domingo, junho 21, 2009
antileitura.
abri o livro que me continha.
deixei que o mundo me lesse.
página por página de tinta borrada,
palavras em negror profundo.
senti os dedos úmidos tocarem meu corpo,
me passearem,
interpretações à flor da pele fugidia.
mas nem toda a linguagem possível
conseguia me ditar em concretismo impessoal.
o que eu possuia era muito mais
ser indefinível e realidade que não se escreve.
sábado, maio 16, 2009
=
ainda vermelho-sangue, pulsante, doloroso. há quanto tempo eu estava ali, à espera, tremendo e sendo desfigurada? não me lembro. o sinal verde não pisca, tudo sem nada, e eu adentrando no clima frio-árido.
as pernas não se moviam. estagnaram-se. precisava esperar a cor mudar, não, não posso correr pela faixa com essa proibição. era isso: eu estava proibida.
a chuva caiu lavando o presente. bambeei e fui esparramada na calçada, os joelhos ralados, os olhos chuvosos. você apareceu na porta do meu deserto, sussurrando: um dia de maio eu te amei amei amei um outro dia qualquer eu te nem mais lembrava apaguei a idéia do que sentia e te guardei dentro daquele globo de neve tão adorável de se sacudir e tudo se fez enfeite de natal pueril.
pisquei incontrolavelmente. pisquei como se me tivesse tornado um brinquedo natalino de fato. podem os sentimentos sumir, cravar as garras e depois arrastá-las até deixar o corpo em carne-viva? sim, eles podem. eles podem até teimar em existir sem nem ao menos terem nascido. vêm sorrateiros e enganam. ah, eu fui enganada pelos seus sentimentos, tal como você também o foi.
eu estava tão sozinha do mundo e de mim mesma que, quando você apareceu e me chamou para dançar, eu aceitei. fui guiada pelo salão, esbarrando em outros (e como me foi incrível esbarrar-lhes!). a música parecia incessante, e, naqueles passos tortos e apressados, eu vi o meu deserto ser destruído pouco a pouco.
mas uma vez, me lembro bem, estava conversando com meu reflexo e me foi dito: o seu deserto é infinito. quebrei o espelho com raiva, as mãos sangrando feridas. ainda tenho as cicatrizes da minha mentira. dei um golpe no meu rosto e desapareci com o que ainda restava de supostamente real dentro de mim.
eu continuo caída na calçada. a culpa é minha!, um grito no silêncio. me deixei dançar e girrar e girar e girar até ficar tonta e cair como estou agora. o tango cresce como uma rosa, emana odores, floresce e depois murcha. eu murchei, e, mesmo que tivesse dançado uma valsa (flor de plástico, doce arte), murcharia: - meu deserto é forte.
meu... amor? ... escorrendo com a chuva, brincando de morrer com a noite. o sinal fechado, a dor aberta. o mundo é trânsito, eu sou a pedestre impedida e os carros livres inexistentes.
domingo, maio 10, 2009
parto contínuo.
você já viu os fogos de copacabana? eu só gosto de vê-los através do mar. eles se refletem e ficam tão mais bonitos do que realmente são. tão mais ser e tão menos estar.
em um dia desses, passeando pela praia à noite, olhando os brilhos coloridos nas águas, senti algo me chutar. profundamente. chutava querendo sair, querendo gritar, liberte-me! fiquei com medo. o que poderia ser?
não é nada, repeti para mim mesma. devo ser algum efeito colateral de tanto orvalho que tenho bebido.
já lhe disse o quanto gosto de beber o suor das coisas? às vezes a lua pinga pinga muito, e eu fico deitada de boca aberta recebendo sua essência para dentro de mim. as coisas suam, suam de calor, suam de frio, suam apenas por serem. e é um suor delicioso e sagrado.
mas não era efeito. era dor, dor de parto, uma dor que somente cresceria, porque o que estava dentro de mim exigia liberdade.
não passaram nove meses. que absurdo se passassem! foi muito rápido: estava grávida e o que estava dentro de mim explodiu.
pensei em abortar, não mentirei. estava carregando a minha barriga imensa que não parava de crescer a cada... (posso chamar isso de segundo?)... que corria. fui a uma clínica clandestina e pedi: por gentileza, um aborto, rápido e indolor, não quero isso que carrego. a resposta foi-me dura e repentina: não podemos, senhora, já passou o tempo para isso, abortar agora seria a morte do seu filho e também a sua.
então eu morreria junto com o que estava se apossando cada vez mais de mim. e não era isso que eu mais temia? a morte. então aceitei o destino - seria mãe de algo que nunca concebi.
nos segundos que se passaram (e que na verdade eram só um momento), senti enjôos, náuseas, sangrei e senti vontade de agarrar-me a alguma centelha de de vida que não fosse ausência. porque eu precisava de alguém comigo, alguém que me amparasse, que segurasse meus cabelos, que me ajudasse a levantar quando eu escorregava. será que escorreguei de propósito?, me perguntava. será que escorreguei para matar o que eu carregava, porque não queria tê-lo?
não sei. mas tudo que eu conseguia fazer era colocar todo o suor que havia bebido para fora do meu corpo, como se me estivesse limpando do mundo.
mas eu não queria ser limpa! meu deus, claro que não! queria continuar suja, suja, suja. com o suor de tudo misturado ao meu suor, com o suor de tudo invadindo minhas veias.
quando não havia mais como adiar a vinda do que estava dentro de mim, respirei fundo. eu sei apenas que, conforme aquilo se ia desprendendo, percebi que era meu e que eu era a luz, pois eu estava dando e recebendo. eu era a luz que dá à luz.
não preciso dizer o quanto morri quando nasci. o quanto não tinha mais o mundo dentro de mim, o quanto estava limpa e órfã e perdida. estava órfã de mim mesma.
a minha alma suja sumia no mar, sendo carregada pelo suor das águas até o fundo.
e eu agora começo a me sujar e encontrar-me através das pegadas que havia deixado para sempre na areia. seguirei novos caminhos, mas sei da trilha por onde passei.
foi assim que engravidei, morri e nasci.
terça-feira, maio 05, 2009
o que tenho.
mas é só por um agora, que passa e que parece nunca existir, como um piscar de olhos que já não se percebe, pois é automático e estalante.
e no estalo eu consigo sorrir. sorrio realmente como quem quer chocolate no inverno, como quem quer banho frio após um sentimento escaldante e violento.
mas passa, passa bruscamente e eu me deparo em frente a um espelho sem reflexo, pois já não me consigo reconhecer. encosto no grande buraco entre mim e o infinito e me sou inalcançável. meus dedos tocam o ar. meus dedos sentem, mas eu não os vejo. não vejo nada.
logo então você, que é a mais completa expansão de mim, me abraça. forte. escuto o seu coração invadindo tudo o que é vasto dentro dos meus sentires. e a vontade de colocar-me para fora cresce, cresce, cresce, quero gritar profundamente a angustiante necessidade de encontrar-me na multidão.
não, já disse que não me reconheço, por isso estou perdida entre os milhares de rostos.
suprimo o grito. suprimo o que seriam idéias de lágrimas. você vira o rosto e eu afundo. não me percebo. tenho medo. tenho tudo dentro de mim, mas nada consegue me definir.
quero agarrar-me a algo, nem que seja uma personificação, por mais doentio e cruel que isso seja.
ah, como tenho medo e nada do que se possa dizer conseguiria acalmar o que vejo como minha realidade. não, é mentira, não vejo. a realidade me é fragmentária, angustiante, criada e recriada. a realidade me devora.
quero ser salva. quero uma personificação.
quero que mintam para mim. eu não me importo, quero que mintam, mintam verdadeiramente, como se acreditassem que a mentira é verdade. e talvez seja! ah, lá me estou eu mentindo para mim mesma novamente.
eu abro os olhos e sinto vontade de jorrar-me através deles. quero que me guardem em uma jarra quando eu escorrer através da minha pele. quero que coloquem uma rosa nessa jarra e que ela cresça. quero ter medo por cada pétala dessa rosa e esquecer que tenho medo por algo que é meu.
você pode fazer isso para mim?
você, que é tão dependente do que o eu sou, você pode existir por alguns momentos?
porque eu preciso.
preciso que me abrace e que me voe para longe, para onde o infinito se torne finito, para que eu possa me encontrar, porque estou perdida. estou tão perdida que nem sei o que você está se tornando...
só vejo uma solução: esquecer. voltar ao sorriso imediato e tentar fingir que sou e que me sinto.
mas o que sinto para fora não é fingimento, é tão relativamente real, que eu poderia até mesmo escrever sobre isso.
mas por enquanto abstenho-me a escrever sobre o que não posso escrever, pois assim é uma forma de construir um mínimo pedaço de vidro do meu espelho.
terça-feira, abril 28, 2009
na minha [casa], eu [m]i[nto].
no altar da igreja do mundo.
um anel de pensamentos no meu dedo,
um anel de sonhos enferrujado no chão.
partiu rasgando meu véu,
arrastando-o pelas escadas sem fim.
caíram lantejoulas feitas de pele
pelos degraus cada vez mais átomos
que você ousou descer com pressa sorrindo.
meu deus! - um grito.
fui cortada ao meio pela música
do órgão que não cessava.
as notas invadiram minha voz!
e, ao levantar-me, cantei,
enquanto jogava o buquê de folhas secas para o alto,
bem alto, infinito,
______________ não volta mais!
corri.
corri de-ses-pe-ra-da-men-te.
pelo tapete vermelho rasgado.
meu vestido se ia dissolvendo,
sumindo, deixando de ser.
até me criar nua.
nua em completo,
sem lágrimas, sem vastidão,
sem anel, sem mim.
rolei pelo caminho,
grudando ao meu corpo as pétalas que não caíram.
meus olhos respiraram o céu de fora,
e chorei um choro de falta,
ao tocar na água limpa
e não mais ver seu rosto de noivo-mulher.
quinta-feira, abril 23, 2009
em um segundo.
Um grito dentro de mim silenciou: volta. O vento tornou-se vácuo, o mar tornou-se sal. Fiz o meu casaco de balão e soprei soprei soprei. Precisava inventar o ar. Mas não sabia para onde ir. Porque não havia mais onde ou quando. Apenas... as minhas pernas fora do chão e o meu corpo flutuando pelo céu azul.
Reparti os meus cabelos ao meio e fiz um lápis de fio molhado. Desenhei, em uma nuvem, uma janela para o passado, e minhas lágrimas, ao vê-lo, inundaram o mundo. Criaram novos oceanos salgados, com peixes brilhantes carregando sinais de trânsito e de todas as dores do mundo. Peixes verdes, amarelos e vermelhos, que se esbarravam por todos os lados.
Não consigo compreender ainda como tudo tornou-se o agora. Mas é. E o que vejo me invade e se torna parte de mim tão perfeitamente. Não posso nem ao menos fechar os olhos, porque os peixes não têm pálpebras e a visão deles é também a minha visão. Meus olhos são caleidoscópios invertidos e milhares.
Quando pousar os pés de sapatilha arco-íris na terra firme ou na areia movediça, preciso conter minhas gotas infinitas. Porque já irá ser hora do sorriso girar as flores-cataventos ao redor da vida.
E eu serei a sereia da brisa que voltou a habitar minha face.
quarta-feira, abril 22, 2009
expressão da falta que é sempre preenchida?
há pessoas que têm amor.
eu não tenho nada disso:
tenho medo.
o dinheiro de nada me vale,
prefiro as notas em que escrevo.
e o amor...
esse não se tem.
se sente.
por não ter nada
que normalmente todos dizem ter,
tiro os óculos do mundo
e deixo que me vejam puramente embaçado.
o meu medo é feito de cartolina,
com canetinha e colagem de cordel
e está guardado profundamente
dentro das minhas palavras,
que, você sabe, são sempre silenciosas.
medo ao avesso.
coloridas, secas, vivas.
cada cor dentro de um baú:
guardá-las é parte do meu sonho.
mas a vida soprou-as para longe,
para além do meu jardim.
e minhas flores antigas
tornaram-se nada mais que botões sem tempo.
colei todo orvalho pelo meu corpo
e me fiz flor por um momento.
meus cabelos tornaram-se as pétalas,
e minha alma gritou: eterniza!
terça-feira, abril 21, 2009
Abstrato.
e sua face espalhou-se sobre o chão da sala.
suas expressões correram para os cantos
e guardaram-se nos buracos dos sentidos.
corri atrás do seu sorriso,
capturei-o na tocata de sua fuga.
beijei, amei e senti:
joguei-o no bolso da arte.
comecei a pintar um quadro difuso,
onde coloquei o seu sorriso
no centro do pensamento.
delineadas as linhas,
coloridas as formas,
seu sorriso chorou
por falta de todo
e solidão expressiva.
domingo, abril 05, 2009
a terra é plana.
agora.
o completo mar que está dentro de mim.
colocá-lo para fora em um grito que afogue o mundo!
pois minha mente já está inundada,
e os sentimentos flutuam pelas minhas veias,
como uma navegação desequilibrada e caótica,
perdida no oceano eterno de vida submersa.
respiro.
e a água penetra meu coração,
enche meu corpo tão completo
de sal e areia e marfim.
a escuridão me toma,
me beija, me escolhe,
me silencia.
é surda, muda e cega.
me quer amar e perder.
mas quem se perde sou eu
na linha do horizonte,
sem antes nem depois,
caindo na idéia do velho mundo...
de que o mar acaba em um abismo sem fim.
segunda-feira, março 23, 2009
eXtereótipos.
senão pedaços de vidro
transformados em areia?
e meus olhos dois grandes oceanos,
ora castanhos, ora sem cor...
salgados e violentos como o mar.
sou mão e olhos...
arte e alma.
criação e sentimento.
minha duplicidade é forma,
vida e existência.
é a prisão para o que expresso,
sinto e... sou.
beijo o mundo com as lágrimas
que correm dos meus olhos
e se esparramam em minhas mãos.
toco os átomos invisíveis,
suas nuances e segredos:
sinto o mundo com minhas digitais.
tudo é membro e órgão
até a noite raiar,
quando os olhos se fecham
e as mãos enluvam-se em cetim.
quarta-feira, março 11, 2009
ciclo momentâneo e vicioso.
Eu nunca soube. Ou nunca quis saber. Não que isso me faça importância agora, rastros do passado distante. Entro em casa e jogo-me no sofá. Tenho medo, um medo egoísta de encarar qualquer coisa à minha volta. Por isso, bem sei, sou encarada. Tornei-me passiva, não sou mais agente dos meus atos. O controle remoto fixa seus botões em minha alma remota. Ele quer se mexer, gritar, implorar! Mas não pode. Ele não faz parte da crueldade da natureza. Não, nada disso se lhe é verdade. Enquanto eu, ah, eu desejo ser contida imediatamente, desejo não ter opções. Desejo não ter desejo.
Mas sinto-lhe pena e tudo volta à minha mente: a menina suja, por favor, dinheiropãoáguavida! Eu passei, mas uma parte de mim ficou parada ali para sempre, naquela dor tão completa... até ser consumida profundamente pelas pessoas que não se dividiram como eu (pessoas retas, certas, pessoas uma só). E aquilo me sugou. Como tudo que já me vinha sugando há anos, corroendo a essência que habita dentro de mim. Mas aquilo, aqueles olhos implorativos, aquelas minúsculas mãos cortadas, aquela alma que pede, obsequiosamente, que lhe dêem algum sentido!
Meu deus, estou chorando! E como choro pelo meu egoísmo, que foi transformado em medo. Não tenho coragem de pegar o controle remoto e ligar a televisão e deparar-me, ah, com o caos de sentimentos, de perda de fé, da realidade que tanto me abala! Como posso, como? Muito menos tenho acapacidade (força!) para comer, tomar banho ou dormir. Não sei como estou respirando. Não me consigo mover. Não, tudo que me lembro é do beco escuro e da menina e do cheiro e do sabor salgado. Sou incapaz de recordar mais. Talvez aquela senhora...
Não, por favor, não! Não me lembre de mais. Ah, mas eu sei. Eu estava cega e, por isso, conseguia ser feliz. Eu era como Tobias, meu cachorro que está brincando com a bolinha de borracha neste exato momento. O mundo é esse brinquedo, que pode ser mordido, rolado, chutado, ser feito pleno dentro de uma plenitude relativa. Não importa, o mundo é todo seu, e de mais ninguém. Ele rola atrás da bola... ladra, pula, lambe. Ah, Tobias!
Mas sou humana, e sou gritantemente culpada por sê-lo. Fingi ser inocente, quando tudo se passava em flash em volta da minha bola de borracha, soltando faíscas claras e queimantes em cima de mim.
O que eu sou, senão o símbolo maior da culpa? Do conformismo e da falta de coragem?
Tudo é falta, na situação em que me encontro. Agora, aqui, sentada e paciente, vejo com a visão real como minhas paredes estão descascando, como os pisos de madeira estão corroídos pelos cupins. A vontade de gritar é estridente e sobe à garganta.
Mas eu não grito. Sou muda. Vejo e escuto, mas não solto o que senti. Não expresso. Tenho a catarse, mas a epifania é só minha.
Egoísmo.
A visão de tudo aos poucos volta a clarear. Acalmo. Acalanto. Ligo o som e escuto a música leve que me faz ter vontade de dançar.
Canto.
Sou folha, pena e nuvem.
Tudo passa...
Esqueci.
Há algo para lembrar?
Fui dormir e acordei ansiosa com o final de semana que vinha pela frente.
menina, beco, dor, fome...?
vocábulos não inerentes ao livro da minha vida.
segunda-feira, março 09, 2009
íris.
mas não vejo o mundo.
não sei o que vejo,
mas sei o que sinto.
- E é forte.
as pessoas dizem
que meus olhos não existem.
é só brancura.
Eu rio.
o rio flui.
dentro de mim as águas voam
e me chamam.
Não, não quero me afogar!
quero apenas ser,
não o mundo!,
mas o que sempre fui.
Apenas.
assim foram percebendo
que meus olhos estavam ali.
e que a íris tão colorida
só poderia estar voltada
para dentro de mim...
quinta-feira, março 05, 2009
retina.
quando abro as janelas
e rasgo as cortinas.
o céu azul me encara,
me zomba, me mata,
me chama.
vem, menina,
vem voar em mim.
solte seus cabelos estrelados
em minha pele escura.
tenho medo!
- eu grito.
medo de quê?
de desexistir.
de ser apenas luz vista
daqui a milhões de anos
pelas pessoas de mãos dadas
na grama verde-escura da terra.
tudo se transforma,
reluzente pequena.
sua luz se tornará eterna
enquanto houver pessoas
para vê-la e senti-la.
e depois que todos se forem?
restará a poesia
que está sendo escrita
por uma parte de você,
que é luz e eternidade,
escuridão e fim.
ah!
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
uma piada sobre mim.
Você nunca foi a razão de minha mudança, Vitória. Nem um pouco. Agora, após um ano do seu abandono, sei com a certeza mais certeira. Ah, como adoro redundâncias. Não sinto sua falta, não a amo e nem ao menos consigo lembrar como foi a sensação de tê-la amado. Você consegue sentir a veracidade dessas palavras? Nunca fui tão sincero. Mas nada disso é sobre você.
É sobre a minha descoberta. O sentido do meu desespero. Como agora sei os porquês de muitas das minhas perguntas, porém sem saber suas respostas. E como eu costumava chorar, enquanto tremia interminavelmente... nos seus braços. Você não entendia. E eu não conseguia explicar. De maneira alguma. Como poderia? Eu não conseguia gritar o quanto eu precisava de você, o quanto sua simplicidade me comovia, o quanto eu a invejava. Eu queria sentir o mundo como você sentia! Como todas as pessoas sentiam! Eu tinha ódio de todos, de cada pequena alma que sorria com o raiar do sol e andava calmamente de bicicleta pelas ruas quentes.
Achavam que eu tinha problemas psicológicos. E eu achava graça dessas pessoas. Invejava a sua falta de conhecimento e queria, por um momento, transportar-me para dentro de algum pensamento simples... O que comeríamos no almoço?
Mas eu não conseguia, prendia-me dentro do meu niilismo sem fim. Que paradoxo, não é mesmo? Niilismo sem fim. Que seja. Eu prendia-me a isso.
Mas quando conheci você, o amor surgiu-me mais uma vez, após tantos anos enclausurado na minha adolescência risonha e, ah, tão simples! Por alguns momentos, eu achava que conseguia esquecer de tudo. Ah, Vitória, eu conseguia sorrir verdadeiramente. Por alguns minutos eu conseguia apagar da minha alma cada detalhe de cada pensamento soturno que invadia minha mente e controlava-me sem piedade.
Por isso, agarrei-me tão profundamente a você, como se sua chama de felicidade e falta de realidade me aquecesse. Você consegue entender? É claro que não.
Mas cada vez mais comecei a descobrir o meu medo. Inicialmente achava que não me importava com nada, que minha vida não merecia existir. Isso tudo não era desespero, era aceitação. O desespero veio realmente quando apaixonei-me pelos lugares, pelas pessoas, por minha imagem no espelho, pelos livros, pelos filmes, pela sonoridade deliciosa de Chopin! Quanta coisa, quanto sentimento. E a cada vez que tudo acabava, que eu fechava um livro, que eu desligava o rádio, que dava adeus a alguém, uma dor insurpotável apossavasse de mim. E à noite tudo voltava à minha mente, aquela filosofia incontrolável, aquela metafísica que, se eu pudesse, estrangularia até vê-la sangrar e sumir do mundo.
Mas eu não podia agüentar isso tudo. Essa felicidade era muito mais dolorosa do que a minha indiferença. Vai acabar, eu pensava. Vai tudo mudar. Em um piscar de olhos.
A mudança começou quando você me deixou. Você não foi a causa. Não, não você, Vitória. Mas o que sua imagem representava para mim. Veja bem, você me proporcionou o amor que me proporcionou felicidade que me proporcionou vontade que me proporcionou o esquecimento que me proporcionou a capacidade de sentir o mundo que me proporcionou o desespero porque tudo...
Tudo é tão mutável.
O meu medo é simples. Percebo-o agora. Pode ser até mesmo um medo comum. É com toda certeza melhor sentir esse medo do que sentir o nada propriamente dito, o ermo, a falta de sentido todos os dias, a cada segundo.
É muito melhor enlouquecer de despero do que de razão.
Você não me compreende, não é, minha querida Vitória?
Certamente você sente medo do desconhecido, medo do que vem após.
Mas não se deixa dominar.
Não, não se deixe. Por que deixaria?
Não quer acabar inventando uma mentira como essa que estou inventando. Inventar uma pessoa, inventar sentimentos e sentidos, para que consiga fugir da absoluta falta de algo. Por que inventar que sente a vontade?
Sou realmente um desesperado e invejoso.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
//
Como cheguei até aqui?
Parece que, de tanta absorção, eu tornei-me um grande espaço em branco. Algo inacreditável, uma muralha de sentimentos.
Há uma voz na minha cabeça repetindo repetindo repetindo repetindo: isso é errado. isso não é normal, como poderia ser? que inocência, que sonhos, que sentimento! isso não existe. e tudo que sai da sua boca não é aceitável, não é plausível. você não pode ser assim, não, meu amor, não, minha querida.
E essa voz parece ser a de uma senhora. Uma sombra com um véu nos cabelos grisalhos. Se eu conseguisse dizer o que me está apavorando, o que me deixa sentir como a pessoa mais enclausurada em um canto que jamais existiu...
Mas não haveria entendimentos. Só a certeza de que há algo errado. Algo errado comigo. E com o que eu sinto. O que eu sinto mais profundamente. E o quanto eu sei que é inacreditável que eu possa sentir.
E eu tenho medo de deixar tudo cair, de retrair-me, de deixar-me desacreditar e achar que estou errada. Que tudo realmente não pode ser assim. Há de ser de outra forma, por favor. De repente, pode reaparecer a sensação de completo vazio. Mas um vazio pode ser completo?
Não quero lembrar do vazio. nem um pouco.
Sou sozinha. Sou sozinha mais do que qualquer pessoa cogite adivinhar. Sozinha dentro de mim, dos meus pensamentos jamais revelados e da dor que sinto por ser. Por isso agarrei-me tão fortemente à grande luz avassaladora e quente e que me fazia sentir sede.
Não existe o saciar-se.
Mas eu não quero explicar a minha solidão.
O que eu quero explicar é que finalmente consegui. E sei que não consigo mais que isso. Nem um pouco mais, nem com ninguém!
E isso é difícil de entender. É difícil para uma pessoa que não eu...
Por isso.
Ar.
Por isso quando escuto que há algo muito errado com tal sentimento, eu tenho medo. Pois é tudo que eu sinto.
Então tudo foi um erro.
E eu nunca deveria ter sentido.
Porque não há outra forma, para mim, de sentir.
sábado, dezembro 27, 2008
o canto esquerdo da sala.
tudo que surge das asas de um anjo
nada que não venha da sua parte mental
nada que seja tão escuro quanto o céu
é a simples caída de pétalas
o piscar de olhos infantis
o sonho que, apenas em sua natureza, alimenta de cores.
Os sinos que tocam por seus lábios:
- um beijo que voa com o vento
até,
em encontro,
tocar
os meus lábios:
- smack !
sou uma assasina, em fase de cogitação:
mato seus olhos com sangue em pensamento. Se escapa-se-lhe a faca, que em 2 gumes lhe corta a face, cairia em vida, pela morte que deixou.
Sinais de trânsito e de todas as dores do mundo.
quarta-feira, dezembro 24, 2008
O anel que tu me deste era vidro e se quebrou...
Eles estavam em um restaurante à moda antiga, com violinistas, mesas com pano vermelho e rosas por todos os lados. Mal chegaram, ela quis ir ao banheiro. E que banheiro! Espelhos gigantes e com bordas francesas, todo dourado, pinturas na parede... Ela passou a mão por tudo, por tudo, apesar de sentir o vidro (e não a realidade) tocar seus dedos. Aquele tinha de ser o dia mais feliz de sua vida! (se o banheiro era daquela forma, imagine o que mais estava por vir!) Sorriu devagar, com um certo ar de realeza. Passou a mão pelo seu corpo e suspirou. Era linda.
Voltou para a mesa. Ah, queria-lhe dizer tantas, tantas coisas, que cada palavra poderia ser o infinito mais um. Passou a mão pelos cabelos e sua voz soou estranha e com vontade própria.
- Estou muito contente por ter-me trazido aqui - Não! Não era assim que devia ser, não eram essas as palavras que pretendia dizer. Ela queria gritar e pular-lhe no pescoço! Emoção, meu deus!
- Faço de tudo para agradar-lhe, meu amor - Ele correspondia, oh, com toda a alma. Seus olhos verdes eram os mais lindos do mundo e tinha certeza que uma surpresa (prevista) aguardava-a.
A comida chegou. Não lembrava de ter pedido peixe. Não, devia haver algo errado. Ela não gostava de peixe. Gostava de massa. Por que estava comendo peixe? Não importa, não importa. Ele está ali, com ela, e tudo parece eterno. E ela estava tão linda, tão perfumada (com aquela aparência, imagina-se o cheiro suave, como em uma sinestesia) e os momentos eram perfeitos.
Só sentia-se confusa com as conversas sobre lembranças, férias de quatro anos atrás e passeios caros e divertidos. Devia ser o vinho. Nunca gostou de vinho branco, mas parecia combinar perfeitamente com o peixe, então deixou-se beber. Sentia-se como se não tivesse escolha.
E talvez não tivesse, pois queria continuar sentada, mas dirigiu-se novamente ao banheiro. Foi retocar a maquiagem e fazer uma ligação importante, simples, falou automaticamente e nem prestou atenção ao que estava sendo dito. Lavou as mãos delicadas (esmalte rosa claro, que maravilha) e voltou ansiosa para o seu amado.
A iluminação do restaurante estava mais escura, e achou isso um pouco estranho. Talvez estivesse com dor de cabeça, quem sabe. Mas e daí? Os violinistas aproximavam-se e ela sentia o que estava por vir.
- Meu amor... você é a pessoa mais especial para mim, amo-a de todas as formas possíveis, gostaria, neste momento, de pedir-lhe em casamento - ajoelhando-se, abriu uma caixa com um anel de diamantes dentro.
Tocava uma música melódica e romântica ao fundo, quando...
Blackout.
A casa inteira apagou-se. Um homem pelado saiu do banheiro aos gritos, dizendo que a água estava congelando, e que a mulher sabia porque sabia que não podia deixar a luz acesa com o ventilador e a televisão ligados, enquanto ele toma banho. Ela estava paralisada ainda, em choque, com os lábios entreabertos, como se fossem proferir algo, mas não conseguissem. O homem ligou para o síndico, aos berros, dizendo que a casa não tinha luz e virou-se para a mulher reclamando que demorariam dez minutos para mexerem no relógio, e, pelo amor de deus, ele teria que ficar emsaboado até a água quente voltar. Resolveu ir para o quarto.
Ela ficou sozinha, olhando para a televisão, as mãos sobre as pernas, tímidas e piedosas. As unhas não eram rosas, mas sujas e roídas. Dez minutos. Não haveria mais casamento. Ela não aceitou. Ela não conseguiu aceitar. E agora estava na completa escuridão.
Uma lágrima saiu de seus olhos, quando as luzes acenderam-se. Ligou a televisão rapidamente, mas já eram oito horas.
E eles viveriam felizes para sempre.
Resolveu ir passar roupa.
domingo, dezembro 14, 2008
Peças atrás.
Não existe mais nada agora. Nem um pingo de água, nem um milésimo de poeira, nem um átomo. Eu limpei tudo, cada vestígio de pegada, todo pequeno som que se escondia atrás da porta e embaixo dos tapetes. Rasguei as cortinas do meu quarto e abri as janelas.
Tão profundo.
Vi as pessoas passeando pela rua e achei-as tão belas, tão felizes, tão humanas. E eu, ah!, eu passava as mãos pelo meu pescoço e tentava não arranhar minha alma. Porque eu queria, naquele momento, acabar com tudo. Jogar-me da janela, gritar, impedir! Sonhar.
Eu descobri que nunca precisei de nada. Por isso acabei com tudo. Mas agora tinha inveja. Completamente. Queria ter a pele menos pálida e mais viva, queria ter meias vermelhas e poder correr pelo parque aos domingos e não, não de novo. Eu quebraria os balanços e as gangorras. Tenho certeza.
Puxem as cortinas, por favor!
Estão rasgadas.
Eu rasguei-as. Para que não me tentasse a puxá-las e esconder o mundo inteiro de fora. Porque tudo que eu consigo fazer agora é olhar para minhas mãos (e ainda assim achá-las estranhas!) e perceber o quanto são minhas. O quanto têm curvas e linhas e desenhos e o quanto de mim está ali. E se eu olhasse para a mão de qualquer outra pessoa, iria querer gritar! Gritar de susto, de vastidão e de distância. Não, não posso ser tocada.
Depois que você abriu a porta e bateu-a, vi você acenar da rua para mim e achei seus dedos mentirosos e mesquinhos. A verdade é que você não acenou e não havia dedos com sentimentos. Você nunca existiu. Os sapatos com que eu gritava todos os dias nunca conheceram o mundo. E eu sempre reclamava que empoeiravam a casa e que não conseguiam ficar embaixo da cama por nem um dia! A poeira era falsa, criada. Escrita? Totalmente.
Eu tornei-me algo mais que não eu. Fingia todos os dias e imaginava. Até… até não sei quando. Lembro-me apenas de você (quem?) ter quebrado o espelho e também minha realidade. De ter-me deixado sozinha verdadeiramente. Sempre estive e agora sei. Quando o sol descia, e íamos à beira da praia, sentia-me plena, completa e feliz. Deve ter sido tudo apenas uma armadilha do mar e daquelas intermináveis ondas que me sugavam o olhar para o horizonte e para onde parecia ser o coração do mundo.
Por que minhas mãos têm vida própria e assustam-me? Parecem tão fora e tão dentro de mim ao mesmo tempo, como se uma fosse parte do tudo e outra parte do que sinto. Se é que o que sinto existe. Pois metade de mim já se provou desexistir.
Não há solução para agora. Tudo parecia tão meu, tão perto, tão… tocável, de todas as formas.
Tudo que eu queria era poder puxar as cortinas e impedir o ar contagioso de entrar por entre a janela. Mesmo que a feche, ele entra por imagens e impregna meu quarto de sorrisos e sentimentos milhares.
Por isso, mais uma vez repito, rasguei-a.
Você nunca mais entrará pela fechadura e me trancará. Tudo está aberto. Não! Não quero mãos e dedos diferentes e cheios de vida entrando. Não!
Arrependo-me, não tenho mais cortina, não tenho!
Quando a realidade real toca minha realidade imaginária, tudo que posso sentir é medo.
Que pelo menos esse sentimento seja real.
sexta-feira, agosto 22, 2008
repentino.
Não que seja um ressentimento, não, é menos que isso, é uma indiferença total. Uma entrada pela porta, um bom-dia casual e causal, tão automático, um suspiro longo e demorado. Os olhares eram trocados, mas olhavam para o absoluto nada, não era sobre essência que existiam, mas sim sobre forma. E a forma também era deformada, apesar de ainda guardar um resquício de lembrança longínqua.
Não sei quando deixei de amar (não há você, nada transita, tudo sempre foi), simplesmente. Mas um dia você sorriu para mim e eu não quis achar graça. Veja bem, eu achei. Mas não quis. Uma força dentro de mim dizia que não havia nada do que rir, enquanto meu cérebro maquinava os músculos em uma expressão única de alegria. Perguntava-me, então, por que você havia dito aquilo. Por puro impulso da forma ou realmente pela essência? Mas talvez você não fosse tão mesquinho quanto eu…
Indefinível. Sei que é. De todas as razões, não consigo encontrar uma que seja real. Lembro-me do sorvete, lembro-me muito bem. Eu queria de morango, e você de flocos. Depois trocamos as casquinhas, porque queríamos compartilhar até mesmo o gosto por sorvetes. Sabe de uma coisa? Eu nunca gostei de flocos. Nunca. E quis cuspir naquele maldito preto e branco que você empurrou tão impetuosamente para mim. Mas eu comi, comi realmente achando aquilo delicioso, porque os sentidos estavam-me enganando. Você sabe, os sentidos enganam demais.
Depois, quando voltamos pelo parque, eu tive os olhos brilhando quando você começou a gritar que me amava, que me queria e que eu era, que eu era, que eu era o amor da sua vida. Eu só conseguia gritar, que horror!, Você também!. Vamos nos casar? Vamos! Que grande idéia. E o que eu pensava sobre casamento, sobre ser-só, sobre a vida foi massacrado pelas suas ideologias altamente influentes. E banais. Sempre as odiei. Nunca pretendi casar-me com você.
Mas casei; foi pelo piano, unicamente, tenho certeza. Não posso negar o quanto amei e ainda amo os seus dedos corriqueiros, a melodia interminável e o fato de você não olhar para mim enquanto tocava. Você olhava para o instrumento, como se ele o fosse nutrir, como se fosse o porquê de estar vivo. Naqueles momentos, eu desexistia para você, e isso me fazia livre. Livre em mim mesma. Pois sentia falta de não ser compreendida e de ter alguém a quem não compreender.
Na verdade, talvez nunca tenha amado. Porque era dificultoso sentir, abraçar, possuir saudades. Sentia dor física para poder sofrer pela ausência, entende? Procurava necessidades para dar sentido às coisas. Elas nunca tiveram sentido algum. Você estava sempre feliz ou sempre triste, era tão irritantemente extremo. Enquanto eu apenas era. E era, e fui e fiquei.
Eu não sei por quê, mas não estou afetada. Nem um pouco. Não consigo nem ao menos chorar. E isso, finalmente!, está-me abalando. Sempre chorava com os filmes, mas não com a vida. Juro que queria chorar agora, bater com a cabeça, vomitar durante uma semana escondida no banheiro. Depois ter que ir ao psicólogo.
Não sinto nada disso. E por isso acho que nunca amei. Era tudo mentira. Mentira, escutou? Mentira. Acho que estou repetindo essa palavra para mim mesma há muito tempo. Estou quase inteiramente convencida.
Não se intrigue. Se eu não choro pela vida, por que choraria pela morte? Talvez esteja aí a minha resposta.