domingo, setembro 26, 2010

mudo os planos:
a janela agora é um quadro do mundo
guardo nas mão fechadas
o pincel que vai desenhar o carnaval

ligo a música
vomito as cores presas em mim
danço com os passantes
giros que não acabam
passos nas folhas secas da nota que não toca mais

inverno quente esse no meu corpo
escorrem risos e abraços
suor vivo alcançando a vida
vida que roda na palma da minha mão

sábado, setembro 25, 2010

acho engraçada essa minha vontade de tomar as coisas de súbito. agora que aprendi a beber as saudades, arranco todos os copos que vejo pela frente e dou um longo gole. como se não bastasse, gosto do cheiro e do suor da tempo, respiro e passo a saliva pelas horas, canto com os segundos que me vão transformando em companheira e irmã das confissões no escuro.
sinto como se estivesse vivendo o mundo, sede de ser e sermos, coragem de entrar na roda e se deixar embalar. outro dia eu rodei rodei sozinha no meio da sala, rodei até ficar tonta e cair no chão, rindo. sensação do embaçado, cores todas juntas, movimentos mais rápidos que eu, a vida que segue em ritmo de música e embriaguez.
não vou esquecer o que você me disse no ponto do ônibus. os passageiros olhando nossa espera, o medo do assalto e da violência, apesar de, naquele momento, já termos sido assaltados e violentados por muitas coisas. você olhou para aquele viaduto longe, alto e com um porte de respeito. 'acho que não temos controle sobre nada'. eu concordei, porque me sentia tomada por tudo ali, menos por mim mesma.

[...]

domingo, agosto 08, 2010

(por que não?)

sinto falta de como as coisas eram. olha, sei que tudo muda, e deve faltar muita maturidade dentro de mim para que eu possa entender sem um sofrimento perturbador e aceitar os fatos. mas eu não acredito ainda, não consigo, dói, fico horas deitada olhando para o teto sem conseguir nem ao menos mover os olhos. entro em depressão, fico arrasada, choro, tenho medo. tudo junto. e não há ninguém para quem eu possa ligar, dizendo: me dá uma página em branco para eu secar a tristeza.
esse texto já está clichê o suficiente, eu sei. mas eu não me importo, não agora. já passa de 1 da manhã, e eu não consigo dormir.
quero ouvir música, olhar as estrelas, salvar o mundo. quero voltar àquele dia em que eu não estava sentindo nada disso. quero, sinceramente, não querer mais nada. apenas que as coisas sejam naturais, mas não efêmeras. nossa, por que a efemeridade me ataca tanto?
hoje eu me fiz uma pergunta. na verdade, duas:
o amor é uma flor?
eu sou uma flor?
eu não quero ser uma maldita flor! mas eu juro juro juro que seria uma flor à beira da morte se eu pudesse salvar o amor de sê-lo. e aí é que eu acho que a eternidade me faz chorar, quando olhamos para o álbum de fotografia e não nos reconhecemos mais.
por que eu preciso da eternidade? eu queria ser mais forte, mais presente no agora. por isso a solidão...
porque tudo passa muito rápido, e eu fico lentamente para trás. não. algo de mim fica para trás, algo que eu quero de volta mas nunca mais consigo encostar.
é a falta de mim mesma. não que eu não me tenha agora, porque eu tenho, mas eu crio espécies de relacionamentos inseparavéis com juras de amor eterno com as partes que deixei ontem.

sexta-feira, agosto 06, 2010

eu quero pedir desculpas pela sua vida. as mais sinceras e profundas.
hoje, quando te vi, juro que senti a vontade dos olhos de Capitu, aquele impulso de amor e flor que pede para ficar mas vai embora rapidamente. queria ter te abraçado e prometido que as coisas não precisam ser assim.

- preciso me distrair.

você me disse, jogando o pão sem fermento na areia. eu senti uma pena profunda pelo seu desejo de distração e quis chorar. na verdade, o que me veio como ventania no rosto foi cada pequeno momento encostando em você e indo embora, enquanto você dormia. às vezes, sonâmbulo, consigo te ver encostar nos móveis da casa, tentando escapar do quarto para o mundo, correndo e tropeçando correndo e tropeçando, no sonho de que não há o agora sem você.

- ela me deixou aqui, depois de tudo.

mentira. você já tinha deixado o tudo antes de ele próprio acontecer. tantas foram as vezes que a vi correndo de madrugada pela rua, querendo respirar, enquanto você, silencioso, sentado na soleira da porta, apenas engolia o ar no compasso simétrico e sem sentido.

- ana, você está escutando uma palavra do que eu digo?

- não. quer dizer, me desculpe, eu estava pensando...

- não sei mais o que fazer, não tenho horizonte!

- mas tem o mar... você não consegue ver o horizonte à noite, só o mar pintado de céu (ou o contrário, quem sabe). talvez você esteja vivendo uma noite longa e duradoura e talvez você precise deixar de dormir, de sonambular pelo mundo.

- ana, por favor, não me venha com essas loucuras.

- não são loucuras. são minhas últimas palavras. preciso me desculpar... por tudo que fiz e não fiz ou não falei.

- você está indo embora? eu não vou conseguir...

vai. e essa é a melhor parte de estar dormindo. você pode cair e morrer o quanto for preciso, sempre acordará em sua cama, com os pulmões prontos para sentirem o ar.

e quando acordar, tudo estará bem, e você não precisará se distrair.
só viver.

segunda-feira, julho 19, 2010

não sou mais tão pequena quanto ontem. já não posso embrulhar-me num guardanapo e entrar dentro do seu bolso. eu olhava o mundo pelos furos, você sabe, mas também tinha um imenso medo de cair. às vezes você tropeçava, e eu juro que, por alguns segundos, eu fingia que não existia, bem fingido, mentindo pra mim mesma só para não desaguar um rio inteiro no meu sertão.
há dias em que eu preciso ir para trás da porta, porque tenho medo dessa grandeza. mato tantas formigas por dia que não posso nem mais dizer que tenho medo de morrer. sou uma assassina, mas não como aquelas cartas que você (ainda) me envia. elas, sim, me matam de todas as formas, com uma crueldade que nem sinto ser cruel, como se o doce tivesse uma pitada muito fina de amargo.
a solidão de ser grande é bem maior que a de ser pequeno. quando eu ainda era um botão, eu via as coisas difusas, não sabia isso, inventava aquilo, comia brócolis pensando ser batata-frita. agora não. de todas as formas, tudo me é tão claro quanto a dor (porque a dor sempre é. ao contrário de todo o resto, que sempre vai sendo. e que tantas vezes vem inventado com o vento), e não há mais nada em que eu possa me segurar, mesmo que eu não vá cair de lugar algum, não mais.
o meu cair é ler suas cartas, é a lembrança do que ainda não veio, é não poder mais morrer em paz sem que todas as bactérias minúsculas decomponham meus corpos antigos. preciso saber guardar os pedacinhos do meu corpo ou queimá-los no mar.
eu não vou responder as suas cartas. todo esse mundo novo, e tão pequeno, me machuca, fere meus últimos momentos de vida, me desabrocha como flor que, efêmera, já nasce dando adeus à vida. não quero escrever sobre essa imensidão na palma de minha mão!
se quiser, estou no jardim do livro que leram para mim, há muito tempo. sou a flor silvestre, pequena (ali onde estou), vermelha. e parada. não surgi botão, não murcharei. a pintura é eterna naquelas páginas de livro. e nem você, com suas cartas, poderá me matar.

sexta-feira, junho 18, 2010

gosto de te olhar tocando violão.
não porque você toca bem
- porque não toca -
mas porque os cabelos encostam nos olhos
e as cordas na alma.

eu queria saber fazer isso,
sabe? :
tocar na alma.

só sei desafinar as palavras,
chorar as notícias,
rezar para o tempo.

me ensina a tocar violão?
quem sabe eu aprendo a cantar black bird.
e fazê-lo voar com as fitinhas da memória para longe...

mas precisa de ritmo?
não tenho compasso
e sou desritmada.
nem bater os sapatos eu sei.
(na verdade, ando descalça e meus pés são tortos)

deixei um recado na sua caixa postal,
passei na banca de jornal e comprei uns livros de música.
mas tenho certeza que vão ficar jogados no armário...

assim como essas palavras.

domingo, abril 25, 2010

_

fiquei o dia inteiro lendo um livro. um fato normal no cotidiano dos afazeres e pensamentos da efemeridade. mas o que me surpreende é a capacidade de me sentir companhia de todas as horas, amiga e amante das páginas brancas e negras, sonho de promessas de vida eterna.
porque, ao abrir (docemente, como pernas prontas para o ato sexual) aquela capa dura e azul-escura, eu era vítima e assassina. o local do crime sempre o mesmo, com outras cores e outros toques, os personagens disfarçados de gente real, as minhas vontades soluçantes arranhando aquelas folhas.
o desespero ora leite ora álcool ia me encantando os dedos, as vozes em minha cabeça já não faziam parte só-de mim. a parte era o todo, e o todo era o abismo infinito entre mim e os milhares de eus translúcidos saltando da história e quebrando as lentes -tão finas- dos meus óculos.
de repente a campainha toca. fiquei atordoada, pois estava já presa por auréolas àquela narração de vida dormente. não sabia de onde vinha o som. acompanhei as pistas até a porta de casa, com o livro ainda sobre os dedos, e me deparei com o jornal de todos os dias. tive uma cesso de raiva! a realidade intransponível se encontrava quase encostada na beira dos meus pés. bati a porta furiosamente.

(sobre o desespero que se torna fúria: acordar e querer dormir, escovar os dentes e não conseguir arrancar o mau hálito dos que ainda sonham, afogar-se todos os dias na ducha fria e veloz que percorre o corpo como o tempo cansa as senhoras idosas de esperar pelo navio que nunca chega no horizonte, vestir-se e ver-se nua no espelho embaçado, ligar a televisão e só ter um canal com ruídos, comer o pão como quem tem sede e não há água (ou vinho) para sarar-se.

ainda, tentar dar as mãos para o desenho feito quando criança e colorido com lápis de cera e sentir a imensa solidão emanando da mentira e da falta do agora.)

o livro expressava e comprimia. queria suprir tudo dali, daquelas falas silenciosas, do amor e do ódio e da vida tão presente e nunca passageira das horas. poderia? precisava escolher os finais, inventava novas idéias e histórias para cada detalhe e gesto.
do desespero surgiu a criação. passaram a crescer as flores em cima do jardim seco, a regá-las de grafite conseguiu ser salva.

da luz que se dá algo, surge um preenchimento temporário.
vitimada, exerceu sua vontade de assassina e mãe.

terça-feira, abril 20, 2010

asas e facas.

sei que haverá uma noite em que acordarei aos prantos, e minha mãe estará chorando sobre o corpo morto de meu pai.
o tempo sua pelo corpo, vida em partitura de música italiana. janelas abertas para o mundo entrar nas casas, um sopro de tudo na poeira dos cantos dos cômodos.
mamãe costumava dizer que morcegos são pássaros esquecidos. fazem barulho à noite, assustam, cegos voam pelas árvores e por cima dos pensamentos. papai, com o sorriso no corpo, lia alguns de seus poemas sobre pássaros que fingiam ser morcegos.

- mãe!
os dedos passeios de carruagem enferrujada sobre os pêlos, poros, sol. sal invadindo a cachoeira crescente, brilho único de adeus. ainda de camisola, jazia estendida ao chão, as orelhas congelando no mármore branco, enquanto suas mãos apoiavam no coração.

- está fingindo, amor.
sufoquei com a explosão torturante que queria ser vomitada dos meus lábios. havia sonhado com o horizonte, com alguma música e instrumentos. sentia a vontade de voltar para a calmaria que emanava da cama.

ela ficou ali o dia inteiro. senti o cheiro de podridão vinda do corpo. sentei-me na cadeira de balanço só para sentir o terrível gosto do vai e vem. conversava com papai de vez em quando, arrastava o rosto na pedra dura, resmungava sobre a noite mal dormida. senti pena.
à noite, tive forças para parar de balançar.

- chegou a hora, você sabe.

levantou-se sem espirros, o sangue todo parecia estar no rosto.
os punhos fechados, como se guardassem algo dentro.
foi até a janela do apartamento e jogou um ser morto oito andares abaixo.
era um morcego.

não escutei a queda, quase que ironicamente, mas os seus grunhidos finos e perdidos: é besteira, não importa! é besteira, ouviu? onde estava com a cabeça?
fiquei assustada em alguns momentos, com vontade de chorar e gargalhar, mas o mais terrível de tudo foi mamãe ter aparecido com um pássaro engaiolado e cego para cuidar.

no enterro de papai rezei por piedade.

domingo, março 07, 2010

de repente tudo ardeu. e arde, como fogo em casa longe do mar. meu corpo em incêndio de noite de são joão, a vida em cirandas mentirosas e cansadas. a parede ao meu lado chora, a janela lacra as cortinas de folhas, a menina sentada na varanda acena para o mundo negro e faminto.
porque, em um segundo, sinto a água de 1 real tocar meus lábios e meus lábios tocarem os lábios secos do homem pedindo esmola. vem a sensação de passageiro no ônibus, não, meu deus, na ambulância, estou em chamas me salvem!
a poesia grita. grita Grita GRita GRIta GRITa GRITA! como se fosse um nome, como se grita fosse alguém que pudesse fazê-la respirar! sufocada. engolindo a água de preço inventado, o descaso com ela mesma.
ela invade a a minha mente e pede para eu atirar bem fundo. desenha uma arma e me dá de presente e diz: vai. mas eu não vou, não consigo, fico parada, a arma escorrendo pela tinta a fora. deixo virar um borrão e passo os dedos na sua textura. passo os dedos pelo rosto e fico suja de violência, os poros absorvendo e enviando tudo pro sangue.
começo a pulsar - vida que estoura de medo, de vergonha, de anseio. preciso. e repito: preciso! o precisar passa a um querer profundo. o sangue pulsando no ritmo dos tiros.
perguntei prum menino onde ele havia guardado. ele me respondeu que nunca teve. eu disse é mentira! mas não era, não não, não era e aquilo me desesperava. ele não tinha guardado num baú e trancado, ou escondido só pra ele. tinha cicatrizes, sim, mas só lembranças. às vezes ela vinha, mas como chuva de verão, depois deixava tudo para trás, pobre nordeste.
me chamou prum cantinho e sussurou no meu ouvido: ela grita! mas ninguém escuta, porque é um grito silenciado pelas buzinas.
seus olhos sem formato, seus lábios quis beijar. peguei na mão dele e disse: poesia.

- meu amor, de que o mundo precisa?
- de poesia.
- mas tem tanta gente passando fome, morrendo por aí...
- exatamente.
- não entendi...
- a poesia está muda.

porque ataram seu grito com uma nota de 1 real.

terça-feira, janeiro 26, 2010

-

aqueles gritos demoraram a sair da minha casa, dos cômodos, do pozinho entre as teclas do meu computador. entraram como uma orquestra, para todos os lados, pela fresta da minha janela e me alcançaram no chão onde eu estava deitada.
acordei sobressaltada, por saber que me tomavam os ombros e sacudiam. eu me deixava tocar como o piano em que meus pés encostavam. mas naquela noite, com o barulho me arranhando, eu queria ser muda. fui até a rua, era madrugada e meus olhos também pesavam como se houvesse uma gota de orvalho pendurada em cada cílio.
havia faltado luz no bairro inteiro - os gritos eram feito chamas. a janela de frente à minha casa estava aberta e uma mulher chorava.
cada grito, que como uma sinfonia crescia e diminuia, me consumia mais e mais. comecei a sentir o corpo quente. joguei água, mas não adiantou, tudo estava em carne viva. desde o chão em que eu pisava até os olhos assustados e com uma ponta de sentimento se escondendo nas dobraduras do piscar.

pessoas na rua já sussurravam.
- acho que morreu alguém.
- nossa, não somos ninguém diante disso tudo, não é mesmo?
- é.

entrei. teimosia de querer se distrair da vida. já disse que não quero distrações: quero sentir. como escrevo agora parece que foi um fato comum em um dia quente e sem sorte. realmente foi, não minto.
mas tudo me fogia do controle:
grito, fogo, dor, água. grito, dor, água, fogo. grito, fogo, fogo, dor. grito, grito, grito... fogo, grito.

um homem morreu, meu deus, e agora? como aquela mulher vai olhar para o mundo? como se as coisas já são duras e há de se limpar a casa toda sexta-feira? como se os chinelos ainda estão ao lado da cama! e o vidro ainda está embaçado com o frio do inverno passado.
fui para o banheiro e apoiei a cabeça na parede, a mão no peito. meu coração gargalhava.
era medo? era dor? era culpa? era falta?
o piano da sala parecia tocar sozinho, as pessoas na rua continuavam a olhar, os braços na cintura, a cabeça balançando, um conforto religioso afagando-lhes o pensamento.
quero um abraço, que me digam que sentem muito, que lamentam o repentino. talvez assim eu consiga me distrair um pouco do inevitável, porque os sentidos já me deixaram.

voltei a dormir. os dias seguintes devagar e estagnados.
o que mais me angustia é que a janela aberta por toda aquela noite continua fechada e os gritos, calados.
renderam-se, tal como eu (deiticamente), ao tempo.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

"pra você eu digo..."

gostava de assoprar as bolinhas de sabão e ver como estouravam facilmente. sabia que era tão passageiro como uma viagem de ônibus até itacuruçá naquelas férias de verão.
a bolinha sobe, diz que não quer nada, sente o mundo por alguns segundos e...
às vezes tentava pegá-las com a mão, mas era muito difícil! escorregadias, espertas, medrosas. as bolhas de sabãos conseguiam ser mais sábias que a menina.

ela, sim, deixava-se agarrar. aliás, jogava-se nas presas ferozes com a coragem nos olhos fumegantes. abria os braços como quem diz me abraça forte never let me go.
também surgiam, com isso, as vontades de eternidade.
quero que isso não se acabe, não não, como poderia deixar de ser isso para ser aquilo, como? fica, fica, não se esvai, não se deixe voar pela brisa até misturar-se e deixar de ser algo senão ela mesma.


corria. o céu em seu rosto, estrelas penduradas em seus cabelos. precisava alcançar o depois e guardá-lo dentro do peito como um grito que não, não quer sair. fica, fica!
preciso tanto de você como é, estático e brilhante. luz que pisca, mas nunca acaba. desejo de estar aqui agora eu você.

com um sim: estourou a bolha e viu as gotinhas d'água caindo no chão.

com um não: continuou a olhar a bolha esperta, que subia colorida a tentar alcançar o céu e tornar-se arco-íris.
-fotografia-

às vezes prefiro um talvez.

quarta-feira, novembro 18, 2009

sussurros em forma de olhar no gramado noturno.

- meu amor, a vida corre. -
aqui estou, passageira do orvalho,
contando as estrelas através das batidas do seu coração
esperando, calma e serena, o mundo girar mais uma vez
e as nuvens se transfigurarem como algodão-doce em mão de criança.
- meu amor, meu sussurro é silêncio que chora. -
olho suas mãos mal-feitas, as unhas crescendo tortas,
as notas do piano marcadas em suas digitais.
toca uma música?
isso, passeia os dedos pelo meu corpo e me faz acorde sem som.
a pele nunca fala. ela transpira.
- meu amor, preciso de oxigênio. -
que eu já não posso respirar esse ar ora doce ora contínuo ora amargo ora lúcido. porque me corrói, viver está me matando.
sinto cada estrela morrendo comigo, sinto cada lua iluminando meu túmulo.
- meu amor, o dia termina. -
e o silêncio vai silenciando. meus lábios tornam-se botões de rosa para nascer amanhã. cada gota de verdade se perde nos poros sem fim.

meus olhos chamam a aurora: a noite estrelada, os sussuros cadentes... morrem com o brilho cansado do sol insistente de cada dia.

quarta-feira, novembro 11, 2009

~

sempre associei a morte a um gosto. não consigo lembrar de mais nada agora, sentado neste sofá roído. nem dos seus olhos nem da sua pele macia e branca nem de nada. mas sinto o gosto. um gosto meio doce meio amargo meio saudade meio beijo, daquelas balas que enganam no início e depois se mostram sem a camada de açúcar.
no início, não houve lágrimas ou gritos. aceitei como um imposto de renda (ou se paga ou se é calado - eu me calei). vêm as cores do pôr-do-sol lamber os meus olhos como pesadas pálpebras terra e depois estou sentado na lua observando-a apoiada na janela.
a última vez em que vi você foi um até logo sussurrado aos bocejos. té, amor. levantou-se com o olhar triste, caminhou até a porta, apoiou a cabecinha na parede e piscou os olhos pra mim, distante, distante. você queria que eu levantasse, abraçasse forte e não a deixasse ir. mas eu não fiz isso.
depois você saiu com uma lágrima secreta, trancafiada a cem chaves. eu sempre consegui ver pela fechadura. não me movi. você era minha, não precisava me esforçar para continuar sendo.
como o clichê segue: você não voltou. quando recebi a notícia o sangue ainda estava fresco, lembro de correr até o local e vê-la jogada no chão, os braços agarrados a um livro de poesia. senti a ironia daquilo tudo.
não consegui chorar. voltei pra casa, apaguei as luzes, fechei as cortinas e fiquei só.
quando olho para a porta, vejo seus olhos.
o cheiro do repentino não sai do seu perfume, o gosto da morte rodeia meu tempo e o arrependimento me inunda por dentro e seca meu sertão.

terça-feira, outubro 06, 2009

i[m]und?ação!

luísa abriu os olhos e deixou que as gotas de chuva entrassem em si, ardendo como chama. estava deitada no meio da tempestada sobre nuvens de concreto e pensamentos ladrilhados. a vida corria tão difícil como aqueles livros chatos e intermináveis (pedimos à nossa doce consciência que nos libere do ardoroso fárduo de terminar de lê-los, que possamos fechá-los e deixar que a poeira leve a história para o fundo do armário).
as imagens vinham à mente como assaltantes armados. chegavam, sacavam a pistola e... às vezes roubavam tudo que tinha; outras, atiravam até o sangue escorrer pelos poros em dúvida de morrer ou apenas trazer a dor. ah, era difícil. naquele momento, ela apenas queria abaixar o tom de voz até chegar a um sussurro auto-piedoso: me ajuda.
a semana inteira havia se tornado tempo de opressão para consigo mesma. adoecera, e lhe pareceu que tudo à sua volta também se tornara doentio. todos os dias, incontáveis, ia para o trabalho. luísa era professora de matemática. já fechava a porta de casa fazendo contas, contava os passos e os suspiros que fugiam impetuosos do seu peito: ah-ah-ah! 1,2,3 [x] infinito cortado (não há tempo para suspiros (nem números)). dava suas aulas, voltava para casa e ia assistir à televisão ou ler um livro. sempre gostou das palavras, apesar de ter trocado juras de amor com a exatidão. seguia a vida normal, suando e transpirando, catando um tempinho aqui e ali no final de semana para ir ao cinema. mas então a doença veio e avassalou sua vida.
teve que ficar de cama durante uma semana. e, nesse tempinho, luísa resolveu ver todos os noticiários que nunca havia visto antes (era só novela, ora essa). cada vez que uma notícia surgia, ela abria bem os olhos e prestava atenção, afinal, não é que todos dizem ser importante ser bem informado? também vou ser!
conforme as horas foram correndo, mais se fixava na cama, mais apertava os dedinhos embaixo da coberta. descobriu um canal pirata na sua televisão, um bandnews que às vezes surge mal sintonizado. prestava atenção em cada mínimo detalhe, em cada parêntesis ou vírgula que as imagens cotinham.
começou a ser o que via. quando as milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares de crianças passando fome na áfrica apareciam por meio de palavras ou com a cortante presença física, luísa sentia a dor crescer e fervilhar dentro de seu peito. o estômago roncava e pedia comida, por favor, só um pouquinho, dói tanto, quero um pedaço de pão. mas nem migalhas vinham.
quando a favela aparecia, escutava os tiros rompendo do seu lado e um medo terrível perpassava todo o seu corpo. medo medo medo medo medo de morrer e nem saber por que de onde para onde como. apenas a culpa no final, e os homens de cinza com olhares de lei nos olhos espancando com porretes de falsa moral a vida que corre sem sentido para os corpos jogados nos rios no fim de tarde.
de repente os trabalhadores sendo explorados, reprimidos, sem tempo para criação ou verbo-ser. a identificação foi real. e todos os momentos abusivos se tornaram raízes por seu corpo e deram frutos de raiva e indignação.
morte, corrupção, fome, violência, repressão
- alienação?

luísa estava deitada no meio da rua olhando para o céu. queria sentir aquele chão cheio de petróleo e lembrar-se que o suor do povo estava enterrado ali. seu suor também estava, cravado e escondido, bem ao lado do da sua vizinha, dos seus amigos de trabalho, do senhor carlos, dono da vendinha de legumes que almoça para não jantar.
sua vida não poderia continuar como era antes. não depois de toda absorção e luz que ganhou graças ao que a sociedade chama de doença. a doença que teve fê-la sofrer, mas arrancou toda miopia, astigmatismo e catarata que tinha nos olhos.

a semana seguinte seria ... forte.
suas mãos agora são sangue pulsante, força que lateja e não pára.
sabia que tudo estava errado, e uma reciclagem aqui e ali não bastaria.
é preciso jogar tudo no lixo!
e criar vida nova.

domingo, outubro 04, 2009

janela entreaberta.

abri os olhos e você me olhava. amêndoas arco-íris pedindo pr'eu cantar uma música de ninar. dorme, meu bem, que o tempo lá fora nos espera, dorme, meu amor, que a vida nos exige, e o caminho é longo, descansa agora enquanto eu mexo nos seus cabelos de poesia infinita.
len-ta-men-te, você se deixou embalar pelo meu canto sereno. por um momento, pude ver a fragilidade da sua respiração leve e cheia de vida. quis sentir como você sentia. o ar entrando, saindo, paz.
cobri seu corpo macio e delicado e sentei no parapeito da janela.
olá, estrelas.
milhares de pontinhos brilhantes acenavam para mim. são os vagalumes da eternidade. eu poderia ficar ali até os fins dos tempos, tecendo, sustenido por sustenido, a doce melodia que é viver.
você bocejou sonhos. eu costurava o dia. quando a manhã chegasse, certamente o raio de sol mais forte despontaria seu rosto para um sorriso girante, como o girassol.

mas um chamado vindo de fora da janela me assustou. moça dos cabelos de corda e dos dedos de harpa! não sei de onde veio ou por que me tirou a tranqüilidade: abri as asas e voei com o orvalho caindo dos olhos, deixando tulipas nascendo por onde passava... para o azul do mundo lá fora.
quando você acordou, apenas a música ficou presa no quarto, e aquele gosto de mel-primavera querendo voltar a ser doce.
no chão, uma estrela caída ainda cintilava.
-(era um vagalume ferido)-

segunda-feira, setembro 28, 2009

até.

é tudo mentira. mesmo que todas as lágrimas que cantam para o meu sono vir secassem, eu ainda estaria de joelhos para o espelho, tentando enxergar um pingo de chuva no chão refletido.
nada é como o querer. por isso a invenção, essa magnitude viva de construir cidades inteiras com o meu desejo (e depois desabá-las com apenas um sopro de realidade). sabe, como se o que existe me doesse ou não me bastasse, como se eu quisesse mais, como se eu precisasse de um abraço longo e demorado que me arranhasse até a alma.
porque tudo é tão difícil. parece redundante falar isso quando as palavras já me são tão duras, quando você vira a esquina e leva consigo o olhar e o meu sentimento. e ele é maleável, deixa-se carregar fácil, é doce e sereno, e tem medo.
eu sentei no chão para sacudir um pouco as estrelas do céu com meu olhar delirante. vi que você estava perdido. também estava. mesmo nós dois estando com as mãos atadas como asas que voam e não voltam mais.

cena 1:
- você viu?
- o quê?
- uma estrela cadente.
- seus olhos?
- não, lá no céu.
- seu sorriso.

cena 2:
- você viu?
- o quê?
- os fogos explodindo no céu!
- não, não vi.
- ah.
- já é tarde, você está alucinando.

mas as estrelas, e o ar rarefeito, e o sereno... nunca é tarde para se agarrar às luzes que atacam meu coração. depois você levantou devagar, foi tragar um cigarro no banquinho ao lado do portão.
eu precisava tanto, tanto. ao mesmo tempo em que precisava do lado oposto. queria gritar me dá a mão; ou vai embora.
talvez eu realmente estivesse alucinando, porque comecei a rezar baixinho que deus me salvasse daqueles momentos, que o dia viesse logo e que tudo acabasse. que tudo voltasse ao normal, que eu fosse novamente luísa e não luzia sem luz.
esses são os momentos de pesadelos que se aliviam logo após acordarmos e descobrirmos que nada era de verdade. mas aquilo era real: você sentado distante na pedra, os pulsos finos e tatuados, a cicatriz dolorosa nos olhos.
cravei as mãos na terra e te esqueci. era melhor agora chorar escondida, dentro dos armários, a me encarnevivar.
levantei como uma senhora e cheguei perto: - beijei o ar carbônico que saía de você, tão mortífero quanto o olhar que trocamos.

entrei em casa e tranquei a porta. fui dormir, como se acreditasse que acordaria no dia seguinte com a saborosa lembrança distante do sonho.

sábado, setembro 19, 2009

_

tudo não passa de um olhar para dentro
e de perceber que há uma cadeira vazia,
pedindo pr'eu descansar.
meus pés estão tão cansados,
de correr pra não sei aonde.
parar é preciso.

minhas roupas já tão amarrotadas,
meus sonhos saias de algodão.
a música que toca me deixa tonta
mesmo sentada sinto o cansaço do mundo.

escondida, me guardo
nas páginas que não podem ser lidas.

quinta-feira, setembro 03, 2009

descoberta.

pura e simples,
a gota de orvalho me faz flor.
desce dos cabelos e planta sementes
no pensamento chuvoso.

coloridos são os olhos,
formadores de lacrimosas pontes,
deliciosos suspiros de madrugada passada.

de água o corpo é todo doce,
misturado ao sal das piscadas silenciosas,
pausa fora mundo dentro.

se eu voar
as gotas me choram,
mas não secam:
- escorrem, lentas,
tornam-se cobertores-retalhos de mim.

me dá um gole.

esse céu, as estrelas, seus olhos
são a bebida na escrivaninha
ao lado do papel.

o líquido multicolor
borra a folha em branco
e forma um pássaro colorido.

não preciso de palavras
para ler a poesia que do vidro escorre
e crava o vício nos lábios secos.

gatilho.

de repente você sacou a arma,
e, com um tiro,
arrancou toda minha vontade.
me deixou perdida,
fora do espaço entre nós.

fui para longe,
onde a pólvora não tinha força,
morta e com a bala pesada nas mãos.

joguei no lixo a minha tarde,
o pôr-do-sol,
todos os pulsos que me nutriam.

o sangue-sentimento é doce,
mas agora só sinto um gosto
salgado queimando minha face.

a dor voa no ar
como estalo sinfônico.
eu caio no chão
como silêncio de pausa.