se uma música tremendamente alta vindo de lá. A senhora entrou e Helena a seguiu... O medo voltou.
- Walter, encontrei uma guria na rua... bem afeiçoada. Te serve? - a senhora adiqüiriu um aspecto astuto, quase como uma ave de rapina.
O homem de nome Walter olhou a menina de cima a baixo, até suspirar e responder:
- Não é das melhoras, mas dá pro gasto. - coçou a barriga. - Qual seu nome?
- Helena. - tentou ser seca.
Helena, seu nome ficou marcado em um panfleto na frente do bar: ela começaria a dublar cantoras famosas, para dar um pouco de audiência àquela velharia. No começo, tudo foi farra e maravilha. Helena escrevia nas horas vagas, em guardanapos, e os deixava nas mesas dos clientes. Alguns achavam que era brincadeira de mau gosto, devido às palavras duras escritas. Outros gostavam do que liam.
Mas algo a incomodava dia e noite. Nunca conseguia escrever algo feliz. Por que todos os seus poemas eram tristes? Por quê?
Em uma noite, aconteceu algo realmente ruim. Walter, que a havia acolhido, começou a engraçar-se para cima de Helena. Esta não queria nada, estava com dezoito anos e ele era um velhaco! Ele tentou forçá-la... e, bem, digamos que pagou sério por isso. Além de ter sentido uma dor tremenda em uma certa parte do corpo, perdeu sua dubladora profissional e mais algumas notas verdes do caixa.
Ela estava novamente nas ruas.
E aqui estamos nós. Eu sou um mendigo, Helena narrou-me toda a sua história. No dia em que fugiu do bar, eu lhe emprestei meu ombro, e ela chorou. Pediu que eu a escutasse. E eu o fiz.
Ela é famosa hoje em dia, ah, se é! Uma escritora de renome. Graças a mim, sim senhor, ela vinha toda semana contar-me sobre o que escrevia... tudo sempre triste. Até que um dia, quando eu estava a beirar a morte, roguei-lhe...
- Uma estória, vamos lá, você consegue. Feliz...
E foi esta estória que todos leram em todos os cantos do mundo.
Não ligue, leitor, para minha boba história. Mas esta menina acreditou nos seus sonhos, e isto vale demais.
segunda-feira, junho 25, 2007
quarta-feira, junho 20, 2007
Eu.
Hoje eu quero falar sobre mim. Eu basicamente nunca toco nesse assunto por aqui, e quase nenhum texto é realmente subjetivo. Ora, escrevo com a alma, sinto o que a personagem sente, choro com ela. Mas não sou eu quem está perdida, angustiada, feliz, apesar de todos os sentimentos, ambições e medos virem da minha própria alma.
Eu amo escrever. E não é tão simples assim. Eu não consigo amar muitas coisas, sou uma pessoa um pouco fechada para o sentimento do senso comum. Se sinto, sinto intensamente, até sangrar. E é o que sinto quando escrevo: o sangue. Sinto-o pulsar em minha veias, passeando por todo meu corpo até cair em minhas mãos.
Tenho crises constantes quando não consigo escrever, é como se eu estivesse vazia, sem uma parte essencial de mim. Mas acho que isso é normal, afinal tenho muitas crises, algumas delas provavelmente pela minha idade tão singela: quinze.
Não me sinto diferente com quinze anos, de como me sentia aos quatorze. Todavia algo em mim muda a cada segundo que passa, tal como a luz do sol renasce todos os dias. Uns devem chamar este algo de amadurecimento, outros de abandono filosófico, outros de a merda da puberdade. Eu chamo de viver.
Sabe, eu magôo as pessoas com uma facilidade tremenda, e esta é uma das coisas que necessito transformar. Não acredito em personalidade "forte", mas em personalidade difícil. E penso que a minha é um pouco... irritante. Sou sincera demais e a mais, odeio hipocrisia, falo o que der na telha, e em momentos não muito convenientes. Essa sinceridade em excesso machuca muitas pessoas que me rodeiam. Sou teimosa, cabeça-dura, dona-da-razão, orgulhosa, [coloque aqui mais algum adjetivo apto]. Se acho que estou certa, não importa o que você diga, minha opinião não muda! Eu odeio isso. Odeio, odeio, odeio. É algo que tento mudar, mas não consigo. Já melhorei bastante, nada sério.
Possuo uma frieza imensurável, em certos momentos, que me impressiono comigo mesma. Por horas, choro por tudo. Por outras, não derramo uma lágrima. Sou distante, sem nem ao menos perceber. Isso cria uma falsa impressão de mim a qualquer pessoa. Já escutei várias primeiras idéias sobre mim, quase nenhuma bate com a realidade: arrogante, convencida, tímida demais, extrovertida demais, alegre a todo o tempo, triste, séria. Apesar de eu ter um pouco disto tudo, não consigo definir-me, pois me sou a cada momento, e eu sou muitas coisas.
Minha percepção da realidade é a pior de todas: não sei se existo, e pensar nisso deixa-me tonta. Não sei se estou aqui escrevendo, pensando e tentando sentir-me um pouco mais. Difícil de explicar, porém muito fácil de entender. Eu sou a Priscila, eu, eu, eu. Mas, e se eu não me for? E se eu for o que não sou? Bem, acho que algumas pessoas já devem ter-se perguntado sobre isso.
Com relação a achismos, ACHO que isso é algo conceituoso demais. Não acho que música clássica seja melhor que funk. Não acho que sou mais inteligente que o guri que escreve tudo errado. Não acho que ninguém seja melhor que ninguém. Acho que há pessoas boas e ruins, e que essas pessoas ruins podem tornar-se boas e que merecem ser perdoadas se se arrependerem de seus atos. Sou contra todo o tipo de morte, sou contra ao sofrimento e à infelicidade alheia por fatores egoístas.
Bem, eu sou a Priscila, a menina chata, revoltada, amável, respondona, receptiva. Mas, antes de tudo, sou um ser humano com sentimentos. Talvez seja isso que eu deva colocar em minha cabeça: errar é viver, viver é aprender.
Acabou a vontade de falar de mim, vou postar logo antes que dê vontade de apagar esse texto.
Eu amo escrever. E não é tão simples assim. Eu não consigo amar muitas coisas, sou uma pessoa um pouco fechada para o sentimento do senso comum. Se sinto, sinto intensamente, até sangrar. E é o que sinto quando escrevo: o sangue. Sinto-o pulsar em minha veias, passeando por todo meu corpo até cair em minhas mãos.
Tenho crises constantes quando não consigo escrever, é como se eu estivesse vazia, sem uma parte essencial de mim. Mas acho que isso é normal, afinal tenho muitas crises, algumas delas provavelmente pela minha idade tão singela: quinze.
Não me sinto diferente com quinze anos, de como me sentia aos quatorze. Todavia algo em mim muda a cada segundo que passa, tal como a luz do sol renasce todos os dias. Uns devem chamar este algo de amadurecimento, outros de abandono filosófico, outros de a merda da puberdade. Eu chamo de viver.
Sabe, eu magôo as pessoas com uma facilidade tremenda, e esta é uma das coisas que necessito transformar. Não acredito em personalidade "forte", mas em personalidade difícil. E penso que a minha é um pouco... irritante. Sou sincera demais e a mais, odeio hipocrisia, falo o que der na telha, e em momentos não muito convenientes. Essa sinceridade em excesso machuca muitas pessoas que me rodeiam. Sou teimosa, cabeça-dura, dona-da-razão, orgulhosa, [coloque aqui mais algum adjetivo apto]. Se acho que estou certa, não importa o que você diga, minha opinião não muda! Eu odeio isso. Odeio, odeio, odeio. É algo que tento mudar, mas não consigo. Já melhorei bastante, nada sério.
Possuo uma frieza imensurável, em certos momentos, que me impressiono comigo mesma. Por horas, choro por tudo. Por outras, não derramo uma lágrima. Sou distante, sem nem ao menos perceber. Isso cria uma falsa impressão de mim a qualquer pessoa. Já escutei várias primeiras idéias sobre mim, quase nenhuma bate com a realidade: arrogante, convencida, tímida demais, extrovertida demais, alegre a todo o tempo, triste, séria. Apesar de eu ter um pouco disto tudo, não consigo definir-me, pois me sou a cada momento, e eu sou muitas coisas.
Minha percepção da realidade é a pior de todas: não sei se existo, e pensar nisso deixa-me tonta. Não sei se estou aqui escrevendo, pensando e tentando sentir-me um pouco mais. Difícil de explicar, porém muito fácil de entender. Eu sou a Priscila, eu, eu, eu. Mas, e se eu não me for? E se eu for o que não sou? Bem, acho que algumas pessoas já devem ter-se perguntado sobre isso.
Com relação a achismos, ACHO que isso é algo conceituoso demais. Não acho que música clássica seja melhor que funk. Não acho que sou mais inteligente que o guri que escreve tudo errado. Não acho que ninguém seja melhor que ninguém. Acho que há pessoas boas e ruins, e que essas pessoas ruins podem tornar-se boas e que merecem ser perdoadas se se arrependerem de seus atos. Sou contra todo o tipo de morte, sou contra ao sofrimento e à infelicidade alheia por fatores egoístas.
Bem, eu sou a Priscila, a menina chata, revoltada, amável, respondona, receptiva. Mas, antes de tudo, sou um ser humano com sentimentos. Talvez seja isso que eu deva colocar em minha cabeça: errar é viver, viver é aprender.
Acabou a vontade de falar de mim, vou postar logo antes que dê vontade de apagar esse texto.
terça-feira, junho 19, 2007
romeoejulieta
Tudo parece ter acontecido em um momento único, tu em meus braços, e nada mais. Aqueles instantes em que tudo é eternizado, brilho de alma única. Ó Romeo, Romeo. Se não tivesses corrido da ausência, da falta do que não vem, onde estaríamos nós?
Tu me pagaste com a vida, e eu com minha morte. A estrela acendeu os olhos para ti, para seu sorriso final. O momento se foi, apesar de eterno, e tudo que desejo é que sejas Romeo outra vez. Que me dês a mão para voarmos pelo infinito e que pisques os olhos, tão doces, para mim.
É inverno, meu querido. E tua ausência é forte. Foste em essência, não em carne. Ainda guardo teu corpo em minha sala velada, com rosas vemelhas e mariposas negras. Todos os dias dou-te um beijo nos lábios gélidos, roxos, queimados. Quero ter-te em beijos de amor... Daria tudo para voltar ao céu e sair deste inferno maldito!
Sou sua não-Julieta, a que tu mais odeias e desprezas, mas, ainda assim, eu te amo com fervor.
Meu Romeo de outono, e falsa miragem de primavera.
Tu me pagaste com a vida, e eu com minha morte. A estrela acendeu os olhos para ti, para seu sorriso final. O momento se foi, apesar de eterno, e tudo que desejo é que sejas Romeo outra vez. Que me dês a mão para voarmos pelo infinito e que pisques os olhos, tão doces, para mim.
É inverno, meu querido. E tua ausência é forte. Foste em essência, não em carne. Ainda guardo teu corpo em minha sala velada, com rosas vemelhas e mariposas negras. Todos os dias dou-te um beijo nos lábios gélidos, roxos, queimados. Quero ter-te em beijos de amor... Daria tudo para voltar ao céu e sair deste inferno maldito!
Sou sua não-Julieta, a que tu mais odeias e desprezas, mas, ainda assim, eu te amo com fervor.
Meu Romeo de outono, e falsa miragem de primavera.
quinta-feira, junho 14, 2007
Piscar De Olhos.
Talvez eu lhe sinta muita saudade.
Não, sem talvezes. É sentido, obviamente.
Eu venho andando pelas ruas sem você, e isso quase chora. Eu ainda posso ver nossos braços em nossos ombros rindo de nossos gritos. Gritos de um pingo de felicidade compartilhada, e o êxtase pós-semana. Escuto nossas conversas, nossas histórias inventadas, e cada lembrança entra como uma faca em minha alma, dividindo-a em dois mundos: o antes e o agora.
Eu a vi descendo a escada. Cada degrau, um impulso. Tive a vontade louca de puxar-lhe os cabelos, de socar-lhe a cara, várias e várias e várias vezes. E, em minha imaginação, esperei que me batesse de volta, que me machucasse. E, principalmente, que me arrancasse sangue.
Mas por que não o fiz? Por que nunca arranquei todos os seus fios de cabelo? Por que, após ter-lhe matado, não a abracei de volta?
Porque sou covarde. Não tive coragem, até agora, de admitir a falta. Pois ainda não me domina por completo, ainda consigo agüentar em não ver o sangue pulsar. Mas eu lhe garanto que você é tão covarde quanto eu. Somos uma faca de dois gumes.
Eu nunca admiti para ninguém que estou morrendo por dentro. Que há algo em meus olhos dilacerado. Pois admito agora. Eu sinto doer, e dói muito. Não há outrem, não consigo deixar que entrem em minha mente, que leiam minha alma, como você um dia leu. Tenho certeza que ainda tenta fazê-lo, mas de sua forma discreta.
Eu preciso de você.
Mas parece que somente o precisar não basta.
Eu preciso que você precise de mim.
Não, sem talvezes. É sentido, obviamente.
Eu venho andando pelas ruas sem você, e isso quase chora. Eu ainda posso ver nossos braços em nossos ombros rindo de nossos gritos. Gritos de um pingo de felicidade compartilhada, e o êxtase pós-semana. Escuto nossas conversas, nossas histórias inventadas, e cada lembrança entra como uma faca em minha alma, dividindo-a em dois mundos: o antes e o agora.
Eu a vi descendo a escada. Cada degrau, um impulso. Tive a vontade louca de puxar-lhe os cabelos, de socar-lhe a cara, várias e várias e várias vezes. E, em minha imaginação, esperei que me batesse de volta, que me machucasse. E, principalmente, que me arrancasse sangue.
Mas por que não o fiz? Por que nunca arranquei todos os seus fios de cabelo? Por que, após ter-lhe matado, não a abracei de volta?
Porque sou covarde. Não tive coragem, até agora, de admitir a falta. Pois ainda não me domina por completo, ainda consigo agüentar em não ver o sangue pulsar. Mas eu lhe garanto que você é tão covarde quanto eu. Somos uma faca de dois gumes.
Eu nunca admiti para ninguém que estou morrendo por dentro. Que há algo em meus olhos dilacerado. Pois admito agora. Eu sinto doer, e dói muito. Não há outrem, não consigo deixar que entrem em minha mente, que leiam minha alma, como você um dia leu. Tenho certeza que ainda tenta fazê-lo, mas de sua forma discreta.
Eu preciso de você.
Mas parece que somente o precisar não basta.
Eu preciso que você precise de mim.
quinta-feira, maio 10, 2007
EuVocêUniversoAnjo.
É fácil ler em seus olhos
Toda a vida que não passa,
O tempo que voa,
O sorriso sem medida.
Você e seu céu-sonhar
Que me acompanha
Até mesmo quando me adormeço
Em pesadelos de azul.
Um anjo é sua alma
Que não percebe suas palavras
Tão belas e serenas:
Palavras de amor!
Tenho medo de fechar os olhos
E não tê-lo mais em meus braços,
Mas você voa em minhas asas para sempre:
Não há o que temer!
Te adoro, anjo, amor
O amor é adoração de deus
E você não é mais nada que eu
E eu não sou mais nada que o universo eterno.
Toda a vida que não passa,
O tempo que voa,
O sorriso sem medida.
Você e seu céu-sonhar
Que me acompanha
Até mesmo quando me adormeço
Em pesadelos de azul.
Um anjo é sua alma
Que não percebe suas palavras
Tão belas e serenas:
Palavras de amor!
Tenho medo de fechar os olhos
E não tê-lo mais em meus braços,
Mas você voa em minhas asas para sempre:
Não há o que temer!
Te adoro, anjo, amor
O amor é adoração de deus
E você não é mais nada que eu
E eu não sou mais nada que o universo eterno.
terça-feira, abril 17, 2007
Entre Ódio e Sangue.
Já era tarde. Ele escoltava a arma na mão. As lágrimas escorriam de seu rosto: era o ódio nascendo. A coragem ia e voltava de seu corpo, como o sol se punha todos os dias, sem cansar-se. Seu sangue borbulhava em suas veias, e a pura indecisão voava em seu corpo inteiro.
Ele andava de um lado para o outro, naquela rua escura. Apenas uma luz estava acesa, tal que era suficiente para iluminar-lhe o rosto moço e já tão abatido. Apertava a mão suada e quase tinha medo daquele escuro, tão letal como a manhã que já se passara há poucas horas.
Sentou-se na beirada da calçada e chorou. Ninguém o escutaria, pois aveludam-se os sons para dentro da alma. Era noite, e estava sozinho, também se fosse dia o estaria. Não tinha certeza se iria conseguir fazê-lo, mas o pior dos sentimentos o sugava a cada respirar. A dor o sufocava, a verdade o tocava.
Em sua mente, viam-se todas as cenas já acontecidas, uma por uma, até o último segundo do infinito, onde parar o movimento seria tão impossível quanto sorrir agora.
A primeira lembrança: os gritos. Ele escutava os sons, mas não reconhecia as palavras. Era ela, apenas sabia, sofrendo e pedindo por ajuda. Quase uma sinfonia de adeus e vontade de desexistir.
Depois segue-se o sangue. Sua arte vermelha arrastava-se por toda a casa até o branco saciar-se em agonia. O sangue dela, que também é seu, foi morto sem escapatória, a crueldade foi lenta e sem intevalos.
Ele a vira ser morta: vingança. Morta por seu amante eterno, tão ilustre, que tanto causava-lhe suspiros apaixonados. Sua própria mãe morta por seu próprio pai. Ele deseja que nada tivesse visto. Deseja que tivesse a chave para voltar pela porta do ontem e ter gritado, arrancando-lhe das mãos brutais.
Mas o presente o aguarda: um carro vem pela rua. Pára perto da luz, e desce um homem. Parece cansado, tem os olhos calmos.
- Meu filho.
Dá-se um abraço.
- Meu pai.
Suspiros, olhares trocados.
- Sinto já tanto a falta de sua mãe, mal se fora de meus braços para o eterno. Devemos unir-nos mais, agora, em função da tristeza.
Cafajeste.
O filho tremia, as palavras do pai somente fizeram-no ter mais ódio. Ele Começou a chorar, o pai sorriu, em disfarce.
- Dê-me mais um abraço, venha cá.
Seria agora. Colocou a mão no bolso e foi abraçá-lo. Dar-lhe-ia um tiro na cabeça, ele veria a escuridão!
- Ah, meu filho! Não se ocupe em tentativas, em pensamentos[...] - calou-se, deixando continuidade.
Ele levantou a arma até a cabeça do pai e, quando ia puxar o gatilho, cravou-se uma estaca em seu peito. E também em sua alma.
- [...] A vingança pode não ser completa.
E se foi, deixando sangue do seu sangue jorrando do peito de seu primogênito, até a morte beijar-lhe os lábios em gratidão.
A vida, às vezes, pode ser sem rumo. Para uns, é alegria. Para outros, perdição. A verdade, em campo de batalha, não existe. Por isso o sangue escorre da mentira e da falta de piedade de quem luta pela sobrevivência.
Ele andava de um lado para o outro, naquela rua escura. Apenas uma luz estava acesa, tal que era suficiente para iluminar-lhe o rosto moço e já tão abatido. Apertava a mão suada e quase tinha medo daquele escuro, tão letal como a manhã que já se passara há poucas horas.
Sentou-se na beirada da calçada e chorou. Ninguém o escutaria, pois aveludam-se os sons para dentro da alma. Era noite, e estava sozinho, também se fosse dia o estaria. Não tinha certeza se iria conseguir fazê-lo, mas o pior dos sentimentos o sugava a cada respirar. A dor o sufocava, a verdade o tocava.
Em sua mente, viam-se todas as cenas já acontecidas, uma por uma, até o último segundo do infinito, onde parar o movimento seria tão impossível quanto sorrir agora.
A primeira lembrança: os gritos. Ele escutava os sons, mas não reconhecia as palavras. Era ela, apenas sabia, sofrendo e pedindo por ajuda. Quase uma sinfonia de adeus e vontade de desexistir.
Depois segue-se o sangue. Sua arte vermelha arrastava-se por toda a casa até o branco saciar-se em agonia. O sangue dela, que também é seu, foi morto sem escapatória, a crueldade foi lenta e sem intevalos.
Ele a vira ser morta: vingança. Morta por seu amante eterno, tão ilustre, que tanto causava-lhe suspiros apaixonados. Sua própria mãe morta por seu próprio pai. Ele deseja que nada tivesse visto. Deseja que tivesse a chave para voltar pela porta do ontem e ter gritado, arrancando-lhe das mãos brutais.
Mas o presente o aguarda: um carro vem pela rua. Pára perto da luz, e desce um homem. Parece cansado, tem os olhos calmos.
- Meu filho.
Dá-se um abraço.
- Meu pai.
Suspiros, olhares trocados.
- Sinto já tanto a falta de sua mãe, mal se fora de meus braços para o eterno. Devemos unir-nos mais, agora, em função da tristeza.
Cafajeste.
O filho tremia, as palavras do pai somente fizeram-no ter mais ódio. Ele Começou a chorar, o pai sorriu, em disfarce.
- Dê-me mais um abraço, venha cá.
Seria agora. Colocou a mão no bolso e foi abraçá-lo. Dar-lhe-ia um tiro na cabeça, ele veria a escuridão!
- Ah, meu filho! Não se ocupe em tentativas, em pensamentos[...] - calou-se, deixando continuidade.
Ele levantou a arma até a cabeça do pai e, quando ia puxar o gatilho, cravou-se uma estaca em seu peito. E também em sua alma.
- [...] A vingança pode não ser completa.
E se foi, deixando sangue do seu sangue jorrando do peito de seu primogênito, até a morte beijar-lhe os lábios em gratidão.
A vida, às vezes, pode ser sem rumo. Para uns, é alegria. Para outros, perdição. A verdade, em campo de batalha, não existe. Por isso o sangue escorre da mentira e da falta de piedade de quem luta pela sobrevivência.
quinta-feira, abril 12, 2007
Orvalho.
Aqui, por onde vejo as nuvens passar
E por onde o tempo parece estático,
Às vezes consigo sentir cada átomo do
Universo misturar-se à minha alma.
As asas dos anjos roçam por meus cabelos,
Até a vida tornar-se eterna.
E o vento parece ser um sopro de paz,
Em meio a tanto azul que escorre do céu.
Ao lado de Deus pareço estar,
Sem nenhum pecado ou rancor.
Somente impulsionado por este vento
E de corpo e alma pintados de arco-iris.
E por onde o tempo parece estático,
Às vezes consigo sentir cada átomo do
Universo misturar-se à minha alma.
As asas dos anjos roçam por meus cabelos,
Até a vida tornar-se eterna.
E o vento parece ser um sopro de paz,
Em meio a tanto azul que escorre do céu.
Ao lado de Deus pareço estar,
Sem nenhum pecado ou rancor.
Somente impulsionado por este vento
E de corpo e alma pintados de arco-iris.
quarta-feira, março 28, 2007
quarta-feira, março 14, 2007
SonhoSonharSonhado.
Meu sonho é poder sonhar.
Eu não sei fazê-lo, você pode me ensinar?
O rosa se mistura com o azul,
E o verde com o blue.
Como posso misturar as cores?
Não sei misturar nada, senão dores com amores!
Oh, por favor!
Tome um papel em branco e sinta seu calor.
Minha vida é não saber,
Como posso desenhar e pintar sem escurecer?
Apenas sinta o que deve sentir,
Não tente olhar nem contar, apenas deixe a tinta fluir.
Senhor, bigode e óculos!
Sou jovem, desprotegido, dê-me todos seus votos!
Não posso e não devo!
Você é quem deve descobrir a sorte do trevo!
Eu só quero sonhar,
O que precisa um pobre homem fazer para amar?
Adeus, homem sem sonhos!
Nada mais posso tirar, senão de uma cartola coloridos pombos!
Oh, que se vá!
Aqui eu fico cavando meu túmulo real com uma pá!
Um dia você vai sonhar,
Apena sonhe com isso e sonhando já vai estar!
Talvez eu seja o sonho amado,
O que tanto almejo calado.
Sim, você é.
Agora, por favor, saia do meu pé!
Sairei e voltarei a sonhar!
Adeus, óculos, tesoura e calcanhar!
Eu não sei fazê-lo, você pode me ensinar?
O rosa se mistura com o azul,
E o verde com o blue.
Como posso misturar as cores?
Não sei misturar nada, senão dores com amores!
Oh, por favor!
Tome um papel em branco e sinta seu calor.
Minha vida é não saber,
Como posso desenhar e pintar sem escurecer?
Apenas sinta o que deve sentir,
Não tente olhar nem contar, apenas deixe a tinta fluir.
Senhor, bigode e óculos!
Sou jovem, desprotegido, dê-me todos seus votos!
Não posso e não devo!
Você é quem deve descobrir a sorte do trevo!
Eu só quero sonhar,
O que precisa um pobre homem fazer para amar?
Adeus, homem sem sonhos!
Nada mais posso tirar, senão de uma cartola coloridos pombos!
Oh, que se vá!
Aqui eu fico cavando meu túmulo real com uma pá!
Um dia você vai sonhar,
Apena sonhe com isso e sonhando já vai estar!
Talvez eu seja o sonho amado,
O que tanto almejo calado.
Sim, você é.
Agora, por favor, saia do meu pé!
Sairei e voltarei a sonhar!
Adeus, óculos, tesoura e calcanhar!
domingo, fevereiro 25, 2007
O Trem.
É um trem imenso, por onde todos viajam. Sua plataforma é feita de vento, para que empurre os sentimentos rumo ao futuro. Possui somente cinco vagões, um para cada fase da vida e o último para a não-fase.
Ele pisou no primeiro vagão. O trem parecia ir devagar, as janelas estavam meio fechadas, e o ar entrava de leve. Tudo era mágico: o balançar, os trilhos soltando algumas faíscas, de vez em quando, e a música tocada por ninguém. Olhava por uma das janelas, e os trilhos pareciam não haver fim.
Ele via outros, debruçando-se pelas janelas e brincando e rodando e pulando. Dizia-se, por aí, que este era o mais bagunçado vagão de todos. E também o mais feliz. Ele não sabia se era, afinal, nunca visitara os outros. E não podia fazê-lo, até que um camareiro viesse entregar-lhe a chave para abrir a porta de ligação.
Ele pisou no segundo vagão. A sensação foi estranha. Achava que nunca receberia chave alguma. Mas, enfim, uma porta se abriu. Como este era diferente do primeiro! Umas garotas, que nunca havia reparado antes, piscavam para ele, e alguns de seus amiguinhos bebiam líquidos que os deixavam muito, muito felizes.
Ele sentia como se o trem houvesse disparado. Os trilhos e a paisagem passavam rápido. Ele nem conseguia ver as árvores direito. Começou a sentir uma pontada de saudade do primeiro vagão. E uma saudade dos seus antigos amigos que, agora, estavam tão diferentes do que já foram um dia.
Ele pisou no terceiro vagão. Sua cabeça doía. O trem andava mais rápido do que nunca! Nem chegava mais perto das janelas. Ora, para quê? Conhecia aquele cenário há muito, estava cansado de árvores, casas, trilhos, ah! Tudo se repetia, tudo. Seu coração fora partido e estava sozinho, sem vontade para nada.
Foi quando ele sentiu a vontade louca de voltar os vagões. De fugir para o primeiro, para sua lentidão. Mas não pôde voltar, a porta estava trancada para sempre. Começou a chorar. Estava sozinho, enjoado. Pensou em pular pela janela, mas resolveu sentar-se e esperar pelo que vinha pela frente. Nada poderia piorar.
Ele pisou no quarto vagão. Apaixonou-se por um lindo par de olhos cansados e tristes. Pena tê-la conhecido apenas no penúltimo vagão. Queria viver com ela para sempre! E viveu. Mas o último vagão estava chegando, e ele começou a temer. Afinal, o que vinha após o último? O último de tudo?
Passou a ver graça em tudo novamente, pois era o último vagão chegando! Sentou-se, com sua amada, em uma noite chuvosa, e fez juras de amor eterno. Sentiria sua falta, onde quer que fosse parar. Não é preciso citar o quão doloroso foi o adeus dos dois corações rubros e cheios de vida para oferecer.
Ele pisou no quinto vagão. Lembrou-se de tudo que havia passado até ali e chorou. Era tudo tão colorido, misturado, sereno...
Foi avisado que, na próxima estação, deixaria o trem para sempre.
E soltou. Sozinho, até desfazer-se inteiro e misturar-se com o vento. Perdeu os pensamentos, ou estes simplesmente deixaram-se perder.
Mas o trem continuou.
Sem parar. Sem parar. Sem parar.
Eternamente...
Ele pisou no primeiro vagão. O trem parecia ir devagar, as janelas estavam meio fechadas, e o ar entrava de leve. Tudo era mágico: o balançar, os trilhos soltando algumas faíscas, de vez em quando, e a música tocada por ninguém. Olhava por uma das janelas, e os trilhos pareciam não haver fim.
Ele via outros, debruçando-se pelas janelas e brincando e rodando e pulando. Dizia-se, por aí, que este era o mais bagunçado vagão de todos. E também o mais feliz. Ele não sabia se era, afinal, nunca visitara os outros. E não podia fazê-lo, até que um camareiro viesse entregar-lhe a chave para abrir a porta de ligação.
Ele pisou no segundo vagão. A sensação foi estranha. Achava que nunca receberia chave alguma. Mas, enfim, uma porta se abriu. Como este era diferente do primeiro! Umas garotas, que nunca havia reparado antes, piscavam para ele, e alguns de seus amiguinhos bebiam líquidos que os deixavam muito, muito felizes.
Ele sentia como se o trem houvesse disparado. Os trilhos e a paisagem passavam rápido. Ele nem conseguia ver as árvores direito. Começou a sentir uma pontada de saudade do primeiro vagão. E uma saudade dos seus antigos amigos que, agora, estavam tão diferentes do que já foram um dia.
Ele pisou no terceiro vagão. Sua cabeça doía. O trem andava mais rápido do que nunca! Nem chegava mais perto das janelas. Ora, para quê? Conhecia aquele cenário há muito, estava cansado de árvores, casas, trilhos, ah! Tudo se repetia, tudo. Seu coração fora partido e estava sozinho, sem vontade para nada.
Foi quando ele sentiu a vontade louca de voltar os vagões. De fugir para o primeiro, para sua lentidão. Mas não pôde voltar, a porta estava trancada para sempre. Começou a chorar. Estava sozinho, enjoado. Pensou em pular pela janela, mas resolveu sentar-se e esperar pelo que vinha pela frente. Nada poderia piorar.
Ele pisou no quarto vagão. Apaixonou-se por um lindo par de olhos cansados e tristes. Pena tê-la conhecido apenas no penúltimo vagão. Queria viver com ela para sempre! E viveu. Mas o último vagão estava chegando, e ele começou a temer. Afinal, o que vinha após o último? O último de tudo?
Passou a ver graça em tudo novamente, pois era o último vagão chegando! Sentou-se, com sua amada, em uma noite chuvosa, e fez juras de amor eterno. Sentiria sua falta, onde quer que fosse parar. Não é preciso citar o quão doloroso foi o adeus dos dois corações rubros e cheios de vida para oferecer.
Ele pisou no quinto vagão. Lembrou-se de tudo que havia passado até ali e chorou. Era tudo tão colorido, misturado, sereno...
Foi avisado que, na próxima estação, deixaria o trem para sempre.
E soltou. Sozinho, até desfazer-se inteiro e misturar-se com o vento. Perdeu os pensamentos, ou estes simplesmente deixaram-se perder.
Mas o trem continuou.
Sem parar. Sem parar. Sem parar.
Eternamente...
domingo, fevereiro 04, 2007
Algo além.
Eu luto porque preciso,
Porque, sem lutar, eu morro.
Entregar-me é fácil,
Mas a derrota vem logo após.
Se o mundo cair à minha volta,
Vou a reconstruí-lo.
Já que, se ele cair,
Eu caio para o inferno.
Viver não é difícil.
Difícil é não viver.
E, não vivendo,
A vida desfalece.
Por acabar, preciso surgir
Do meio de tantos pensamentos
E acabar com todos os sentimentos,
Que me apunhalam a cada respirar.
Porque, sem lutar, eu morro.
Entregar-me é fácil,
Mas a derrota vem logo após.
Se o mundo cair à minha volta,
Vou a reconstruí-lo.
Já que, se ele cair,
Eu caio para o inferno.
Viver não é difícil.
Difícil é não viver.
E, não vivendo,
A vida desfalece.
Por acabar, preciso surgir
Do meio de tantos pensamentos
E acabar com todos os sentimentos,
Que me apunhalam a cada respirar.
sábado, janeiro 20, 2007
A Roda Gigante.
Eu me lembro bem do triste rostinho daquela menina de vestido florido. Ela era linda, de seus seis anos tão frágeis como seus olhos azuis iluminados. Devia estar ali há tempos, somente olhando, com uma calma de anjo que chegava a doer a alma. Os pés iam empurando a areia de vez em quando, como quem diz que adoraria sentir o ar do alto, apenas para ver o cabelo balançar.
As outras crianças saíam enjoadas, com medo. Os pais reclamando que odeiam isso tudo, que estão perdendo a novela das oito ou o jornal. Mas a menininha continuava ali, ignorando os rostos de desgosto das crianças que saíam do brinquedo, ignorando os comentários bruscos dos adultos. Parecia que nada poderia desanimá-la.
Sentei-me em um banco, somente para observar a menina. Ela estaria sozinha? Mas era tão pequenina... não poderia estar sem os pais.
Resolvi falar com a doce criança, imagine se estivesse perdida, estava com um rosto tão decepcionado, tão triste...
- Ei, menina, você está bem? - perguntei quase sussurando, para não assustá-la.
Ela não respondeu. Pareceu não ter escutado, estava com toda atenção naquele imenso objeto.
- Menina... está tudo bem? - perguntei novamente, um pouco mais alto.
Ela olhou para mim e moveu os lábios como se fosse responder, mas pareceu que mudou de idéia e virou o rosto subitamente.
- Você está perdida?
- Mamãe diz que não devo falar com estranhos... - disse, e era a voz mais angelical que já ouvira em toda minha vida.
Pensei por um minuto no que falar, ela estava certa. Eu era um completo estranho.
- E onde está sua mãe?
- Ela... ela não sabe que estou aqui, ela não gosta de parques e diz que não tem dinheiro para eu andar nos brinquedos...
A menina pareceu suspirar, continuava a olhar fixamente para sua frente, não me encarava, como se quisesse esconder a tristeza.
- Há quanto tempo está aqui? - bateu-me um aperto no peito, que mãe não teria dinheiro para levar a filha a um parque?
- Desde tardinha...
- E por que só olha para esse brinquedo? Não gosta dos outros?
- É que... eu ouvi um menino dizendo que você pode tocar a lua, lá do alto... mas eu não tenho como tocar... não tenho dinheiro...
Parei por um segundo. Que sonho. Tocar a Lua... que criança mais bela. Que verdade mais linda.
Vi uma lágrima escorrendo de seus olhos. E não é sempre isso que acontece? Quando não conseguimos transformar nossos sonhos em realidade? Nós choramos.
- E se eu for na roda gigante com você? Eu pago sua entrada. - fazer acontecer, pensei.
- Eu... mesmo? Comigo? Lá no alto? - seus olhos encheram-se de sorrisos.
- Sim. - sorri para ela.
Peguei em suas mãos, a filha que nunca tive, e paguei as duas entradas. Sentamos no banco da roda gigante e lá fomos nós. O céu estava abarrotado de estrelas, naquela noite. E a Lua estava bem na nossa frente. Parecia chamar-nos para dançarmos uma cantiga de roda, para lembrarmos do tempo em que não existíamos. Peguei em sua mão e a coloquei no espaço em que a lua se encontrava.
- Viu? Agora você tocou a lua.
Ela abriu um enorme sorriso, daqueles sinceros e únicos.
Ficou maravilhada com o vento batendo em sua pele. Parecia que aquele era o momento mais feliz de toda sua pequena vida. A cada volta, ela suspirava mais, como se estivesse comendo um doce e não quisesse que ele acabasse. Mas o passeio estava acabando e nós já teríamos que descer.
- Bem, parece que acabou. - disse, meio chateado.
Ela soltou um pequeno riso e desceu do brinquedo correndo. Eu não tive tempo nem para levantar-me, e ela já estava na porta do parque, dando adeus para mim...
Não recebi obrigada. Não recebi agradecimento. Fique triste por saber que nunca mais veria aquele sorriso novamente. Mas alegrei-me ao saber que transformara o sonho de uma menina em realidade.
Percebi, então, que ela não agradeceu com palavras, mas agradeceu com a maior felicidade que já tivera. E isso, meus caros, nem mesmo uma palavra de afeto poderia substituir.
As outras crianças saíam enjoadas, com medo. Os pais reclamando que odeiam isso tudo, que estão perdendo a novela das oito ou o jornal. Mas a menininha continuava ali, ignorando os rostos de desgosto das crianças que saíam do brinquedo, ignorando os comentários bruscos dos adultos. Parecia que nada poderia desanimá-la.
Sentei-me em um banco, somente para observar a menina. Ela estaria sozinha? Mas era tão pequenina... não poderia estar sem os pais.
Resolvi falar com a doce criança, imagine se estivesse perdida, estava com um rosto tão decepcionado, tão triste...
- Ei, menina, você está bem? - perguntei quase sussurando, para não assustá-la.
Ela não respondeu. Pareceu não ter escutado, estava com toda atenção naquele imenso objeto.
- Menina... está tudo bem? - perguntei novamente, um pouco mais alto.
Ela olhou para mim e moveu os lábios como se fosse responder, mas pareceu que mudou de idéia e virou o rosto subitamente.
- Você está perdida?
- Mamãe diz que não devo falar com estranhos... - disse, e era a voz mais angelical que já ouvira em toda minha vida.
Pensei por um minuto no que falar, ela estava certa. Eu era um completo estranho.
- E onde está sua mãe?
- Ela... ela não sabe que estou aqui, ela não gosta de parques e diz que não tem dinheiro para eu andar nos brinquedos...
A menina pareceu suspirar, continuava a olhar fixamente para sua frente, não me encarava, como se quisesse esconder a tristeza.
- Há quanto tempo está aqui? - bateu-me um aperto no peito, que mãe não teria dinheiro para levar a filha a um parque?
- Desde tardinha...
- E por que só olha para esse brinquedo? Não gosta dos outros?
- É que... eu ouvi um menino dizendo que você pode tocar a lua, lá do alto... mas eu não tenho como tocar... não tenho dinheiro...
Parei por um segundo. Que sonho. Tocar a Lua... que criança mais bela. Que verdade mais linda.
Vi uma lágrima escorrendo de seus olhos. E não é sempre isso que acontece? Quando não conseguimos transformar nossos sonhos em realidade? Nós choramos.
- E se eu for na roda gigante com você? Eu pago sua entrada. - fazer acontecer, pensei.
- Eu... mesmo? Comigo? Lá no alto? - seus olhos encheram-se de sorrisos.
- Sim. - sorri para ela.
Peguei em suas mãos, a filha que nunca tive, e paguei as duas entradas. Sentamos no banco da roda gigante e lá fomos nós. O céu estava abarrotado de estrelas, naquela noite. E a Lua estava bem na nossa frente. Parecia chamar-nos para dançarmos uma cantiga de roda, para lembrarmos do tempo em que não existíamos. Peguei em sua mão e a coloquei no espaço em que a lua se encontrava.
- Viu? Agora você tocou a lua.
Ela abriu um enorme sorriso, daqueles sinceros e únicos.
Ficou maravilhada com o vento batendo em sua pele. Parecia que aquele era o momento mais feliz de toda sua pequena vida. A cada volta, ela suspirava mais, como se estivesse comendo um doce e não quisesse que ele acabasse. Mas o passeio estava acabando e nós já teríamos que descer.
- Bem, parece que acabou. - disse, meio chateado.
Ela soltou um pequeno riso e desceu do brinquedo correndo. Eu não tive tempo nem para levantar-me, e ela já estava na porta do parque, dando adeus para mim...
Não recebi obrigada. Não recebi agradecimento. Fique triste por saber que nunca mais veria aquele sorriso novamente. Mas alegrei-me ao saber que transformara o sonho de uma menina em realidade.
Percebi, então, que ela não agradeceu com palavras, mas agradeceu com a maior felicidade que já tivera. E isso, meus caros, nem mesmo uma palavra de afeto poderia substituir.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Gota.
Vim dizer-lhe,
Gota de água,
O que meu coração suprime.
Você pode senti-lo bater?
Tum. Tum. Tum.
Ele quebra a sintonia de sua morte.
Cai, gota, ao chão.
Deixa de viver,
Como terra,
Como água,
Como pó.
Cai, gota, nos meus fios de cabelo
E penteia minha alma.
Você consegue descê-los, sem neles tocar?
Vai, vai embora com o vento.
Para longe.
Misture-se com a chuva.
E leve consigo uma lágrima, gota.
- Uma lágrima-gota.
Gota de água,
O que meu coração suprime.
Você pode senti-lo bater?
Tum. Tum. Tum.
Ele quebra a sintonia de sua morte.
Cai, gota, ao chão.
Deixa de viver,
Como terra,
Como água,
Como pó.
Cai, gota, nos meus fios de cabelo
E penteia minha alma.
Você consegue descê-los, sem neles tocar?
Vai, vai embora com o vento.
Para longe.
Misture-se com a chuva.
E leve consigo uma lágrima, gota.
- Uma lágrima-gota.
terça-feira, janeiro 16, 2007
Ainda Assim.
Se eu fosse vestígio
Do que já se passou,
Ainda assim,
você me recordaria?
Se eu fosse um símbolo,
Fechado, cravado: uma incógnita,
Ainda assim,
Você me decifraria?
Se eu fosse a água poluída
De rios mentirosos,
Ainda assim,
Você me nadaria?
Se eu fosse a vida
Com desgraça e sem sorrisos,
Ainda assim,
Você me viveria?
- Pergunto-lhe, ao final:
Se eu fosse o que sou,
Escondida por máscaras,
Atrás de sentimentos não-sentimentais
Se eu fosse um espinho em vez de rosa,
Se eu fosse má poesia em vez de prosa,
Se eu fosse inferno em vez de céu
Se eu fosse amarga em vez de mel,
Ainda assim,
Você me amaria?
[ Se, ainda assim, você me amar, eu lhe pago uma bebida. ]
Do que já se passou,
Ainda assim,
você me recordaria?
Se eu fosse um símbolo,
Fechado, cravado: uma incógnita,
Ainda assim,
Você me decifraria?
Se eu fosse a água poluída
De rios mentirosos,
Ainda assim,
Você me nadaria?
Se eu fosse a vida
Com desgraça e sem sorrisos,
Ainda assim,
Você me viveria?
- Pergunto-lhe, ao final:
Se eu fosse o que sou,
Escondida por máscaras,
Atrás de sentimentos não-sentimentais
Se eu fosse um espinho em vez de rosa,
Se eu fosse má poesia em vez de prosa,
Se eu fosse inferno em vez de céu
Se eu fosse amarga em vez de mel,
Ainda assim,
Você me amaria?
[ Se, ainda assim, você me amar, eu lhe pago uma bebida. ]
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Balançar.
Uma flor em minha consciência desabrochou, quando escutei sua calma voz. Quase um sussurro, vida calma de recém descobertas. Uma criança, para mim. Para outros, apenas um objeto a pisar-se. Quem sabe uma meia suja, sem importância, que jogamos na lata de licho. Era disso que essa criança vivia. De opiniões ante-conceituadas.
Naquela tardezinha, em frente ao banco do parque, ela se balançava. Sua pele negrinha encostava no vento, enquanto suas madechas o acompanhavam. Sorria, sozinha, sempre sozinha, porque era negra. E negros, em 1758, só tinham a si mesmos e ao preconceito de todos, inclusive o deles próprios.
Eu me sentei naquele gramado verde e fique a observá-la. Ela balançava despreocupada, parecia que não tinha nenhum adulto por perto. Não era normal uma crinaça negra por essa parte da cidade, era perigoso para ela. Se alguém maldoso e racista o suficiente a visse, com certeza ela tomaria uma boa sova. Mas parecia que nada poderia mudar sua tranqüilidade.
Adormeci, por um tempo, encostada numa árvore, e fui acordada com um cantarolar gostoso, tão leve, que parecia um sonho.
Mãezinha do céu, eu não sei rezar.
Só sei dizer quero te amar...
Abri os olhos e espreguicei-me. Aquela voz macia vinha da menina negrinha, naquele balançar contínuo. Parecia que nunca cansava de balançar, era quase como se estivesse voando, para lá e para cá. Piscava os olhos quase raramente e, até aquele momento, parecia que não havia me notado. Virou o olhar, para mim, então, subitamente e não se mostrou surpresa ao ver-me ali. Eu, pelo contrário, achei a situação anormal, já que eu era uma mulher branca e desconhecida para a menininha.
Ela continuou com sua calma, em meio àquele ar deserto de vida. Algumas poucas pessoas que passavam olhavam feio para a doce garotinha no balanço e, depois, olhavam mais feio ainda para mim, por estar tão perto de uma negra sem ter nojo ou sem fazer nada para tirá-la de uma pracinha de crianças brancas.
Voltei a pensar comigo. Uma criança sozinha já era estranho de encontrar. O que uma menina negra estaria fazendo sozinha por aqui? Não sentia medo? Não era já tão nova assim, sabia, provavelmente, dos perigos que todos poderiam representar a ela.
Azul é seu manto,
Branco é seu véu...
Voz suave. Voz única. Que menina seria esta? Meu olhar não conseguia sair de perto desta criança! Tão segura de si, tão calma, tão corajosa. Será que estaria sozinha no mundo? Não, mesmo que estivesse, não me permitiriam adotá-la. Meu marido odiaria a situação! Mas... e se ela estiver sozinha?
Não, ela está arrumadinha, parece que veio da igreja, afinal, hoje é domingo. Sim, os pais devem tê-la deixado na escolinha e ela fugiu para cá! Eles devem estar preocupadíssimos.
Pensei em levantar-me, naquela mesma hora, para poder comunicar-me com a criança. Mas paralizei-me, quando ela voltou a cantar. Sua voz era quase... mágica.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu...
Então ela finalizou a voz e a música. Parou também de balançar-se. Eu levantei e fui em sua direção, ela levantou o doce rostinho para mim e alargou um grande sorriso. Meus passos foram devagando, pensativos, até chegarem em frente à pequena figura de branco. Respirei e pousei a mão sobre seu cabelo, fiz um carinho.
- Menina, está sozinha? - perguntei, o mais gentil possível.
- Não, nunca estou sozinha!
- Como não!? Onde estão seus pais?
- Eu não tenho pais, não aqui!
- E onde os tem?
Ela deu uma risada gostosa, bem infatil, e levantou as sombrancelhas. Dobrou um pouco o rosto e pegou em uma das minhas mãos. Ergueu-a e fez com que um de meus dedos apontassem para o céu. Eu me surpreendi com aquele gesto, mas minha fé sempre foi muito escassa. Porém, não queria acabar com toda a esperança de uma criança nesse mundo.
- Ah, sim... você quer dizer que Deus é seu pai?
- Uhum.
- Mas para aonde foram seus pais daqui, sabe? A mamãe e o papai?
- Não há mamãe e papai, ora!
Então, ela correu. Correu realmente como quem tem força de vontade. E eu corri atrás, não podia deixá-la sozinha! Ela atravessou a rua sem nem mesmo olhar para o lado e se encaminhou para dentro de um prédio. Entrei logo após, e tudo estava vazio. Vi seus cabelos balançarem pela escadaria e, cansada, segui-a, degrau por degrau.
Subi muitas escadas, o suor já estava batendo no meu rosto. Chegamos até o final de tudo, só havia, agora, o que descer. Abri uma porta que dava para o andar mais alto e a vi, o vento sempre em sua direção. Meu coração acelerou! Ela estava em cima da borda, mais um passo e despencaria no ar.
- Menina! O que está fazendo?!!! Vamos, desça já daí!
Ela virou seu rosto sorridente para mim e deu uma longa piscada. Jogou-me um rosário azul, ao qual eu agarrei com toda minha vida.
E logo depois... caiu.
Ao menos foi o que pensei naquele instante.
Corri para onde a menina estava e, ao longe, eu a vi. Ela estava um pouco distante, mas seus cabelos não me enganaram.
Consigo, batiam duas longas e brancas asas, que refletiam em constrate à sua eterna beleza negra.
Apertei o rosário bem forte e voltei para a escadaria, escutando uma música suave entoar em minha mente...
Naquela tardezinha, em frente ao banco do parque, ela se balançava. Sua pele negrinha encostava no vento, enquanto suas madechas o acompanhavam. Sorria, sozinha, sempre sozinha, porque era negra. E negros, em 1758, só tinham a si mesmos e ao preconceito de todos, inclusive o deles próprios.
Eu me sentei naquele gramado verde e fique a observá-la. Ela balançava despreocupada, parecia que não tinha nenhum adulto por perto. Não era normal uma crinaça negra por essa parte da cidade, era perigoso para ela. Se alguém maldoso e racista o suficiente a visse, com certeza ela tomaria uma boa sova. Mas parecia que nada poderia mudar sua tranqüilidade.
Adormeci, por um tempo, encostada numa árvore, e fui acordada com um cantarolar gostoso, tão leve, que parecia um sonho.
Mãezinha do céu, eu não sei rezar.
Só sei dizer quero te amar...
Abri os olhos e espreguicei-me. Aquela voz macia vinha da menina negrinha, naquele balançar contínuo. Parecia que nunca cansava de balançar, era quase como se estivesse voando, para lá e para cá. Piscava os olhos quase raramente e, até aquele momento, parecia que não havia me notado. Virou o olhar, para mim, então, subitamente e não se mostrou surpresa ao ver-me ali. Eu, pelo contrário, achei a situação anormal, já que eu era uma mulher branca e desconhecida para a menininha.
Ela continuou com sua calma, em meio àquele ar deserto de vida. Algumas poucas pessoas que passavam olhavam feio para a doce garotinha no balanço e, depois, olhavam mais feio ainda para mim, por estar tão perto de uma negra sem ter nojo ou sem fazer nada para tirá-la de uma pracinha de crianças brancas.
Voltei a pensar comigo. Uma criança sozinha já era estranho de encontrar. O que uma menina negra estaria fazendo sozinha por aqui? Não sentia medo? Não era já tão nova assim, sabia, provavelmente, dos perigos que todos poderiam representar a ela.
Azul é seu manto,
Branco é seu véu...
Voz suave. Voz única. Que menina seria esta? Meu olhar não conseguia sair de perto desta criança! Tão segura de si, tão calma, tão corajosa. Será que estaria sozinha no mundo? Não, mesmo que estivesse, não me permitiriam adotá-la. Meu marido odiaria a situação! Mas... e se ela estiver sozinha?
Não, ela está arrumadinha, parece que veio da igreja, afinal, hoje é domingo. Sim, os pais devem tê-la deixado na escolinha e ela fugiu para cá! Eles devem estar preocupadíssimos.
Pensei em levantar-me, naquela mesma hora, para poder comunicar-me com a criança. Mas paralizei-me, quando ela voltou a cantar. Sua voz era quase... mágica.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu...
Então ela finalizou a voz e a música. Parou também de balançar-se. Eu levantei e fui em sua direção, ela levantou o doce rostinho para mim e alargou um grande sorriso. Meus passos foram devagando, pensativos, até chegarem em frente à pequena figura de branco. Respirei e pousei a mão sobre seu cabelo, fiz um carinho.
- Menina, está sozinha? - perguntei, o mais gentil possível.
- Não, nunca estou sozinha!
- Como não!? Onde estão seus pais?
- Eu não tenho pais, não aqui!
- E onde os tem?
Ela deu uma risada gostosa, bem infatil, e levantou as sombrancelhas. Dobrou um pouco o rosto e pegou em uma das minhas mãos. Ergueu-a e fez com que um de meus dedos apontassem para o céu. Eu me surpreendi com aquele gesto, mas minha fé sempre foi muito escassa. Porém, não queria acabar com toda a esperança de uma criança nesse mundo.
- Ah, sim... você quer dizer que Deus é seu pai?
- Uhum.
- Mas para aonde foram seus pais daqui, sabe? A mamãe e o papai?
- Não há mamãe e papai, ora!
Então, ela correu. Correu realmente como quem tem força de vontade. E eu corri atrás, não podia deixá-la sozinha! Ela atravessou a rua sem nem mesmo olhar para o lado e se encaminhou para dentro de um prédio. Entrei logo após, e tudo estava vazio. Vi seus cabelos balançarem pela escadaria e, cansada, segui-a, degrau por degrau.
Subi muitas escadas, o suor já estava batendo no meu rosto. Chegamos até o final de tudo, só havia, agora, o que descer. Abri uma porta que dava para o andar mais alto e a vi, o vento sempre em sua direção. Meu coração acelerou! Ela estava em cima da borda, mais um passo e despencaria no ar.
- Menina! O que está fazendo?!!! Vamos, desça já daí!
Ela virou seu rosto sorridente para mim e deu uma longa piscada. Jogou-me um rosário azul, ao qual eu agarrei com toda minha vida.
E logo depois... caiu.
Ao menos foi o que pensei naquele instante.
Corri para onde a menina estava e, ao longe, eu a vi. Ela estava um pouco distante, mas seus cabelos não me enganaram.
Consigo, batiam duas longas e brancas asas, que refletiam em constrate à sua eterna beleza negra.
Apertei o rosário bem forte e voltei para a escadaria, escutando uma música suave entoar em minha mente...
terça-feira, janeiro 02, 2007
Quandos de Eternidade.
Quando te vi, ainda era pequeno.
Gota de água, sem cor e sem vestígio.
Uma criança de vida nova.
Quando te sorri, já era moço.
Verdades de mentiras em tua face.
Gritei: Vive tua existência!
Quando te amei, homem se formara.
Lindo tu eras, com graças e paixões.
Tudo passageiro, à flor da pele.
Quando te dei adeus, a morte me chamava.
Minha pele estava seca, e tu estavas divino.
Amor, minha criança, cravei-te um beijo na alma.
Gota de água, sem cor e sem vestígio.
Uma criança de vida nova.
Quando te sorri, já era moço.
Verdades de mentiras em tua face.
Gritei: Vive tua existência!
Quando te amei, homem se formara.
Lindo tu eras, com graças e paixões.
Tudo passageiro, à flor da pele.
Quando te dei adeus, a morte me chamava.
Minha pele estava seca, e tu estavas divino.
Amor, minha criança, cravei-te um beijo na alma.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Do Silêncio Se Faz A Fé?
O homem entrou na igreja mancando, sua perna estava sendo arrastada por seu corpo quente e eufórico. Algumas pessoas estavam ajoelhadas, rezando para as imagens com faces tão duras. Não repararam quando e como o tapete central estava sendo sujo, enquanto o homem passava lentamente, até conseguir chegar ao centro das imagens, onde havia uma grande cruz de um Jesus crucificado.
Ajoelhou-se com muita dor e dificuldade e olhou para os lados. Cerca de umas quinze pessoas rezando, três crianças conversando. Suspirou o silêncio. As coisas não precivam ser assim, ele sabia. Mas agora já havia começado. Iria até o final, como prometera à sua família, cheia de ambições.
- Deus! Eu sou um homem pecador, como tantos outros. Eu errei e logo voltarei para meus erros. Nasci naquele lugar, cheio de morte e violência. Drogas, prostituição, não havia fé! Deus, por onde Você esteve? Precisei tanto de Você, quando fui preso, maltratado, quando vi criança morrer! Oh, não, minha irmã de dez anos se foi, baleada por um policial! Por quê?, meu Deus, por quê?
O homem chorou e abaixou a cabeça. Sua perna doía, sabia que logo iria morrer. Um policial o pegou de vez. Hoje foi o dia do terror e da morte para muitas pessoas. Ônibus foram queimados, granadas foram soltas, pessoas foram baleadas. Agora, sim, a verdade iria aparecer aos olhos de todos. E isso é apenas o começo.
Todos os dias, pessoas morrem por violência. Todos os dias, alguma criança é iniciada no tráfico. Todos os dias, alguém perde a esperança.
Quem nasce em uma favela quase não tem escapatória. Cresce com a morte, com as drogas, com maldade ao lado. Para onde foram as pessoas boas? Para onde foram todos? Parecem animais, sem vida, sem piedade, apenas se importam com seu lucro pessoal. Não ligam de matar, de roubar, de culpar! Culpa? A culpa é de quem?
- Deus! Ah, Deus! Eu quis matar! Eu não me arrependo. Eu não tenho nada, nosso povo não tem nada, precisamos nos expor. Eu não queria ter crescido assim, com arma na mão. Não queria ter perdido a fé. Mas, Deus, onde Você está? Porque não me ajuda? Eu precisava tanto de alguém para me guiar. Eu sou errado, todos são errados! Onde está a certeza?
Fez-se um pausa, as lágrimas caíam sem parar. Todos os culpavam, sem antes olhar seus motivos. Nada justifica, é verdade. Mas também nada justifica a situação em que estão. Por que uns podem tudo e outros não podem nada? Por que tanta ganância? Por quê? Para onde foram os bons, os amigos, os verdadeiros? Por que a maldade prevalece tanto? Por quê?
A resposta está dentro do coração de cada um.
- Venho aqui pedir-lhe perdão. Não fui certo e, antes de morrer, também não serei. Hoje se esgotou meu acreditar. Hoje eu matei a muitos e a mim mesmo. Hoje eu matei um pouco de Você, Deus, como todos fazem um pouco todos os dias. Desisto, aqui, e agora. E sei que o inferno me aguarda. Amém.
Levantou-se, com a maior dificuldade do mundo e fez o sinal da cruz. Abriu uma grande bolsa que carregou até ali e tirou uma grande arma de lá de dentro. Olhou para a cruz e pediu perdão. Começou a atirar em todos que estavam rezando. As crianças gritaram, mas o sangue escorreu de seu pequenos corpinhos recém-vividos. Todos morreram, sem piedade. Após o massacre, virou a arma para si mesmo e deixou de existir, com todos os seus pecados e com todas as suas mortes inocentes.
A Igreja continuava no silêncio, agora com sofrimento e sem vida.
Mais tarde, no jornal, mostrou-se uma pequena notícia, bem espremidinha, no canto, sobre a morte de algumas pessoas dentro de uma certa igrejinha.
E a vida continua.
Ajoelhou-se com muita dor e dificuldade e olhou para os lados. Cerca de umas quinze pessoas rezando, três crianças conversando. Suspirou o silêncio. As coisas não precivam ser assim, ele sabia. Mas agora já havia começado. Iria até o final, como prometera à sua família, cheia de ambições.
- Deus! Eu sou um homem pecador, como tantos outros. Eu errei e logo voltarei para meus erros. Nasci naquele lugar, cheio de morte e violência. Drogas, prostituição, não havia fé! Deus, por onde Você esteve? Precisei tanto de Você, quando fui preso, maltratado, quando vi criança morrer! Oh, não, minha irmã de dez anos se foi, baleada por um policial! Por quê?, meu Deus, por quê?
O homem chorou e abaixou a cabeça. Sua perna doía, sabia que logo iria morrer. Um policial o pegou de vez. Hoje foi o dia do terror e da morte para muitas pessoas. Ônibus foram queimados, granadas foram soltas, pessoas foram baleadas. Agora, sim, a verdade iria aparecer aos olhos de todos. E isso é apenas o começo.
Todos os dias, pessoas morrem por violência. Todos os dias, alguma criança é iniciada no tráfico. Todos os dias, alguém perde a esperança.
Quem nasce em uma favela quase não tem escapatória. Cresce com a morte, com as drogas, com maldade ao lado. Para onde foram as pessoas boas? Para onde foram todos? Parecem animais, sem vida, sem piedade, apenas se importam com seu lucro pessoal. Não ligam de matar, de roubar, de culpar! Culpa? A culpa é de quem?
- Deus! Ah, Deus! Eu quis matar! Eu não me arrependo. Eu não tenho nada, nosso povo não tem nada, precisamos nos expor. Eu não queria ter crescido assim, com arma na mão. Não queria ter perdido a fé. Mas, Deus, onde Você está? Porque não me ajuda? Eu precisava tanto de alguém para me guiar. Eu sou errado, todos são errados! Onde está a certeza?
Fez-se um pausa, as lágrimas caíam sem parar. Todos os culpavam, sem antes olhar seus motivos. Nada justifica, é verdade. Mas também nada justifica a situação em que estão. Por que uns podem tudo e outros não podem nada? Por que tanta ganância? Por quê? Para onde foram os bons, os amigos, os verdadeiros? Por que a maldade prevalece tanto? Por quê?
A resposta está dentro do coração de cada um.
- Venho aqui pedir-lhe perdão. Não fui certo e, antes de morrer, também não serei. Hoje se esgotou meu acreditar. Hoje eu matei a muitos e a mim mesmo. Hoje eu matei um pouco de Você, Deus, como todos fazem um pouco todos os dias. Desisto, aqui, e agora. E sei que o inferno me aguarda. Amém.
Levantou-se, com a maior dificuldade do mundo e fez o sinal da cruz. Abriu uma grande bolsa que carregou até ali e tirou uma grande arma de lá de dentro. Olhou para a cruz e pediu perdão. Começou a atirar em todos que estavam rezando. As crianças gritaram, mas o sangue escorreu de seu pequenos corpinhos recém-vividos. Todos morreram, sem piedade. Após o massacre, virou a arma para si mesmo e deixou de existir, com todos os seus pecados e com todas as suas mortes inocentes.
A Igreja continuava no silêncio, agora com sofrimento e sem vida.
Mais tarde, no jornal, mostrou-se uma pequena notícia, bem espremidinha, no canto, sobre a morte de algumas pessoas dentro de uma certa igrejinha.
E a vida continua.
domingo, dezembro 10, 2006
Páginas em Branco.
Eu sou um livro sem palavras. Apenas com páginas em branco, prontas para serem escritas por você. Tome um lápis, escreva sentimentos. Apague-os! Mas, cuidado, a cada palavra apagada, uma parte de minha alma se perde. Ela voa para o esquecimento, como se você a houvesse matado a punhaladas e limpado seu sangue com suas páginas rasgadas.
Não, não suje minha brancura com promessas que serão perjuradas. Se, a cada lágrima caída em minhas folhas, você arranhar meu corpo com as unhas, eu me desgasto e acabo virando uma folha seca de outono. Uma folha que, ao menor toque, mesmo de serenidade, decompõe-se, sem querer, e ao céu se esvai. Portanto, não as derrame em minhas folhas. Use a sinceridade apenas quando ela é verdadeira.
Escritor, alimente-me com sua poesia, preciso dela para manter meus sonhos. Escreva suas figuras, sua coloração, crave em mim todos os seus sentidos, todo o seu mundo e desmundos. Porque eu preciso de suas palavras, sem elas, eu nada sou. Minha dependência surgiu quando minha capa foi aberta. Agora, não consigo mais deixar de respirar conotações.
" Palavra, doce menina,
Não me machuque,
Nem de noite nem de dia,
Porque machucar-me
É como feri-la de volta. "
Sei que um dia serei esquecido. Serei jogado no lixo, no esquecimento. E, então, perguntar-me-ei: "Para aonde foi o Era Uma vez?" E as palavras surgirão em mim, respondendo: "Ele se foi para longe, muito longe. E você não viveu feliz para sempre." Minhas folhas envelhecerão, até ficarem amareladas, serão solitárias e sem essência. Um dia, serei lançado ao mar, desprotegido, até cair em seu fundo e por lá apodrecer durante séculos.
Lixo? Serei pior que lixo. O meu valor terá sumido há muito. E aonde estará você, poeta que me criou? Cansou-se de mim, de suas histórias, que, com o esquecimento, viraram apenas estórias.
" Não voes para longe, ó poesia.
Arranca tuas asas
E fica comigo,
Em palavras,
Para sempre. "
Não o culpo, afinal. Culpo a mim. Por ter absorvido tanto sentir! Tudo se unia à minha alma. Cada sí-la-ba. Eram, enfim, meus pedaços pedindo por sustentação. Por sentimentos, por utopias. Principalmente pelo que emanava de você. Não conseguia sentir os risos, nem o drama, eu não conseguia comunicar-me!
Já fui esquecido. Por que usei do futuro, se tudo é passado? Tentativa frustrada de enganar-me. Quero meu conto-de-fadas de volta. Quero ter princesas, guerreiros, vilões. Quero ter uma simples menina, que escreve em seu diário, todos os dias, sobre seus pequenos problemas. Eu quero amor! Quero ódio! Quero vazio!
Eu sei porque me machuco. Sei porque minhas folhas pedem por leitura. Você, poeta, está morto. E morreu antes de terminar-me.
Deixou minhas folhas.
Em branco.
" Deixa-me seu vestígio,
Para que eu possa segui-la.
Caso contrário,
Morrerei, eternamente,
Sem absorvê-la. "
E fechou-se, adormecido.
Quem sabe, um dia, um principe encantado venha beijar suas folhas em branco, com palavras nuas...
Não, não suje minha brancura com promessas que serão perjuradas. Se, a cada lágrima caída em minhas folhas, você arranhar meu corpo com as unhas, eu me desgasto e acabo virando uma folha seca de outono. Uma folha que, ao menor toque, mesmo de serenidade, decompõe-se, sem querer, e ao céu se esvai. Portanto, não as derrame em minhas folhas. Use a sinceridade apenas quando ela é verdadeira.
Escritor, alimente-me com sua poesia, preciso dela para manter meus sonhos. Escreva suas figuras, sua coloração, crave em mim todos os seus sentidos, todo o seu mundo e desmundos. Porque eu preciso de suas palavras, sem elas, eu nada sou. Minha dependência surgiu quando minha capa foi aberta. Agora, não consigo mais deixar de respirar conotações.
" Palavra, doce menina,
Não me machuque,
Nem de noite nem de dia,
Porque machucar-me
É como feri-la de volta. "
Sei que um dia serei esquecido. Serei jogado no lixo, no esquecimento. E, então, perguntar-me-ei: "Para aonde foi o Era Uma vez?" E as palavras surgirão em mim, respondendo: "Ele se foi para longe, muito longe. E você não viveu feliz para sempre." Minhas folhas envelhecerão, até ficarem amareladas, serão solitárias e sem essência. Um dia, serei lançado ao mar, desprotegido, até cair em seu fundo e por lá apodrecer durante séculos.
Lixo? Serei pior que lixo. O meu valor terá sumido há muito. E aonde estará você, poeta que me criou? Cansou-se de mim, de suas histórias, que, com o esquecimento, viraram apenas estórias.
" Não voes para longe, ó poesia.
Arranca tuas asas
E fica comigo,
Em palavras,
Para sempre. "
Não o culpo, afinal. Culpo a mim. Por ter absorvido tanto sentir! Tudo se unia à minha alma. Cada sí-la-ba. Eram, enfim, meus pedaços pedindo por sustentação. Por sentimentos, por utopias. Principalmente pelo que emanava de você. Não conseguia sentir os risos, nem o drama, eu não conseguia comunicar-me!
Já fui esquecido. Por que usei do futuro, se tudo é passado? Tentativa frustrada de enganar-me. Quero meu conto-de-fadas de volta. Quero ter princesas, guerreiros, vilões. Quero ter uma simples menina, que escreve em seu diário, todos os dias, sobre seus pequenos problemas. Eu quero amor! Quero ódio! Quero vazio!
Eu sei porque me machuco. Sei porque minhas folhas pedem por leitura. Você, poeta, está morto. E morreu antes de terminar-me.
Deixou minhas folhas.
Em branco.
" Deixa-me seu vestígio,
Para que eu possa segui-la.
Caso contrário,
Morrerei, eternamente,
Sem absorvê-la. "
E fechou-se, adormecido.
Quem sabe, um dia, um principe encantado venha beijar suas folhas em branco, com palavras nuas...
sexta-feira, dezembro 08, 2006
Realidade Que Não Deveria Ser Real.
Hoje não irei falar de amor. Não irei mostrar, com palavras, o quanto sempre, por trás dos finais tristes, há uma grande luz de felicidade. Não irei prolongar-me com bons finais, que nem são tão bons assim, às vezes. Hoje eu irei falar do egoísmo. Dos maus sentimentos, dos que mais sobrevivem durante o passar da vida. Aquela pontada de pecados e horrores que emana todo dia da boca e da mente do ser humano.
Vejo uma menina correndo na rua. Ela é linda e tem toda uma esperança pela frente. Não descobriu a realidade: ainda. Logo, perderá a fé em Deus. Queimará seus antigos brinquedos, e jogará suas roupas infantis fora. Logo, essa menina não terá sustento e perderá os pais no tiroteio. Deviam ter-lhe dito: Voa, menina! Vai embora daqui, fica nos teus sonhos, porque a realidade é dura. É dura demais e a mais. E ela cedo descobriu. Com doze anos, já veio a prostituição. O dinheiro, que ganhava, não compensava sua dor íntima de repulsa. Sentia nojo de si, sentia medo de seu futuro. O que será de amanhã? O diabo, quem sabe, vir-se-ia à sua porta, para levá-la diretamente para o inferno. O inferno, provavelmente, não seria tão diferente de sua vida.
Envolveu-se com drogas. Tarde de mais, ela pensava, agora, não tem mais volta. Não tinha ninguém. Nem mesmo uma amiga. Afinal, quem iria importar-se com uma vida tão "medíocre" como a dela? Ninguém. Porque a verdade é uma só e única. E, nesse caso, não há relativismos. Apenas exceções, não relativas. Quem passava por ela, apenas nutria o preconceito: "Drogada, perdida! Puta." Nem uma, nenhuma pessoa parou e deu a mão para sua alma. A visão do ser humano é tão perfeita, que só vêem o que querem ver. Mas o pedido de socorro, que vinha dos olhos daquela menina, nunca foi visto.
Procurou Deus, novamente tentou construir sua fé de criança. Mas não adiantou. Nada, nada sentia que viesse daquelas imagens de santos. Nem uma palavra de conforto. Começou a entender que tudo era uma grande mentira! Deus? Que Deus é esse? Que deixa uns perderem a vida, e outros sorrirem sempre para ela? Não! Estava sendo egoísta. Não devia sentir inveja dos que estão felizes. Deixe-os em paz, felizes como estão. Não têm culpa de sua miséria! Ou têm? Ei, dá-me o entendimento! É claro que têm. Só se importam consigo mesmos. Não vêem a dor de quem realmente sofre. E, se a vêem, não se importam de fazer algo para acabar com ela.
O motivo de seu desgaste veio mesmo quando engravidou. Chorou demais, quando a barriga começou a aparecer. O que seria desta criança? Por favor, que sua vida não seja como a minha! Mas iria ser. E ela sabia. Sabia até demais. Disso, infelizmente, ela tinha conhecimento. Quase uma sábia. Sim, uma sábia do sofrimento. Ela, em nenhum momento, pensou em deixá-la viver. Viver? Viver o quê? Essa vida de desgraça? Essa vida de morte, de droga, de luxúria SUJA? Essa vida sem amor, sem vontade, sem paz. Essa vida sem alguém para contar! E se ela morrese ao dar à luz? O que seria da criança?
- Não seria, eis o uso correto.
Hoje ela não mais agüentou. E quem o faria? Muita gente, muita gente. Mas não é a mesma coisa. Tudo dói, e ela não era forte. Tudo dói, e ela apenas queria chorar e ter um lenço para enxugar suas lágrimas. Ela foi até uma das praias do Rio De Janeiro, queria ver o mar, uma última vez. Sim, uma última vez. Ela iria para a morte, de braços abertos e não feliz. Mas da vida não havia mais o que esperar. Acariciou sua barriga e não olhou para trás, jogou-se nas pedras.
O sangue escorreu. A vida acabou, passou pelos seus dedos, passou pela alma de seu filho. E, mais uma vez, foi-se embora para sempre.
Sim, é verdade. Ninguém nunca disse à pobre menina que sua esperança não devia morrer. Ninguém nunca a amou tão de verdade, como a vida a odiou. E, por isso, ela se foi. E se foi sem diferença, para toda e grande perfeita humanidade.
Assim é a vida e a morte de muitos. Mas quem realmente se importa?
Quem sabe as bactérias que irão deteriorar o corpo, após o final.
Eis seu real valor.
Vejo uma menina correndo na rua. Ela é linda e tem toda uma esperança pela frente. Não descobriu a realidade: ainda. Logo, perderá a fé em Deus. Queimará seus antigos brinquedos, e jogará suas roupas infantis fora. Logo, essa menina não terá sustento e perderá os pais no tiroteio. Deviam ter-lhe dito: Voa, menina! Vai embora daqui, fica nos teus sonhos, porque a realidade é dura. É dura demais e a mais. E ela cedo descobriu. Com doze anos, já veio a prostituição. O dinheiro, que ganhava, não compensava sua dor íntima de repulsa. Sentia nojo de si, sentia medo de seu futuro. O que será de amanhã? O diabo, quem sabe, vir-se-ia à sua porta, para levá-la diretamente para o inferno. O inferno, provavelmente, não seria tão diferente de sua vida.
Envolveu-se com drogas. Tarde de mais, ela pensava, agora, não tem mais volta. Não tinha ninguém. Nem mesmo uma amiga. Afinal, quem iria importar-se com uma vida tão "medíocre" como a dela? Ninguém. Porque a verdade é uma só e única. E, nesse caso, não há relativismos. Apenas exceções, não relativas. Quem passava por ela, apenas nutria o preconceito: "Drogada, perdida! Puta." Nem uma, nenhuma pessoa parou e deu a mão para sua alma. A visão do ser humano é tão perfeita, que só vêem o que querem ver. Mas o pedido de socorro, que vinha dos olhos daquela menina, nunca foi visto.
Procurou Deus, novamente tentou construir sua fé de criança. Mas não adiantou. Nada, nada sentia que viesse daquelas imagens de santos. Nem uma palavra de conforto. Começou a entender que tudo era uma grande mentira! Deus? Que Deus é esse? Que deixa uns perderem a vida, e outros sorrirem sempre para ela? Não! Estava sendo egoísta. Não devia sentir inveja dos que estão felizes. Deixe-os em paz, felizes como estão. Não têm culpa de sua miséria! Ou têm? Ei, dá-me o entendimento! É claro que têm. Só se importam consigo mesmos. Não vêem a dor de quem realmente sofre. E, se a vêem, não se importam de fazer algo para acabar com ela.
O motivo de seu desgaste veio mesmo quando engravidou. Chorou demais, quando a barriga começou a aparecer. O que seria desta criança? Por favor, que sua vida não seja como a minha! Mas iria ser. E ela sabia. Sabia até demais. Disso, infelizmente, ela tinha conhecimento. Quase uma sábia. Sim, uma sábia do sofrimento. Ela, em nenhum momento, pensou em deixá-la viver. Viver? Viver o quê? Essa vida de desgraça? Essa vida de morte, de droga, de luxúria SUJA? Essa vida sem amor, sem vontade, sem paz. Essa vida sem alguém para contar! E se ela morrese ao dar à luz? O que seria da criança?
- Não seria, eis o uso correto.
Hoje ela não mais agüentou. E quem o faria? Muita gente, muita gente. Mas não é a mesma coisa. Tudo dói, e ela não era forte. Tudo dói, e ela apenas queria chorar e ter um lenço para enxugar suas lágrimas. Ela foi até uma das praias do Rio De Janeiro, queria ver o mar, uma última vez. Sim, uma última vez. Ela iria para a morte, de braços abertos e não feliz. Mas da vida não havia mais o que esperar. Acariciou sua barriga e não olhou para trás, jogou-se nas pedras.
O sangue escorreu. A vida acabou, passou pelos seus dedos, passou pela alma de seu filho. E, mais uma vez, foi-se embora para sempre.
Sim, é verdade. Ninguém nunca disse à pobre menina que sua esperança não devia morrer. Ninguém nunca a amou tão de verdade, como a vida a odiou. E, por isso, ela se foi. E se foi sem diferença, para toda e grande perfeita humanidade.
Assim é a vida e a morte de muitos. Mas quem realmente se importa?
Quem sabe as bactérias que irão deteriorar o corpo, após o final.
Eis seu real valor.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Flores de Vida.
Sentimentos não existem para ser mentidos. Existem para ser sentidos.
Quando entrei naquele quarto, não imaginei que a veria sorrindo. Era um sorriso daqueles verdadeiros, que dá uma pontada na alma de prazer. Paralizei-me ao vê-la assim, no esplendor de uma estrela. Parecia realmente um anjo.
Há um dia atrás, ela estava aos prantos, ligando-me a cada meia hora, pedindo por apoio e um ombro amigo. Hoje, ligou-me e pediu que eu fosse até sua casa. Esperava, não por mal, lágrimas de tristeza, de saudade e de agonia. Mas minha recepção foi muito mais calorosa. Esse sorriso me doía a alma de alegria e, também, de medo.
- Lúcia? - eu perguntei.
- Ah! Que bom que veio! Preciso contar-lhe : estou feliz, vê? Muito feliz, tomei uma decisão!
- Que decisão? - tentei conter o susto.
- Ah, querida, não posso contá-la. É segredo, sabe? Mas somente até amanhã! Sim, amanhã você me verá e ficará muito feliz por mim.
Calei-me. Definitivamente, ela estava estranha. Como não percebi no momento? Nao sei. Mas devia tê-lo feito. Procurei disfarçar minha ansiedade em prol de minha expressão. Queria sacudi-la e perguntar se estava enlouquecendo. Pois era o que parecia. Vi que estava cantarolando para cá e para lá, da sala para o quarto, todo o tempo. Parecia estar em transe, ou algo do gênero, mas aquele sorriso nunca desaparecia de sua face.
Ofereceu-me água, dizendo que purificava a alma. Ora, mas para que eu iria querer purificar minha alma? Eu pensava e pensava, contudo não havia resposta para essa tão rápida mudança
de sentimento. Resolvi, enfim, levantar-me para ir embora.
- Lúcia, acho que já me vou...
- Oh! Jasmins! Tão brancas! Como gosto de jasmins!
- Jasmins? - essa era nova.
- Sim, jasmins! Venha ver-me amanhã, sim? Traga-me jasmins?
- Mas por quê?! - não agüentava mais essa situação.
- Porque eu as amo! E entre sem bater. Estarei esperando-a no meu quarto.
Fui para casa meio atordoada. Por que essa obsessão por tais flores? Não conseguia entender e tentei fazê-lo durante horas, em contato com o escuro teto do meu quarto. Aquele sorriso não saiu de minha mente. Como ela podia sorrir tanto?! Seu casamento seria daqui a duas semanas e seu noivo estava morto! Morto, sem volta, em baixo da terra. Ela não havia dito nenhuma palavra, durante o enterro. Apenas dirigiu-se ao caixão e sussurou algumas palavras no ouvido de seu amado.
Ela não podia ter-se recuperado assim tão fácil. Poderia ter tomado anti-depressivo, quem sabe os efeitos que podem causar? Nesse caso, não a culpo de estar louca. Mas e se é o tipo de pessoa insensível que esquece que um dia amou alguém ferozmente? Não, Lúcia é um poço de bondade e sentimentos...
Cansei-me de deduções e fui dormir.
No dia seguinte, acordei bem cedo e fui até a floricultura. Jasmins. Havia de comprar essas flores. Escolhi as mais belas que pude e rumei em direção à casa de Lúcia. No caminho, fui lembrando de tudo que ela e o noivo haviam vivenciado. Eram tão apaixonados. Ela dizia que ele seria seu último homem. Pobre menina.
Quando cheguei em frente a sua casa, respirei fundo. Não sabia se agüentaria mais sorrisos como aqueles. Senti o cheiro das flores invadindo meu corpo e acalmei-me um pouco. Tudo parecia tão irreal. As flores, os sorrisos, a água. Lúcia.
Resolvi entrar. Passei pelo corredor, que passava quase todos os dias, até chegar ao quarto e encontrar um bilhete grudado na porta:
"Trouxe as Jasmins? Se não, volte depois com elas! Só entre com minhas pequenas flores! "
- Estranho. - sussurei.
Bati na porta uma, duas, três vezes. Então, resolvi abri-la. O quarto cheirava a... Jasmins! Havia água na mesinha de cabeceira, e um retrato dos dois juntos, uma foto recente. Lúcia estava deitada, na cama, parecia que estava a dormir. Aproximei-me e percebi um envelope em cima de sua barriga. Peguei-o de leve, para não acordá-la.
"Eleonora, se está aqui, lendo isso, é porque não me faltou com a palavra. Obrigada pelas flores, é tudo que eu desejaria hoje.
Mas o amor, meu amor, me chama. E, para com ele, nunca negaria nada.
Lembra dos sussurros? Não eram simples lamentos. Eram minha promessa, e, hoje, hei de cumpri-la.
Quero estar ao lado dele, até embaixo da terra. Lembre-se disso, por favor.
E todos meus sorrisos baseavam-se no fato que logo o encontrarei.
Adeus.
E sorria para mim."
Eu chorei. Larguei a carta e chorei. Como nunca havia feito antes. Ajoelhei-me e abracei-a. As lágrimas escorriam incessantemente. Eu abraçava um anjo, uma menina que amou e ama. E continuará a amar. Sempre. Dentro de mim, dentro de cada um.
Peguei as jasmins e tirei a mais bonita do ramo. Coloquei-a junto de suas pequeninas mãos, tão jovens, tão frágeis. Tão cheias de sentimento.
Voltei-me para a porta de sua casa com todas as outras jasmins. E, para cada pessoa que passava por mim, eu entregava uma delas e dizia: "Sorria por seu amor! Sorria por sua vida!"
A última jasmin, eu guardei-a para mim, e até hoje a tenho. Ela me lembra aqueles últimos sorrisos de Lúcia e, principalmente, o grande sacrifício de amor que emanou de sua alma para o mundo, até o momento em que se despediu dele com flores, alegria e coragem.
Quando entrei naquele quarto, não imaginei que a veria sorrindo. Era um sorriso daqueles verdadeiros, que dá uma pontada na alma de prazer. Paralizei-me ao vê-la assim, no esplendor de uma estrela. Parecia realmente um anjo.
Há um dia atrás, ela estava aos prantos, ligando-me a cada meia hora, pedindo por apoio e um ombro amigo. Hoje, ligou-me e pediu que eu fosse até sua casa. Esperava, não por mal, lágrimas de tristeza, de saudade e de agonia. Mas minha recepção foi muito mais calorosa. Esse sorriso me doía a alma de alegria e, também, de medo.
- Lúcia? - eu perguntei.
- Ah! Que bom que veio! Preciso contar-lhe : estou feliz, vê? Muito feliz, tomei uma decisão!
- Que decisão? - tentei conter o susto.
- Ah, querida, não posso contá-la. É segredo, sabe? Mas somente até amanhã! Sim, amanhã você me verá e ficará muito feliz por mim.
Calei-me. Definitivamente, ela estava estranha. Como não percebi no momento? Nao sei. Mas devia tê-lo feito. Procurei disfarçar minha ansiedade em prol de minha expressão. Queria sacudi-la e perguntar se estava enlouquecendo. Pois era o que parecia. Vi que estava cantarolando para cá e para lá, da sala para o quarto, todo o tempo. Parecia estar em transe, ou algo do gênero, mas aquele sorriso nunca desaparecia de sua face.
Ofereceu-me água, dizendo que purificava a alma. Ora, mas para que eu iria querer purificar minha alma? Eu pensava e pensava, contudo não havia resposta para essa tão rápida mudança
de sentimento. Resolvi, enfim, levantar-me para ir embora.
- Lúcia, acho que já me vou...
- Oh! Jasmins! Tão brancas! Como gosto de jasmins!
- Jasmins? - essa era nova.
- Sim, jasmins! Venha ver-me amanhã, sim? Traga-me jasmins?
- Mas por quê?! - não agüentava mais essa situação.
- Porque eu as amo! E entre sem bater. Estarei esperando-a no meu quarto.
Fui para casa meio atordoada. Por que essa obsessão por tais flores? Não conseguia entender e tentei fazê-lo durante horas, em contato com o escuro teto do meu quarto. Aquele sorriso não saiu de minha mente. Como ela podia sorrir tanto?! Seu casamento seria daqui a duas semanas e seu noivo estava morto! Morto, sem volta, em baixo da terra. Ela não havia dito nenhuma palavra, durante o enterro. Apenas dirigiu-se ao caixão e sussurou algumas palavras no ouvido de seu amado.
Ela não podia ter-se recuperado assim tão fácil. Poderia ter tomado anti-depressivo, quem sabe os efeitos que podem causar? Nesse caso, não a culpo de estar louca. Mas e se é o tipo de pessoa insensível que esquece que um dia amou alguém ferozmente? Não, Lúcia é um poço de bondade e sentimentos...
Cansei-me de deduções e fui dormir.
No dia seguinte, acordei bem cedo e fui até a floricultura. Jasmins. Havia de comprar essas flores. Escolhi as mais belas que pude e rumei em direção à casa de Lúcia. No caminho, fui lembrando de tudo que ela e o noivo haviam vivenciado. Eram tão apaixonados. Ela dizia que ele seria seu último homem. Pobre menina.
Quando cheguei em frente a sua casa, respirei fundo. Não sabia se agüentaria mais sorrisos como aqueles. Senti o cheiro das flores invadindo meu corpo e acalmei-me um pouco. Tudo parecia tão irreal. As flores, os sorrisos, a água. Lúcia.
Resolvi entrar. Passei pelo corredor, que passava quase todos os dias, até chegar ao quarto e encontrar um bilhete grudado na porta:
"Trouxe as Jasmins? Se não, volte depois com elas! Só entre com minhas pequenas flores! "
- Estranho. - sussurei.
Bati na porta uma, duas, três vezes. Então, resolvi abri-la. O quarto cheirava a... Jasmins! Havia água na mesinha de cabeceira, e um retrato dos dois juntos, uma foto recente. Lúcia estava deitada, na cama, parecia que estava a dormir. Aproximei-me e percebi um envelope em cima de sua barriga. Peguei-o de leve, para não acordá-la.
"Eleonora, se está aqui, lendo isso, é porque não me faltou com a palavra. Obrigada pelas flores, é tudo que eu desejaria hoje.
Mas o amor, meu amor, me chama. E, para com ele, nunca negaria nada.
Lembra dos sussurros? Não eram simples lamentos. Eram minha promessa, e, hoje, hei de cumpri-la.
Quero estar ao lado dele, até embaixo da terra. Lembre-se disso, por favor.
E todos meus sorrisos baseavam-se no fato que logo o encontrarei.
Adeus.
E sorria para mim."
Eu chorei. Larguei a carta e chorei. Como nunca havia feito antes. Ajoelhei-me e abracei-a. As lágrimas escorriam incessantemente. Eu abraçava um anjo, uma menina que amou e ama. E continuará a amar. Sempre. Dentro de mim, dentro de cada um.
Peguei as jasmins e tirei a mais bonita do ramo. Coloquei-a junto de suas pequeninas mãos, tão jovens, tão frágeis. Tão cheias de sentimento.
Voltei-me para a porta de sua casa com todas as outras jasmins. E, para cada pessoa que passava por mim, eu entregava uma delas e dizia: "Sorria por seu amor! Sorria por sua vida!"
A última jasmin, eu guardei-a para mim, e até hoje a tenho. Ela me lembra aqueles últimos sorrisos de Lúcia e, principalmente, o grande sacrifício de amor que emanou de sua alma para o mundo, até o momento em que se despediu dele com flores, alegria e coragem.
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