quinta-feira, outubro 04, 2007

Mundo de Papel.

"Tinha mania de morder a tampa da caneta enquanto escrevia. Mordia também o lápis, o papel e principalmente as palavras. Isso, exatamente isso. Elaine costumava morder as palavras de tal forma, até que o universo ficasse de cabeça para baixo para estas a morderem de volta.
Irritava-se com o barulho que faziam ao seu redor, às vezes queria matar mesmo uma criança, pois seu choro a arranhava por dentro. Além de ser mordida por palavras, Elaine era arranhada pelo barulho. Isso era realmente um problema."

Pronto. Cessou a inspiração, ele estava há dias tentando escrever sobre... Elaine. Uma mulher egoísta, que achava-se superior às pessoas e que tinha manias consideravelmente peculiares. Mas não conseguia criar mais que isso. Não conseguia dar-lhe um rosto, uma expressão, cabelos ou roupas que usaria se realmente existisse.
Além disso, começou a achar que suas personagens eram verdadeiramente apenas feitas de palavras, somente isso, não lhe pareciam reais. E também não entendia por que diabos escrevia detalhes banais com os quais ninguém se importaria, apenas ele, é claro, e suas personagens de veludo, que de alguma forma agradeciam pela importância que este dava para suas vidas tão cotidianas e banais.
Ninguém entendia que ele precisava transportar os sentidos para o papel, mas que, ao mesmo tempo, não agüentava mais fazê-lo. Queria basear-se na vida, na realidade, mas não conseguia, as sardas, as ruguinhas, um fio de cabelo branco de Elaine o perseguia.
Exatamente! E seu coração acelerou: sardas... ruguinhas... um fio branco... trinta e dois anos?!

Desclareou-se. Mulheres de trinta e dois anos não costumam ser tão Elaine. Não costumam ter tantos detalhes, elas apenas são mulheres de trinta e dois anos. Não que pensasse que elas eram banais, não, não é nada disso, ele apenas pensava a verdade, como em sua maioria todos pensam.
Não sabia mais o que fazer. Tirou os sapatos. Ainda estava de sapatos porque ficou com preguiça de tirá-los quando voltou da padaria. Seus dedos eram horríveis, fez uma cara de nojo e apoiou-se na mesa. Dedos horríveis, dedos horríveis... talvez ela tivesse dedos horríveis! Oh, não, meu caro, mulheres de trinta e dois anos fazem as unhas.
Por que mulheres de trinta e dois anos fazem as unhas? Ele ficou com raiva de todas as manicures e pedicures: queria matá-las, vagabundas, vaidosas fedorentas. Ele não queria Elaine de unhas feitas, mas não queria dar-lhe unhas não-feitas. Enraivou-se.

Pro inferno! Declarou e decidiu continuar a escrever. Ele precisava dar-lhe mais vida, nem que fosse um dia, nem que fosse uma morte. Apenas algumas linhas, alguns suspiros, algumas raivas e algumas unhas!
Malditas unhas.

Ela caminhava pela rua tão lentamente que parecia quase cair, mas não se importava, tinha ódio das pessoas que andavam apressadas. Ó que não conseguia entender por que aquelas pessoas precisavam ser rápidas. Era o sustento de muitas delas e de suas famílias, mas Elaine não se importava, queria chegar em casa e escrever sobre o quanto é sofredora e o quanto a depressão a alastra pouco a pouco.
Vivia em um abismo, sem saber por quê. Bem, talvez porque era uma mulher de trinta e dois anos que vivia em um apartamento onde a luz não entrava e passava todo o dia lendo, absorvendo, esquecendo do mundo real. O mundo em que há pessoas sofrendo muito mais do que ela, sofrendo de fome, de miséria e de falta. Falta de tudo que possivelmente ela possui.

Ele agora odiava Elaine. Odiava com todas as forças. Quão mesquinha, irredutivelmente ingrata e egoísta ela era! E isso tudo vinha de dentro dele? Cuspiu em seus dedos: estava morrendo de repugnância de si mesmo. Foi até o espelho do banheiro e olhou fixamente para seus olhos. Podia vê-la ali dentro, presa em suas palavras, em suas folhas, apenas esperando para que ele lhe desse outras características odiosas e mesquinhas.
Voltou à sala e rasgou as folhas, abriu a janela e jogou os pedacinhos de Elaine no ar, não saiu do umbral até que todos os pedaços quedassem no chão, seis andares para baixo. Sentou-se no sofá, sentiu-se um pouco livre, calmo e solvido.

Acabara de matar uma personagem, sentia-se um assassino. Não obstante, a repugnância passara.


segunda-feira, outubro 01, 2007

Ah.

Por quê, sinceramente, e digo sinceramente mais uma vez, por que agarro-me tão ferozmente aos detalhes? Por que acho que vejo certas coisas, e essas coisas me atormentam de tal forma que a alma parece querer afogar-se em angústia?
Eu digo por quê: pois você não passa de uma guardadora, exatamente isso. Você guarda o pisque dos olhos e o roçar dos dedos, o olhar de lado, e o movimento dos lábios. Isso te rasga de uma forma surda, e sangrar-se sem barulho dói. Dóis tanto, que você esquece completamente da dor, pois você se acostuma. E então não sabe para quem virar o rosto, pois estão todos apontando-lhe o dedo, gritando, gritando... e sussurrando, sussuros estrondosos, tão piores quanto os gritos. Como se a dor fosse pecado.

E então chega o segundo ato de tudo. Você sente a repugnância de si mesma, ninguém consegue alcançá-la. Seus olhos perdem o foco, você está caindo naquele abismo, tudo por causa do excesso de sentimento, antes tão escasso. Você cai. Parece nunca ter fim, parece que suas lágrimas formarão um mar, e sua pele tornar-se-á seca, sem o efeito da hipérbole.
Você percebe, então, que de alguma forma você está sozinha. Porque talvez nunca ninguém vá entender esse sentir tão avassalador que explode de dentro de você.

Por isso você chora, menina.
De medo.

De tanto medo...

sexta-feira, setembro 28, 2007

Caixinha de Música.

Abriu-se o mundo,
A bailarina dançou.
A música tocou,
Musiquinha,
Devagar.

A menina girou,
A bailarina piscava,
Que mundo gigante,
Essa menina tem!

As notas avançaram,
Entraram em cada pó,
Em cada fresta,
Do universo desconhecido.

E a menina cansou,
Não queria mais a música,
Nem o pequeno mundinho
Da linda bailarina.

Fechou-se a caixa de veludo,
A dançarina se foi, caída,
Quase a morte musical.

A menina jogou o pequeno átomo,
Do inteiro infinito,
Em uma galáxia fechada,
Onde a música, assim como nada,
Não se propagava no vácuo.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Final Ao Vento.

E então ela abriu os olhos. Mas não viu nada, nem mesmo um borrão em sua frente. Estava anestesiada, dolorida, não-sentida. Tentou levantar, mas o peso de seus longos cabelos a jogou no chão. É estranho pensar em o quanto um cabelo pode pesar, assim, e levar em si toda a consciência e carga de sentimentos de alguém. Seus fios eram grossos, mas lisos, lisíssimos, tão lisos que o vento conseguia passar por eles sem levantá-los. Na verdade, lá não ventava. Nem fazia frio ou calor.
Apenas nada. Demorou um pouco para perceber que não estava respirando. Estava apenas... deitada, sem forças, onde? Na escuridão, no completo ermo e vazio. Arranhou o corpo sem as unhas, apenas com a mente, mas não conseguiu sangrá-lo. Lembrou-se que sempre o sangrava, sempre, escorria o sangue de sua alma para seu corpo; tal como as lágrimas. Porém agora não conseguia fazê-lo: desesperou-se.

Ah, o desespero.

Fez forças. Fez forças. Fez forças. Tanto fez que conseguiu sentar-se. Seu corpo inteiro doía, e doía muito. Não compreendia. Como se poderia doer se estava morta? Foi a única explicação que conseguiu encontrar: a morte. Não respirava, não se arranhava.

E se doía.


Ela nunca havia se doído antes, mas já ouvira muito falar em pessoas que sentiam tal dor. A dor corporal. A dor que não sangra. Esta segunda lhe era a mais espetacular, a mais especial, a que nunca imaginara, a que sempre almejara. Queria realmente ser parte do filme de pessoas sorridentes, tristes. Sorridentes e tristes. Um equilíbrio. Mas por que ela não podia ser equilibrada? Por que ela não tinha peso? Oh, meu deus! Ela não tinha peso, como podia ter uma balança sem pesos?!
Ela não sabia.

Mas estava ali, e isso importava. Importava a dor que sentia e que, por alguma razão anexada, ninguém nunca entenderia.

E as pessoas passavam, olhando-a, extremamente entediados.
Apenas mais uma perdida, louca, mulher.
Menina.

Doendo, sangrando com a mente e com as unhas, doendo muito.
Mas ela nem piscava. E eles nem olhavam, mas respiravam.

Enquanto era apenas aquilo, sorriu sinceramente, sem nexo, sem sentido, apenas sentida e escondida. Sorriu, sorriu.

E não enxergava nada.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Dor... assim.

Ele se levantou bem lentamente, os olhos pregados de sono. Não queria acordar, definitivamente o mundo onírico estava melhor do que essa realidade: o cotidiano às vezes é duro. Calçou as pantufas, enquanto olhava o espelho que cobria uma porta inteira do armário; não se reconheceu. Estava com algumas rugas e vários fios de cabelo branco, parece que o tempo passou e esqueceu de avisá-lo. Ao seu lado, a cama estava vazia, apenas restava a marca de um corpo recente. Ele suspirou... as coisas realmente mudam.
Ela estava sentada na rede da varanda, quando ele adentrou na cozinha. Fazia um frio de congelar a alma, naquela cobertura, mas a mulher de cabelo longo e castanho escuro vestia apenas uma camisola de alcinha, segurava uma caneca com um líquido forte. Estava bebendo logo de manhã, ele pareceu não importar-se, não soltou nenhuma palavra, apenas sentou-se e começou a passar a manteiga no pão. Aquele barulho de faca a irritou, aquele mínimo barulho a fez ranger os dentes. Como ela odiava o fato de ele ter fome e ter sono. Como ela odiava aquela maldita indiferença.
À noite ela não havia conseguido dormir. Quando fechava os olhos, via sombras, sentia-se observada, angustiada, quase como se a atacassem no escuro. E então ela abria os olhos e olhava o ventilador, olhava fixamente para o teto. Não sabia para onde escapar e sentia repulsa daquele corpo, dormindo tão bem ao seu lado, oh, como podia dormir assim... como conseguia? Ela havia levantado na madrugada e sentado-se na rede. Olhando... olhando para absolutamente nada.
- Então - ele disse suavemente, cortando seus pensamentos. Ela se virou e percebeu, surpreendida, que ele já havia-se trocado para o trabalho. Estava bonito, pensou, bonito demais. - Eu já vou.
E bateu a porta. Ela sabia por que ele estava indo mais cedo. Ela sabia por que ele estava tão bonito. Desgraçado, desgraçado... e aqueles olhos, aquelas mãos... aquele rosto. Bonito, bonito. Ela jogou a caneca na parede ferozmente, o líquido escorreu livre, quase sorridente. Oh, o líquido sorria. Os cacos cairam tristemente no chão. E... de repente, como em transe, ela esqueceu de seus ciúmes e de sua raiva. Começou a chorar, chorar alto, e arranhou todo o corpo até sangue sair em suas unhas.


Havia acontecido há três anos. Eles se amavam tanto, pareciam dois adolescentes em plena paixão. E Verônica corria pela casa. Verônica, verdadeira, videira, cheia de vida. Ela tinha quatro anos e brincava e pulava e sorria. Oh, como sorria! Sorria como o líquido que agora escorria pela parede. Sorria e fazia com que sorrissem consigo. Naquele dia, eles se destraíram, fazia calor, a porta da varanda estava aberta, eles conversavam, eles se olhavam e se amavam.
Verônica brincava. E queria brincar que era pássaro. Queria voar, por que ela não poderia ser um bem-te-vi? Bem te vi, Verônica, mas você se foi... E ela subiu na pequena grade, olhou um momento para baixo. Era tão alto! Mas ela ia voar, o papai e a mamãe ficariam tão felizes! E...
Ela viu a menina pendurada na varanda. Gritou! Gritou tão alto, que, com o susto, a menina a olhou, seus olhos meio sorridentes, meio medrosos. E desiquilibrou-se, Desiquilibrou-se para sempre, como um bem te vi que um dia se é visto e nunca mais volta para o ninho.

E os dois, estáticos, nunca mais foram os mesmos.


Ele estava no escritório, bonito, estava impecável. Uma mulher morena acabara de entrar. Tinha os olhos grandes... tão grandes que lhe causavam medo. Ela sorriu. Ele ajeitou os óculos. Ela tirou a roupa. Ele tirou os óculos. E ele estava bonito, tão bonito...
Uma hora depois, a mulher se retirou. O homem que se encontrava lá dentro não estava mais bonito. Estava triste, acabado. Por um momento, as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Mas ele engoliu em seco, voltou ao trabalho, esquecendo do mundo.

Quem poderia dizer que são fracos? Que se deixaram levar pela dor? Quem, quem poderia julgá-los a ponto de apontar-lhes os erros? Deveriam superar e juntar-se para criar forças. Não obstante, as ações se mostraram exatamente contrárias.

- Cada um cura a dor de uma forma.

terça-feira, setembro 04, 2007

A forma de viver.

Estava sentada naquela escada há horas. Quem a percebesse, por alguma fração de tempo, veria apenas uma sombra sem vida, cuja essência parecia ter sumido há muito. Já havia-se passado um masso inteiro de cigarros, estava intoxicada pela fumaça, até mesmo para pôr os pensamentos em devida ordem. Sua mente divagava, enquanto gotas finas e grossas de chuva, alternando-se, tocavam sua pele quase de mármore. Queria... não, não queria nada, apenas que o tempo passasse logo, e que logo tudo desaparecesse.
Algumas pessoas quase a atropelavam, quando subiam pela escada tão movimentada. Era uma grande escada, branca, solitária às vezes. Ela sabia o momento em que... bem, ela apenas sabia. Uma mulher alta a empurrou friamente quando passou, resmungando, maldita gente!, e continou sua vida vazia, vazia, vazia vida. Na verdade, ela nunca soube se aquela mulher vivia ou sobrevivia, mas não viu luz em seus olhos, e, muitas vezes, o egoísmo a levava a crer que apenas ela poderia ter a capacidade de enxergar e sentir certas coisas.

Começou a bater os pés: estava ansiosa. Não sabia exatamente por quê, parecia-lhe que sempre esquecia tudo que vivenciara, para que pudesse vivenciar tudo novamente com a mesma intensidade. E isso a fazia sentir-se bem, uma incrível chama de felicidade que brotava em seu peito, em contrapartida à sua aparência de nada com nada, e até mesmo à sua forma de razão.

Mais um trago. Fumar fazia-lhe mal, e sabia disso. Mas não se importava, não pretendia viver muito, e não tinha para quem viver. Ela só tinha... isto. A chuva apartou cada vez mais, estava trazendo a tarde, mas, não, ainda era cedo... Roçou sua mão pelos seus cabelos curtos, bem curtos, mas que voavam com a ventania. Apesar de todo o aguaceiro, o Sol podia-se ver dominante no céu, lutando com as nuvens.
Mais algumas horas se passaram, mais cigarros foram-se amontoando no chão, como um pequeno morro. Agora a escada estava deserta, a não ser por ela. Ninguém atrevia-se a passar por ali, depois das cinco horas da tarde. Era um lugar perigoso. Quase um lugar esquecido. Ela levantou-se finalmente, balançou sua roupa, e pôs-se a subir a escadaria.
Foi até o lugar que marcara com a alma, há muitos e muitos anos, e que, agora, representava toda a sua vontade de viver. Era um lugar especial. Era onde o tinha visto uma última vez, seu amor, seu único amor e também suas lembranças felizes. Lembrou-se das promessas que fizeram ali, das luas que tanto viram crescer, de tudo que ele lhe havia dito. Foi há tanto tempo... Uma eternidade atrás.
Ela apoiou o cotovelo na ponte. Estava quase na hora. Quase na hora. Ela estava ansiosa. Definitivamente, todos os dias ela ansiava por isso.

E... finalmente.

Seus olhos encheram-se de lágrimas, abriu um imenso sorriso e não parecia mais ser quem era. Parecia uma jovem de dezesseis anos, intocada pelo tempo, em um certo mês de maio de um certo ano distante... Não parecia mais aquela mulher de trinta e nove anos e sem esperanças, de olhar sombrio. Não! Definitivamente não.

O que via era simplesmente o que elevava todos seus sonhos por alguns simples minutos: era o sol pondo-se em encontro ao oceano.

E de lá ela podia lembrar-se dele tocando suas mãos enquanto viam aquela magnitude emanando da natureza ocorrer. Podia senti-lo tocando-lhe os lábios. E, finalmente, podia sorrir sem medo, sem medo algum.

Quando tudo ocorrou e acabou, ela suspirou e acendou outro cigarro. Se as lembranças e aquela mágica faziam-na de alguma forma feliz, ela poderia dizer que, sim, estava viva.

Mesmo que por alguns momentos. Em um lugar esquecido.

terça-feira, agosto 21, 2007

Tempo em ponto.

Sonhei que não mais sonhava: era tudo real.

Eu era uma fada e tinha os cabelos longos, atés os pés, trançados, muito trançados. Eu conhecia o passado, o presente e o futuro, meus olhos eram como priscas. Estava com um longo vestido, o mundo girava, girava tanto que as cores misturavam-se com os sons, e estes, por sua vez, mesclavam-se com as palavras.
Você não estava lá. Não, não havia ninguém. Eu estava só e eu era o mundo, todos estavam em mim. Cada átomo do meu corpo era sentido exatamente como o infinito de pensamentos existentes. Oh, eu estava envolta em pensamentos! Pensamentos inigualáveis, sensíveis, intocáveis!

E, de repente, sim, tão momentâneo, eu desapareci, eternamente, não sentia mais nada, nem o vento, nem a dor de simplesmente não existir. Eu me tornei plena, ao mesmo tempo de não poder tornar-me mais coisa alguma! Eu me fui e deixei de ser, ainda sendo, sendo todas as coisas e o nada.

Desencontrei-me e encontrei-me.

Sorri.

Mas sorrisos existiam?

quarta-feira, agosto 08, 2007

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Eu sonho demais, romantizo tudo à minha volta. Acredito em tudo e em todos, não me importo em quantas vezes eu vou bater a cara, não me importo se vai sangrar, doer ou machucar, não me importo se vão-se abrir cicatrizes que nunca mais desaparecerão.
Não acredito em amores. Não consigo acreditar em vários que passam, vêm e ficam por algum tempo: somente o que é eterno é amor. Eterno agora e depois, além da vida, sem medo das lágrimas, sem medo do que é humano e defeituoso. Sem medo da carne e da alma. Apenas flui como água em movimento, mas nunca seca.
É doloroso pensar em qualquer outra forma, e essa dor é insuportável, é quase como sonhos que são quebrados, é quase como trair a minha fé, minha pouca fé e quase escassa. Não sei o que entendem que é para sempre, mas o meu para sempre é literal. Não é apenas coisa de momento: é independente, incondicional.
Não preciso de aprovação, às vezes acho que não preciso ser amada para meu amor continuar, não, realmente não preciso. Virar-se-ia algo platônico, inalcançável, incorpóreo. Bem, voltamos ao meu lado romantizador de tudo...

Não acreditar nisso e não senti-lo é quase como deixar de viver, como perder-me nas trevas, num barco no meio do oceano.
Inexplicável.
E não peço que haja explicação, mas às vezes não queria sentir dessa forma, que me parece tão avassaladora, tão amedrontadora. Dessa forma que é tão incomum, tão irracional, mas que é minha forma de amar.
E agradeço por sê-la.

Sobre como me sinto: controlada pelo sentimento, pisando na razão. Com medo de você, de suas palavras.

Com medo, só isso. Com medo.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Sonho.

Em dedicação a duas pessoas. Uma é o amor perdido, a outra, o eu-lírico.

Criação, amor, união.
Éramos nós e os sorrisos,
A noite em começo
E o brilho do luar.

Você, um anjo, minha amada,
Não tão mais minha,
Que me rugia os cabelos negros,
E deixava-me amá-la.

Eu, agora, estou perdido
Tanto caos em minha volta,
Falta de razão
E perda de vida!

Não consigo parar de chorar,
Pois achava que era para sempre,
E não somente efemeridade
Todo o amor
Que sentíamos um pelo outro.

E Que ainda sinto por você...

Coragem e desespero.

Ela caminhava pelo cemitério. Era uma noite bonita, estava sozinha, e tudo ia perfeitamente bem. Já eram dez horas, precisava apenas apressar-se um pouco, não se atrasaria. E, se se atrasasse, não faria muita diferença.
Seus passos beiravam inseguros, mas sóbrios. Seu corpo começara a tremer, e ela teve um sincero medo de voltar-se e correr dali. Não obstante, uma força a impulsionava, jorrava, gritava! Iria seguir em frente, iria conseguir, ah, se iria.

Havia rosas. Eram os olhos de seu marido acompanhando-a pelas salas escuras de sua mente. Sentia o cheiro. Angústia. Lágrimas. Lágrimas. Lárimas. Pétalas de rosa....

Apertou as mãos: lembranças. Se não tivesse a consciência, maldita consciência!, certamente estaria em casa, dormindo, lendo um livro, fazendo carinho em seu gato. Pois bem, ainda dava tempo, mas os passos continuavam, não cessavam, queriam sua recompensa. Sorriu de desespero, gargalhou e chorou. Era loucura! O que estava pensando! Oh, promessas, oh, sonhos! O amor, o amor, o amor!

Adeus. E sabia que não era adeus. Era um navio partindo, que pedia para que se jogasse ao mar, caso não voltasse de viagem. E ela se jogaria...?

Finalmente. Seu vestido negro balançava com o suspirar do vento, seus cabelos roçavam-lhe a face. Luísa estava ali. Luísa, uma mulher baixa e bonita. Ela estava lá, encarando-a, surpreendida, talvez sem ar. Era pálida, e suas roupas confundiam-se com sua pele. Sorriu.

Sorriu? Nós costumávamos sorrir, Luísa.

- Você tem certeza, moça? - Luísa estremeceu.

- Eleonora, por favor. - Acalentou os próprio braços. - Sim, o tenho. Já lhe paguei, não? Sim, creio que já acertamos.

Ei-lo.

Lá estava o túmulo cavado, o caixão tão grande. E seu amado. Com seu anel de ouro... "As estrelas nos guiam ao nosso eterno amor." Ela largou o punhal, seus olhos encheram-se de lágrimas.

Não! Não! Como pode?

- Serei enterrada viva.

- O quê?

- Já escutou.

Ela queria ficar sã e senti-lo mais uma vez ao seu lado, como adormecido. Seria como antes, estariam abraçados como se o tempo estivesse parado e como se fossem eternos.

Cruel decisão.

Deitou-se no caixão, e este foi fechado. Deixou o punhal com luísa, caso o desespero a tomasse e quisesse tirar a vida antes do momento. Queria tocar-lhe a face até os últimos segundos de vida, até quando não mais pudesse respirar.
A terra foi caíndo, a escuridão penetrou...

E ela cantava, quase sorridente, corajosa, serena, abraçada, passando os dedos entre os dois anéis idênticos, uma música que falava sobre amor, até mesmo quando a morte nos chama...

Sorriu.
E o ar acabou.

segunda-feira, julho 30, 2007

!

As pessoas caminham lentamente pela rua: querem chegar, sem rasgar, sem conhecer, apenas... devagar? Eu estava divagando sobre o mundo, sobre os prédios altos, sobre as àrvores que estão-se sufocando. Não sei aonde quero ir, mas, no meio de tanta pressa e não-face, eu consigo congelar a visão e encontrar-me com as estrelas longínquas.
É infantilidade, e até mesmo drama. Que seja, eu não ligo para o que pensam, eu apenas quero explodir, de alguma forma, esses sentimentos não-sentidos, essas coisas que me angustiam, e que eu nem ao menos sei explicar.

Pois bem: está frio, minha alma congela. Meus dedos conseguem transmitir as palavras, mas minha mente (vulgar coração) não consegue nem ao menos criar uma frase, de tão cheia de alucinações e fatores reais. Minhas unhas tentam alcançar minha carne e tirar-lhe sangue, talvez eu sentisse algo assim, com a dor feita e momentânea.
Eu não sei como passar para palavras, é tão incrivelmente difícil escrever! Escrever sobre isso e deixar solto, para que leiam, vejam e riam! Rir, certamente, pois talvez não entendam e, se entenderem, talvez queiram pisar, bater palmas para o vazio, e vaiarem com o veludo. Quem está realmente dentro de mim não é ninguém. As pessoas simplesmente acham que conseguem ver o que as outras sentem, o que elas querem, desejam e temem. Idiotas.

Às vezes eu não sei o que esperar, não sei do que temer. Morrer? Bem, eu não sei nem se existo, talvez morrer não faça tanta diferença. Viver? A ação para quem não está morto. Será que estou viva? Será que sou algo senão alguma migalha de pensamento surgido de alguém?
Quer saber? Eu não sei. E cansei disso. Eu estou com muita raiva, não, não de alguém, mas de mim. Eu não consegui colocar para fora até agora o que preciso, necessito e desejo de toda a alma colocar!

Não.

Feliz é você que não entende o que sinto.
Ou não, talvez você esteja pior do que eu em matéria de sentidos.

sábado, julho 21, 2007

?

Minhas mãos tremem, as lágrimas caem. O corpo não é mais corpo: é medo. Enrosco-me na coberta, tenho frio, um frio de alma, estranho frio. Encolho-me no sofá e choro. Choro muito.
Paro de escrever, coloco a mão na testa e choro novamente. Não consigo parar de chorar.

Eu quero morrer.

quarta-feira, julho 18, 2007

Um, dois, três...

Ela vasculha o passado,
Quase adormecida,
Os olhos fechados.

Passa os dedos pelas fitinhas de ouro
Que envolvem a passagem do tempo
E tenta abrir o baú empoeirado.

Seus pés grudaram-se no chão,
A um passo do futuro.
E meio passo do que já passou.

Compasso: presente.
Abriu-se a alma,
Fecharam-se os olhos.

Voltou a sonhar,
O mundo não pára,
O sono não descansa.

O tempo sempre a tocar
A harmonia do que se foi
Do que é e do que será.

quarta-feira, julho 11, 2007

Árvore, magnífica árvore!

Era uma tarde cinzenta, o tempo estava razoavelmente fresco, e as ruas com gotas de uma chuva que acabara de ir-se. O inverno finalmente desabrochara. Não havia muitas pessoas na rua de manhã e nem quando começou a entardecer. Somente um pouco mais à tardinha.
Mas vamos ao fato: havia um homem que vinha do trabalho para casa, todos os dias, pelo mesmo lugar. Andava com sua maleta, seu chapéu cinza (como nossa tarde!) e seus sapatos impecavelmente brilhantes. Mas, hoje, quando virou a esquina de uma viela principal, parou subitamente, como se estivesse encantando, em frente a uma árvore, que sempre estivera ali, há muito tempo.
Bem, ele ficou parado, olhando para a árvore, durante alguns minutos apenas, até um senhor de bengala, com cara de irritado, resolver parar e também olhar para a àrvore, com muito interesse. Mais duas mulheres também resolveram observar tal mágica coisa que separa pessoas de seus dias tão corridos. E assim foram-se juntando pessoas e pessoas ao redor de nossa querida planta.
Quando se fez noite, e ninguém arredava o pé da frente da verdinha, uma criança, na verdade uma menininha, viu o tumulto na viela e resolveu ver do que se tratava. Aproximou-se das pessoas, percebeu que olhavam fixamente para a árvore. Olhou também para ela. Mas, ora, não conseguiu ver nada de diferente.
Com sua bela inocência, resolveu perguntar por que tanto olhavam!

- Gente, por que vocês estão olhando pra árvore?

Não conseguiu uma resposta, pelo visto estavam tão concentrados que não a ouviram.
Resolveu gritar.

- Geeeeeente! Por que estão olhando tanto para esta árvore????

Nosso primeiro homem (o de chapéu cinza!) desviou os olhos para a menina, e, meio confuso, respondeu:

- Eu... eu não sei. É que... eu achei a folha muito bonita e intensa hoje, e parei para olhá-la. Porém, não tomei meus remédios hoje, eu tenho uma doença psicológica que me faz entrar em transe! - olhou para o relógio - Oh, céus! Preciso ir!

E foi-se.

As outras pessoas sentiram-se um pouco envergonhadas sabe-se porque facilmente.
E a menina continuou sem entender absolutamente nada.

Foram-se aos poucos disfarçando e voltando aos seus afazeres.



Diga-se lá que o orgulho, às vezes, é maior do que uma simples pergunta. E a vontade de sentir-se com conhecimento, possivelmente, também o é.

quinta-feira, julho 05, 2007

Saturno.

Houve uma época em que eu queria por demais ir para Saturno. Sabe, fugir da Terra, desse clima de fogo e morte instantânea. Para onde iria, não existiriam pessoas: e como estas só me decepcionavam, eu achava que lá seria um bom lugar para refletir e viver.
Queria fugir da crueldade, da desigualdade, do egoísmo. Porém, fugir, certamente, não é uma opção de caráter. Aliás, eu já fui cruel, desigual e egoísta. E, ao menos de mim, eu nunca conseguiria fugir.
Eu via apenas o lado ruim das coisas, não percebia que o ser humano é tão mau quanto bom e, muitas vezes, sua natureza acaba-o induzindo a fazer coisas cujas conseqüências causam feridas e arrependimento para toda a vida.
Mas quem sou eu para julgar a maldade ou bondade de alguém? Eu não tenho esse direito. Posso ficar indignada e revoltada, todavia não estou dentro da consciência de ninguém para saber o que se passa, os medos que possui, os impulsos que explodem. Eu sou apenas mais uma pessoa que erra, que deserra, que tenta não mais errar. E, como eu, há várias outras almas tentando melhorar, caindo, caindo, levantando, levantado.
Bom, voltando para meu planetinha querido, eu acho que desisti dele. Seria tão triste se realmente tivesse concluído minha viagem até ele, e lá ter-me isolado do mundo, do calor, da vida e dos sentimentos. Acho que amadureci o suficiente para entender que preciso encarar as situações de frente, lutar pelo que acredito, e não deixar que as coisas ruins prevaleçam sobre as boas.

Há sempre ainda a vontade de fugir, de correr do mundo, dos olhares, e aconchegar-me em meu doce Saturno. Mas eu não consigo. Pois há coisas essências que prendem meu pé aqui, que não me deixam perder a mente no infinito. Há coisas que me fazem abrir os olhos e nunca, nunca desistir.

A essas coisas, só tenho que agradecer-lhes.

quarta-feira, julho 04, 2007

Sobre... tudo.

Borboletas e miragens. Isso é tudo. Tudo o que passa voando por minha mente e vai-se dissipando por entre as paredes já tão conhecidas. As asas deixam purpurinas do universo. Aliás, o universo! O que é esta palavra tão colorida, qual seu real significado?
O mundo. A sua parte verdadeira possui pessoas, animais, plantas, céu, oceano, nuvens. Mas meu mundo tão real e imaginário alimenta-se de sonhos. Sonhos coloridos, como o universo! Todos os dias rego uma pétala de imagens e palavras em minhas mão, apenas para, com o tato, senti-las flutuando.

Tudo.

segunda-feira, junho 25, 2007

Helena.

- Uma estória, vamos lá, você consegue. Feliz...

Ela se chamava Helena, com tempo passado. Era uma escritora de barzinho, daquelas que se matavam para que algumas palavras fossem lidas e aceitas com entusiasmo. Quase ninguém a compreendia, pois sua visão do mundo era um pouco diferente, um tanto niilista, uma pitada de solidão.
Quando começou a escrever devia ter seus dezesseis anos. Era muito imatura para a idade, portanto não escrevia muita coisa que prestasse na real visão literária (oh, olhar!), mas sua paixão viva por tudo que se formava em linguagem era tão avassaladora, que teimou com as palavras, até que estas já não conseguiam viver sem ela. Seus familiares achavam que não tinha futuro como escritora. Aliás, não conseguiam ver futuro algum para Helena, aquela ovelha negra, que não presta para nada.
Um dia, decidiu que iria embora de casa, para bem longe, além-mar. Costumava apanhar daquele monstro bêbado, que não conseguia chamar de pai. Recolheu seus livros, suas poesias, um pouco de dinheiro e roupa, e se foi. Foi-se como a brisa que toca o rosto da manhã. Alojou-se num banco de praça, de uma cidade vizinha à sua. A noite veio, o medo cresceu: estava sozinha, numa praça deserta e sem vida, porém conseguiu acalmar-se e dormir. Quando acordou no dia seguinte, sua mochila havia sumido... Desatou a chorar.
Bem, foi mais ou menos por aí que foi parar em seu barzinho. Com fome, sem dinheiro e sem esperanças, uma doce senhora, de nome indiferente, encontrou-a chorando.

- Menina, por que choras? - parecia ter um sutaque diferente.

- Moça, moça, por favor, me ajude! - arrastou-se até a senhora. - Tenho frio... e medo! - soluçou em lágrimas.

- Guria, tu já estás na idade de virar-te sozinha! Vamos, pára de chorar... vem, levar-te-ei a um lugar aquecido.

Seguiu a senhora por umas ruas não muito agradáveis, até chegar à frente de um bar barulhento, escutava-se uma música tremendamente alta vindo de lá. A senhora entrou e Helena a seguiu... O medo voltou.

- Walter, encontrei uma guria na rua... bem afeiçoada. Te serve? - a senhora adiqüiriu um aspecto astuto, quase como uma ave de rapina.

O homem de nome Walter olhou a menina de cima a baixo, até suspirar e responder:

- Não é das melhoras, mas dá pro gasto. - coçou a barriga. - Qual seu nome?

- Helena. - tentou ser seca.

Helena, seu nome ficou marcado em um panfleto na frente do bar: ela começaria a dublar cantoras famosas, para dar um pouco de audiência àquela velharia. No começo, tudo foi farra e maravilha. Helena escrevia nas horas vagas, em guardanapos, e os deixava nas mesas dos clientes. Alguns achavam que era brincadeira de mau gosto, devido às palavras duras escritas. Outros gostavam do que liam.
Mas algo a incomodava dia e noite. Nunca conseguia escrever algo feliz. Por que todos os seus poemas eram tristes? Por quê?
Em uma noite, aconteceu algo realmente ruim. Walter, que a havia acolhido, começou a engraçar-se para cima de Helena. Esta não queria nada, estava com dezoito anos e ele era um velhaco! Ele tentou forçá-la... e, bem, digamos que pagou sério por isso. Além de ter sentido uma dor tremenda em uma certa parte do corpo, perdeu sua dubladora profissional e mais algumas notas verdes do caixa.

Ela estava novamente nas ruas.

E aqui estamos nós. Eu sou um mendigo, Helena narrou-me toda a sua história. No dia em que fugiu do bar, eu lhe emprestei meu ombro, e ela chorou. Pediu que eu a escutasse. E eu o fiz.
Ela é famosa hoje em dia, ah, se é! Uma escritora de renome. Graças a mim, sim senhor, ela vinha toda semana contar-me sobre o que escrevia... tudo sempre triste. Até que um dia, quando eu estava a beirar a morte, roguei-lhe...

- Uma estória, vamos lá, você consegue. Feliz...

E foi esta estória que todos leram em todos os cantos do mundo.




Não ligue, leitor, para minha boba história. Mas esta menina acreditou nos seus sonhos, e isto vale demais.

quarta-feira, junho 20, 2007

Eu.

Hoje eu quero falar sobre mim. Eu basicamente nunca toco nesse assunto por aqui, e quase nenhum texto é realmente subjetivo. Ora, escrevo com a alma, sinto o que a personagem sente, choro com ela. Mas não sou eu quem está perdida, angustiada, feliz, apesar de todos os sentimentos, ambições e medos virem da minha própria alma.
Eu amo escrever. E não é tão simples assim. Eu não consigo amar muitas coisas, sou uma pessoa um pouco fechada para o sentimento do senso comum. Se sinto, sinto intensamente, até sangrar. E é o que sinto quando escrevo: o sangue. Sinto-o pulsar em minha veias, passeando por todo meu corpo até cair em minhas mãos.
Tenho crises constantes quando não consigo escrever, é como se eu estivesse vazia, sem uma parte essencial de mim. Mas acho que isso é normal, afinal tenho muitas crises, algumas delas provavelmente pela minha idade tão singela: quinze.
Não me sinto diferente com quinze anos, de como me sentia aos quatorze. Todavia algo em mim muda a cada segundo que passa, tal como a luz do sol renasce todos os dias. Uns devem chamar este algo de amadurecimento, outros de abandono filosófico, outros de a merda da puberdade. Eu chamo de viver.
Sabe, eu magôo as pessoas com uma facilidade tremenda, e esta é uma das coisas que necessito transformar. Não acredito em personalidade "forte", mas em personalidade difícil. E penso que a minha é um pouco... irritante. Sou sincera demais e a mais, odeio hipocrisia, falo o que der na telha, e em momentos não muito convenientes. Essa sinceridade em excesso machuca muitas pessoas que me rodeiam. Sou teimosa, cabeça-dura, dona-da-razão, orgulhosa, [coloque aqui mais algum adjetivo apto]. Se acho que estou certa, não importa o que você diga, minha opinião não muda! Eu odeio isso. Odeio, odeio, odeio. É algo que tento mudar, mas não consigo. Já melhorei bastante, nada sério.
Possuo uma frieza imensurável, em certos momentos, que me impressiono comigo mesma. Por horas, choro por tudo. Por outras, não derramo uma lágrima. Sou distante, sem nem ao menos perceber. Isso cria uma falsa impressão de mim a qualquer pessoa. Já escutei várias primeiras idéias sobre mim, quase nenhuma bate com a realidade: arrogante, convencida, tímida demais, extrovertida demais, alegre a todo o tempo, triste, séria. Apesar de eu ter um pouco disto tudo, não consigo definir-me, pois me sou a cada momento, e eu sou muitas coisas.
Minha percepção da realidade é a pior de todas: não sei se existo, e pensar nisso deixa-me tonta. Não sei se estou aqui escrevendo, pensando e tentando sentir-me um pouco mais. Difícil de explicar, porém muito fácil de entender. Eu sou a Priscila, eu, eu, eu. Mas, e se eu não me for? E se eu for o que não sou? Bem, acho que algumas pessoas já devem ter-se perguntado sobre isso.
Com relação a achismos, ACHO que isso é algo conceituoso demais. Não acho que música clássica seja melhor que funk. Não acho que sou mais inteligente que o guri que escreve tudo errado. Não acho que ninguém seja melhor que ninguém. Acho que há pessoas boas e ruins, e que essas pessoas ruins podem tornar-se boas e que merecem ser perdoadas se se arrependerem de seus atos. Sou contra todo o tipo de morte, sou contra ao sofrimento e à infelicidade alheia por fatores egoístas.
Bem, eu sou a Priscila, a menina chata, revoltada, amável, respondona, receptiva. Mas, antes de tudo, sou um ser humano com sentimentos. Talvez seja isso que eu deva colocar em minha cabeça: errar é viver, viver é aprender.

Acabou a vontade de falar de mim, vou postar logo antes que dê vontade de apagar esse texto.

terça-feira, junho 19, 2007

romeoejulieta

Tudo parece ter acontecido em um momento único, tu em meus braços, e nada mais. Aqueles instantes em que tudo é eternizado, brilho de alma única. Ó Romeo, Romeo. Se não tivesses corrido da ausência, da falta do que não vem, onde estaríamos nós?
Tu me pagaste com a vida, e eu com minha morte. A estrela acendeu os olhos para ti, para seu sorriso final. O momento se foi, apesar de eterno, e tudo que desejo é que sejas Romeo outra vez. Que me dês a mão para voarmos pelo infinito e que pisques os olhos, tão doces, para mim.
É inverno, meu querido. E tua ausência é forte. Foste em essência, não em carne. Ainda guardo teu corpo em minha sala velada, com rosas vemelhas e mariposas negras. Todos os dias dou-te um beijo nos lábios gélidos, roxos, queimados. Quero ter-te em beijos de amor... Daria tudo para voltar ao céu e sair deste inferno maldito!

Sou sua não-Julieta, a que tu mais odeias e desprezas, mas, ainda assim, eu te amo com fervor.
Meu Romeo de outono, e falsa miragem de primavera.

quinta-feira, junho 14, 2007

Piscar De Olhos.

Talvez eu lhe sinta muita saudade.

Não, sem talvezes. É sentido, obviamente.

Eu venho andando pelas ruas sem você, e isso quase chora. Eu ainda posso ver nossos braços em nossos ombros rindo de nossos gritos. Gritos de um pingo de felicidade compartilhada, e o êxtase pós-semana. Escuto nossas conversas, nossas histórias inventadas, e cada lembrança entra como uma faca em minha alma, dividindo-a em dois mundos: o antes e o agora.

Eu a vi descendo a escada. Cada degrau, um impulso. Tive a vontade louca de puxar-lhe os cabelos, de socar-lhe a cara, várias e várias e várias vezes. E, em minha imaginação, esperei que me batesse de volta, que me machucasse. E, principalmente, que me arrancasse sangue.
Mas por que não o fiz? Por que nunca arranquei todos os seus fios de cabelo? Por que, após ter-lhe matado, não a abracei de volta?
Porque sou covarde. Não tive coragem, até agora, de admitir a falta. Pois ainda não me domina por completo, ainda consigo agüentar em não ver o sangue pulsar. Mas eu lhe garanto que você é tão covarde quanto eu. Somos uma faca de dois gumes.
Eu nunca admiti para ninguém que estou morrendo por dentro. Que há algo em meus olhos dilacerado. Pois admito agora. Eu sinto doer, e dói muito. Não há outrem, não consigo deixar que entrem em minha mente, que leiam minha alma, como você um dia leu. Tenho certeza que ainda tenta fazê-lo, mas de sua forma discreta.

Eu preciso de você.

Mas parece que somente o precisar não basta.
Eu preciso que você precise de mim.