Irritava-se com o barulho que faziam ao seu redor, às vezes queria matar mesmo uma criança, pois seu choro a arranhava por dentro. Além de ser mordida por palavras, Elaine era arranhada pelo barulho. Isso era realmente um problema."
Pronto. Cessou a inspiração, ele estava há dias tentando escrever sobre... Elaine. Uma mulher egoísta, que achava-se superior às pessoas e que tinha manias consideravelmente peculiares. Mas não conseguia criar mais que isso. Não conseguia dar-lhe um rosto, uma expressão, cabelos ou roupas que usaria se realmente existisse.
Além disso, começou a achar que suas personagens eram verdadeiramente apenas feitas de palavras, somente isso, não lhe pareciam reais. E também não entendia por que diabos escrevia detalhes banais com os quais ninguém se importaria, apenas ele, é claro, e suas personagens de veludo, que de alguma forma agradeciam pela importância que este dava para suas vidas tão cotidianas e banais.
Ninguém entendia que ele precisava transportar os sentidos para o papel, mas que, ao mesmo tempo, não agüentava mais fazê-lo. Queria basear-se na vida, na realidade, mas não conseguia, as sardas, as ruguinhas, um fio de cabelo branco de Elaine o perseguia.
Exatamente! E seu coração acelerou: sardas... ruguinhas... um fio branco... trinta e dois anos?!
Desclareou-se. Mulheres de trinta e dois anos não costumam ser tão Elaine. Não costumam ter tantos detalhes, elas apenas são mulheres de trinta e dois anos. Não que pensasse que elas eram banais, não, não é nada disso, ele apenas pensava a verdade, como em sua maioria todos pensam.
Não sabia mais o que fazer. Tirou os sapatos. Ainda estava de sapatos porque ficou com preguiça de tirá-los quando voltou da padaria. Seus dedos eram horríveis, fez uma cara de nojo e apoiou-se na mesa. Dedos horríveis, dedos horríveis... talvez ela tivesse dedos horríveis! Oh, não, meu caro, mulheres de trinta e dois anos fazem as unhas.
Por que mulheres de trinta e dois anos fazem as unhas? Ele ficou com raiva de todas as manicures e pedicures: queria matá-las, vagabundas, vaidosas fedorentas. Ele não queria Elaine de unhas feitas, mas não queria dar-lhe unhas não-feitas. Enraivou-se.
Pro inferno! Declarou e decidiu continuar a escrever. Ele precisava dar-lhe mais vida, nem que fosse um dia, nem que fosse uma morte. Apenas algumas linhas, alguns suspiros, algumas raivas e algumas unhas!
Malditas unhas.
Vivia em um abismo, sem saber por quê. Bem, talvez porque era uma mulher de trinta e dois anos que vivia em um apartamento onde a luz não entrava e passava todo o dia lendo, absorvendo, esquecendo do mundo real. O mundo em que há pessoas sofrendo muito mais do que ela, sofrendo de fome, de miséria e de falta. Falta de tudo que possivelmente ela possui.
Voltou à sala e rasgou as folhas, abriu a janela e jogou os pedacinhos de Elaine no ar, não saiu do umbral até que todos os pedaços quedassem no chão, seis andares para baixo. Sentou-se no sofá, sentiu-se um pouco livre, calmo e solvido.
Acabara de matar uma personagem, sentia-se um assassino. Não obstante, a repugnância passara.