terça-feira, abril 28, 2009

na minha [casa], eu [m]i[nto].

você me deixou de joelhos
no altar da igreja do mundo.
um anel de pensamentos no meu dedo,
um anel de sonhos enferrujado no chão.

partiu rasgando meu véu,
arrastando-o pelas escadas sem fim.
caíram lantejoulas feitas de pele
pelos degraus cada vez mais átomos
que você ousou descer com pressa sorrindo.

meu deus! - um grito.
fui cortada ao meio pela música
do órgão que não cessava.
as notas invadiram minha voz!
e, ao levantar-me, cantei,
enquanto jogava o buquê de folhas secas para o alto,
bem alto, infinito,
______________ não volta mais!

corri.
corri de-ses-pe-ra-da-men-te.
pelo tapete vermelho rasgado.
meu vestido se ia dissolvendo,
sumindo, deixando de ser.
até me criar nua.
nua em completo,
sem lágrimas, sem vastidão,
sem anel, sem mim.

rolei pelo caminho,
grudando ao meu corpo as pétalas que não caíram.
meus olhos respiraram o céu de fora,
e chorei um choro de falta,
ao tocar na água limpa
e não mais ver seu rosto de noivo-mulher.

quinta-feira, abril 23, 2009

em um segundo.

Sinto falta daquela brisa. Aquela que trazia junto consigo as gotas do mar e um pouco de cada pessoa. Gostava de ser tocada por cada pequena parte de cada grande sentimento. Eu me sentia viva, dentro do mundo, dentro do mínimo que se maximizava quando me nutria. Mas girou o uni_verso em_versos in_versos...
Um grito dentro de mim silenciou: volta. O vento tornou-se vácuo, o mar tornou-se sal. Fiz o meu casaco de balão e soprei soprei soprei. Precisava inventar o ar. Mas não sabia para onde ir. Porque não havia mais onde ou quando. Apenas... as minhas pernas fora do chão e o meu corpo flutuando pelo céu azul.
Reparti os meus cabelos ao meio e fiz um lápis de fio molhado. Desenhei, em uma nuvem, uma janela para o passado, e minhas lágrimas, ao vê-lo, inundaram o mundo. Criaram novos oceanos salgados, com peixes brilhantes carregando sinais de trânsito e de todas as dores do mundo. Peixes verdes, amarelos e vermelhos, que se esbarravam por todos os lados.
Não consigo compreender ainda como tudo tornou-se o agora. Mas é. E o que vejo me invade e se torna parte de mim tão perfeitamente. Não posso nem ao menos fechar os olhos, porque os peixes não têm pálpebras e a visão deles é também a minha visão. Meus olhos são caleidoscópios invertidos e milhares.
Quando pousar os pés de sapatilha arco-íris na terra firme ou na areia movediça, preciso conter minhas gotas infinitas. Porque já irá ser hora do sorriso girar as flores-cataventos ao redor da vida.
E eu serei a sereia da brisa que voltou a habitar minha face.

quarta-feira, abril 22, 2009

expressão da falta que é sempre preenchida?

há pessoas que têm dinheiro,
há pessoas que têm amor.
eu não tenho nada disso:
tenho medo.

o dinheiro de nada me vale,
prefiro as notas em que escrevo.
e o amor...
esse não se tem.
se sente.

por não ter nada
que normalmente todos dizem ter,
tiro os óculos do mundo
e deixo que me vejam puramente embaçado.

o meu medo é feito de cartolina,
com canetinha e colagem de cordel
e está guardado profundamente
dentro das minhas palavras,
que, você sabe, são sempre silenciosas.

medo ao avesso.

tudo o que sempre quis foram pétalas.
coloridas, secas, vivas.
cada cor dentro de um baú:
guardá-las é parte do meu sonho.

mas a vida soprou-as para longe,
para além do meu jardim.
e minhas flores antigas
tornaram-se nada mais que botões sem tempo.

colei todo orvalho pelo meu corpo
e me fiz flor por um momento.
meus cabelos tornaram-se as pétalas,
e minha alma gritou: eterniza!

terça-feira, abril 21, 2009

Abstrato.

caiu o seu retrato da parede
e sua face espalhou-se sobre o chão da sala.
suas expressões correram para os cantos
e guardaram-se nos buracos dos sentidos.

corri atrás do seu sorriso,
capturei-o na tocata de sua fuga.
beijei, amei e senti:
joguei-o no bolso da arte.

comecei a pintar um quadro difuso,
onde coloquei o seu sorriso
no centro do pensamento.

delineadas as linhas,
coloridas as formas,
seu sorriso chorou
por falta de todo
e solidão expressiva.

domingo, abril 05, 2009

a terra é plana.

quero chorar.
agora.
o completo mar que está dentro de mim.
colocá-lo para fora em um grito que afogue o mundo!

pois minha mente já está inundada,
e os sentimentos flutuam pelas minhas veias,
como uma navegação desequilibrada e caótica,
perdida no oceano eterno de vida submersa.

respiro.
e a água penetra meu coração,
enche meu corpo tão completo
de sal e areia e marfim.

a escuridão me toma,
me beija, me escolhe,
me silencia.
é surda, muda e cega.
me quer amar e perder.

mas quem se perde sou eu
na linha do horizonte,
sem antes nem depois,
caindo na idéia do velho mundo...

de que o mar acaba em um abismo sem fim.

segunda-feira, março 23, 2009

eXtereótipos.

o que são minhas mãos,
senão pedaços de vidro
transformados em areia?

e meus olhos dois grandes oceanos,
ora castanhos, ora sem cor...
salgados e violentos como o mar.

sou mão e olhos...
arte e alma.
criação e sentimento.

minha duplicidade é forma,
vida e existência.
é a prisão para o que expresso,
sinto e... sou.

beijo o mundo com as lágrimas
que correm dos meus olhos
e se esparramam em minhas mãos.

toco os átomos invisíveis,
suas nuances e segredos:
sinto o mundo com minhas digitais.

tudo é membro e órgão
até a noite raiar,
quando os olhos se fecham
e as mãos enluvam-se em cetim.

quarta-feira, março 11, 2009

ciclo momentâneo e vicioso.

Estava caminhando e o mundo me doía. As pessoas desfalecem, sofrem, sangram, enquanto dou mais um passo à minha casa. Cada pequena formiga é pisoteada por minhas células gigantes, por meus sentimentos miúdos. As bactérias sãos inspiradas para dentro de mim e, talvez, quem sabe, passem pelo meu coração devagar. Tumtum, tumtum... tum... tum... tum.
Eu nunca soube. Ou nunca quis saber. Não que isso me faça importância agora, rastros do passado distante. Entro em casa e jogo-me no sofá. Tenho medo, um medo egoísta de encarar qualquer coisa à minha volta. Por isso, bem sei, sou encarada. Tornei-me passiva, não sou mais agente dos meus atos. O controle remoto fixa seus botões em minha alma remota. Ele quer se mexer, gritar, implorar! Mas não pode. Ele não faz parte da crueldade da natureza. Não, nada disso se lhe é verdade. Enquanto eu, ah, eu desejo ser contida imediatamente, desejo não ter opções. Desejo não ter desejo.
Mas sinto-lhe pena e tudo volta à minha mente: a menina suja, por favor, dinheiropãoáguavida! Eu passei, mas uma parte de mim ficou parada ali para sempre, naquela dor tão completa... até ser consumida profundamente pelas pessoas que não se dividiram como eu (pessoas retas, certas, pessoas uma só). E aquilo me sugou. Como tudo que já me vinha sugando há anos, corroendo a essência que habita dentro de mim. Mas aquilo, aqueles olhos implorativos, aquelas minúsculas mãos cortadas, aquela alma que pede, obsequiosamente, que lhe dêem algum sentido!

Meu deus, estou chorando! E como choro pelo meu egoísmo, que foi transformado em medo. Não tenho coragem de pegar o controle remoto e ligar a televisão e deparar-me, ah, com o caos de sentimentos, de perda de fé, da realidade que tanto me abala! Como posso, como? Muito menos tenho acapacidade (força!) para comer, tomar banho ou dormir. Não sei como estou respirando. Não me consigo mover. Não, tudo que me lembro é do beco escuro e da menina e do cheiro e do sabor salgado. Sou incapaz de recordar mais. Talvez aquela senhora...
Não, por favor, não! Não me lembre de mais. Ah, mas eu sei. Eu estava cega e, por isso, conseguia ser feliz. Eu era como Tobias, meu cachorro que está brincando com a bolinha de borracha neste exato momento. O mundo é esse brinquedo, que pode ser mordido, rolado, chutado, ser feito pleno dentro de uma plenitude relativa. Não importa, o mundo é todo seu, e de mais ninguém. Ele rola atrás da bola... ladra, pula, lambe. Ah, Tobias!
Mas sou humana, e sou gritantemente culpada por sê-lo. Fingi ser inocente, quando tudo se passava em flash em volta da minha bola de borracha, soltando faíscas claras e queimantes em cima de mim.
O que eu sou, senão o símbolo maior da culpa? Do conformismo e da falta de coragem?

Tudo é falta, na situação em que me encontro. Agora, aqui, sentada e paciente, vejo com a visão real como minhas paredes estão descascando, como os pisos de madeira estão corroídos pelos cupins. A vontade de gritar é estridente e sobe à garganta.

Mas eu não grito. Sou muda. Vejo e escuto, mas não solto o que senti. Não expresso. Tenho a catarse, mas a epifania é só minha.
Egoísmo.

A visão de tudo aos poucos volta a clarear. Acalmo. Acalanto. Ligo o som e escuto a música leve que me faz ter vontade de dançar.
Canto.
Sou folha, pena e nuvem.

Tudo passa...
Esqueci.

Há algo para lembrar?

Fui dormir e acordei ansiosa com o final de semana que vinha pela frente.

menina, beco, dor, fome...?
vocábulos não inerentes ao livro da minha vida.

segunda-feira, março 09, 2009

íris.

às vezes abro os olhos,
mas não vejo o mundo.
não sei o que vejo,
mas sei o que sinto.
- E é forte.

as pessoas dizem
que meus olhos não existem.
é só brancura.
Eu rio.

o rio flui.
dentro de mim as águas voam
e me chamam.
Não, não quero me afogar!

quero apenas ser,
não o mundo!,
mas o que sempre fui.
Apenas.

assim foram percebendo
que meus olhos estavam ali.
e que a íris tão colorida
só poderia estar voltada
para dentro de mim...

quinta-feira, março 05, 2009

retina.

sinto minha falta,
quando abro as janelas
e rasgo as cortinas.

o céu azul me encara,
me zomba, me mata,
me chama.

vem, menina,
vem voar em mim.
solte seus cabelos estrelados
em minha pele escura.

tenho medo!
- eu grito.

medo de quê?

de desexistir.
de ser apenas luz vista
daqui a milhões de anos
pelas pessoas de mãos dadas
na grama verde-escura da terra.

tudo se transforma,
reluzente pequena.
sua luz se tornará eterna
enquanto houver pessoas
para vê-la e senti-la.

e depois que todos se forem?

restará a poesia
que está sendo escrita
por uma parte de você,
que é luz e eternidade,
escuridão e fim.

ah!

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

uma piada sobre mim.

Agora eu compreendo muito bem o meu medo, o meu pavor perante a tudo que demonstre ter falta de sentimento ou vida. A verdade é tão exata, tão completa e infinita. A minha verdade, a verdade sobre o que penso, sinto e... permuto. Tudo parece agora de uma claridade crescente, como se eu tivesse colocado um par de óculos e enxergasse tudo tão mais completo.
Você nunca foi a razão de minha mudança, Vitória. Nem um pouco. Agora, após um ano do seu abandono, sei com a certeza mais certeira. Ah, como adoro redundâncias. Não sinto sua falta, não a amo e nem ao menos consigo lembrar como foi a sensação de tê-la amado. Você consegue sentir a veracidade dessas palavras? Nunca fui tão sincero. Mas nada disso é sobre você.
É sobre a minha descoberta. O sentido do meu desespero. Como agora sei os porquês de muitas das minhas perguntas, porém sem saber suas respostas. E como eu costumava chorar, enquanto tremia interminavelmente... nos seus braços. Você não entendia. E eu não conseguia explicar. De maneira alguma. Como poderia? Eu não conseguia gritar o quanto eu precisava de você, o quanto sua simplicidade me comovia, o quanto eu a invejava. Eu queria sentir o mundo como você sentia! Como todas as pessoas sentiam! Eu tinha ódio de todos, de cada pequena alma que sorria com o raiar do sol e andava calmamente de bicicleta pelas ruas quentes.
Achavam que eu tinha problemas psicológicos. E eu achava graça dessas pessoas. Invejava a sua falta de conhecimento e queria, por um momento, transportar-me para dentro de algum pensamento simples... O que comeríamos no almoço?
Mas eu não conseguia, prendia-me dentro do meu niilismo sem fim. Que paradoxo, não é mesmo? Niilismo sem fim. Que seja. Eu prendia-me a isso.
Mas quando conheci você, o amor surgiu-me mais uma vez, após tantos anos enclausurado na minha adolescência risonha e, ah, tão simples! Por alguns momentos, eu achava que conseguia esquecer de tudo. Ah, Vitória, eu conseguia sorrir verdadeiramente. Por alguns minutos eu conseguia apagar da minha alma cada detalhe de cada pensamento soturno que invadia minha mente e controlava-me sem piedade.
Por isso, agarrei-me tão profundamente a você, como se sua chama de felicidade e falta de realidade me aquecesse. Você consegue entender? É claro que não.
Mas cada vez mais comecei a descobrir o meu medo. Inicialmente achava que não me importava com nada, que minha vida não merecia existir. Isso tudo não era desespero, era aceitação. O desespero veio realmente quando apaixonei-me pelos lugares, pelas pessoas, por minha imagem no espelho, pelos livros, pelos filmes, pela sonoridade deliciosa de Chopin! Quanta coisa, quanto sentimento. E a cada vez que tudo acabava, que eu fechava um livro, que eu desligava o rádio, que dava adeus a alguém, uma dor insurpotável apossavasse de mim. E à noite tudo voltava à minha mente, aquela filosofia incontrolável, aquela metafísica que, se eu pudesse, estrangularia até vê-la sangrar e sumir do mundo.
Mas eu não podia agüentar isso tudo. Essa felicidade era muito mais dolorosa do que a minha indiferença. Vai acabar, eu pensava. Vai tudo mudar. Em um piscar de olhos.
A mudança começou quando você me deixou. Você não foi a causa. Não, não você, Vitória. Mas o que sua imagem representava para mim. Veja bem, você me proporcionou o amor que me proporcionou felicidade que me proporcionou vontade que me proporcionou o esquecimento que me proporcionou a capacidade de sentir o mundo que me proporcionou o desespero porque tudo...
Tudo é tão mutável.
O meu medo é simples. Percebo-o agora. Pode ser até mesmo um medo comum. É com toda certeza melhor sentir esse medo do que sentir o nada propriamente dito, o ermo, a falta de sentido todos os dias, a cada segundo.
É muito melhor enlouquecer de despero do que de razão.

Você não me compreende, não é, minha querida Vitória?
Certamente você sente medo do desconhecido, medo do que vem após.
Mas não se deixa dominar.

Não, não se deixe. Por que deixaria?

Não quer acabar inventando uma mentira como essa que estou inventando. Inventar uma pessoa, inventar sentimentos e sentidos, para que consiga fugir da absoluta falta de algo. Por que inventar que sente a vontade?

Sou realmente um desesperado e invejoso.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

//

Eu nunca imaginaria, nem por um segundo, a imagem que tenho de mim mesma agora. Nem por toda a certeza no mundo, nem por uma vidente que sempre acertasse.
Como cheguei até aqui?
Parece que, de tanta absorção, eu tornei-me um grande espaço em branco. Algo inacreditável, uma muralha de sentimentos.

Há uma voz na minha cabeça repetindo repetindo repetindo repetindo: isso é errado. isso não é normal, como poderia ser? que inocência, que sonhos, que sentimento! isso não existe. e tudo que sai da sua boca não é aceitável, não é plausível. você não pode ser assim, não, meu amor, não, minha querida.
E essa voz parece ser a de uma senhora. Uma sombra com um véu nos cabelos grisalhos. Se eu conseguisse dizer o que me está apavorando, o que me deixa sentir como a pessoa mais enclausurada em um canto que jamais existiu...
Mas não haveria entendimentos. Só a certeza de que há algo errado. Algo errado comigo. E com o que eu sinto. O que eu sinto mais profundamente. E o quanto eu sei que é inacreditável que eu possa sentir.
E eu tenho medo de deixar tudo cair, de retrair-me, de deixar-me desacreditar e achar que estou errada. Que tudo realmente não pode ser assim. Há de ser de outra forma, por favor. De repente, pode reaparecer a sensação de completo vazio. Mas um vazio pode ser completo?
Não quero lembrar do vazio. nem um pouco.

Sou sozinha. Sou sozinha mais do que qualquer pessoa cogite adivinhar. Sozinha dentro de mim, dos meus pensamentos jamais revelados e da dor que sinto por ser. Por isso agarrei-me tão fortemente à grande luz avassaladora e quente e que me fazia sentir sede.
Não existe o saciar-se.

Mas eu não quero explicar a minha solidão.

O que eu quero explicar é que finalmente consegui. E sei que não consigo mais que isso. Nem um pouco mais, nem com ninguém!
E isso é difícil de entender. É difícil para uma pessoa que não eu...

Por isso.
Ar.
Por isso quando escuto que há algo muito errado com tal sentimento, eu tenho medo. Pois é tudo que eu sinto.
Então tudo foi um erro.

E eu nunca deveria ter sentido.
Porque não há outra forma, para mim, de sentir.

sábado, dezembro 27, 2008

o canto esquerdo da sala.

tudo que surge de racionalização
tudo que surge das asas de um anjo
nada que não venha da sua parte mental
nada que seja tão escuro quanto o céu

é a simples caída de pétalas
o piscar de olhos infantis
o sonho que, apenas em sua natureza, alimenta de cores.
Os sinos que tocam por seus lábios:
- um beijo que voa com o vento

até,
em encontro,
tocar
os meus lábios:
- smack !

sou uma assasina, em fase de cogitação:
mato seus olhos com sangue em pensamento. Se escapa-se-lhe a faca, que em 2 gumes lhe corta a face, cairia em vida, pela morte que deixou.
Sinais de trânsito e de todas as dores do mundo.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O anel que tu me deste era vidro e se quebrou...

Se pudesse, teria apertado o coração. Se pudesse, realmente, teria feito tantas coisas... Levantar, jogar os travesseiros pela janela e sair correndo pela rua. Queria apertá-lo para senti-lo, pois agora ele batia de uma forma avassaladora e ela tinha medo que aquilo fosse momentâneo e que estivesse gastando a bateria que nunca se renova.
Eles estavam em um restaurante à moda antiga, com violinistas, mesas com pano vermelho e rosas por todos os lados. Mal chegaram, ela quis ir ao banheiro. E que banheiro! Espelhos gigantes e com bordas francesas, todo dourado, pinturas na parede... Ela passou a mão por tudo, por tudo, apesar de sentir o vidro (e não a realidade) tocar seus dedos. Aquele tinha de ser o dia mais feliz de sua vida! (se o banheiro era daquela forma, imagine o que mais estava por vir!) Sorriu devagar, com um certo ar de realeza. Passou a mão pelo seu corpo e suspirou. Era linda.
Voltou para a mesa. Ah, queria-lhe dizer tantas, tantas coisas, que cada palavra poderia ser o infinito mais um. Passou a mão pelos cabelos e sua voz soou estranha e com vontade própria.

- Estou muito contente por ter-me trazido aqui - Não! Não era assim que devia ser, não eram essas as palavras que pretendia dizer. Ela queria gritar e pular-lhe no pescoço! Emoção, meu deus!

- Faço de tudo para agradar-lhe, meu amor - Ele correspondia, oh, com toda a alma. Seus olhos verdes eram os mais lindos do mundo e tinha certeza que uma surpresa (prevista) aguardava-a.

A comida chegou. Não lembrava de ter pedido peixe. Não, devia haver algo errado. Ela não gostava de peixe. Gostava de massa. Por que estava comendo peixe? Não importa, não importa. Ele está ali, com ela, e tudo parece eterno. E ela estava tão linda, tão perfumada (com aquela aparência, imagina-se o cheiro suave, como em uma sinestesia) e os momentos eram perfeitos.
Só sentia-se confusa com as conversas sobre lembranças, férias de quatro anos atrás e passeios caros e divertidos. Devia ser o vinho. Nunca gostou de vinho branco, mas parecia combinar perfeitamente com o peixe, então deixou-se beber. Sentia-se como se não tivesse escolha.
E talvez não tivesse, pois queria continuar sentada, mas dirigiu-se novamente ao banheiro. Foi retocar a maquiagem e fazer uma ligação importante, simples, falou automaticamente e nem prestou atenção ao que estava sendo dito. Lavou as mãos delicadas (esmalte rosa claro, que maravilha) e voltou ansiosa para o seu amado.
A iluminação do restaurante estava mais escura, e achou isso um pouco estranho. Talvez estivesse com dor de cabeça, quem sabe. Mas e daí? Os violinistas aproximavam-se e ela sentia o que estava por vir.

- Meu amor... você é a pessoa mais especial para mim, amo-a de todas as formas possíveis, gostaria, neste momento, de pedir-lhe em casamento - ajoelhando-se, abriu uma caixa com um anel de diamantes dentro.

Tocava uma música melódica e romântica ao fundo, quando...

Blackout.

A casa inteira apagou-se. Um homem pelado saiu do banheiro aos gritos, dizendo que a água estava congelando, e que a mulher sabia porque sabia que não podia deixar a luz acesa com o ventilador e a televisão ligados, enquanto ele toma banho. Ela estava paralisada ainda, em choque, com os lábios entreabertos, como se fossem proferir algo, mas não conseguissem. O homem ligou para o síndico, aos berros, dizendo que a casa não tinha luz e virou-se para a mulher reclamando que demorariam dez minutos para mexerem no relógio, e, pelo amor de deus, ele teria que ficar emsaboado até a água quente voltar. Resolveu ir para o quarto.
Ela ficou sozinha, olhando para a televisão, as mãos sobre as pernas, tímidas e piedosas. As unhas não eram rosas, mas sujas e roídas. Dez minutos. Não haveria mais casamento. Ela não aceitou. Ela não conseguiu aceitar. E agora estava na completa escuridão.

Uma lágrima saiu de seus olhos, quando as luzes acenderam-se. Ligou a televisão rapidamente, mas já eram oito horas.
E eles viveriam felizes para sempre.

Resolveu ir passar roupa.

domingo, dezembro 14, 2008

Peças atrás.

Não existe mais nada agora. Nem um pingo de água, nem um milésimo de poeira, nem um átomo. Eu limpei tudo, cada vestígio de pegada, todo pequeno som que se escondia atrás da porta e embaixo dos tapetes. Rasguei as cortinas do meu quarto e abri as janelas.
Tão profundo.
Vi as pessoas passeando pela rua e achei-as tão belas, tão felizes, tão humanas. E eu, ah!, eu passava as mãos pelo meu pescoço e tentava não arranhar minha alma. Porque eu queria, naquele momento, acabar com tudo. Jogar-me da janela, gritar, impedir! Sonhar.
Eu descobri que nunca precisei de nada. Por isso acabei com tudo. Mas agora tinha inveja. Completamente. Queria ter a pele menos pálida e mais viva, queria ter meias vermelhas e poder correr pelo parque aos domingos e não, não de novo. Eu quebraria os balanços e as gangorras. Tenho certeza.

Puxem as cortinas, por favor!

Estão rasgadas.

Eu rasguei-as. Para que não me tentasse a puxá-las e esconder o mundo inteiro de fora. Porque tudo que eu consigo fazer agora é olhar para minhas mãos (e ainda assim achá-las estranhas!) e perceber o quanto são minhas. O quanto têm curvas e linhas e desenhos e o quanto de mim está ali. E se eu olhasse para a mão de qualquer outra pessoa, iria querer gritar! Gritar de susto, de vastidão e de distância. Não, não posso ser tocada.
Depois que você abriu a porta e bateu-a, vi você acenar da rua para mim e achei seus dedos mentirosos e mesquinhos. A verdade é que você não acenou e não havia dedos com sentimentos. Você nunca existiu. Os sapatos com que eu gritava todos os dias nunca conheceram o mundo. E eu sempre reclamava que empoeiravam a casa e que não conseguiam ficar embaixo da cama por nem um dia! A poeira era falsa, criada. Escrita? Totalmente.

Eu tornei-me algo mais que não eu. Fingia todos os dias e imaginava. Até… até não sei quando. Lembro-me apenas de você (quem?) ter quebrado o espelho e também minha realidade. De ter-me deixado sozinha verdadeiramente. Sempre estive e agora sei. Quando o sol descia, e íamos à beira da praia, sentia-me plena, completa e feliz. Deve ter sido tudo apenas uma armadilha do mar e daquelas intermináveis ondas que me sugavam o olhar para o horizonte e para onde parecia ser o coração do mundo.

Por que minhas mãos têm vida própria e assustam-me? Parecem tão fora e tão dentro de mim ao mesmo tempo, como se uma fosse parte do tudo e outra parte do que sinto. Se é que o que sinto existe. Pois metade de mim já se provou desexistir.

Não há solução para agora. Tudo parecia tão meu, tão perto, tão… tocável, de todas as formas.
Tudo que eu queria era poder puxar as cortinas e impedir o ar contagioso de entrar por entre a janela. Mesmo que a feche, ele entra por imagens e impregna meu quarto de sorrisos e sentimentos milhares.

Por isso, mais uma vez repito, rasguei-a.

Você nunca mais entrará pela fechadura e me trancará. Tudo está aberto. Não! Não quero mãos e dedos diferentes e cheios de vida entrando. Não!
Arrependo-me, não tenho mais cortina, não tenho!

Quando a realidade real toca minha realidade imaginária, tudo que posso sentir é medo.
Que pelo menos esse sentimento seja real.

sexta-feira, agosto 22, 2008

repentino.

Não que seja um ressentimento, não, é menos que isso, é uma indiferença total. Uma entrada pela porta, um bom-dia casual e causal, tão automático, um suspiro longo e demorado. Os olhares eram trocados, mas olhavam para o absoluto nada, não era sobre essência que existiam, mas sim sobre forma. E a forma também era deformada, apesar de ainda guardar um resquício de lembrança longínqua.
Não sei quando deixei de amar (não há você, nada transita, tudo sempre foi), simplesmente. Mas um dia você sorriu para mim e eu não quis achar graça. Veja bem, eu achei. Mas não quis. Uma força dentro de mim dizia que não havia nada do que rir, enquanto meu cérebro maquinava os músculos em uma expressão única de alegria. Perguntava-me, então, por que você havia dito aquilo. Por puro impulso da forma ou realmente pela essência? Mas talvez você não fosse tão mesquinho quanto eu…
Indefinível. Sei que é. De todas as razões, não consigo encontrar uma que seja real. Lembro-me do sorvete, lembro-me muito bem. Eu queria de morango, e você de flocos. Depois trocamos as casquinhas, porque queríamos compartilhar até mesmo o gosto por sorvetes. Sabe de uma coisa? Eu nunca gostei de flocos. Nunca. E quis cuspir naquele maldito preto e branco que você empurrou tão impetuosamente para mim. Mas eu comi, comi realmente achando aquilo delicioso, porque os sentidos estavam-me enganando. Você sabe, os sentidos enganam demais.
Depois, quando voltamos pelo parque, eu tive os olhos brilhando quando você começou a gritar que me amava, que me queria e que eu era, que eu era, que eu era o amor da sua vida. Eu só conseguia gritar, que horror!, Você também!. Vamos nos casar? Vamos! Que grande idéia. E o que eu pensava sobre casamento, sobre ser-só, sobre a vida foi massacrado pelas suas ideologias altamente influentes. E banais. Sempre as odiei. Nunca pretendi casar-me com você.
Mas casei; foi pelo piano, unicamente, tenho certeza. Não posso negar o quanto amei e ainda amo os seus dedos corriqueiros, a melodia interminável e o fato de você não olhar para mim enquanto tocava. Você olhava para o instrumento, como se ele o fosse nutrir, como se fosse o porquê de estar vivo. Naqueles momentos, eu desexistia para você, e isso me fazia livre. Livre em mim mesma. Pois sentia falta de não ser compreendida e de ter alguém a quem não compreender.
Na verdade, talvez nunca tenha amado. Porque era dificultoso sentir, abraçar, possuir saudades. Sentia dor física para poder sofrer pela ausência, entende? Procurava necessidades para dar sentido às coisas. Elas nunca tiveram sentido algum. Você estava sempre feliz ou sempre triste, era tão irritantemente extremo. Enquanto eu apenas era. E era, e fui e fiquei.
Eu não sei por quê, mas não estou afetada. Nem um pouco. Não consigo nem ao menos chorar. E isso, finalmente!, está-me abalando. Sempre chorava com os filmes, mas não com a vida. Juro que queria chorar agora, bater com a cabeça, vomitar durante uma semana escondida no banheiro. Depois ter que ir ao psicólogo.
Não sinto nada disso. E por isso acho que nunca amei. Era tudo mentira. Mentira, escutou? Mentira. Acho que estou repetindo essa palavra para mim mesma há muito tempo. Estou quase inteiramente convencida.

Não se intrigue. Se eu não choro pela vida, por que choraria pela morte? Talvez esteja aí a minha resposta.

sábado, agosto 16, 2008

I e II.

I

amanheceu no mar
e sempre lá permaneceu
banhava-se nas águas azuis,
verdes e cinzas
e dormia na areia serena
das mil e uma conchas.

via o céu todos os dias
translúcido, vivo, relutante!
e tinha vontade de subir até ele,
namorar com suas estrelas,
e cantar com a lua
as infinitas serenatas de tristeza.

mas o mar, zeloso e imponente,
segurava a sua Iemanjá,
menina de suas pérolas,
namorada de suas ondas fabulosas.
não! durma, banhe-se, navegue:
o voar não existe.

e a sereia das mil pernas
teve seu amor pelo céu naufragado,
e das profundezas
não mais conseguia ouvir
a lua cantando sua solidão.

II

em um dia entre tantos,
uns bemóis invadiram a imensidão do oceano
e seus cabelos, membros e olhos
foram atraídos para a superfície
onde havia um violino
a suplicar juras de amor.

de todas as notas possíveis
ela apaixonou-se pelo si,
e se pudesse fugir
fugiria com ele para o mundo do sol.

mas o mar, bruto e horrendo,
afogou as notas,
as cordas e o violino,
que desafinou sua sinfonia,
desafiando a fúria dos amantes!

e a sereia quebrou as ondas
salvou o instrumento de sua paixão
e fez o mar adormecer,
em um contenido de sofrimento.

construiu uma ponte de partitura
e fez da clave de sol sua escada
e das notas os degraus
de sua liberdade!

A ponte levava para a lua,
seu amor eterno e sem luz,
Seu novo lar até o anoitecer
Onde tocaria melodias
sobre o azul do mar.

domingo, agosto 10, 2008

Por entre a fumaça.

- Qual o gosto da vida? - a doce menina perguntou e mexeu nos enrolados cachinhos que caíam por seus ombros.

E ela começou a pensar, a pensar, a pensar no gosto da vida. Ergueu as sombrancelhas, mordeu um pouco os lábios. O gosto da vida? Queria que a resposta resumisse-se a uma bala de hortelã. Mas a vida, a vida, a vida, como já dizia Cecília, é muito mais do que isso. Fechou os olhos profundamente, tão veloz que sentiu a luz misturar-se com escuridão. Lembrava-se da brisa das manhãs de sábado que nunca mais havia vivenciado. Aquela sensação eterna de que tudo perdura, tudo. Mas hoje sabe que nada o faz. Que verdade mais relativamente absoluta!
Não, não sabia qual era o gosto da vida! Não sabia nem mais qual era o gosto da manhã e da tardinha. O que vinha em sua cabeça era uma caixinha de música tocando aquela melodia que sua avó costumava cantar antes de ir dormir… nada de gosto, apenas o som magnífico…

- Eu… não sei. - respondeu a mulher, de porte forte e seguro.

- O gosto da vida é hortelã, bobinha!- a criança sorriu sapecamente.

Ela piscou os olhos muitas e muitas vezes. Hortelã? Ela havia pensado nisso! E lembrava-se desse gosto, tão forte, tão puro, tão cheio de significado. Tantas manhãs de sábado, pegando a bicicleta, voando pelas ruas, apostando corridas. Manhê!, me dá um real pra “mim” comprar chiclé na padaria! E riu-se por dentro, com a lembrança da doçura com que sua mãe, já falecida, dava-lhe uma moedinha pelo final de semana inteiro.

- Moça, eu não sei… - a menina voltou com sua expressão indignada de interrogação. - Juro que não sei!

- Não sabe o quê, querida?

- Não sei por que o céu é azul.

Por que o céu é azul? Se fosse há 30 anos atrás diria que é azul porque as fadas jogam pó de anil das nuvens. E quando ele chegava na terra… ah, ah! Ele transformava-se em oceanos e as fadas em sereias. Hoje em dia sabia da explicação científica sobre reflexão e ondas, mas como ia explicar isso à menininha? Ela nunca entenderia nessa idade, não, definitivamente. Por falar nisso, ela lhe lembrava alguém de sua infância…
Poderia inventar-lhe uma estória, a sua estória fantástica e pueril!

- Bem… ele é azul devido ao pó de anil.

- Pó de anil?! - ela arregalou os olhos.

- Sim! É o pó que as fadas jogam das nuvens, colorindo o céu inteiro de azul. Jura que não sabia?

- Não… - ela pareceu realmente muito surpresa. - Você tem um pouco de pó de anil?

- Não, mas sei onde você pode conseguir muito - segurou um pouco a respiração e prosseguiu. - Quando o pó de anil desce até nós, ele forma os oceanos e as fadas tornam-se sereias.

- Então, quando encosto na água do mar, estou encostando no azul do céu? - ela pareceu maravilhada.

- Extamente! E talvez um dia possamos ver uma sereia!

Os olhos da menina bilharam profundamente. Suas mãozinhas eram de uma delicadeza profunda. A mulher olhou o relógio algumas vezes e começou a jogar milho para os pombos que estavam ali perto. A menina parecia impaciente para fazer mais perguntas, e a mulher parecia estar esperando alguém importante. Enquanto isso, os balanços da pracinha, vazios, balançavam sozinhos, solitários, empurrados pelo vento. Os escorregadores deslizavam a poeira da terra e as gangorras estavam equilibradas, sem peso em nenhum dos lados.

- Para que servem os países? - ela explodiu, como se não agüentasse esperar de curiosidade.

Essa era uma pergunta sem resposta. Porque, até hoje, ela questionava-se sobre isso. Não sabia e ponto. Queria que tudo fosse de todos e sem mais conversa. Mas o mundo precisa de fronteiras, de guerras, de economia. O ser humano cresce e quer o que é seu, como se realmente a posse existisse. Que falácia mais acreditada.
Sentiu o peso de sua respiração e de repente lembrou de suas responsabilidades. E quis lamentar-se, pois pareceu-lhe que seu cliente não viria ao encontro marcado. Precisava, portanto, ir embora.

- Os países não servem para nada, menina. Apenas para causar conflitos egoístas.

A menina mordeu os pequenos lábios. A mulher sentiu-se tão hipócrita por aceitar tantas coisas e ter deixado seus questionamentos de lado. Levantou-se, pegou sua mala e fez um carinho na cabeça da menina.

- Qual seu nome, pequeno anjo?

- Luciana - ao proferir a palavra levantou-se e saiu correndo, dando adeus com as mãos e o rabo-de-cavalo balançando.

A mulher teve seu coração acelerado. Pôs uma das mãos sobre seu cabelo cacheado, e passou os dedos sobre ele, enquanto via a menina desaparecer por entre a fumaça daquela tão conhecida rua, agora inteiramente quebrada para a construção de um viaduto.

Agora lembrava-se de onde conhecia o rosto daquela criança.

quinta-feira, junho 19, 2008

Circunscrição Paterna.

Queria saber por quê. Um motivo, uma circunstância circunscrita.
Por que estava em frente ao espelho, escondido, vestindo-se como uma mulher, a maquiagem forte, o batom vermelho, as poses sensuais? E por que, alguns segundos após, sentia-se repugnado de si mesmo, cuspia em seu reflexo e começava a chorar?
Não sabia o que pensar, pois não sabia de mais nada. Apenas sentia o peso doloroso da consciência em cima de seus cabelos, deixados longos por motivos óbvios de gostos musicais. É claro que nunca se havia penteado os cabelos sedosos por horas seguidas, apaixonando-se por si mesmo a cada passada de pente, é claro, claro que não, simplesmente.

- Você não me pode impedir. Já tenho dezessete, o cabelo é meu. Quero-o assim.

E inicialmente fora por paixão ao rock. Admito. Ele queria parecer revoltado, queria conquistar umas meninas fáceis, queria ser, como todos o querem, diferente. Conseguiu-o. Usava uma jeans rasgada, com símbolos nada religiosos, apenas blusas de bandas estrondosas, óculos escuros finos e redondos e tinha uma tatuagem de uma adaga em seu pulso.
Seu pai nunca aceitara tal situação. Gritava, xingava, batia as mãos na parede. Seu filho parecia não importar-se. Ah, mas se importava! Muitíssimo. Aquilo tudo era apenas carência afetiva, de fato. Mas como as pessoas são cegas…
A situação agravou-se quando o lápis de olho e o batom negro vieram à tona. Seu pai agonizou. Todos os dias, sem falta, desde manhã até a noite jogava indiretas bastante diretas. Mas ninguém vive somente de olhares enviesados.

Chegou o dia em que, colossalmente, o homem explodiu:

- Mas tu é um gay de merda.
Um gay de merda.
Um gay de merda.
Tu não é meu filho, diabo!

O garoto riu-se. Gay, ora se fosse! Riu-se ainda por todo o dia e mais além. Na verdade, passou um mês inteiro rindo. E as acusações continuavam. O pai era impiedoso. Os olhos em fúria, as lágrimas vertendo. Gritava pela casa que aquele não era seu filho, que odiava o dia em que ele viera ao mundo, que, se pudesse, matar-se-ia de remorso.
E aquilo, de certa forma, começou a importuná-lo. Começou a perceber que já tinha atenção suficiente. Sim, já a tinha. Agora, finalmente, poderia…

O poderia permaneceu no tempo verbal em que merece permanecer para sempre.

O homem deu um tiro na cabeça.

O garoto já tinha dezoito anos nessa época. Pode-se perceber a gradatividade da coisa. Não lançou uma única lágrima no velório. Jogou-lhe um lírio no enterro.
Quando encontrou-se sozinho, começou a remexer os dedos incontrolavelmente, os pensamentos voavam por sua cabeça. Então chorou. Quase um crocodiliano. Respirou fundo e foi até a penteadeira. Passou o batom fortemente por todo o rosto, pela testa, pelo nariz, pela boca. Emplastrou-se de perfume francês. Colocou o vestido de sua mãe mais curto e foi até o espelho.
Olhou fixamente para dentro dos seus olhos e disse:

- Por quê? Porque tu é um gay de merda.

Uma mentira, repetida muitas vezes, pode tornar-se verdade. Uma mentira, dita por alguém que nunca mais poderá desmenti-la, é, de fato, uma verdade absoluta.

terça-feira, junho 17, 2008

pensamento.

Sorvete seria ótimo agora. Mais uma crise gelada. Uma crise gelada de chocolate. Que delícia. E eu que prometi que não me iria importar! Aliás, eu que achava que não me importava. Que coisa, não? Em um momento as coisas significam absurdamente nada para você, mas basta piscar os malditos olhos que o apego já é imenso e você está com um grande problema. Um problema sentimental, ora. Quando você simplesmente sabe de toda a verdade, puríssima, inteira, total, e vem aquela pessoa infeliz, ah como é infeliz, e cospe-lhe completa na cara.
A verdade é que falamos demais. Concordo plenamente. Falamos o que não temos que falar, apenas porque temos a necessidade de fazê-lo. Incrível. E quando descobrimos que o que fizemos não foi boa coisa, começamos a jogar argumentos, de fato (quanto paradoxo!), falaciosos. Mas então, meus caros, a merda já está fedendo. Nós já magoamos a pessoa, já concluímos que a nossa opinião é a incógnita da questão. Somos os melhores bundões do mundo.

Mas para que a distância? Por que precisamos tirar as conclusões? Não podemos entender, ao menos um pouco, um mínimo pó, que não sabemos de tudo que se passa com o outro ponto que está na reta?

Mas o “outro”, e são milhares desse estirpe, também não é inocente. Ele nutre a mágoa. E ele distancia-se ainda mais de você. Porque, às vezes, a verdade falaciosa era verdade verdadeira (uau, agora faço uso do caríssimo pleonasmo).

Não tenho conclusões a respeito disso. Nunca tive e nunca almejei ter. Apenas queria que as pessoas fôssemos (silepse, you know?) um pouco menos orgulhosas e egoístas. Porque o nosso umbigo é algo realmente lindo, foi de lá que viemos etc, mas há outras coisas no mundo, tão mais belas…

Além disso (como adoro unir parágrafos e assuntos!), a hipocrisia latente tem-me incomodado muito. Cansei. Queria que, em apenas um segundo, todos tirássemos as máscaras e fôssemos para um baile à realidade. Seria tão mais… real? As pessoas dançando ao lado de suas ideologias ainda-não-tão-formadas, acreditando no que querem acreditar, admitindo sem o medo, sem o medo de nada, contornando, em passos rápidos, a mentira que apenas cega.
Isso seria uma utopia, certo? Certíssimo. Mas sonhar é o guia para fora da caverna de Platão. Ver o que está mais além das sombras é o primeiro salto para sermos nós mesmos. Para não mentirmos, para admitirmos o erro. E, poha, como é difícil admitir e fazer o que é moralmente e relativamente correto. Odeio relativismos, mas aceito o que o é. Porque a ética dentro de mim grita por justiça sem punição, sem dor, sem ódio. Uma justiça verdadeira, ideal, nunca mentirosa.

A ética dentro de mim grita amor! Porém é difícil doar-se com essa distância. Com essa ponte quebrada que foi criada entre mim e o resto do mundo.

Tenho um medo terrível: o medo de que eu esteja adaptando-me à crueldade. E, agora, escrevendo, entendo o que tanto me aflinge. É a realidade que criamos, não a realidade que deveria ser real.
Eu estou começando a enxergar o mundo, as pessoas, as coisas, os sentimentos, os fatos, como não enxergara antes.

E isso dói. Ah se dói.

Porque a utopia desfaz-se.
Desmantela-se.
Acostuma-se.

Até que desaparece eternamente.

Not yet, my friends. Not yet.