sábado, fevereiro 16, 2008

Mar, mar, mar, venha me encontrar!

Quatro horas da manhã, um carro parado perto da praia. Tudo estava deserto, exceto por uma mulher de trinta e sete anos, pele morena, cabelos castanhos e longos, os olhos penetrantes nas estrelas do céu. Estava deitada na areia, os pés encostando na água, que tentava incansavelmente alcançar seu corpo. As ondas pareciam tornar-se mais fortes, como se quisessem cobri-la inteira com seu sal, para poder sentir sua pele macia e acariciar seus cabelos bagunçados. O mar é realmente solitário, pensou. Mas quem sou eu para julgá-lo, afinal?
Sentou-se, a fim de tirar a areia de suas pernas. Não ligava nem um pouco para aquele vestido caro que seu caro marido havia comprado em uma loja caríssima. Não, nem um pouco. Queria que esse vestido sentisse o que é a sujeira, o pó e até mesmo a areia. Na verdade, ela não agüentava mais as coisas limpas, a casa arrumada e a janta feita. Não agüentava mais sua filha mimada pelo pai, não agüentava a solidão, de passar todos os dias sozinha e nos finais de semana ter que fazer sexo sem amor, sem palavras carinhosas, sem um como você está?, está bem?, como foi a semana?, senti sua falta, querida.
NÃO! Ela queria sentir algo senão esse sentimento de... nada, vazio, falta de. Sentia profundamente sua vida indo embora, sua vida sendo vivida sem ela, pois não era ela que se encontrava em seu corpo quando estava dentro daquela maldita casa, e sim o que mais tinha de falso dentro de si. Forçava tanto o sorriso naquelas reuniões de família, que seu marido tanto insistia em fazer, que à noite não conseguia mudar a expressão. E ele achava que ela não percebia os olhares entre ele e sua irmã. Uma parte do seu sangue estava tendo um caso com seu marido, e provavelmente estas eram as horas extras que ele fazia no trabalho. Mas não ligava. Não hoje. Não há alguns anos. Tudo se tornara insuportável, para ter ciúmes inúteis. O pior é que não conseguia olhar para nenhum homem, sentia nojo de todos eles, rancor.

- Moça? Está tudo bem?

Ele tinha os olhos mais azuis de todo o universo, e eram transparentes como água cristalina. Sua pele era morena, da cor da areia e seus cabelos eram negros como a noite. Ele era o mar. Só poderia ser.
Estava a praia deserta, por isso arrepiou-se por uma outra pessoa encontrá-la ali. Sentiu um pouco de medo mas tentou afastar essa sensação.

- Sim - continuou olhando para o mar, tentando ignorar aquele homem com ar de inteligente. Ele também usava um par de óculos que o deixava com uma seriedade compulsiva.

Ele sentou-se ao lado dela. Como? Ele... por quê? Preciso sair daqui! Ele ficou a olhar para as ondas batendo em umas pedras um pouco à direita, parecia encantado com aquilo. Estava descalço, com uma calça branca dobrada, para não sujar na areia e tinha uma mochila jeans surrada junto de si.

- Então, qual é seu nome, dama do mar? - disse, à vontade, com um doce sorriso no rosto. Seus dentes eram tão brancos, como pérolas encontradas nas profundezas dos oceanos.

- Clara - e sentiu vergonha de si mesma, por ter falado seu nome tão deliberadamente para um estranho qualquer. Sentiu-se com mais horror de si mesma, quando logo em seguida perguntou: - E o seu?

- Tenho vários nomes, minha dama - Clara enrusbeceu e sentiu uma pontada de raiva. - Mas pode me chamar de Miguel.

Miguel. Este era realmente um nome bonito, diferente. Sentiu-se atraída pelo corpo e pela voz e pelo nome daquele estranho, filho do mar. Pensou que já devia ser quase cinco horas da manhã, logo deveria retirar-se dali, se não quisesse que dessem por sua falta em casa. Mas realmente se importariam?
Ele a olhava de lado. Aquela mulher, com os olhos fixos na água, o vestido vermelho meio molhado meio sujo, um corpo atraente, perguntou-se se não estava se apaixonando. Talvez estivesse, pois esta deveria ser realmente uma mulher especial. De madrugada, sozinha, na praia, despreocupada.

- O que faz aqui, além de contemplar as águas?

- Ah, fugindo de casa, do marido e da filha. Todos me sugam e me tiram de dentro de mim e... - sabia que não deveria ter dito isso. - Vim jogar minha aliança no mar, como forma de morte total de casamento.

Respirou fundo. A raiva veio para dentro de si. Que ótimo, solto tudo que me aflinge para o primeiro estranho que cruza meu caminho. Fraqueza maldita, solidão contínua. Agarrou um pouco da areia que tocava seus dedos.
Ele ficou surpreso com sua extrema sinceridade. Pensou que ela diria logo em seguida que era uma brincadeira, mas isso não ocorreu. Mordeu os lábios um pouco.

- Não imaginei que fossem esses os seus motivos, talvez não devesse ter-lhe perguntado, não é mesmo? - fez uma longa pausa, onde o silêncio apossou-se completo de ambos. - Mas... tenho algo para você.

Ele abriu a mochila e tirou um papel bem grande, um papel de pintura. Entregou para a mulher. Antes de abri-lo, ela o ficou olhando, olhando, olhando. Viu seu piscar de olhos calmos, seus lábios sendo mordidos de vez em quando, mostrando sua ansiedade. E olhou para o papel. Teve um sobressalto, chegou a arregalar tanto os olhos que até mesmo ele se assustou. Havia um desenho dela ali; ela estava sentada na areia, olhando para o mar, os olhos molhados de lágrimas, e a praia inteira, todo o resto, parecia curvar-se em sua homenagem, por trazer-lhes o calor de sua presença.

- Eu moro aqui perto, e, um dia quando estava passando por aqui, te vi ao longe. No dia seguinte, você estava no mesmo lugar, na mesma hora. Passei a vir vê-la todos os dias, e comecei a trabalhar neste desenho. Hoje decidi entregar-lhe - ele falou tudo sem pausa, atropeladamente, cheio de arrepios e um pouco de vergonha.

Ela não pensou duas vezes. Puxou-lhe para perto de si e cravou-lhe um beijo nos lábios. Um beijo mesclado de emoções, de sentimentos que acabavam de nascer. Um beijo com "sentires" que há muito não sentia ou talvez nunca houvesse sentido.
Quando parou de beijá-lo, percebeu uma luz começando a aparecer mínima na linha do oceano, e levantou-se rápida.

- Amanhã. Você sabe que horas e onde encontrar-me.

E saiu correndo em busca de seu carro com uma alegria que há muito não sentia.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Piscava os olhos, bem de leve, e tentava apertar o lençol. Na verdade, só conhecia o que apertava pois estava deitada, seu tato havia sumido por completo. Onde estava não sabia. Ou não lembrava. Talvez as duas opções unidas; poderia não saber, mas sentia que sabia de alguma forma e poderia ter esquecido o conhecimento.
A sensação era estranha demais. Quando piscava os olhos, poucas vezes, tão pesados como toneladas de chumbo, só via o branco, o branco completo, a alvidez contrastante, se é que isso era possível com nenhuma outra cor por perto. Mas era, pensava. Era branco contrastando com branco e um fio de vermelho escorrendo. Mas nunca as cores diferentes se misturavam.
E então, após um segundo de imobilidade e agonia, desesperadamente, uma parte de sua alma foi arrancada. Arrancada infinitas vezes, pedaço por pedaço, constante por constante. Ela gritava; um grito surdo, mas ainda assim um grito com a força do pensamento, com a força de toda a dor que emanava de si mesma, dor esta que ela não sabia que possuia. Pois a dor vem de dentro de nós para o mundo, arrebatando e destruindo todas as moléculas pelo caminho, para ocupar seu devido espaço. E mesclado com a dor, de alguma forma, vinha o arrependimento. Não sabia, não se lembrava... por quê. Por que a consciência sussurrava os pecados e a maldade de destruir-se a si mesma.

Acordou em meio à tempestade. Estava deitada no parapeito da janela, a risco de cair enquanto dormia. Algumas lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Novamente, dia após dia, o mesmo pesadelo. A sala branca, os olhares estranhos e sorrateiros, a dor e a culpa. Estava acorrentada e sabia disso. Não havia chave ou arma que a soltasse deste inferno. Aprisionada na própria mente e no passado, sorriu desgostosa.
As lembranças começaram a jorrar...

Era noite. Uma noite sombria, a noite que mais viria a odiar em sua vida. Ela estava amando um menino inteligente e calculista de 19 anos. Ele também a amava de volta. Estavam em sua casa, sozinhos... ela sentia que este seria o dia em que se entregaria por completo, colocaria sua alma nas mãos dele, e certamente confiaria cegamente. Ele não sabia como isto foi acontecer, mas estava amando uma menina de 13 anos, e sentia-se tão absurdamente bem perto dela... não, não queria machucá-la. Realmente, o amor fluía.
Escutaram um barulho na parte de baixo da casa, mas não ligaram. Somente quando ele notou os passos na escada é que percebeu o que fizera: a tranca, a maldita tranca. Esquecida. Rapidamente, empurrou a menina para dentro do armário, para logo depois dar de cara com um homem corpulento, portando uma arma... assustadora. Seu corpo tremeu, ao ver o sorriso de lado do gigante [gigante, pois ele se diminuiu inconscientemente para dentro de si, tal como uma fuga, tornando-se quase uma bactéria invisível]. O homem não pensou duas vezes, começou a espancá-lo, como se sentisse prazer naquilo.

- Onde está o dinheiro? - perguntou demasiadamente calmo, para os segundos anteriores.

O menino apenas balbuciou coisas sem sentido, e o homem voltou a chutá-lo. Ela não agüentou ver tudo aquilo, as lágrimas eram incontáveis, transformara-se em um rio. Escancarou a porta do armário e saiu gritando NÃONÃONÃO POR FAVOR NÃO O MACHUQUE. NÃO, PARE!
O gigante mordeu os lábios e aproximou-se da menina em apenas um passo, empurrou-a contra a parede e arrancou-lhe a blusa. Ela chorava, soluçava, perdia a respiração. Não podia fazer nada. E ele, seu amor, vomitava sangue e chorava por vê-la assim. O homem abriu seu zipper e ela gritou, desta vez de fora para dentro, sugou todo o ar, negou-se a abaixar as calças. Levou tapas, até ficar com o rosto roxo. E o homem, enfim, apagou seus sonhos.
O gigante, após usar seu corpo, deu um tiro nos dois braços e pernas do menino. Viu-o agonizar, e depois começou a revirar a casa inteira. Após dez minutos, pareceu ter encontrado o que queria e fugiu.
Ela desmaiou. Ele deixou de respirar. Quando acordou, estava na cama de um hospital. A agonia foi como o universo e mais além. A garganta entalou.
Porém, após três meses, aconteceu o desespero.

Estava grávida, recordou-se. Grávida da dor, grávida de um monstro, grávida do dia em que perdera o seu amor.
Voltou à sala branca. Voltou à perda de um pedaço de si mesma, que tentava excluir de sua vida: a criança que viria a nascer. Mas que foi morta, por sua própria escolha.

Sabia exatamente por que esse pesadelo sempre voltava: alguma parte de si sentia a falta do que nunca viveria. E, principalmente, ela sentia a falta da parte que se deixou morrer antes mesmo de vir a viver.

Acendeu o cigarro. O que está feito está feito, balbuciou. Mas sentia que isso não valia nada. Suas escolhas, após anos, ainda a afetavam. E isso era algo que devia aceitar. E, enquanto não se perdoasse, os pesadelos do passado continuariam a assombrá-la.

Desceu da janela e abriu a cortina. Hoje talvez seja um novo dia...

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Dias sem Inspiração.

há dias terríveis,
enigmáticos e sem sentido,
quando sofro de alucinações
todas mentalmente visualizadas,
mas sem palavra e papel.

quando penso em tocá-las,
as idéias,
sim, elas fogem de mim,
e me perco no mundo real.

perder-se nesse mundo é
de terrível pouco,
pois o meu verdadeiro lar,
ao que sempre almejo voltar
é como a saudade latente,
os dias em pasárgada,
os meus oito anos,
uma canção do exílio cheia de falta.

alguém me traga de volta!
abduzida, puxada, desmaiada,
não me importo

ao mundo das palavras preciso retornar.

sábado, janeiro 05, 2008

a falta de.

Sentia a falta. Falta de quê, perguntava-se. Mas sabia que simplesmente era a falta em si, e não algo que por si só poderia desesperadamente almejar. Desesperadamente: eis a palavra que envolve. A falta batia dentro de seu peito e procurava subir por todo seu corpo, como um inseto maldito, corrompendo-a por completo.
Acordou naquela manhã ensolarada e fechou a cortina, tinha horror ao lado de fora, ao mundo, ao exterior de dentro de si. Começou a andar em círculos, círculos que se fechavam e círculos que se abriam. A mão repuxando os cabelos, de onde vinha aquela abstinência? Ela apenas sabia que algo fora arrancado de dentro de sua mente, e agora estava sozinha, sem rumo, sem saber por que não tinha a vontade que movia todas as pessoas.
De alguma forma, tinha medo de viver. Sabia que sentiria falta do ar que respirava agora futuramente, por isso tinha receio de respirá-lo. Porque a falta cresceria ainda mais, e, com razão, a falta de, finalmente, algo. Entenderia a falta de. E essa falta seria do tempo em que ela era, porque agora ela é, e amanhã será. Mas nunca mais voltaria ao que já foi, e isso a deixava entristecida.
Parou e fixou o olhar em um porta-retrato. Fixou-o bem, queria lembrar desse momento eternamente, em que ela conseguiu olhar para dentro de sua própria alma e ver um sorriso crescente. Mas sabia que dentro de alguns dias esqueceria esta lembraça, tal como já fizera tantas e tantas vezes a respeito de outras imagens, e tons e cores.
Queria impressionar-se com as notas musicais, com o amor e com a vida, não obstante, pensava se já não era tarde demais. Sabia que, uma vez dentro deste conhecimento obscuro, desta virtude contrária, não havia mais volta, e chorava com a boca, com a mente, com as mãos, mas não com os olhos. Estava cansada do costume, de ter visto o que não queria ver, desta falta de.
Às vezes pensava em suicidar-se, mas achava essa idéia tão sem nexo, que respirava mais e mais fortemente para sentir-se viva [ou simplesmente para... viver].

O dia estava chegando ao fim, e ela sabia que a falta de não cessaria, somente em alguns momentos conseguia esquecer dela e sorrir realmente, gargalhar e não pensar em mais nada.

Este é o problema: os segundos de ser livre desta consciência eram raros.

E ela sentia inveja de qualquer pessoa, que não fosse ela.
Porque conseguiam ser plenamente livres.

sábado, dezembro 22, 2007

ao

deitada na cama
os sonhos vertendo
o abismo surgindo
o final, então

a música sem fim
do sentimento certeiro
o motivo ao ermo
a dor da luz

feche a cortina
o sol fere
o mundo se abre
o medo surge
para dentro e para fora de mim

quero acabar com isso
queimar as palavras
os pensamentos e as idéias
o nada e o tudo
ao fogo abrasador!

é completamente desgastante
e degradante
assim como ante
antes e após

se pudesse sumir
mas fugir do abismo
se pudesse correr
mas não alcançar o nada
eu...
quero...
que isso volte a transformar-se
em matéria nenhuma.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

... como o vento que as traz. [ as memórias ]

Abriu seu bauzinho de pequenos tesouros, um velho mundo se abria da escuridão para a luz. Ficou a olhá-los decididamente por horas, passando os dedos delicados por cada imagem, objeto e palavra. Possuía ali, e bem sabia, muito mais que ouro vivo e orgulhava-se disso, deixando algumas lágrimas sorrateiras, mescla de alegria e saudade, caírem levemente por seu rosto cansado. Havia tempo que não retirava a chave do esconderijo para ver suas preciosidades. Porém, agora que as tinha nas mãos, não as queria devolver para o escuro do baú nunca mais.

Começou, muito bem, por... ele.

Era um jardim maravilhoso, em plena primavera. As flores sorriam para o céu radiante, mesmo que nublado, um céu com histórias fantásticas. Ela estava no balanço, uma chuva gostosa se deixava cair em seus cabelos longos e dourados, balançava devagar, devagar, a tristeza em seu rosto. Era seu aniversário de dezessete anos e ninguém havia lembrado, exceto sua mãe e uma amiga. E agora estava só, completamente.
Então, ele apareceu. Pisava devagar no verde e na lama, estava ofegante, havia corrido, corrido muito e agora tentava não ser descoberto. Chegou à frente do balanço, levantou seu queixo delicado e, então, a rosa.

- Para você.

Ai, como chorava de falta. Limpou as gotas no rosto, parecia que ainda podia sentir a chuva daquele único dia de primavera, e abanou a cabeça: a rosa murchara. Como tudo que é efêmero vai e não volta. Apertou a si mesma, sentia a vontade desesperadora de que ele estivesse ali, agora... o corpo se foi, todavia o sentimento permaneceu, e isto era tudo que ela possuía.
Demorou muito tempo para separar-se do balanço, da rosa e daqueles olhos molhados. Os olhos que a vigiavam, cheios de amor e sonhos a ser realizados. Ah, que daria a vida parar tocar-lhe por um único segundo de realidade.

A seguir, tocou no rosto deles, seus pais, imagens vivas de afeto e carinho, palavras cortantes, perfuradoras, mas sempre verdadeiras.

Sua mãe chorava no quarto desesperadamente, dolorasamente, chutava e socava os lençóis, os travesseiros, e tudo que se encontrava pela frente. Ela podia sentir a dor emanar de toda aquela raiva, de toda aquela tristeza.

- Não! Por quê, por quê, por quê?

Ela também não entendia por quê, mas sabia da realidade desde pequena, enquanto segurava com as mãozinhas tão frágeis a beirada da porta. Tinha seis anos e acabara de perder o pai, e sua mãe acabara de perder o amor de sua vida.

- Querida... - a dor aumentou ao ver aqueles olhinhos lacrimejando - Venha cá. - abraçou-a. Tudo vai dar certo, a mamãe promete.

Mães sempre são fortes. E ela se sentia agradecida por ter tido aquela mãe tão esplêndida e dedicada. Lembrava-se pouco de seu pai, mas sempre o vira com um sorriso no rosto, exceto quando ia dar-lhe bronca. Mais lágrimas vieram, ao lembrar que nunca pôde ter filhos. Eram apenas os dois, ela e o magnífico homem da rosa. Mas eram felizes, ah, se o eram!
Mais um pouquinho, pensou, e tocou em mais um vagalume cintilante.

Sua formatura, seus desejos, seus sonhos, seus medos antigos. Tudo veio esvoaçando até sua mente. Sua vida inteira, incrivelmente sólida e vivida. Sim, uma vida vivida, deliciosa, cheia de alegrias e decepções, cheia de perdas e ganhos. Estava feliz.

Fechou o bauzinho, enfim, mas antes fez questão de pegar tudo de dentro dele, tudo que brilhava e pulava para dentro de si, sugou cada pó, cada pequena partícula e voltou à vida de agora. Talvez outro dia fosse buscar mais e mais felicidade naquela caixa magnífica. Mas, para isso, precisava enchê-la.

E o fez.




terça-feira, dezembro 04, 2007

Sentir.

E, então, as lágrimas voltavam-lhe aos olhos, tão azedas, tão doloridas, queimavam-lhe a face enquanto desciam; ela sabia que não queria chorar, mas já o estava fazendo. Não conseguia impedir o sentimento que vinha arrepiando todos os seus fios de cabelo, os pêlos, a roupa, e até mesmo os olhos, que se abriam de medo diante da perda de controle. Sua fragilidade começava no momento em que se deixava ler: abria-se o livro de sua alma, e as palavras nele escritas não se passavam de chaves para abrir sua consciência.
Ela não agüentava mais, alguns detalhes já a matavam, sugavam todo seu sangue. Tentava fechar os olhos para fechar também a mente, o coração e... o pulso que passeava dela para o resto do mundo. Em um pleonasmo exato e vicioso: o pulso pulsava pulsante dentro de seu pulsante coração para o resto do mundo que pulsava quando abria os olhos novamente. Aquele pulso a controlava.

Estava sozinha, definitivamente ao ermo e vazio. Ele a deixara. Não é simplesmente mais um caso de paixão mal-correspondida, não, é mais sério, vem do amor, o amor que vive as pessoas, que as faz sentir algo mais. E como ela amava! O amor a movia, dava-lhe a vontade de seguir em frente, de ter alguém e algo por que lutar. O amor havia dominado o pulso, em verdade, havia-se-o tornado.
Porém, em um dia sem data, começaram-se as malditas. Ela passou a sentir o gosto delas constantemente, salgado, amargo de tristeza. Estava tão absurdamente feliz, não obstante, com a tristeza estava sempre de mãos dadas, anéis trocados, e, se não fosse a loucura do paradoxo, diria que as duas eram felizes.
Nunca exigiu nada, nunca disse nada, apenas era magoada e morta todos os dias. Por coisas pequenas, por bactérias invísiveis a olho nu, mas sentia tudo cravando-lhe uma estaca no peito. Ele não era culpado, e ela repetia isso sempre, todos os dias, meu amor, sou eu, o problema sou eu, não, não se chateie, não vá embora, não... E uma porta era batida. Ela ia para o banheiro, abaixava a tampa da privada e sentava-se em cima, agarrando-se ferozmente a seus joelhos, soluçando demais, indefesa, perdida, desiludida. Quase uma constante.
Uma vez foi até o espelho do quarto de sua mãe, um bem grande e límpido, e perguntou ao seu reflexo, encostando a pontinha dos dedos em sua própria imagem: "O que é o amor?" Não veio resposta, mas ela não cansava de olhar para seus olhos, eles pareciam tão decididamente expostos, tão pequenos diante de tudo. Ela quis agarrar sua imagem, mas não conseguiu. Chorou.

Ele foi embora de vez no verão. Ela odiava o verão, talvez ele quisesse que ela também o odiasse. Mas ela só pensava que ele havia ido embora e deixado a estação quente, queria sua primavera de volta, de qualquer forma. Mas não conseguiu. Sabia que nunca conseguiria, pois ela era como uma flor frágil e efêmera, logo se murcharia à visão de seu possuidor.
A verdade é que ele não conseguia entendê-la, qualquer coisa, qualquer ato, feria-a de uma forma bruta e desconexa. Não podia fazer nada sem que a doesse na alma. Odiava machucá-la e, desta forma, entendeu que seria melhor deixá-la sozinha, desamparada, mas sem a dor que lhe causava todos os dias, incontavelmente.
Ele também sofreu, o amor era dois, mas aquilo não poderia prosseguir. Ele, agora, não conseguia mais agüentar. E se foi.



Voltamos ao momento. Ela se odiava, sabia que seus sentimentos incontroláveis eram o motivo para sua eterna escassez. Nunca o teria de volta. O desespero se lhe tomava conta. E era realmente desesperador sentir de uma forma tão incrivelmente surreal e avassaladora. O sentir, esse maldito sentir, fê-la subir extremos, fê-la viva. Ao passo que também a fez morta.
Mas a certeza que sobrevoa sua mente é que, se não sentisse, tudo seria pior, sua loucura, pois já estava enlouquecendo de tanto sentimento, seria a loucura das mentes vazias.

Chorou mais uma vez, enquanto um pequeno sorriso aparecia em seu rosto.
Quase imperceptível.

sexta-feira, novembro 23, 2007

~

Um dia, a Lua veio até mim
E, no seu mais íntimo ser,
Mostrou-me os segredos
Sussurrados entre os ventos.

Contou-me sobre terras distantes,
Inteiramente belas,
Cuja alma canta um soneto de alegria.

"Seus pássaros e pássaros a cantar,
Com suas asas de ouro e cetim,
Que me encantavam à luz da eternidade!"

Sobre mais meralíssima inteligência,
Senti-me apenas uma estrelinha ofuscada,
Que necessita de sua lua para brilhar.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Era-se uma vez.

Estava em pé, apoiada em um dos lados daquela ponte há horas. Era uma ponte pequena e gasta, mas incrivelmente maravilhosa. As plantas haviam-se apossado de sua madeira, misturando-se meramente como matéria em matéria, ocupando um mesmo espaço. Abaixo de si havia um lago com milhares de gigantescas Vitórias-Régias. Verde, baixa, verde: lembrava-lhe um quadro de Monet.
Seus olhos brilhavam e parecia ansiosa. Não, definitivamente estava ansiosa, passava os dedos pelos cabelos, enrolando-os bem de leve. Estava em uma floresta conhecida, porém pouco visitada, e sentia-se como uma adolescente. Vento fresco, fios voando, segure o vestido. Ajeitou o chapéu de veraneio, caía-lhe bem com aquele leve vestido bege e sandálias brancas e baixas. Seu rosto representava vinte e um anos de vida, mas possuía trinta e três, às vezes as marcas não se mostravam na face. Carregava uma bolsa grande e bonita, e um guarda-sol estava apoiado na ponte, cheio de bordados e mimo. Na mão direita segurava com força um livro vinho: "Olhos de Lucy"; mostrava uma grande paixão e cuidado por ele.
Tocou no pingente de coração que estava pendurado entre seus seios, e o apertou lentamente. Abriu-o e encarou os ponteiros: cinco horas e dezessete minutos. Agarrou o livro junto a si e quedou-se por um instante em uma página. Fechou-o logo a seguir. Começou a andar ansiosa pela ponte, um nervosismo repreendido pelo bom senso. Tacou pedrinhas no lago, fechou os olhos, bateu o pé, arrancou o chapéu!

- Nada - passou a mão pelo cabelo dourado e longo. - Oh, onde! Para onde? É aqui, estou certa!

Olhou novamente a hora. Ficou vermelha de raiva. Gritou ferozmente e sussurrou devagar, gritou e sussurrou. "Stevan, oh, Stevan!" Tirou as sandálias, derrubou o guarda-sol e correu com o livro nas mãos até a clareira da floresta. Nada, ninguém, absolutamente vazio. Ajoelhou-se um pouco e algumas lágrimas pareceram escorrer de seus olhos: havia chuva, pequenas gotículas finas.

- Não, não se pode haver chuva! Não!

Levantou-se rapidamente e correu de volta para a ponte. Arrancou o vestido raivosamente, despiu-se por completo. Sentia um frio terrível pela chuva que agora tocava seu corpo nu. Mas não se importava. Arrebentou o cordão com o pingente e o jogou no lago. Estava desesperada, o coração sumiu na água.

- Adeus, Stevan! Engula seus presentes!

Abriu o livro e começou a rasgá-lo página por página, as letras ficando embaçadas pela chuva, até chegar... ali.

"Então Lucy estava bela, realmente bela, muito mais do que jamais a vira. Quando cheguei à ponte, olhava aquelas plantas aquáticas. O sol forte, mas faltando pouco para pôr-se, iluminava seus cabelos sedosos e dourados. Ela me olhou, com aquele olhar vidrante, aquele olhar de sempre, e eu fui magnetizado, correndo até ela... minha Lucy, seu Stevan."

Chorou desesperadamente. Oh, que não havia de ser assim. Mas era! Era, e a raiva lhe subia. Jogou o que restou do livro no lago e abriu sua bolsa, apenas para pegar uma camiseta e um short jeans meio surrado. Puxou um livro de dentro da bolsa, e jogou-a logo após na água.

Seu nome agora é Sheila. Iria para a África.

Folheava as páginas enquanto andava de uma nova maneira, com novos tiques e novas letras...

terça-feira, novembro 06, 2007

Verdade injusta.

Perdia-se incontavelmente no mundo dos sonhos, naqueles que devolviam-lhe a alegria e a doce juventude para dentro de seu corpo. Não havia mais muita coisa para ela. Acordava tarde e chorava sempre que o fazia; as imagens que pareciam tão reais, o afeto que morava apenas dentro de sua oniricidade, sumiam de seus olhos, e as lágrimas de dor e desespero vinham incontáveis.
Estava sozinha. As pessoas de branco entravam, saíam, limpavam, bom dia, boa noite, adeus. Nenhuma pergunta sobre como fora o seu dia que, apesar de exatamente igual ao anterior e ao anterior do anterior, era existente assim como qualquer outro.
Quando acordava, além de chorar e abraçar-se junto ao seu corpo, indefesa, andava lentamente até o banheiro e todos as manhãs tinha a vontade pulsante de quebrar aquele maldito espelho. Era um espelho grande, embaçado e com uma parte quebrada, todavia mostrava-lhe a face flácida e cheia de rugas. E aquilo causava-lhe repulsa, apesar de ser uma dor mínima comparável aos pensamentos que a controlavam.

Mamãe, mamãe! Era Júlia gritando ferozmente, chegava da escola faminta e cansada. A casa limpa, e aqueles tênis, malditos tênis, entravam correndo e sujando todo o chão de lama. Lúcio vinha logo a seguir, sempre calado, frio, distante. E assim pode-se dizer que continuou sendo para sempre.
Essas crianças nunca tiveram um pai. A mãe se chama Maria, porém tem alma de Madalena. Prostituía-se, e como isso doía dentro de si! Mas precisava de sustento, não se importava em vender o corpo em troca de comida para seus filhos, de dinheiro para dar-lhes o melhor.
Fez tudo por eles, até mesmo o impossível.

Et Voilá: o abandono em troca do amor.

Ninguém mais a visitava. Diziam que estava velha, louca, já estava na hora de partir. Já fizeram demais por ela, pagando o asilo. Por que deveriam perder seu precioso tempo falando com uma pessoa que não tinha o que falar? Além do mais, as crianças não gostavam de ir vê-la.
Ela acordava, chorava, comia e voltava a dormir. Os dias todos iguais, a tristeza na alma. As enfermeiras eram secas, rudes, fingiam não ligar para o desapontamento daquela senhora, que às vezes tinha o olhar longe, fixo no teto.
Estava esquecida. Era realmente uma pessoa quase inexistente.

Sentada na cama, as pernas inchadas, penduradas entre o chão e seu corpo, olhava para suas próprias mãos e arrastava o dedão por entre elas. Rezava à noite, não conseguia entender por quê, já que estava perdida, e a dor era incontrolável. Mas rezava arduamente, como se fosse fazer efeito. Porém hoje rezava por perdão.
Ela queria morrer há muito, sua existência não tinha mais sentido. Estava tudo acabado, ela era apenas uma parasita no mundo... apenas uma velha idiota jogada num asilo.

Tomou remédios demais. E assim se foi.

Tudo que restou foi o aviso de que sua mãe morreu. Ambos os filhos sentiram um alívio imenso, mas as lágimas, simplesmente, rolaram-lhes pelo rosto no dia do enterro.

- Oh, mamãe!

E flores caíram. E terra caiu, e tudo caiu, o corpo, o medo, a dor.
E todos continuaram com suas vidas, até que tudo desapareceu: o túmulo, as letras do epitáfio. Maria.

Perderam-se no esquecimento.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Superação.

Era um dia frio, um outono meio inverno, onde havia folhas caídas no concreto, e outras flutuando lentamente. As pessoas andavam apressadas, empurrando umas às outras, quase correndo para o pagamento de fim de mês. Ele, escondido, definitivamente apagado, dava passos doídos, deixando pegadas falsas no chão úmido. Mexia com o anel dourado entre os dedos, e sua calça, de tão comprida, arrastava-se no chão.
Ela o seguia. Um seguimento logo ao lado, os olhos vermelhos de raiva (ou ao menos é como queria que estivessem...). Reparava no anel, passando por entre os dedos dele, o homem absorto em pensamentos. Sentiu o egoísmo adentrar em seu corpo-alma. Soltou um grito de dor, mas ninguém a escutou. Sentiu-se indefesa, solitária. Por um momento, e riu-se consigo mesma, achou ter sentido frio.
Ele parou em frente a uma loja de vestidos de noiva. Ficou observando, tão atencioso, os vários modelos que ali se encontravam. Tocou na vitrine, a palma da mão em mira de uma brancura: véu até os pés, flores bordadas em sua ponta, alças para os lados, aveludadas. Suspirou tão profundamente que o tempo pareceu parare, e ela pode sentir o seu coração suspirado e exalado ao frio.
Continuou seu caminho, o anel agora em volta do dedo. Ela queria chorar e abraçá-lo, gritar que o amava, que ele estava livre, que seguisse com a vida! Mas não conseguiu. Ela precisava sentir a dor da verdade, por isso ainda o seguia há seis meses. Passo-por-passo, dizia e se apertava com toda a força que conseguia obter.
Parou, novamente, em frente a um café. Respirou fundo inúmeras vezes, tinha um ar indeciso. Ela ficou esperando uma reação (decisão!), e ele resolveu que entraria. Realmente entrou. O ar de dentro do recinto estava mais quente, aconchegante, ele se sentiu bem, acolhido, mas ansioso. Apesar do frio, ele suava, suava muito. Foi-se para uma mesa no fundo e pediu um chocolate quente.
Ela se sentou em frente a ele. Estavam cara-a-cara, não obstante ele olhava para suas próprias mãos.

- Vamos, faça o que você quer fazer, eu sei o que está dentro de seus pensamentos, pedindo para ser expurgado! - ela gritou, mas ele não mexeu um músculo ou sequer respondeu.

Algumas lágrimas escorreram do rosto dele, tardias, gotículas de alma cortada. E, com um movimento raivoso, ele tirou o anel. Ela se tremeu por dentro: o anel que estava em seu dedo, idêntico ao que agora estava adormecido na mesa, desfez-se em pó. Gritou. E seu grito foi surdo para o mundo, ela sabia disso, mas continuou a gritar.
A porta do café abriu e fechou, uma bela mulher de vinte e cinco anos adentrou sorridente, doce olhar sensual, e foi em direção ao homem abatido e à mulher que parecia engasgada.

- Eduardo! - e deu-lhe um beijo longo e demorado na bochecha. - Desculpe o atraso, encontrei uma velha amiga na rua... - sentou-se ao lado da mulher, cujo nome revela-se agora: Sophie. Porém não a cumprimentou.

- Tudo bem, Val... tudo bem. Eu mal cheguei, de qualquer forma. - ele parecia querer chorar como uma criança.

Sophie quis arrancar todos os fios de cabelo daquela vadia, de nome Val. Tentou cravar-lhe os dentes no rosto, mas não conseguia tocar-lhe. Quanta intimidade eles já tinham! Val, Val, Val! Beijo demorado, ele com certeza estava sem ação.
Valéria pegou suas mãos, ele a olhou de volta nos olhos, assustado, queria correr, fugir e enterrar-se vivo. Sophie tornou-se confusa, ao olhar para aqueles olhos perdidos, e sentiu um penar imenso em sua cabeça. Por quê, por que ela o perseguia e fazia com que aqueles pensamentos cruéis lhe voltassem à mente? Por que não o deixava em paz? Em seis meses, desde o ocorrido, era a primeira vez que se encontrava com uma mulher, e ainda sentia o pesar na consciência. Oh, que ela era injusta e egoísta! Ele precisava seguir em frente. E não só ele precisava fazê-lo...
Levantou-se e passou decididamente pelos dois. Chorava muito, de alguma forma, por dentro de si mesma, porém continuou a andar. Ao chegar à porta, olhou para trás e viu Eduardo, seu Eduardo, o amor de toda sua existência, olhá-la em absoluto surpreendimento, as gotas nos olhos. Ele conseguia vê-la agora. Conseguia sentir-lhe a tristeza.

Ela fez fez um adeus com as mãos e sorriu. Saiu pela porta, antes que ele pudesse correr até ela, e desapareceu.

Era hora de seguir em frente.

terça-feira, outubro 16, 2007

Um segundo de atenção.

E, então, mais um ano se renova, escapando por entre a sua pele todo o tempo que já se passou. Você quer segurar as horas, os minutos e, por deus!, até mesmo os segundos(pequenas partes de mim, que cobrem toda a pintura da minha alma), mas você não consegue. Parece que o universo resolveu atuar contra você, em função do tempo.
O que eu vejo é meu corpo sozinho, estático, em algum lugar entre lá e aqui; as estrelas bilhantes ao meu redor, girando, girando, como se eu fosse o centro de tudo. Eu disse tudo? Tudo o que não existe e aquilo que as mentes apagaram. Mas o maldito e meu mais temeroso medo parece ter-se extingüido por completo, já que aqui não há tic-taquear. Ou melhor dito: lá.
Olho para trás e os olhos reluzem: nada volta, os sentimentos (talvez apenas fantasiados, mas sentidos) sumiram-se todos, as mãos que me encostavam os cabelos tonaram-se pó, e o vento que dantes trazia o cheiro de verão tornou-se água, incolor, sem forma.

E, com as lembranças, minha realidade volta.

Eu estou aqui, agora, respirando, pensando no que escrever, escutando sonidos difusos. Mas o agora já se foi, já me estou no depois, que agora é agora, mas acaba de tonar-se antes.

Nada disso faz sentido, eu sei, obrigada. Mas é o que foge de minhas mãos para as palavras, o zunido tão irritante de minha mente, também com a mesma característica ruidosa. Eu não queria, e muitos eus de mim também não, não, definitivamente não, sentir o tempo assim, sem poder situar-se nem por um momento, por um milésimo de... segundo?
Segundo minhas mãos, e também a energia que emana da ponta de meus dedos, segundo, segundo elas, o segundo não existe. Não pode existir. Como poderia existir um segundo qualquer, como?

O confomismo do não-saber às vezes é completo em mim, mas dura apenas um... segundo.
Logo poderia dizer-lhe que, agora que já é depois, meu pensamento não-existe.

Adeus, segundo passado.
Amanhã talvez seja outo segundo,
de um segundo-décimo-sexto-aniversário.

Parabéns para mim.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Mundo de Papel.

"Tinha mania de morder a tampa da caneta enquanto escrevia. Mordia também o lápis, o papel e principalmente as palavras. Isso, exatamente isso. Elaine costumava morder as palavras de tal forma, até que o universo ficasse de cabeça para baixo para estas a morderem de volta.
Irritava-se com o barulho que faziam ao seu redor, às vezes queria matar mesmo uma criança, pois seu choro a arranhava por dentro. Além de ser mordida por palavras, Elaine era arranhada pelo barulho. Isso era realmente um problema."

Pronto. Cessou a inspiração, ele estava há dias tentando escrever sobre... Elaine. Uma mulher egoísta, que achava-se superior às pessoas e que tinha manias consideravelmente peculiares. Mas não conseguia criar mais que isso. Não conseguia dar-lhe um rosto, uma expressão, cabelos ou roupas que usaria se realmente existisse.
Além disso, começou a achar que suas personagens eram verdadeiramente apenas feitas de palavras, somente isso, não lhe pareciam reais. E também não entendia por que diabos escrevia detalhes banais com os quais ninguém se importaria, apenas ele, é claro, e suas personagens de veludo, que de alguma forma agradeciam pela importância que este dava para suas vidas tão cotidianas e banais.
Ninguém entendia que ele precisava transportar os sentidos para o papel, mas que, ao mesmo tempo, não agüentava mais fazê-lo. Queria basear-se na vida, na realidade, mas não conseguia, as sardas, as ruguinhas, um fio de cabelo branco de Elaine o perseguia.
Exatamente! E seu coração acelerou: sardas... ruguinhas... um fio branco... trinta e dois anos?!

Desclareou-se. Mulheres de trinta e dois anos não costumam ser tão Elaine. Não costumam ter tantos detalhes, elas apenas são mulheres de trinta e dois anos. Não que pensasse que elas eram banais, não, não é nada disso, ele apenas pensava a verdade, como em sua maioria todos pensam.
Não sabia mais o que fazer. Tirou os sapatos. Ainda estava de sapatos porque ficou com preguiça de tirá-los quando voltou da padaria. Seus dedos eram horríveis, fez uma cara de nojo e apoiou-se na mesa. Dedos horríveis, dedos horríveis... talvez ela tivesse dedos horríveis! Oh, não, meu caro, mulheres de trinta e dois anos fazem as unhas.
Por que mulheres de trinta e dois anos fazem as unhas? Ele ficou com raiva de todas as manicures e pedicures: queria matá-las, vagabundas, vaidosas fedorentas. Ele não queria Elaine de unhas feitas, mas não queria dar-lhe unhas não-feitas. Enraivou-se.

Pro inferno! Declarou e decidiu continuar a escrever. Ele precisava dar-lhe mais vida, nem que fosse um dia, nem que fosse uma morte. Apenas algumas linhas, alguns suspiros, algumas raivas e algumas unhas!
Malditas unhas.

Ela caminhava pela rua tão lentamente que parecia quase cair, mas não se importava, tinha ódio das pessoas que andavam apressadas. Ó que não conseguia entender por que aquelas pessoas precisavam ser rápidas. Era o sustento de muitas delas e de suas famílias, mas Elaine não se importava, queria chegar em casa e escrever sobre o quanto é sofredora e o quanto a depressão a alastra pouco a pouco.
Vivia em um abismo, sem saber por quê. Bem, talvez porque era uma mulher de trinta e dois anos que vivia em um apartamento onde a luz não entrava e passava todo o dia lendo, absorvendo, esquecendo do mundo real. O mundo em que há pessoas sofrendo muito mais do que ela, sofrendo de fome, de miséria e de falta. Falta de tudo que possivelmente ela possui.

Ele agora odiava Elaine. Odiava com todas as forças. Quão mesquinha, irredutivelmente ingrata e egoísta ela era! E isso tudo vinha de dentro dele? Cuspiu em seus dedos: estava morrendo de repugnância de si mesmo. Foi até o espelho do banheiro e olhou fixamente para seus olhos. Podia vê-la ali dentro, presa em suas palavras, em suas folhas, apenas esperando para que ele lhe desse outras características odiosas e mesquinhas.
Voltou à sala e rasgou as folhas, abriu a janela e jogou os pedacinhos de Elaine no ar, não saiu do umbral até que todos os pedaços quedassem no chão, seis andares para baixo. Sentou-se no sofá, sentiu-se um pouco livre, calmo e solvido.

Acabara de matar uma personagem, sentia-se um assassino. Não obstante, a repugnância passara.


segunda-feira, outubro 01, 2007

Ah.

Por quê, sinceramente, e digo sinceramente mais uma vez, por que agarro-me tão ferozmente aos detalhes? Por que acho que vejo certas coisas, e essas coisas me atormentam de tal forma que a alma parece querer afogar-se em angústia?
Eu digo por quê: pois você não passa de uma guardadora, exatamente isso. Você guarda o pisque dos olhos e o roçar dos dedos, o olhar de lado, e o movimento dos lábios. Isso te rasga de uma forma surda, e sangrar-se sem barulho dói. Dóis tanto, que você esquece completamente da dor, pois você se acostuma. E então não sabe para quem virar o rosto, pois estão todos apontando-lhe o dedo, gritando, gritando... e sussurrando, sussuros estrondosos, tão piores quanto os gritos. Como se a dor fosse pecado.

E então chega o segundo ato de tudo. Você sente a repugnância de si mesma, ninguém consegue alcançá-la. Seus olhos perdem o foco, você está caindo naquele abismo, tudo por causa do excesso de sentimento, antes tão escasso. Você cai. Parece nunca ter fim, parece que suas lágrimas formarão um mar, e sua pele tornar-se-á seca, sem o efeito da hipérbole.
Você percebe, então, que de alguma forma você está sozinha. Porque talvez nunca ninguém vá entender esse sentir tão avassalador que explode de dentro de você.

Por isso você chora, menina.
De medo.

De tanto medo...

sexta-feira, setembro 28, 2007

Caixinha de Música.

Abriu-se o mundo,
A bailarina dançou.
A música tocou,
Musiquinha,
Devagar.

A menina girou,
A bailarina piscava,
Que mundo gigante,
Essa menina tem!

As notas avançaram,
Entraram em cada pó,
Em cada fresta,
Do universo desconhecido.

E a menina cansou,
Não queria mais a música,
Nem o pequeno mundinho
Da linda bailarina.

Fechou-se a caixa de veludo,
A dançarina se foi, caída,
Quase a morte musical.

A menina jogou o pequeno átomo,
Do inteiro infinito,
Em uma galáxia fechada,
Onde a música, assim como nada,
Não se propagava no vácuo.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Final Ao Vento.

E então ela abriu os olhos. Mas não viu nada, nem mesmo um borrão em sua frente. Estava anestesiada, dolorida, não-sentida. Tentou levantar, mas o peso de seus longos cabelos a jogou no chão. É estranho pensar em o quanto um cabelo pode pesar, assim, e levar em si toda a consciência e carga de sentimentos de alguém. Seus fios eram grossos, mas lisos, lisíssimos, tão lisos que o vento conseguia passar por eles sem levantá-los. Na verdade, lá não ventava. Nem fazia frio ou calor.
Apenas nada. Demorou um pouco para perceber que não estava respirando. Estava apenas... deitada, sem forças, onde? Na escuridão, no completo ermo e vazio. Arranhou o corpo sem as unhas, apenas com a mente, mas não conseguiu sangrá-lo. Lembrou-se que sempre o sangrava, sempre, escorria o sangue de sua alma para seu corpo; tal como as lágrimas. Porém agora não conseguia fazê-lo: desesperou-se.

Ah, o desespero.

Fez forças. Fez forças. Fez forças. Tanto fez que conseguiu sentar-se. Seu corpo inteiro doía, e doía muito. Não compreendia. Como se poderia doer se estava morta? Foi a única explicação que conseguiu encontrar: a morte. Não respirava, não se arranhava.

E se doía.


Ela nunca havia se doído antes, mas já ouvira muito falar em pessoas que sentiam tal dor. A dor corporal. A dor que não sangra. Esta segunda lhe era a mais espetacular, a mais especial, a que nunca imaginara, a que sempre almejara. Queria realmente ser parte do filme de pessoas sorridentes, tristes. Sorridentes e tristes. Um equilíbrio. Mas por que ela não podia ser equilibrada? Por que ela não tinha peso? Oh, meu deus! Ela não tinha peso, como podia ter uma balança sem pesos?!
Ela não sabia.

Mas estava ali, e isso importava. Importava a dor que sentia e que, por alguma razão anexada, ninguém nunca entenderia.

E as pessoas passavam, olhando-a, extremamente entediados.
Apenas mais uma perdida, louca, mulher.
Menina.

Doendo, sangrando com a mente e com as unhas, doendo muito.
Mas ela nem piscava. E eles nem olhavam, mas respiravam.

Enquanto era apenas aquilo, sorriu sinceramente, sem nexo, sem sentido, apenas sentida e escondida. Sorriu, sorriu.

E não enxergava nada.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Dor... assim.

Ele se levantou bem lentamente, os olhos pregados de sono. Não queria acordar, definitivamente o mundo onírico estava melhor do que essa realidade: o cotidiano às vezes é duro. Calçou as pantufas, enquanto olhava o espelho que cobria uma porta inteira do armário; não se reconheceu. Estava com algumas rugas e vários fios de cabelo branco, parece que o tempo passou e esqueceu de avisá-lo. Ao seu lado, a cama estava vazia, apenas restava a marca de um corpo recente. Ele suspirou... as coisas realmente mudam.
Ela estava sentada na rede da varanda, quando ele adentrou na cozinha. Fazia um frio de congelar a alma, naquela cobertura, mas a mulher de cabelo longo e castanho escuro vestia apenas uma camisola de alcinha, segurava uma caneca com um líquido forte. Estava bebendo logo de manhã, ele pareceu não importar-se, não soltou nenhuma palavra, apenas sentou-se e começou a passar a manteiga no pão. Aquele barulho de faca a irritou, aquele mínimo barulho a fez ranger os dentes. Como ela odiava o fato de ele ter fome e ter sono. Como ela odiava aquela maldita indiferença.
À noite ela não havia conseguido dormir. Quando fechava os olhos, via sombras, sentia-se observada, angustiada, quase como se a atacassem no escuro. E então ela abria os olhos e olhava o ventilador, olhava fixamente para o teto. Não sabia para onde escapar e sentia repulsa daquele corpo, dormindo tão bem ao seu lado, oh, como podia dormir assim... como conseguia? Ela havia levantado na madrugada e sentado-se na rede. Olhando... olhando para absolutamente nada.
- Então - ele disse suavemente, cortando seus pensamentos. Ela se virou e percebeu, surpreendida, que ele já havia-se trocado para o trabalho. Estava bonito, pensou, bonito demais. - Eu já vou.
E bateu a porta. Ela sabia por que ele estava indo mais cedo. Ela sabia por que ele estava tão bonito. Desgraçado, desgraçado... e aqueles olhos, aquelas mãos... aquele rosto. Bonito, bonito. Ela jogou a caneca na parede ferozmente, o líquido escorreu livre, quase sorridente. Oh, o líquido sorria. Os cacos cairam tristemente no chão. E... de repente, como em transe, ela esqueceu de seus ciúmes e de sua raiva. Começou a chorar, chorar alto, e arranhou todo o corpo até sangue sair em suas unhas.


Havia acontecido há três anos. Eles se amavam tanto, pareciam dois adolescentes em plena paixão. E Verônica corria pela casa. Verônica, verdadeira, videira, cheia de vida. Ela tinha quatro anos e brincava e pulava e sorria. Oh, como sorria! Sorria como o líquido que agora escorria pela parede. Sorria e fazia com que sorrissem consigo. Naquele dia, eles se destraíram, fazia calor, a porta da varanda estava aberta, eles conversavam, eles se olhavam e se amavam.
Verônica brincava. E queria brincar que era pássaro. Queria voar, por que ela não poderia ser um bem-te-vi? Bem te vi, Verônica, mas você se foi... E ela subiu na pequena grade, olhou um momento para baixo. Era tão alto! Mas ela ia voar, o papai e a mamãe ficariam tão felizes! E...
Ela viu a menina pendurada na varanda. Gritou! Gritou tão alto, que, com o susto, a menina a olhou, seus olhos meio sorridentes, meio medrosos. E desiquilibrou-se, Desiquilibrou-se para sempre, como um bem te vi que um dia se é visto e nunca mais volta para o ninho.

E os dois, estáticos, nunca mais foram os mesmos.


Ele estava no escritório, bonito, estava impecável. Uma mulher morena acabara de entrar. Tinha os olhos grandes... tão grandes que lhe causavam medo. Ela sorriu. Ele ajeitou os óculos. Ela tirou a roupa. Ele tirou os óculos. E ele estava bonito, tão bonito...
Uma hora depois, a mulher se retirou. O homem que se encontrava lá dentro não estava mais bonito. Estava triste, acabado. Por um momento, as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Mas ele engoliu em seco, voltou ao trabalho, esquecendo do mundo.

Quem poderia dizer que são fracos? Que se deixaram levar pela dor? Quem, quem poderia julgá-los a ponto de apontar-lhes os erros? Deveriam superar e juntar-se para criar forças. Não obstante, as ações se mostraram exatamente contrárias.

- Cada um cura a dor de uma forma.

terça-feira, setembro 04, 2007

A forma de viver.

Estava sentada naquela escada há horas. Quem a percebesse, por alguma fração de tempo, veria apenas uma sombra sem vida, cuja essência parecia ter sumido há muito. Já havia-se passado um masso inteiro de cigarros, estava intoxicada pela fumaça, até mesmo para pôr os pensamentos em devida ordem. Sua mente divagava, enquanto gotas finas e grossas de chuva, alternando-se, tocavam sua pele quase de mármore. Queria... não, não queria nada, apenas que o tempo passasse logo, e que logo tudo desaparecesse.
Algumas pessoas quase a atropelavam, quando subiam pela escada tão movimentada. Era uma grande escada, branca, solitária às vezes. Ela sabia o momento em que... bem, ela apenas sabia. Uma mulher alta a empurrou friamente quando passou, resmungando, maldita gente!, e continou sua vida vazia, vazia, vazia vida. Na verdade, ela nunca soube se aquela mulher vivia ou sobrevivia, mas não viu luz em seus olhos, e, muitas vezes, o egoísmo a levava a crer que apenas ela poderia ter a capacidade de enxergar e sentir certas coisas.

Começou a bater os pés: estava ansiosa. Não sabia exatamente por quê, parecia-lhe que sempre esquecia tudo que vivenciara, para que pudesse vivenciar tudo novamente com a mesma intensidade. E isso a fazia sentir-se bem, uma incrível chama de felicidade que brotava em seu peito, em contrapartida à sua aparência de nada com nada, e até mesmo à sua forma de razão.

Mais um trago. Fumar fazia-lhe mal, e sabia disso. Mas não se importava, não pretendia viver muito, e não tinha para quem viver. Ela só tinha... isto. A chuva apartou cada vez mais, estava trazendo a tarde, mas, não, ainda era cedo... Roçou sua mão pelos seus cabelos curtos, bem curtos, mas que voavam com a ventania. Apesar de todo o aguaceiro, o Sol podia-se ver dominante no céu, lutando com as nuvens.
Mais algumas horas se passaram, mais cigarros foram-se amontoando no chão, como um pequeno morro. Agora a escada estava deserta, a não ser por ela. Ninguém atrevia-se a passar por ali, depois das cinco horas da tarde. Era um lugar perigoso. Quase um lugar esquecido. Ela levantou-se finalmente, balançou sua roupa, e pôs-se a subir a escadaria.
Foi até o lugar que marcara com a alma, há muitos e muitos anos, e que, agora, representava toda a sua vontade de viver. Era um lugar especial. Era onde o tinha visto uma última vez, seu amor, seu único amor e também suas lembranças felizes. Lembrou-se das promessas que fizeram ali, das luas que tanto viram crescer, de tudo que ele lhe havia dito. Foi há tanto tempo... Uma eternidade atrás.
Ela apoiou o cotovelo na ponte. Estava quase na hora. Quase na hora. Ela estava ansiosa. Definitivamente, todos os dias ela ansiava por isso.

E... finalmente.

Seus olhos encheram-se de lágrimas, abriu um imenso sorriso e não parecia mais ser quem era. Parecia uma jovem de dezesseis anos, intocada pelo tempo, em um certo mês de maio de um certo ano distante... Não parecia mais aquela mulher de trinta e nove anos e sem esperanças, de olhar sombrio. Não! Definitivamente não.

O que via era simplesmente o que elevava todos seus sonhos por alguns simples minutos: era o sol pondo-se em encontro ao oceano.

E de lá ela podia lembrar-se dele tocando suas mãos enquanto viam aquela magnitude emanando da natureza ocorrer. Podia senti-lo tocando-lhe os lábios. E, finalmente, podia sorrir sem medo, sem medo algum.

Quando tudo ocorrou e acabou, ela suspirou e acendou outro cigarro. Se as lembranças e aquela mágica faziam-na de alguma forma feliz, ela poderia dizer que, sim, estava viva.

Mesmo que por alguns momentos. Em um lugar esquecido.

terça-feira, agosto 21, 2007

Tempo em ponto.

Sonhei que não mais sonhava: era tudo real.

Eu era uma fada e tinha os cabelos longos, atés os pés, trançados, muito trançados. Eu conhecia o passado, o presente e o futuro, meus olhos eram como priscas. Estava com um longo vestido, o mundo girava, girava tanto que as cores misturavam-se com os sons, e estes, por sua vez, mesclavam-se com as palavras.
Você não estava lá. Não, não havia ninguém. Eu estava só e eu era o mundo, todos estavam em mim. Cada átomo do meu corpo era sentido exatamente como o infinito de pensamentos existentes. Oh, eu estava envolta em pensamentos! Pensamentos inigualáveis, sensíveis, intocáveis!

E, de repente, sim, tão momentâneo, eu desapareci, eternamente, não sentia mais nada, nem o vento, nem a dor de simplesmente não existir. Eu me tornei plena, ao mesmo tempo de não poder tornar-me mais coisa alguma! Eu me fui e deixei de ser, ainda sendo, sendo todas as coisas e o nada.

Desencontrei-me e encontrei-me.

Sorri.

Mas sorrisos existiam?

quarta-feira, agosto 08, 2007

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Eu sonho demais, romantizo tudo à minha volta. Acredito em tudo e em todos, não me importo em quantas vezes eu vou bater a cara, não me importo se vai sangrar, doer ou machucar, não me importo se vão-se abrir cicatrizes que nunca mais desaparecerão.
Não acredito em amores. Não consigo acreditar em vários que passam, vêm e ficam por algum tempo: somente o que é eterno é amor. Eterno agora e depois, além da vida, sem medo das lágrimas, sem medo do que é humano e defeituoso. Sem medo da carne e da alma. Apenas flui como água em movimento, mas nunca seca.
É doloroso pensar em qualquer outra forma, e essa dor é insuportável, é quase como sonhos que são quebrados, é quase como trair a minha fé, minha pouca fé e quase escassa. Não sei o que entendem que é para sempre, mas o meu para sempre é literal. Não é apenas coisa de momento: é independente, incondicional.
Não preciso de aprovação, às vezes acho que não preciso ser amada para meu amor continuar, não, realmente não preciso. Virar-se-ia algo platônico, inalcançável, incorpóreo. Bem, voltamos ao meu lado romantizador de tudo...

Não acreditar nisso e não senti-lo é quase como deixar de viver, como perder-me nas trevas, num barco no meio do oceano.
Inexplicável.
E não peço que haja explicação, mas às vezes não queria sentir dessa forma, que me parece tão avassaladora, tão amedrontadora. Dessa forma que é tão incomum, tão irracional, mas que é minha forma de amar.
E agradeço por sê-la.

Sobre como me sinto: controlada pelo sentimento, pisando na razão. Com medo de você, de suas palavras.

Com medo, só isso. Com medo.