terça-feira, janeiro 26, 2010

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aqueles gritos demoraram a sair da minha casa, dos cômodos, do pozinho entre as teclas do meu computador. entraram como uma orquestra, para todos os lados, pela fresta da minha janela e me alcançaram no chão onde eu estava deitada.
acordei sobressaltada, por saber que me tomavam os ombros e sacudiam. eu me deixava tocar como o piano em que meus pés encostavam. mas naquela noite, com o barulho me arranhando, eu queria ser muda. fui até a rua, era madrugada e meus olhos também pesavam como se houvesse uma gota de orvalho pendurada em cada cílio.
havia faltado luz no bairro inteiro - os gritos eram feito chamas. a janela de frente à minha casa estava aberta e uma mulher chorava.
cada grito, que como uma sinfonia crescia e diminuia, me consumia mais e mais. comecei a sentir o corpo quente. joguei água, mas não adiantou, tudo estava em carne viva. desde o chão em que eu pisava até os olhos assustados e com uma ponta de sentimento se escondendo nas dobraduras do piscar.

pessoas na rua já sussurravam.
- acho que morreu alguém.
- nossa, não somos ninguém diante disso tudo, não é mesmo?
- é.

entrei. teimosia de querer se distrair da vida. já disse que não quero distrações: quero sentir. como escrevo agora parece que foi um fato comum em um dia quente e sem sorte. realmente foi, não minto.
mas tudo me fogia do controle:
grito, fogo, dor, água. grito, dor, água, fogo. grito, fogo, fogo, dor. grito, grito, grito... fogo, grito.

um homem morreu, meu deus, e agora? como aquela mulher vai olhar para o mundo? como se as coisas já são duras e há de se limpar a casa toda sexta-feira? como se os chinelos ainda estão ao lado da cama! e o vidro ainda está embaçado com o frio do inverno passado.
fui para o banheiro e apoiei a cabeça na parede, a mão no peito. meu coração gargalhava.
era medo? era dor? era culpa? era falta?
o piano da sala parecia tocar sozinho, as pessoas na rua continuavam a olhar, os braços na cintura, a cabeça balançando, um conforto religioso afagando-lhes o pensamento.
quero um abraço, que me digam que sentem muito, que lamentam o repentino. talvez assim eu consiga me distrair um pouco do inevitável, porque os sentidos já me deixaram.

voltei a dormir. os dias seguintes devagar e estagnados.
o que mais me angustia é que a janela aberta por toda aquela noite continua fechada e os gritos, calados.
renderam-se, tal como eu (deiticamente), ao tempo.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

"pra você eu digo..."

gostava de assoprar as bolinhas de sabão e ver como estouravam facilmente. sabia que era tão passageiro como uma viagem de ônibus até itacuruçá naquelas férias de verão.
a bolinha sobe, diz que não quer nada, sente o mundo por alguns segundos e...
às vezes tentava pegá-las com a mão, mas era muito difícil! escorregadias, espertas, medrosas. as bolhas de sabãos conseguiam ser mais sábias que a menina.

ela, sim, deixava-se agarrar. aliás, jogava-se nas presas ferozes com a coragem nos olhos fumegantes. abria os braços como quem diz me abraça forte never let me go.
também surgiam, com isso, as vontades de eternidade.
quero que isso não se acabe, não não, como poderia deixar de ser isso para ser aquilo, como? fica, fica, não se esvai, não se deixe voar pela brisa até misturar-se e deixar de ser algo senão ela mesma.


corria. o céu em seu rosto, estrelas penduradas em seus cabelos. precisava alcançar o depois e guardá-lo dentro do peito como um grito que não, não quer sair. fica, fica!
preciso tanto de você como é, estático e brilhante. luz que pisca, mas nunca acaba. desejo de estar aqui agora eu você.

com um sim: estourou a bolha e viu as gotinhas d'água caindo no chão.

com um não: continuou a olhar a bolha esperta, que subia colorida a tentar alcançar o céu e tornar-se arco-íris.
-fotografia-

às vezes prefiro um talvez.

quarta-feira, novembro 18, 2009

sussurros em forma de olhar no gramado noturno.

- meu amor, a vida corre. -
aqui estou, passageira do orvalho,
contando as estrelas através das batidas do seu coração
esperando, calma e serena, o mundo girar mais uma vez
e as nuvens se transfigurarem como algodão-doce em mão de criança.
- meu amor, meu sussurro é silêncio que chora. -
olho suas mãos mal-feitas, as unhas crescendo tortas,
as notas do piano marcadas em suas digitais.
toca uma música?
isso, passeia os dedos pelo meu corpo e me faz acorde sem som.
a pele nunca fala. ela transpira.
- meu amor, preciso de oxigênio. -
que eu já não posso respirar esse ar ora doce ora contínuo ora amargo ora lúcido. porque me corrói, viver está me matando.
sinto cada estrela morrendo comigo, sinto cada lua iluminando meu túmulo.
- meu amor, o dia termina. -
e o silêncio vai silenciando. meus lábios tornam-se botões de rosa para nascer amanhã. cada gota de verdade se perde nos poros sem fim.

meus olhos chamam a aurora: a noite estrelada, os sussuros cadentes... morrem com o brilho cansado do sol insistente de cada dia.

quarta-feira, novembro 11, 2009

~

sempre associei a morte a um gosto. não consigo lembrar de mais nada agora, sentado neste sofá roído. nem dos seus olhos nem da sua pele macia e branca nem de nada. mas sinto o gosto. um gosto meio doce meio amargo meio saudade meio beijo, daquelas balas que enganam no início e depois se mostram sem a camada de açúcar.
no início, não houve lágrimas ou gritos. aceitei como um imposto de renda (ou se paga ou se é calado - eu me calei). vêm as cores do pôr-do-sol lamber os meus olhos como pesadas pálpebras terra e depois estou sentado na lua observando-a apoiada na janela.
a última vez em que vi você foi um até logo sussurrado aos bocejos. té, amor. levantou-se com o olhar triste, caminhou até a porta, apoiou a cabecinha na parede e piscou os olhos pra mim, distante, distante. você queria que eu levantasse, abraçasse forte e não a deixasse ir. mas eu não fiz isso.
depois você saiu com uma lágrima secreta, trancafiada a cem chaves. eu sempre consegui ver pela fechadura. não me movi. você era minha, não precisava me esforçar para continuar sendo.
como o clichê segue: você não voltou. quando recebi a notícia o sangue ainda estava fresco, lembro de correr até o local e vê-la jogada no chão, os braços agarrados a um livro de poesia. senti a ironia daquilo tudo.
não consegui chorar. voltei pra casa, apaguei as luzes, fechei as cortinas e fiquei só.
quando olho para a porta, vejo seus olhos.
o cheiro do repentino não sai do seu perfume, o gosto da morte rodeia meu tempo e o arrependimento me inunda por dentro e seca meu sertão.

terça-feira, outubro 06, 2009

i[m]und?ação!

luísa abriu os olhos e deixou que as gotas de chuva entrassem em si, ardendo como chama. estava deitada no meio da tempestada sobre nuvens de concreto e pensamentos ladrilhados. a vida corria tão difícil como aqueles livros chatos e intermináveis (pedimos à nossa doce consciência que nos libere do ardoroso fárduo de terminar de lê-los, que possamos fechá-los e deixar que a poeira leve a história para o fundo do armário).
as imagens vinham à mente como assaltantes armados. chegavam, sacavam a pistola e... às vezes roubavam tudo que tinha; outras, atiravam até o sangue escorrer pelos poros em dúvida de morrer ou apenas trazer a dor. ah, era difícil. naquele momento, ela apenas queria abaixar o tom de voz até chegar a um sussurro auto-piedoso: me ajuda.
a semana inteira havia se tornado tempo de opressão para consigo mesma. adoecera, e lhe pareceu que tudo à sua volta também se tornara doentio. todos os dias, incontáveis, ia para o trabalho. luísa era professora de matemática. já fechava a porta de casa fazendo contas, contava os passos e os suspiros que fugiam impetuosos do seu peito: ah-ah-ah! 1,2,3 [x] infinito cortado (não há tempo para suspiros (nem números)). dava suas aulas, voltava para casa e ia assistir à televisão ou ler um livro. sempre gostou das palavras, apesar de ter trocado juras de amor com a exatidão. seguia a vida normal, suando e transpirando, catando um tempinho aqui e ali no final de semana para ir ao cinema. mas então a doença veio e avassalou sua vida.
teve que ficar de cama durante uma semana. e, nesse tempinho, luísa resolveu ver todos os noticiários que nunca havia visto antes (era só novela, ora essa). cada vez que uma notícia surgia, ela abria bem os olhos e prestava atenção, afinal, não é que todos dizem ser importante ser bem informado? também vou ser!
conforme as horas foram correndo, mais se fixava na cama, mais apertava os dedinhos embaixo da coberta. descobriu um canal pirata na sua televisão, um bandnews que às vezes surge mal sintonizado. prestava atenção em cada mínimo detalhe, em cada parêntesis ou vírgula que as imagens cotinham.
começou a ser o que via. quando as milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares de crianças passando fome na áfrica apareciam por meio de palavras ou com a cortante presença física, luísa sentia a dor crescer e fervilhar dentro de seu peito. o estômago roncava e pedia comida, por favor, só um pouquinho, dói tanto, quero um pedaço de pão. mas nem migalhas vinham.
quando a favela aparecia, escutava os tiros rompendo do seu lado e um medo terrível perpassava todo o seu corpo. medo medo medo medo medo de morrer e nem saber por que de onde para onde como. apenas a culpa no final, e os homens de cinza com olhares de lei nos olhos espancando com porretes de falsa moral a vida que corre sem sentido para os corpos jogados nos rios no fim de tarde.
de repente os trabalhadores sendo explorados, reprimidos, sem tempo para criação ou verbo-ser. a identificação foi real. e todos os momentos abusivos se tornaram raízes por seu corpo e deram frutos de raiva e indignação.
morte, corrupção, fome, violência, repressão
- alienação?

luísa estava deitada no meio da rua olhando para o céu. queria sentir aquele chão cheio de petróleo e lembrar-se que o suor do povo estava enterrado ali. seu suor também estava, cravado e escondido, bem ao lado do da sua vizinha, dos seus amigos de trabalho, do senhor carlos, dono da vendinha de legumes que almoça para não jantar.
sua vida não poderia continuar como era antes. não depois de toda absorção e luz que ganhou graças ao que a sociedade chama de doença. a doença que teve fê-la sofrer, mas arrancou toda miopia, astigmatismo e catarata que tinha nos olhos.

a semana seguinte seria ... forte.
suas mãos agora são sangue pulsante, força que lateja e não pára.
sabia que tudo estava errado, e uma reciclagem aqui e ali não bastaria.
é preciso jogar tudo no lixo!
e criar vida nova.

domingo, outubro 04, 2009

janela entreaberta.

abri os olhos e você me olhava. amêndoas arco-íris pedindo pr'eu cantar uma música de ninar. dorme, meu bem, que o tempo lá fora nos espera, dorme, meu amor, que a vida nos exige, e o caminho é longo, descansa agora enquanto eu mexo nos seus cabelos de poesia infinita.
len-ta-men-te, você se deixou embalar pelo meu canto sereno. por um momento, pude ver a fragilidade da sua respiração leve e cheia de vida. quis sentir como você sentia. o ar entrando, saindo, paz.
cobri seu corpo macio e delicado e sentei no parapeito da janela.
olá, estrelas.
milhares de pontinhos brilhantes acenavam para mim. são os vagalumes da eternidade. eu poderia ficar ali até os fins dos tempos, tecendo, sustenido por sustenido, a doce melodia que é viver.
você bocejou sonhos. eu costurava o dia. quando a manhã chegasse, certamente o raio de sol mais forte despontaria seu rosto para um sorriso girante, como o girassol.

mas um chamado vindo de fora da janela me assustou. moça dos cabelos de corda e dos dedos de harpa! não sei de onde veio ou por que me tirou a tranqüilidade: abri as asas e voei com o orvalho caindo dos olhos, deixando tulipas nascendo por onde passava... para o azul do mundo lá fora.
quando você acordou, apenas a música ficou presa no quarto, e aquele gosto de mel-primavera querendo voltar a ser doce.
no chão, uma estrela caída ainda cintilava.
-(era um vagalume ferido)-

segunda-feira, setembro 28, 2009

até.

é tudo mentira. mesmo que todas as lágrimas que cantam para o meu sono vir secassem, eu ainda estaria de joelhos para o espelho, tentando enxergar um pingo de chuva no chão refletido.
nada é como o querer. por isso a invenção, essa magnitude viva de construir cidades inteiras com o meu desejo (e depois desabá-las com apenas um sopro de realidade). sabe, como se o que existe me doesse ou não me bastasse, como se eu quisesse mais, como se eu precisasse de um abraço longo e demorado que me arranhasse até a alma.
porque tudo é tão difícil. parece redundante falar isso quando as palavras já me são tão duras, quando você vira a esquina e leva consigo o olhar e o meu sentimento. e ele é maleável, deixa-se carregar fácil, é doce e sereno, e tem medo.
eu sentei no chão para sacudir um pouco as estrelas do céu com meu olhar delirante. vi que você estava perdido. também estava. mesmo nós dois estando com as mãos atadas como asas que voam e não voltam mais.

cena 1:
- você viu?
- o quê?
- uma estrela cadente.
- seus olhos?
- não, lá no céu.
- seu sorriso.

cena 2:
- você viu?
- o quê?
- os fogos explodindo no céu!
- não, não vi.
- ah.
- já é tarde, você está alucinando.

mas as estrelas, e o ar rarefeito, e o sereno... nunca é tarde para se agarrar às luzes que atacam meu coração. depois você levantou devagar, foi tragar um cigarro no banquinho ao lado do portão.
eu precisava tanto, tanto. ao mesmo tempo em que precisava do lado oposto. queria gritar me dá a mão; ou vai embora.
talvez eu realmente estivesse alucinando, porque comecei a rezar baixinho que deus me salvasse daqueles momentos, que o dia viesse logo e que tudo acabasse. que tudo voltasse ao normal, que eu fosse novamente luísa e não luzia sem luz.
esses são os momentos de pesadelos que se aliviam logo após acordarmos e descobrirmos que nada era de verdade. mas aquilo era real: você sentado distante na pedra, os pulsos finos e tatuados, a cicatriz dolorosa nos olhos.
cravei as mãos na terra e te esqueci. era melhor agora chorar escondida, dentro dos armários, a me encarnevivar.
levantei como uma senhora e cheguei perto: - beijei o ar carbônico que saía de você, tão mortífero quanto o olhar que trocamos.

entrei em casa e tranquei a porta. fui dormir, como se acreditasse que acordaria no dia seguinte com a saborosa lembrança distante do sonho.

sábado, setembro 19, 2009

_

tudo não passa de um olhar para dentro
e de perceber que há uma cadeira vazia,
pedindo pr'eu descansar.
meus pés estão tão cansados,
de correr pra não sei aonde.
parar é preciso.

minhas roupas já tão amarrotadas,
meus sonhos saias de algodão.
a música que toca me deixa tonta
mesmo sentada sinto o cansaço do mundo.

escondida, me guardo
nas páginas que não podem ser lidas.

quinta-feira, setembro 03, 2009

descoberta.

pura e simples,
a gota de orvalho me faz flor.
desce dos cabelos e planta sementes
no pensamento chuvoso.

coloridos são os olhos,
formadores de lacrimosas pontes,
deliciosos suspiros de madrugada passada.

de água o corpo é todo doce,
misturado ao sal das piscadas silenciosas,
pausa fora mundo dentro.

se eu voar
as gotas me choram,
mas não secam:
- escorrem, lentas,
tornam-se cobertores-retalhos de mim.

me dá um gole.

esse céu, as estrelas, seus olhos
são a bebida na escrivaninha
ao lado do papel.

o líquido multicolor
borra a folha em branco
e forma um pássaro colorido.

não preciso de palavras
para ler a poesia que do vidro escorre
e crava o vício nos lábios secos.

gatilho.

de repente você sacou a arma,
e, com um tiro,
arrancou toda minha vontade.
me deixou perdida,
fora do espaço entre nós.

fui para longe,
onde a pólvora não tinha força,
morta e com a bala pesada nas mãos.

joguei no lixo a minha tarde,
o pôr-do-sol,
todos os pulsos que me nutriam.

o sangue-sentimento é doce,
mas agora só sinto um gosto
salgado queimando minha face.

a dor voa no ar
como estalo sinfônico.
eu caio no chão
como silêncio de pausa.

quarta-feira, agosto 12, 2009

huuum-ah.

seu cheiro impregna o meu cheiro.
e o ar que eu respiro já é todo você.

o perfume é doce.
textura impermeável de choro.
gosto de maçã com açúcar.

posso lacrá-lo em um papel?
para que eu possa tê-lo só,
inspirá-lo de quando em quando,
sentir que esse cheiro vive até na poesia.

sábado, agosto 08, 2009

roda-pé.

- você pode ficar só mais um pouquinho?
sorriu, e as migalhas caíram de suas mãos. como se mais um dia inteiro tivesse passado em vão, naquele tempo sem relógio, onde a noite e o dia ou o dia e a noite e as tardes são todas iguais. era como uma cadeira de balanço quebrada: você quer balançar, mas não consegue; quer dormir, mas ela range.
o sorriso foi pequenino, tímido, medroso, mas ainda assim conseguiu gritar para o mundo alguma coisa disforme, profunda, pingando de sentimentos. ficou muda, paradinha, os olhos piscando. fica, por favor.
não sabia direito o que estava fazendo: tirou as sandalinhas, o lenço que cobria seu pescoço e estendeu a mão nos pensamentos. nenhum movimento. a janela ainda ventava sem cortina, o mundo em holofotes lá fora.
o vento frio entrou e congelou o quarto devagar. mas ela não se moveu.
- disse algo?
- disse.
- o quê?
- posso te contar uma mentira?
- por quê?
- posso?
- pode.
- eu te amo.
- isso é uma mentira?
- não. mas tudo o que está por trás disso é.
- incompreensível. preciso ir, te vejo amanhã.
fica.
foi e fechou a porta. a janela aberta. frio frio frio. o quarto deliciosamente inundando dos cantos até o teto, do teto até a janela, da janela até o mundo. e o mundo lá fora indiferente, se deixando inundar, mar lacrimar de pessoas-peixes.
ia morrer afogada. procurou as migalhas no chão. morreria com dignidade. catou-as, meteu tudo no bolso.
mas o bolso estava furado.
ele voltou no dia seguinte. o cheiro salgado alastrando a casa. a cadeira de balanço úmida e com vontade de balançar. o silêncio estava mudo.
o rádio ligado no quarto. chopin pianotava por ali.
- meu bem?
- tive um sonho.
- sonhou o quê?
- sonhei que a casa era um oceano e que eu podia nadar, apesar de morrer afogada logo depois.
- deus me livre!
- posso ao menos nadar e voar nos meus sonhos...
- deixa de besteira, isso é coisa de artista. vou te levar para dar umas voltas.
- não quero. quero ficar aqui.
- eu não gosto de ficar aqui dentro, preso.
- eu sou presa aqui dentro ou lá fora, qual a diferença?
- não quer passear?
- não.
- vou embora.
fica.
vai.
fica.
fica.
vai.
me empurra para um mundo em que o voar sejam passos no chão; me empurra até que eu não precise mais ser empurrada.
ele foi embora.
ela ficou deitada. a cadeira de balanço estava longe, longe.
voltou a sonhar.

domingo, agosto 02, 2009

Placa Enferrujada.

Precisa-se de algo
ainda não descoberto.
Pode ser de maracujá
ou quente como chocolate.
Pode ser rosa, amarelo,
negro, vermelho,
de amor, de odio, explosão!
Mas tem de preencher
ausência aberta,
falta fermentada.
Tem de curar vícios
e medo de escuro.

Precisa-se.
(por enquanto ainda na intransitividade clandestina)

sábado, agosto 01, 2009

posse de abstrato.

eu tenho uma loucura dentro de mim
que canta, dança, roda.
explode em fogo adverso,
queima as cortinas de veludo
que cobrem as palmas de minhas mãos.

sabê-la é como ler labirintos,
mapas em branco aos pedaços.
abrir o baú que a guarda
é volta ao pensar universo.

não que consiga liberdade,
fera única de dois gumes.
o que tem é meu ar,
minha vida, a paixão de acordar e ser.

como fui enganada!,
e a água que me envolve reflete o real,
ouço um riso histérico de prazer:
eu sou tida por ela.

- paciente, nunca sujeito de mim.

segunda-feira, julho 27, 2009

a madeira da beira.

a porta entreaberta,
o mundo entre farpas.
uma de suas lágrimas me olha,
mas só fumaça me cheira.

a frestra é sombra,
dança desordenada.
o cigarro me atinge,
(você fuma a dor como quem ri)

meu deus, tudo se fecha!
a luz vai embora
-acendo o isqueiro-
letreiro na porta: abismo.

sexta-feira, julho 10, 2009

desespero silabal.

você é tudo que tenho agora. você e um pouco do desespero. porque isso vem, me sacode, me machuca, me silencia, joga felicidade em forma de pílula para dentro de mim e depois vai embora. vai, voando, como uma mariposa que eu desenhei e depois fugiu do papel para o mundo, deixando-me em branco.
mas você, você não vai fugir, porque você não é desenho. você tem vida, tem asas, mas não vai a lugar algum. vai ficar aqui comigo. não vai?
ah, eu afirmo, mas não tenho certeza de nada. eu posso um dia acordar, correr até a gaveta, abrir o caderno... e você não está mais lá! nenhuma palavra.
é sobre isso que estou falando realmente?

vou te contar um segredo. eu acordei hoje à noite e o sol ainda estava no céu e as nuvens ainda desenhavam o seu rosto nelas e eu ainda consegui sorrir por um tempinho até escutar o despertador tocar e eu acordar de manhã. estava nublado. não havia nuvens nem seu rosto nem meu sorriso.
mês passado eu subi no telhado quando estava chuvendo e fiquei vendo os raios caírem por todos os lugares. desejei que um raio caísse em cima de mim, desejei sentir sentir o raio. mentira! eu queria ser o raio, queria ser raio e não...

ah meu deus, estou apaixonada por você. e escrevi tudo exatamente para que não me deixasse nunca nunca. assim: era uma vez um doce menino chamado lucas que tropeçava nas pessoas e caía no ar. um dia esse menino tropeçou em uma menina, mas ela não deixou lucas cair. não! ela o segurou pelas pernas, e os dois flutuaram por aí.
fim.

não é como se fosse uma mentira, porque não é como se eu realmente acreditasse nisso. mentira é o fato d'eu afirmar que só tenho isso agora. não, eu não tenho só isso. aliás, não tenho nada disso. não consigo nem ao menos escrever agora.
o que me resta é apenas o desespero.

domingo, julho 05, 2009

maquiagem.

sentada neste sofá,
pernas cruzadas,
salto quebrado,
visualiza o homem-gravata
abanar seu chá de maçã.

qual o problema?
ele pergunta sem açúcar.
ela corre para o banheiro
e vomita a fala na privada.

aquele gosto de bebida fermentada,
a falta de vontade de reagir.
senta-se de novo e vê o homem nu.

qual o problema?
ela pergunta adocicada.
ele corre para a janela
e sai voando para a casa ao lado.

- as marcas de batom caíram todas no chão.

domingo, junho 21, 2009

antileitura.

com toda vontade e sede
abri o livro que me continha.

deixei que o mundo me lesse.
página por página de tinta borrada,
palavras em negror profundo.

senti os dedos úmidos tocarem meu corpo,
me passearem,
interpretações à flor da pele fugidia.

mas nem toda a linguagem possível
conseguia me ditar em concretismo impessoal.
o que eu possuia era muito mais

ser indefinível e realidade que não se escreve.

sábado, maio 16, 2009

=

o sinal vermelho, mas carro nenhum. parei os pés no meio-fio, os pensamentos escorrendo pelo corpo até cair no ralo. a rua estava vazia e queria dar as mãos ao deserto que me acompanha. senti o frio vivo do vento que não tocava em nada, apenas esparramava meus cabelos para junto de sua essência feita de sopro.
ainda vermelho-sangue, pulsante, doloroso. há quanto tempo eu estava ali, à espera, tremendo e sendo desfigurada? não me lembro. o sinal verde não pisca, tudo sem nada, e eu adentrando no clima frio-árido.
as pernas não se moviam. estagnaram-se. precisava esperar a cor mudar, não, não posso correr pela faixa com essa proibição. era isso: eu estava proibida.
a chuva caiu lavando o presente. bambeei e fui esparramada na calçada, os joelhos ralados, os olhos chuvosos. você apareceu na porta do meu deserto, sussurrando: um dia de maio eu te amei amei amei um outro dia qualquer eu te nem mais lembrava apaguei a idéia do que sentia e te guardei dentro daquele globo de neve tão adorável de se sacudir e tudo se fez enfeite de natal pueril.
pisquei incontrolavelmente. pisquei como se me tivesse tornado um brinquedo natalino de fato. podem os sentimentos sumir, cravar as garras e depois arrastá-las até deixar o corpo em carne-viva? sim, eles podem. eles podem até teimar em existir sem nem ao menos terem nascido. vêm sorrateiros e enganam. ah, eu fui enganada pelos seus sentimentos, tal como você também o foi.
eu estava tão sozinha do mundo e de mim mesma que, quando você apareceu e me chamou para dançar, eu aceitei. fui guiada pelo salão, esbarrando em outros (e como me foi incrível esbarrar-lhes!). a música parecia incessante, e, naqueles passos tortos e apressados, eu vi o meu deserto ser destruído pouco a pouco.
mas uma vez, me lembro bem, estava conversando com meu reflexo e me foi dito: o seu deserto é infinito. quebrei o espelho com raiva, as mãos sangrando feridas. ainda tenho as cicatrizes da minha mentira. dei um golpe no meu rosto e desapareci com o que ainda restava de supostamente real dentro de mim.
eu continuo caída na calçada. a culpa é minha!, um grito no silêncio. me deixei dançar e girrar e girar e girar até ficar tonta e cair como estou agora. o tango cresce como uma rosa, emana odores, floresce e depois murcha. eu murchei, e, mesmo que tivesse dançado uma valsa (flor de plástico, doce arte), murcharia: - meu deserto é forte.
meu... amor? ... escorrendo com a chuva, brincando de morrer com a noite. o sinal fechado, a dor aberta. o mundo é trânsito, eu sou a pedestre impedida e os carros livres inexistentes.