domingo, abril 25, 2010

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fiquei o dia inteiro lendo um livro. um fato normal no cotidiano dos afazeres e pensamentos da efemeridade. mas o que me surpreende é a capacidade de me sentir companhia de todas as horas, amiga e amante das páginas brancas e negras, sonho de promessas de vida eterna.
porque, ao abrir (docemente, como pernas prontas para o ato sexual) aquela capa dura e azul-escura, eu era vítima e assassina. o local do crime sempre o mesmo, com outras cores e outros toques, os personagens disfarçados de gente real, as minhas vontades soluçantes arranhando aquelas folhas.
o desespero ora leite ora álcool ia me encantando os dedos, as vozes em minha cabeça já não faziam parte só-de mim. a parte era o todo, e o todo era o abismo infinito entre mim e os milhares de eus translúcidos saltando da história e quebrando as lentes -tão finas- dos meus óculos.
de repente a campainha toca. fiquei atordoada, pois estava já presa por auréolas àquela narração de vida dormente. não sabia de onde vinha o som. acompanhei as pistas até a porta de casa, com o livro ainda sobre os dedos, e me deparei com o jornal de todos os dias. tive uma cesso de raiva! a realidade intransponível se encontrava quase encostada na beira dos meus pés. bati a porta furiosamente.

(sobre o desespero que se torna fúria: acordar e querer dormir, escovar os dentes e não conseguir arrancar o mau hálito dos que ainda sonham, afogar-se todos os dias na ducha fria e veloz que percorre o corpo como o tempo cansa as senhoras idosas de esperar pelo navio que nunca chega no horizonte, vestir-se e ver-se nua no espelho embaçado, ligar a televisão e só ter um canal com ruídos, comer o pão como quem tem sede e não há água (ou vinho) para sarar-se.

ainda, tentar dar as mãos para o desenho feito quando criança e colorido com lápis de cera e sentir a imensa solidão emanando da mentira e da falta do agora.)

o livro expressava e comprimia. queria suprir tudo dali, daquelas falas silenciosas, do amor e do ódio e da vida tão presente e nunca passageira das horas. poderia? precisava escolher os finais, inventava novas idéias e histórias para cada detalhe e gesto.
do desespero surgiu a criação. passaram a crescer as flores em cima do jardim seco, a regá-las de grafite conseguiu ser salva.

da luz que se dá algo, surge um preenchimento temporário.
vitimada, exerceu sua vontade de assassina e mãe.

terça-feira, abril 20, 2010

asas e facas.

sei que haverá uma noite em que acordarei aos prantos, e minha mãe estará chorando sobre o corpo morto de meu pai.
o tempo sua pelo corpo, vida em partitura de música italiana. janelas abertas para o mundo entrar nas casas, um sopro de tudo na poeira dos cantos dos cômodos.
mamãe costumava dizer que morcegos são pássaros esquecidos. fazem barulho à noite, assustam, cegos voam pelas árvores e por cima dos pensamentos. papai, com o sorriso no corpo, lia alguns de seus poemas sobre pássaros que fingiam ser morcegos.

- mãe!
os dedos passeios de carruagem enferrujada sobre os pêlos, poros, sol. sal invadindo a cachoeira crescente, brilho único de adeus. ainda de camisola, jazia estendida ao chão, as orelhas congelando no mármore branco, enquanto suas mãos apoiavam no coração.

- está fingindo, amor.
sufoquei com a explosão torturante que queria ser vomitada dos meus lábios. havia sonhado com o horizonte, com alguma música e instrumentos. sentia a vontade de voltar para a calmaria que emanava da cama.

ela ficou ali o dia inteiro. senti o cheiro de podridão vinda do corpo. sentei-me na cadeira de balanço só para sentir o terrível gosto do vai e vem. conversava com papai de vez em quando, arrastava o rosto na pedra dura, resmungava sobre a noite mal dormida. senti pena.
à noite, tive forças para parar de balançar.

- chegou a hora, você sabe.

levantou-se sem espirros, o sangue todo parecia estar no rosto.
os punhos fechados, como se guardassem algo dentro.
foi até a janela do apartamento e jogou um ser morto oito andares abaixo.
era um morcego.

não escutei a queda, quase que ironicamente, mas os seus grunhidos finos e perdidos: é besteira, não importa! é besteira, ouviu? onde estava com a cabeça?
fiquei assustada em alguns momentos, com vontade de chorar e gargalhar, mas o mais terrível de tudo foi mamãe ter aparecido com um pássaro engaiolado e cego para cuidar.

no enterro de papai rezei por piedade.

domingo, março 07, 2010

de repente tudo ardeu. e arde, como fogo em casa longe do mar. meu corpo em incêndio de noite de são joão, a vida em cirandas mentirosas e cansadas. a parede ao meu lado chora, a janela lacra as cortinas de folhas, a menina sentada na varanda acena para o mundo negro e faminto.
porque, em um segundo, sinto a água de 1 real tocar meus lábios e meus lábios tocarem os lábios secos do homem pedindo esmola. vem a sensação de passageiro no ônibus, não, meu deus, na ambulância, estou em chamas me salvem!
a poesia grita. grita Grita GRita GRIta GRITa GRITA! como se fosse um nome, como se grita fosse alguém que pudesse fazê-la respirar! sufocada. engolindo a água de preço inventado, o descaso com ela mesma.
ela invade a a minha mente e pede para eu atirar bem fundo. desenha uma arma e me dá de presente e diz: vai. mas eu não vou, não consigo, fico parada, a arma escorrendo pela tinta a fora. deixo virar um borrão e passo os dedos na sua textura. passo os dedos pelo rosto e fico suja de violência, os poros absorvendo e enviando tudo pro sangue.
começo a pulsar - vida que estoura de medo, de vergonha, de anseio. preciso. e repito: preciso! o precisar passa a um querer profundo. o sangue pulsando no ritmo dos tiros.
perguntei prum menino onde ele havia guardado. ele me respondeu que nunca teve. eu disse é mentira! mas não era, não não, não era e aquilo me desesperava. ele não tinha guardado num baú e trancado, ou escondido só pra ele. tinha cicatrizes, sim, mas só lembranças. às vezes ela vinha, mas como chuva de verão, depois deixava tudo para trás, pobre nordeste.
me chamou prum cantinho e sussurou no meu ouvido: ela grita! mas ninguém escuta, porque é um grito silenciado pelas buzinas.
seus olhos sem formato, seus lábios quis beijar. peguei na mão dele e disse: poesia.

- meu amor, de que o mundo precisa?
- de poesia.
- mas tem tanta gente passando fome, morrendo por aí...
- exatamente.
- não entendi...
- a poesia está muda.

porque ataram seu grito com uma nota de 1 real.

terça-feira, janeiro 26, 2010

-

aqueles gritos demoraram a sair da minha casa, dos cômodos, do pozinho entre as teclas do meu computador. entraram como uma orquestra, para todos os lados, pela fresta da minha janela e me alcançaram no chão onde eu estava deitada.
acordei sobressaltada, por saber que me tomavam os ombros e sacudiam. eu me deixava tocar como o piano em que meus pés encostavam. mas naquela noite, com o barulho me arranhando, eu queria ser muda. fui até a rua, era madrugada e meus olhos também pesavam como se houvesse uma gota de orvalho pendurada em cada cílio.
havia faltado luz no bairro inteiro - os gritos eram feito chamas. a janela de frente à minha casa estava aberta e uma mulher chorava.
cada grito, que como uma sinfonia crescia e diminuia, me consumia mais e mais. comecei a sentir o corpo quente. joguei água, mas não adiantou, tudo estava em carne viva. desde o chão em que eu pisava até os olhos assustados e com uma ponta de sentimento se escondendo nas dobraduras do piscar.

pessoas na rua já sussurravam.
- acho que morreu alguém.
- nossa, não somos ninguém diante disso tudo, não é mesmo?
- é.

entrei. teimosia de querer se distrair da vida. já disse que não quero distrações: quero sentir. como escrevo agora parece que foi um fato comum em um dia quente e sem sorte. realmente foi, não minto.
mas tudo me fogia do controle:
grito, fogo, dor, água. grito, dor, água, fogo. grito, fogo, fogo, dor. grito, grito, grito... fogo, grito.

um homem morreu, meu deus, e agora? como aquela mulher vai olhar para o mundo? como se as coisas já são duras e há de se limpar a casa toda sexta-feira? como se os chinelos ainda estão ao lado da cama! e o vidro ainda está embaçado com o frio do inverno passado.
fui para o banheiro e apoiei a cabeça na parede, a mão no peito. meu coração gargalhava.
era medo? era dor? era culpa? era falta?
o piano da sala parecia tocar sozinho, as pessoas na rua continuavam a olhar, os braços na cintura, a cabeça balançando, um conforto religioso afagando-lhes o pensamento.
quero um abraço, que me digam que sentem muito, que lamentam o repentino. talvez assim eu consiga me distrair um pouco do inevitável, porque os sentidos já me deixaram.

voltei a dormir. os dias seguintes devagar e estagnados.
o que mais me angustia é que a janela aberta por toda aquela noite continua fechada e os gritos, calados.
renderam-se, tal como eu (deiticamente), ao tempo.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

"pra você eu digo..."

gostava de assoprar as bolinhas de sabão e ver como estouravam facilmente. sabia que era tão passageiro como uma viagem de ônibus até itacuruçá naquelas férias de verão.
a bolinha sobe, diz que não quer nada, sente o mundo por alguns segundos e...
às vezes tentava pegá-las com a mão, mas era muito difícil! escorregadias, espertas, medrosas. as bolhas de sabãos conseguiam ser mais sábias que a menina.

ela, sim, deixava-se agarrar. aliás, jogava-se nas presas ferozes com a coragem nos olhos fumegantes. abria os braços como quem diz me abraça forte never let me go.
também surgiam, com isso, as vontades de eternidade.
quero que isso não se acabe, não não, como poderia deixar de ser isso para ser aquilo, como? fica, fica, não se esvai, não se deixe voar pela brisa até misturar-se e deixar de ser algo senão ela mesma.


corria. o céu em seu rosto, estrelas penduradas em seus cabelos. precisava alcançar o depois e guardá-lo dentro do peito como um grito que não, não quer sair. fica, fica!
preciso tanto de você como é, estático e brilhante. luz que pisca, mas nunca acaba. desejo de estar aqui agora eu você.

com um sim: estourou a bolha e viu as gotinhas d'água caindo no chão.

com um não: continuou a olhar a bolha esperta, que subia colorida a tentar alcançar o céu e tornar-se arco-íris.
-fotografia-

às vezes prefiro um talvez.

quarta-feira, novembro 18, 2009

sussurros em forma de olhar no gramado noturno.

- meu amor, a vida corre. -
aqui estou, passageira do orvalho,
contando as estrelas através das batidas do seu coração
esperando, calma e serena, o mundo girar mais uma vez
e as nuvens se transfigurarem como algodão-doce em mão de criança.
- meu amor, meu sussurro é silêncio que chora. -
olho suas mãos mal-feitas, as unhas crescendo tortas,
as notas do piano marcadas em suas digitais.
toca uma música?
isso, passeia os dedos pelo meu corpo e me faz acorde sem som.
a pele nunca fala. ela transpira.
- meu amor, preciso de oxigênio. -
que eu já não posso respirar esse ar ora doce ora contínuo ora amargo ora lúcido. porque me corrói, viver está me matando.
sinto cada estrela morrendo comigo, sinto cada lua iluminando meu túmulo.
- meu amor, o dia termina. -
e o silêncio vai silenciando. meus lábios tornam-se botões de rosa para nascer amanhã. cada gota de verdade se perde nos poros sem fim.

meus olhos chamam a aurora: a noite estrelada, os sussuros cadentes... morrem com o brilho cansado do sol insistente de cada dia.

quarta-feira, novembro 11, 2009

~

sempre associei a morte a um gosto. não consigo lembrar de mais nada agora, sentado neste sofá roído. nem dos seus olhos nem da sua pele macia e branca nem de nada. mas sinto o gosto. um gosto meio doce meio amargo meio saudade meio beijo, daquelas balas que enganam no início e depois se mostram sem a camada de açúcar.
no início, não houve lágrimas ou gritos. aceitei como um imposto de renda (ou se paga ou se é calado - eu me calei). vêm as cores do pôr-do-sol lamber os meus olhos como pesadas pálpebras terra e depois estou sentado na lua observando-a apoiada na janela.
a última vez em que vi você foi um até logo sussurrado aos bocejos. té, amor. levantou-se com o olhar triste, caminhou até a porta, apoiou a cabecinha na parede e piscou os olhos pra mim, distante, distante. você queria que eu levantasse, abraçasse forte e não a deixasse ir. mas eu não fiz isso.
depois você saiu com uma lágrima secreta, trancafiada a cem chaves. eu sempre consegui ver pela fechadura. não me movi. você era minha, não precisava me esforçar para continuar sendo.
como o clichê segue: você não voltou. quando recebi a notícia o sangue ainda estava fresco, lembro de correr até o local e vê-la jogada no chão, os braços agarrados a um livro de poesia. senti a ironia daquilo tudo.
não consegui chorar. voltei pra casa, apaguei as luzes, fechei as cortinas e fiquei só.
quando olho para a porta, vejo seus olhos.
o cheiro do repentino não sai do seu perfume, o gosto da morte rodeia meu tempo e o arrependimento me inunda por dentro e seca meu sertão.

terça-feira, outubro 06, 2009

i[m]und?ação!

luísa abriu os olhos e deixou que as gotas de chuva entrassem em si, ardendo como chama. estava deitada no meio da tempestada sobre nuvens de concreto e pensamentos ladrilhados. a vida corria tão difícil como aqueles livros chatos e intermináveis (pedimos à nossa doce consciência que nos libere do ardoroso fárduo de terminar de lê-los, que possamos fechá-los e deixar que a poeira leve a história para o fundo do armário).
as imagens vinham à mente como assaltantes armados. chegavam, sacavam a pistola e... às vezes roubavam tudo que tinha; outras, atiravam até o sangue escorrer pelos poros em dúvida de morrer ou apenas trazer a dor. ah, era difícil. naquele momento, ela apenas queria abaixar o tom de voz até chegar a um sussurro auto-piedoso: me ajuda.
a semana inteira havia se tornado tempo de opressão para consigo mesma. adoecera, e lhe pareceu que tudo à sua volta também se tornara doentio. todos os dias, incontáveis, ia para o trabalho. luísa era professora de matemática. já fechava a porta de casa fazendo contas, contava os passos e os suspiros que fugiam impetuosos do seu peito: ah-ah-ah! 1,2,3 [x] infinito cortado (não há tempo para suspiros (nem números)). dava suas aulas, voltava para casa e ia assistir à televisão ou ler um livro. sempre gostou das palavras, apesar de ter trocado juras de amor com a exatidão. seguia a vida normal, suando e transpirando, catando um tempinho aqui e ali no final de semana para ir ao cinema. mas então a doença veio e avassalou sua vida.
teve que ficar de cama durante uma semana. e, nesse tempinho, luísa resolveu ver todos os noticiários que nunca havia visto antes (era só novela, ora essa). cada vez que uma notícia surgia, ela abria bem os olhos e prestava atenção, afinal, não é que todos dizem ser importante ser bem informado? também vou ser!
conforme as horas foram correndo, mais se fixava na cama, mais apertava os dedinhos embaixo da coberta. descobriu um canal pirata na sua televisão, um bandnews que às vezes surge mal sintonizado. prestava atenção em cada mínimo detalhe, em cada parêntesis ou vírgula que as imagens cotinham.
começou a ser o que via. quando as milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhare milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares milhares de crianças passando fome na áfrica apareciam por meio de palavras ou com a cortante presença física, luísa sentia a dor crescer e fervilhar dentro de seu peito. o estômago roncava e pedia comida, por favor, só um pouquinho, dói tanto, quero um pedaço de pão. mas nem migalhas vinham.
quando a favela aparecia, escutava os tiros rompendo do seu lado e um medo terrível perpassava todo o seu corpo. medo medo medo medo medo de morrer e nem saber por que de onde para onde como. apenas a culpa no final, e os homens de cinza com olhares de lei nos olhos espancando com porretes de falsa moral a vida que corre sem sentido para os corpos jogados nos rios no fim de tarde.
de repente os trabalhadores sendo explorados, reprimidos, sem tempo para criação ou verbo-ser. a identificação foi real. e todos os momentos abusivos se tornaram raízes por seu corpo e deram frutos de raiva e indignação.
morte, corrupção, fome, violência, repressão
- alienação?

luísa estava deitada no meio da rua olhando para o céu. queria sentir aquele chão cheio de petróleo e lembrar-se que o suor do povo estava enterrado ali. seu suor também estava, cravado e escondido, bem ao lado do da sua vizinha, dos seus amigos de trabalho, do senhor carlos, dono da vendinha de legumes que almoça para não jantar.
sua vida não poderia continuar como era antes. não depois de toda absorção e luz que ganhou graças ao que a sociedade chama de doença. a doença que teve fê-la sofrer, mas arrancou toda miopia, astigmatismo e catarata que tinha nos olhos.

a semana seguinte seria ... forte.
suas mãos agora são sangue pulsante, força que lateja e não pára.
sabia que tudo estava errado, e uma reciclagem aqui e ali não bastaria.
é preciso jogar tudo no lixo!
e criar vida nova.

domingo, outubro 04, 2009

janela entreaberta.

abri os olhos e você me olhava. amêndoas arco-íris pedindo pr'eu cantar uma música de ninar. dorme, meu bem, que o tempo lá fora nos espera, dorme, meu amor, que a vida nos exige, e o caminho é longo, descansa agora enquanto eu mexo nos seus cabelos de poesia infinita.
len-ta-men-te, você se deixou embalar pelo meu canto sereno. por um momento, pude ver a fragilidade da sua respiração leve e cheia de vida. quis sentir como você sentia. o ar entrando, saindo, paz.
cobri seu corpo macio e delicado e sentei no parapeito da janela.
olá, estrelas.
milhares de pontinhos brilhantes acenavam para mim. são os vagalumes da eternidade. eu poderia ficar ali até os fins dos tempos, tecendo, sustenido por sustenido, a doce melodia que é viver.
você bocejou sonhos. eu costurava o dia. quando a manhã chegasse, certamente o raio de sol mais forte despontaria seu rosto para um sorriso girante, como o girassol.

mas um chamado vindo de fora da janela me assustou. moça dos cabelos de corda e dos dedos de harpa! não sei de onde veio ou por que me tirou a tranqüilidade: abri as asas e voei com o orvalho caindo dos olhos, deixando tulipas nascendo por onde passava... para o azul do mundo lá fora.
quando você acordou, apenas a música ficou presa no quarto, e aquele gosto de mel-primavera querendo voltar a ser doce.
no chão, uma estrela caída ainda cintilava.
-(era um vagalume ferido)-

segunda-feira, setembro 28, 2009

até.

é tudo mentira. mesmo que todas as lágrimas que cantam para o meu sono vir secassem, eu ainda estaria de joelhos para o espelho, tentando enxergar um pingo de chuva no chão refletido.
nada é como o querer. por isso a invenção, essa magnitude viva de construir cidades inteiras com o meu desejo (e depois desabá-las com apenas um sopro de realidade). sabe, como se o que existe me doesse ou não me bastasse, como se eu quisesse mais, como se eu precisasse de um abraço longo e demorado que me arranhasse até a alma.
porque tudo é tão difícil. parece redundante falar isso quando as palavras já me são tão duras, quando você vira a esquina e leva consigo o olhar e o meu sentimento. e ele é maleável, deixa-se carregar fácil, é doce e sereno, e tem medo.
eu sentei no chão para sacudir um pouco as estrelas do céu com meu olhar delirante. vi que você estava perdido. também estava. mesmo nós dois estando com as mãos atadas como asas que voam e não voltam mais.

cena 1:
- você viu?
- o quê?
- uma estrela cadente.
- seus olhos?
- não, lá no céu.
- seu sorriso.

cena 2:
- você viu?
- o quê?
- os fogos explodindo no céu!
- não, não vi.
- ah.
- já é tarde, você está alucinando.

mas as estrelas, e o ar rarefeito, e o sereno... nunca é tarde para se agarrar às luzes que atacam meu coração. depois você levantou devagar, foi tragar um cigarro no banquinho ao lado do portão.
eu precisava tanto, tanto. ao mesmo tempo em que precisava do lado oposto. queria gritar me dá a mão; ou vai embora.
talvez eu realmente estivesse alucinando, porque comecei a rezar baixinho que deus me salvasse daqueles momentos, que o dia viesse logo e que tudo acabasse. que tudo voltasse ao normal, que eu fosse novamente luísa e não luzia sem luz.
esses são os momentos de pesadelos que se aliviam logo após acordarmos e descobrirmos que nada era de verdade. mas aquilo era real: você sentado distante na pedra, os pulsos finos e tatuados, a cicatriz dolorosa nos olhos.
cravei as mãos na terra e te esqueci. era melhor agora chorar escondida, dentro dos armários, a me encarnevivar.
levantei como uma senhora e cheguei perto: - beijei o ar carbônico que saía de você, tão mortífero quanto o olhar que trocamos.

entrei em casa e tranquei a porta. fui dormir, como se acreditasse que acordaria no dia seguinte com a saborosa lembrança distante do sonho.

sábado, setembro 19, 2009

_

tudo não passa de um olhar para dentro
e de perceber que há uma cadeira vazia,
pedindo pr'eu descansar.
meus pés estão tão cansados,
de correr pra não sei aonde.
parar é preciso.

minhas roupas já tão amarrotadas,
meus sonhos saias de algodão.
a música que toca me deixa tonta
mesmo sentada sinto o cansaço do mundo.

escondida, me guardo
nas páginas que não podem ser lidas.

quinta-feira, setembro 03, 2009

descoberta.

pura e simples,
a gota de orvalho me faz flor.
desce dos cabelos e planta sementes
no pensamento chuvoso.

coloridos são os olhos,
formadores de lacrimosas pontes,
deliciosos suspiros de madrugada passada.

de água o corpo é todo doce,
misturado ao sal das piscadas silenciosas,
pausa fora mundo dentro.

se eu voar
as gotas me choram,
mas não secam:
- escorrem, lentas,
tornam-se cobertores-retalhos de mim.

me dá um gole.

esse céu, as estrelas, seus olhos
são a bebida na escrivaninha
ao lado do papel.

o líquido multicolor
borra a folha em branco
e forma um pássaro colorido.

não preciso de palavras
para ler a poesia que do vidro escorre
e crava o vício nos lábios secos.

gatilho.

de repente você sacou a arma,
e, com um tiro,
arrancou toda minha vontade.
me deixou perdida,
fora do espaço entre nós.

fui para longe,
onde a pólvora não tinha força,
morta e com a bala pesada nas mãos.

joguei no lixo a minha tarde,
o pôr-do-sol,
todos os pulsos que me nutriam.

o sangue-sentimento é doce,
mas agora só sinto um gosto
salgado queimando minha face.

a dor voa no ar
como estalo sinfônico.
eu caio no chão
como silêncio de pausa.

quarta-feira, agosto 12, 2009

huuum-ah.

seu cheiro impregna o meu cheiro.
e o ar que eu respiro já é todo você.

o perfume é doce.
textura impermeável de choro.
gosto de maçã com açúcar.

posso lacrá-lo em um papel?
para que eu possa tê-lo só,
inspirá-lo de quando em quando,
sentir que esse cheiro vive até na poesia.

sábado, agosto 08, 2009

roda-pé.

- você pode ficar só mais um pouquinho?
sorriu, e as migalhas caíram de suas mãos. como se mais um dia inteiro tivesse passado em vão, naquele tempo sem relógio, onde a noite e o dia ou o dia e a noite e as tardes são todas iguais. era como uma cadeira de balanço quebrada: você quer balançar, mas não consegue; quer dormir, mas ela range.
o sorriso foi pequenino, tímido, medroso, mas ainda assim conseguiu gritar para o mundo alguma coisa disforme, profunda, pingando de sentimentos. ficou muda, paradinha, os olhos piscando. fica, por favor.
não sabia direito o que estava fazendo: tirou as sandalinhas, o lenço que cobria seu pescoço e estendeu a mão nos pensamentos. nenhum movimento. a janela ainda ventava sem cortina, o mundo em holofotes lá fora.
o vento frio entrou e congelou o quarto devagar. mas ela não se moveu.
- disse algo?
- disse.
- o quê?
- posso te contar uma mentira?
- por quê?
- posso?
- pode.
- eu te amo.
- isso é uma mentira?
- não. mas tudo o que está por trás disso é.
- incompreensível. preciso ir, te vejo amanhã.
fica.
foi e fechou a porta. a janela aberta. frio frio frio. o quarto deliciosamente inundando dos cantos até o teto, do teto até a janela, da janela até o mundo. e o mundo lá fora indiferente, se deixando inundar, mar lacrimar de pessoas-peixes.
ia morrer afogada. procurou as migalhas no chão. morreria com dignidade. catou-as, meteu tudo no bolso.
mas o bolso estava furado.
ele voltou no dia seguinte. o cheiro salgado alastrando a casa. a cadeira de balanço úmida e com vontade de balançar. o silêncio estava mudo.
o rádio ligado no quarto. chopin pianotava por ali.
- meu bem?
- tive um sonho.
- sonhou o quê?
- sonhei que a casa era um oceano e que eu podia nadar, apesar de morrer afogada logo depois.
- deus me livre!
- posso ao menos nadar e voar nos meus sonhos...
- deixa de besteira, isso é coisa de artista. vou te levar para dar umas voltas.
- não quero. quero ficar aqui.
- eu não gosto de ficar aqui dentro, preso.
- eu sou presa aqui dentro ou lá fora, qual a diferença?
- não quer passear?
- não.
- vou embora.
fica.
vai.
fica.
fica.
vai.
me empurra para um mundo em que o voar sejam passos no chão; me empurra até que eu não precise mais ser empurrada.
ele foi embora.
ela ficou deitada. a cadeira de balanço estava longe, longe.
voltou a sonhar.

domingo, agosto 02, 2009

Placa Enferrujada.

Precisa-se de algo
ainda não descoberto.
Pode ser de maracujá
ou quente como chocolate.
Pode ser rosa, amarelo,
negro, vermelho,
de amor, de odio, explosão!
Mas tem de preencher
ausência aberta,
falta fermentada.
Tem de curar vícios
e medo de escuro.

Precisa-se.
(por enquanto ainda na intransitividade clandestina)

sábado, agosto 01, 2009

posse de abstrato.

eu tenho uma loucura dentro de mim
que canta, dança, roda.
explode em fogo adverso,
queima as cortinas de veludo
que cobrem as palmas de minhas mãos.

sabê-la é como ler labirintos,
mapas em branco aos pedaços.
abrir o baú que a guarda
é volta ao pensar universo.

não que consiga liberdade,
fera única de dois gumes.
o que tem é meu ar,
minha vida, a paixão de acordar e ser.

como fui enganada!,
e a água que me envolve reflete o real,
ouço um riso histérico de prazer:
eu sou tida por ela.

- paciente, nunca sujeito de mim.

segunda-feira, julho 27, 2009

a madeira da beira.

a porta entreaberta,
o mundo entre farpas.
uma de suas lágrimas me olha,
mas só fumaça me cheira.

a frestra é sombra,
dança desordenada.
o cigarro me atinge,
(você fuma a dor como quem ri)

meu deus, tudo se fecha!
a luz vai embora
-acendo o isqueiro-
letreiro na porta: abismo.

sexta-feira, julho 10, 2009

desespero silabal.

você é tudo que tenho agora. você e um pouco do desespero. porque isso vem, me sacode, me machuca, me silencia, joga felicidade em forma de pílula para dentro de mim e depois vai embora. vai, voando, como uma mariposa que eu desenhei e depois fugiu do papel para o mundo, deixando-me em branco.
mas você, você não vai fugir, porque você não é desenho. você tem vida, tem asas, mas não vai a lugar algum. vai ficar aqui comigo. não vai?
ah, eu afirmo, mas não tenho certeza de nada. eu posso um dia acordar, correr até a gaveta, abrir o caderno... e você não está mais lá! nenhuma palavra.
é sobre isso que estou falando realmente?

vou te contar um segredo. eu acordei hoje à noite e o sol ainda estava no céu e as nuvens ainda desenhavam o seu rosto nelas e eu ainda consegui sorrir por um tempinho até escutar o despertador tocar e eu acordar de manhã. estava nublado. não havia nuvens nem seu rosto nem meu sorriso.
mês passado eu subi no telhado quando estava chuvendo e fiquei vendo os raios caírem por todos os lugares. desejei que um raio caísse em cima de mim, desejei sentir sentir o raio. mentira! eu queria ser o raio, queria ser raio e não...

ah meu deus, estou apaixonada por você. e escrevi tudo exatamente para que não me deixasse nunca nunca. assim: era uma vez um doce menino chamado lucas que tropeçava nas pessoas e caía no ar. um dia esse menino tropeçou em uma menina, mas ela não deixou lucas cair. não! ela o segurou pelas pernas, e os dois flutuaram por aí.
fim.

não é como se fosse uma mentira, porque não é como se eu realmente acreditasse nisso. mentira é o fato d'eu afirmar que só tenho isso agora. não, eu não tenho só isso. aliás, não tenho nada disso. não consigo nem ao menos escrever agora.
o que me resta é apenas o desespero.

domingo, julho 05, 2009

maquiagem.

sentada neste sofá,
pernas cruzadas,
salto quebrado,
visualiza o homem-gravata
abanar seu chá de maçã.

qual o problema?
ele pergunta sem açúcar.
ela corre para o banheiro
e vomita a fala na privada.

aquele gosto de bebida fermentada,
a falta de vontade de reagir.
senta-se de novo e vê o homem nu.

qual o problema?
ela pergunta adocicada.
ele corre para a janela
e sai voando para a casa ao lado.

- as marcas de batom caíram todas no chão.

domingo, junho 21, 2009

antileitura.

com toda vontade e sede
abri o livro que me continha.

deixei que o mundo me lesse.
página por página de tinta borrada,
palavras em negror profundo.

senti os dedos úmidos tocarem meu corpo,
me passearem,
interpretações à flor da pele fugidia.

mas nem toda a linguagem possível
conseguia me ditar em concretismo impessoal.
o que eu possuia era muito mais

ser indefinível e realidade que não se escreve.

sábado, maio 16, 2009

=

o sinal vermelho, mas carro nenhum. parei os pés no meio-fio, os pensamentos escorrendo pelo corpo até cair no ralo. a rua estava vazia e queria dar as mãos ao deserto que me acompanha. senti o frio vivo do vento que não tocava em nada, apenas esparramava meus cabelos para junto de sua essência feita de sopro.
ainda vermelho-sangue, pulsante, doloroso. há quanto tempo eu estava ali, à espera, tremendo e sendo desfigurada? não me lembro. o sinal verde não pisca, tudo sem nada, e eu adentrando no clima frio-árido.
as pernas não se moviam. estagnaram-se. precisava esperar a cor mudar, não, não posso correr pela faixa com essa proibição. era isso: eu estava proibida.
a chuva caiu lavando o presente. bambeei e fui esparramada na calçada, os joelhos ralados, os olhos chuvosos. você apareceu na porta do meu deserto, sussurrando: um dia de maio eu te amei amei amei um outro dia qualquer eu te nem mais lembrava apaguei a idéia do que sentia e te guardei dentro daquele globo de neve tão adorável de se sacudir e tudo se fez enfeite de natal pueril.
pisquei incontrolavelmente. pisquei como se me tivesse tornado um brinquedo natalino de fato. podem os sentimentos sumir, cravar as garras e depois arrastá-las até deixar o corpo em carne-viva? sim, eles podem. eles podem até teimar em existir sem nem ao menos terem nascido. vêm sorrateiros e enganam. ah, eu fui enganada pelos seus sentimentos, tal como você também o foi.
eu estava tão sozinha do mundo e de mim mesma que, quando você apareceu e me chamou para dançar, eu aceitei. fui guiada pelo salão, esbarrando em outros (e como me foi incrível esbarrar-lhes!). a música parecia incessante, e, naqueles passos tortos e apressados, eu vi o meu deserto ser destruído pouco a pouco.
mas uma vez, me lembro bem, estava conversando com meu reflexo e me foi dito: o seu deserto é infinito. quebrei o espelho com raiva, as mãos sangrando feridas. ainda tenho as cicatrizes da minha mentira. dei um golpe no meu rosto e desapareci com o que ainda restava de supostamente real dentro de mim.
eu continuo caída na calçada. a culpa é minha!, um grito no silêncio. me deixei dançar e girrar e girar e girar até ficar tonta e cair como estou agora. o tango cresce como uma rosa, emana odores, floresce e depois murcha. eu murchei, e, mesmo que tivesse dançado uma valsa (flor de plástico, doce arte), murcharia: - meu deserto é forte.
meu... amor? ... escorrendo com a chuva, brincando de morrer com a noite. o sinal fechado, a dor aberta. o mundo é trânsito, eu sou a pedestre impedida e os carros livres inexistentes.

domingo, maio 10, 2009

parto contínuo.

estou grávida de mim mesma. a descoberta foi feita de repente: de inesperado, eu estava para nascer. como isso foi acontecer eu não sei. contei tudo certo, cada pequeno detalhe, cada escapada louca para dentro de um quarto aos fogos de artíficio.
você já viu os fogos de copacabana? eu só gosto de vê-los através do mar. eles se refletem e ficam tão mais bonitos do que realmente são. tão mais ser e tão menos estar.
em um dia desses, passeando pela praia à noite, olhando os brilhos coloridos nas águas, senti algo me chutar. profundamente. chutava querendo sair, querendo gritar, liberte-me! fiquei com medo. o que poderia ser?
não é nada, repeti para mim mesma. devo ser algum efeito colateral de tanto orvalho que tenho bebido.
já lhe disse o quanto gosto de beber o suor das coisas? às vezes a lua pinga pinga muito, e eu fico deitada de boca aberta recebendo sua essência para dentro de mim. as coisas suam, suam de calor, suam de frio, suam apenas por serem. e é um suor delicioso e sagrado.
mas não era efeito. era dor, dor de parto, uma dor que somente cresceria, porque o que estava dentro de mim exigia liberdade.

não passaram nove meses. que absurdo se passassem! foi muito rápido: estava grávida e o que estava dentro de mim explodiu.
pensei em abortar, não mentirei. estava carregando a minha barriga imensa que não parava de crescer a cada... (posso chamar isso de segundo?)... que corria. fui a uma clínica clandestina e pedi: por gentileza, um aborto, rápido e indolor, não quero isso que carrego. a resposta foi-me dura e repentina: não podemos, senhora, já passou o tempo para isso, abortar agora seria a morte do seu filho e também a sua.
então eu morreria junto com o que estava se apossando cada vez mais de mim. e não era isso que eu mais temia? a morte. então aceitei o destino - seria mãe de algo que nunca concebi.

nos segundos que se passaram (e que na verdade eram só um momento), senti enjôos, náuseas, sangrei e senti vontade de agarrar-me a alguma centelha de de vida que não fosse ausência. porque eu precisava de alguém comigo, alguém que me amparasse, que segurasse meus cabelos, que me ajudasse a levantar quando eu escorregava. será que escorreguei de propósito?, me perguntava. será que escorreguei para matar o que eu carregava, porque não queria tê-lo?
não sei. mas tudo que eu conseguia fazer era colocar todo o suor que havia bebido para fora do meu corpo, como se me estivesse limpando do mundo.
mas eu não queria ser limpa! meu deus, claro que não! queria continuar suja, suja, suja. com o suor de tudo misturado ao meu suor, com o suor de tudo invadindo minhas veias.

quando não havia mais como adiar a vinda do que estava dentro de mim, respirei fundo. eu sei apenas que, conforme aquilo se ia desprendendo, percebi que era meu e que eu era a luz, pois eu estava dando e recebendo. eu era a luz que dá à luz.
não preciso dizer o quanto morri quando nasci. o quanto não tinha mais o mundo dentro de mim, o quanto estava limpa e órfã e perdida. estava órfã de mim mesma.
a minha alma suja sumia no mar, sendo carregada pelo suor das águas até o fundo.
e eu agora começo a me sujar e encontrar-me através das pegadas que havia deixado para sempre na areia. seguirei novos caminhos, mas sei da trilha por onde passei.

foi assim que engravidei, morri e nasci.

terça-feira, maio 05, 2009

o que tenho.

as pessoas me encostam, me empurram, silenciam o meu grito por um momento. e eu consigo visualizá-las, tocá-las de volta, passar os dedos pelos seus cabelos ondulados de conchas raras.
mas é só por um agora, que passa e que parece nunca existir, como um piscar de olhos que já não se percebe, pois é automático e estalante.
e no estalo eu consigo sorrir. sorrio realmente como quem quer chocolate no inverno, como quem quer banho frio após um sentimento escaldante e violento.
mas passa, passa bruscamente e eu me deparo em frente a um espelho sem reflexo, pois já não me consigo reconhecer. encosto no grande buraco entre mim e o infinito e me sou inalcançável. meus dedos tocam o ar. meus dedos sentem, mas eu não os vejo. não vejo nada.
logo então você, que é a mais completa expansão de mim, me abraça. forte. escuto o seu coração invadindo tudo o que é vasto dentro dos meus sentires. e a vontade de colocar-me para fora cresce, cresce, cresce, quero gritar profundamente a angustiante necessidade de encontrar-me na multidão.
não, já disse que não me reconheço, por isso estou perdida entre os milhares de rostos.
suprimo o grito. suprimo o que seriam idéias de lágrimas. você vira o rosto e eu afundo. não me percebo. tenho medo. tenho tudo dentro de mim, mas nada consegue me definir.
quero agarrar-me a algo, nem que seja uma personificação, por mais doentio e cruel que isso seja.
ah, como tenho medo e nada do que se possa dizer conseguiria acalmar o que vejo como minha realidade. não, é mentira, não vejo. a realidade me é fragmentária, angustiante, criada e recriada. a realidade me devora.

quero ser salva. quero uma personificação.
quero que mintam para mim. eu não me importo, quero que mintam, mintam verdadeiramente, como se acreditassem que a mentira é verdade. e talvez seja! ah, lá me estou eu mentindo para mim mesma novamente.
eu abro os olhos e sinto vontade de jorrar-me através deles. quero que me guardem em uma jarra quando eu escorrer através da minha pele. quero que coloquem uma rosa nessa jarra e que ela cresça. quero ter medo por cada pétala dessa rosa e esquecer que tenho medo por algo que é meu.
você pode fazer isso para mim?
você, que é tão dependente do que o eu sou, você pode existir por alguns momentos?
porque eu preciso.
preciso que me abrace e que me voe para longe, para onde o infinito se torne finito, para que eu possa me encontrar, porque estou perdida. estou tão perdida que nem sei o que você está se tornando...

só vejo uma solução: esquecer. voltar ao sorriso imediato e tentar fingir que sou e que me sinto.
mas o que sinto para fora não é fingimento, é tão relativamente real, que eu poderia até mesmo escrever sobre isso.
mas por enquanto abstenho-me a escrever sobre o que não posso escrever, pois assim é uma forma de construir um mínimo pedaço de vidro do meu espelho.

terça-feira, abril 28, 2009

na minha [casa], eu [m]i[nto].

você me deixou de joelhos
no altar da igreja do mundo.
um anel de pensamentos no meu dedo,
um anel de sonhos enferrujado no chão.

partiu rasgando meu véu,
arrastando-o pelas escadas sem fim.
caíram lantejoulas feitas de pele
pelos degraus cada vez mais átomos
que você ousou descer com pressa sorrindo.

meu deus! - um grito.
fui cortada ao meio pela música
do órgão que não cessava.
as notas invadiram minha voz!
e, ao levantar-me, cantei,
enquanto jogava o buquê de folhas secas para o alto,
bem alto, infinito,
______________ não volta mais!

corri.
corri de-ses-pe-ra-da-men-te.
pelo tapete vermelho rasgado.
meu vestido se ia dissolvendo,
sumindo, deixando de ser.
até me criar nua.
nua em completo,
sem lágrimas, sem vastidão,
sem anel, sem mim.

rolei pelo caminho,
grudando ao meu corpo as pétalas que não caíram.
meus olhos respiraram o céu de fora,
e chorei um choro de falta,
ao tocar na água limpa
e não mais ver seu rosto de noivo-mulher.

quinta-feira, abril 23, 2009

em um segundo.

Sinto falta daquela brisa. Aquela que trazia junto consigo as gotas do mar e um pouco de cada pessoa. Gostava de ser tocada por cada pequena parte de cada grande sentimento. Eu me sentia viva, dentro do mundo, dentro do mínimo que se maximizava quando me nutria. Mas girou o uni_verso em_versos in_versos...
Um grito dentro de mim silenciou: volta. O vento tornou-se vácuo, o mar tornou-se sal. Fiz o meu casaco de balão e soprei soprei soprei. Precisava inventar o ar. Mas não sabia para onde ir. Porque não havia mais onde ou quando. Apenas... as minhas pernas fora do chão e o meu corpo flutuando pelo céu azul.
Reparti os meus cabelos ao meio e fiz um lápis de fio molhado. Desenhei, em uma nuvem, uma janela para o passado, e minhas lágrimas, ao vê-lo, inundaram o mundo. Criaram novos oceanos salgados, com peixes brilhantes carregando sinais de trânsito e de todas as dores do mundo. Peixes verdes, amarelos e vermelhos, que se esbarravam por todos os lados.
Não consigo compreender ainda como tudo tornou-se o agora. Mas é. E o que vejo me invade e se torna parte de mim tão perfeitamente. Não posso nem ao menos fechar os olhos, porque os peixes não têm pálpebras e a visão deles é também a minha visão. Meus olhos são caleidoscópios invertidos e milhares.
Quando pousar os pés de sapatilha arco-íris na terra firme ou na areia movediça, preciso conter minhas gotas infinitas. Porque já irá ser hora do sorriso girar as flores-cataventos ao redor da vida.
E eu serei a sereia da brisa que voltou a habitar minha face.

quarta-feira, abril 22, 2009

expressão da falta que é sempre preenchida?

há pessoas que têm dinheiro,
há pessoas que têm amor.
eu não tenho nada disso:
tenho medo.

o dinheiro de nada me vale,
prefiro as notas em que escrevo.
e o amor...
esse não se tem.
se sente.

por não ter nada
que normalmente todos dizem ter,
tiro os óculos do mundo
e deixo que me vejam puramente embaçado.

o meu medo é feito de cartolina,
com canetinha e colagem de cordel
e está guardado profundamente
dentro das minhas palavras,
que, você sabe, são sempre silenciosas.

medo ao avesso.

tudo o que sempre quis foram pétalas.
coloridas, secas, vivas.
cada cor dentro de um baú:
guardá-las é parte do meu sonho.

mas a vida soprou-as para longe,
para além do meu jardim.
e minhas flores antigas
tornaram-se nada mais que botões sem tempo.

colei todo orvalho pelo meu corpo
e me fiz flor por um momento.
meus cabelos tornaram-se as pétalas,
e minha alma gritou: eterniza!

terça-feira, abril 21, 2009

Abstrato.

caiu o seu retrato da parede
e sua face espalhou-se sobre o chão da sala.
suas expressões correram para os cantos
e guardaram-se nos buracos dos sentidos.

corri atrás do seu sorriso,
capturei-o na tocata de sua fuga.
beijei, amei e senti:
joguei-o no bolso da arte.

comecei a pintar um quadro difuso,
onde coloquei o seu sorriso
no centro do pensamento.

delineadas as linhas,
coloridas as formas,
seu sorriso chorou
por falta de todo
e solidão expressiva.

domingo, abril 05, 2009

a terra é plana.

quero chorar.
agora.
o completo mar que está dentro de mim.
colocá-lo para fora em um grito que afogue o mundo!

pois minha mente já está inundada,
e os sentimentos flutuam pelas minhas veias,
como uma navegação desequilibrada e caótica,
perdida no oceano eterno de vida submersa.

respiro.
e a água penetra meu coração,
enche meu corpo tão completo
de sal e areia e marfim.

a escuridão me toma,
me beija, me escolhe,
me silencia.
é surda, muda e cega.
me quer amar e perder.

mas quem se perde sou eu
na linha do horizonte,
sem antes nem depois,
caindo na idéia do velho mundo...

de que o mar acaba em um abismo sem fim.

segunda-feira, março 23, 2009

eXtereótipos.

o que são minhas mãos,
senão pedaços de vidro
transformados em areia?

e meus olhos dois grandes oceanos,
ora castanhos, ora sem cor...
salgados e violentos como o mar.

sou mão e olhos...
arte e alma.
criação e sentimento.

minha duplicidade é forma,
vida e existência.
é a prisão para o que expresso,
sinto e... sou.

beijo o mundo com as lágrimas
que correm dos meus olhos
e se esparramam em minhas mãos.

toco os átomos invisíveis,
suas nuances e segredos:
sinto o mundo com minhas digitais.

tudo é membro e órgão
até a noite raiar,
quando os olhos se fecham
e as mãos enluvam-se em cetim.

quarta-feira, março 11, 2009

ciclo momentâneo e vicioso.

Estava caminhando e o mundo me doía. As pessoas desfalecem, sofrem, sangram, enquanto dou mais um passo à minha casa. Cada pequena formiga é pisoteada por minhas células gigantes, por meus sentimentos miúdos. As bactérias sãos inspiradas para dentro de mim e, talvez, quem sabe, passem pelo meu coração devagar. Tumtum, tumtum... tum... tum... tum.
Eu nunca soube. Ou nunca quis saber. Não que isso me faça importância agora, rastros do passado distante. Entro em casa e jogo-me no sofá. Tenho medo, um medo egoísta de encarar qualquer coisa à minha volta. Por isso, bem sei, sou encarada. Tornei-me passiva, não sou mais agente dos meus atos. O controle remoto fixa seus botões em minha alma remota. Ele quer se mexer, gritar, implorar! Mas não pode. Ele não faz parte da crueldade da natureza. Não, nada disso se lhe é verdade. Enquanto eu, ah, eu desejo ser contida imediatamente, desejo não ter opções. Desejo não ter desejo.
Mas sinto-lhe pena e tudo volta à minha mente: a menina suja, por favor, dinheiropãoáguavida! Eu passei, mas uma parte de mim ficou parada ali para sempre, naquela dor tão completa... até ser consumida profundamente pelas pessoas que não se dividiram como eu (pessoas retas, certas, pessoas uma só). E aquilo me sugou. Como tudo que já me vinha sugando há anos, corroendo a essência que habita dentro de mim. Mas aquilo, aqueles olhos implorativos, aquelas minúsculas mãos cortadas, aquela alma que pede, obsequiosamente, que lhe dêem algum sentido!

Meu deus, estou chorando! E como choro pelo meu egoísmo, que foi transformado em medo. Não tenho coragem de pegar o controle remoto e ligar a televisão e deparar-me, ah, com o caos de sentimentos, de perda de fé, da realidade que tanto me abala! Como posso, como? Muito menos tenho acapacidade (força!) para comer, tomar banho ou dormir. Não sei como estou respirando. Não me consigo mover. Não, tudo que me lembro é do beco escuro e da menina e do cheiro e do sabor salgado. Sou incapaz de recordar mais. Talvez aquela senhora...
Não, por favor, não! Não me lembre de mais. Ah, mas eu sei. Eu estava cega e, por isso, conseguia ser feliz. Eu era como Tobias, meu cachorro que está brincando com a bolinha de borracha neste exato momento. O mundo é esse brinquedo, que pode ser mordido, rolado, chutado, ser feito pleno dentro de uma plenitude relativa. Não importa, o mundo é todo seu, e de mais ninguém. Ele rola atrás da bola... ladra, pula, lambe. Ah, Tobias!
Mas sou humana, e sou gritantemente culpada por sê-lo. Fingi ser inocente, quando tudo se passava em flash em volta da minha bola de borracha, soltando faíscas claras e queimantes em cima de mim.
O que eu sou, senão o símbolo maior da culpa? Do conformismo e da falta de coragem?

Tudo é falta, na situação em que me encontro. Agora, aqui, sentada e paciente, vejo com a visão real como minhas paredes estão descascando, como os pisos de madeira estão corroídos pelos cupins. A vontade de gritar é estridente e sobe à garganta.

Mas eu não grito. Sou muda. Vejo e escuto, mas não solto o que senti. Não expresso. Tenho a catarse, mas a epifania é só minha.
Egoísmo.

A visão de tudo aos poucos volta a clarear. Acalmo. Acalanto. Ligo o som e escuto a música leve que me faz ter vontade de dançar.
Canto.
Sou folha, pena e nuvem.

Tudo passa...
Esqueci.

Há algo para lembrar?

Fui dormir e acordei ansiosa com o final de semana que vinha pela frente.

menina, beco, dor, fome...?
vocábulos não inerentes ao livro da minha vida.

segunda-feira, março 09, 2009

íris.

às vezes abro os olhos,
mas não vejo o mundo.
não sei o que vejo,
mas sei o que sinto.
- E é forte.

as pessoas dizem
que meus olhos não existem.
é só brancura.
Eu rio.

o rio flui.
dentro de mim as águas voam
e me chamam.
Não, não quero me afogar!

quero apenas ser,
não o mundo!,
mas o que sempre fui.
Apenas.

assim foram percebendo
que meus olhos estavam ali.
e que a íris tão colorida
só poderia estar voltada
para dentro de mim...

quinta-feira, março 05, 2009

retina.

sinto minha falta,
quando abro as janelas
e rasgo as cortinas.

o céu azul me encara,
me zomba, me mata,
me chama.

vem, menina,
vem voar em mim.
solte seus cabelos estrelados
em minha pele escura.

tenho medo!
- eu grito.

medo de quê?

de desexistir.
de ser apenas luz vista
daqui a milhões de anos
pelas pessoas de mãos dadas
na grama verde-escura da terra.

tudo se transforma,
reluzente pequena.
sua luz se tornará eterna
enquanto houver pessoas
para vê-la e senti-la.

e depois que todos se forem?

restará a poesia
que está sendo escrita
por uma parte de você,
que é luz e eternidade,
escuridão e fim.

ah!

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

uma piada sobre mim.

Agora eu compreendo muito bem o meu medo, o meu pavor perante a tudo que demonstre ter falta de sentimento ou vida. A verdade é tão exata, tão completa e infinita. A minha verdade, a verdade sobre o que penso, sinto e... permuto. Tudo parece agora de uma claridade crescente, como se eu tivesse colocado um par de óculos e enxergasse tudo tão mais completo.
Você nunca foi a razão de minha mudança, Vitória. Nem um pouco. Agora, após um ano do seu abandono, sei com a certeza mais certeira. Ah, como adoro redundâncias. Não sinto sua falta, não a amo e nem ao menos consigo lembrar como foi a sensação de tê-la amado. Você consegue sentir a veracidade dessas palavras? Nunca fui tão sincero. Mas nada disso é sobre você.
É sobre a minha descoberta. O sentido do meu desespero. Como agora sei os porquês de muitas das minhas perguntas, porém sem saber suas respostas. E como eu costumava chorar, enquanto tremia interminavelmente... nos seus braços. Você não entendia. E eu não conseguia explicar. De maneira alguma. Como poderia? Eu não conseguia gritar o quanto eu precisava de você, o quanto sua simplicidade me comovia, o quanto eu a invejava. Eu queria sentir o mundo como você sentia! Como todas as pessoas sentiam! Eu tinha ódio de todos, de cada pequena alma que sorria com o raiar do sol e andava calmamente de bicicleta pelas ruas quentes.
Achavam que eu tinha problemas psicológicos. E eu achava graça dessas pessoas. Invejava a sua falta de conhecimento e queria, por um momento, transportar-me para dentro de algum pensamento simples... O que comeríamos no almoço?
Mas eu não conseguia, prendia-me dentro do meu niilismo sem fim. Que paradoxo, não é mesmo? Niilismo sem fim. Que seja. Eu prendia-me a isso.
Mas quando conheci você, o amor surgiu-me mais uma vez, após tantos anos enclausurado na minha adolescência risonha e, ah, tão simples! Por alguns momentos, eu achava que conseguia esquecer de tudo. Ah, Vitória, eu conseguia sorrir verdadeiramente. Por alguns minutos eu conseguia apagar da minha alma cada detalhe de cada pensamento soturno que invadia minha mente e controlava-me sem piedade.
Por isso, agarrei-me tão profundamente a você, como se sua chama de felicidade e falta de realidade me aquecesse. Você consegue entender? É claro que não.
Mas cada vez mais comecei a descobrir o meu medo. Inicialmente achava que não me importava com nada, que minha vida não merecia existir. Isso tudo não era desespero, era aceitação. O desespero veio realmente quando apaixonei-me pelos lugares, pelas pessoas, por minha imagem no espelho, pelos livros, pelos filmes, pela sonoridade deliciosa de Chopin! Quanta coisa, quanto sentimento. E a cada vez que tudo acabava, que eu fechava um livro, que eu desligava o rádio, que dava adeus a alguém, uma dor insurpotável apossavasse de mim. E à noite tudo voltava à minha mente, aquela filosofia incontrolável, aquela metafísica que, se eu pudesse, estrangularia até vê-la sangrar e sumir do mundo.
Mas eu não podia agüentar isso tudo. Essa felicidade era muito mais dolorosa do que a minha indiferença. Vai acabar, eu pensava. Vai tudo mudar. Em um piscar de olhos.
A mudança começou quando você me deixou. Você não foi a causa. Não, não você, Vitória. Mas o que sua imagem representava para mim. Veja bem, você me proporcionou o amor que me proporcionou felicidade que me proporcionou vontade que me proporcionou o esquecimento que me proporcionou a capacidade de sentir o mundo que me proporcionou o desespero porque tudo...
Tudo é tão mutável.
O meu medo é simples. Percebo-o agora. Pode ser até mesmo um medo comum. É com toda certeza melhor sentir esse medo do que sentir o nada propriamente dito, o ermo, a falta de sentido todos os dias, a cada segundo.
É muito melhor enlouquecer de despero do que de razão.

Você não me compreende, não é, minha querida Vitória?
Certamente você sente medo do desconhecido, medo do que vem após.
Mas não se deixa dominar.

Não, não se deixe. Por que deixaria?

Não quer acabar inventando uma mentira como essa que estou inventando. Inventar uma pessoa, inventar sentimentos e sentidos, para que consiga fugir da absoluta falta de algo. Por que inventar que sente a vontade?

Sou realmente um desesperado e invejoso.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

//

Eu nunca imaginaria, nem por um segundo, a imagem que tenho de mim mesma agora. Nem por toda a certeza no mundo, nem por uma vidente que sempre acertasse.
Como cheguei até aqui?
Parece que, de tanta absorção, eu tornei-me um grande espaço em branco. Algo inacreditável, uma muralha de sentimentos.

Há uma voz na minha cabeça repetindo repetindo repetindo repetindo: isso é errado. isso não é normal, como poderia ser? que inocência, que sonhos, que sentimento! isso não existe. e tudo que sai da sua boca não é aceitável, não é plausível. você não pode ser assim, não, meu amor, não, minha querida.
E essa voz parece ser a de uma senhora. Uma sombra com um véu nos cabelos grisalhos. Se eu conseguisse dizer o que me está apavorando, o que me deixa sentir como a pessoa mais enclausurada em um canto que jamais existiu...
Mas não haveria entendimentos. Só a certeza de que há algo errado. Algo errado comigo. E com o que eu sinto. O que eu sinto mais profundamente. E o quanto eu sei que é inacreditável que eu possa sentir.
E eu tenho medo de deixar tudo cair, de retrair-me, de deixar-me desacreditar e achar que estou errada. Que tudo realmente não pode ser assim. Há de ser de outra forma, por favor. De repente, pode reaparecer a sensação de completo vazio. Mas um vazio pode ser completo?
Não quero lembrar do vazio. nem um pouco.

Sou sozinha. Sou sozinha mais do que qualquer pessoa cogite adivinhar. Sozinha dentro de mim, dos meus pensamentos jamais revelados e da dor que sinto por ser. Por isso agarrei-me tão fortemente à grande luz avassaladora e quente e que me fazia sentir sede.
Não existe o saciar-se.

Mas eu não quero explicar a minha solidão.

O que eu quero explicar é que finalmente consegui. E sei que não consigo mais que isso. Nem um pouco mais, nem com ninguém!
E isso é difícil de entender. É difícil para uma pessoa que não eu...

Por isso.
Ar.
Por isso quando escuto que há algo muito errado com tal sentimento, eu tenho medo. Pois é tudo que eu sinto.
Então tudo foi um erro.

E eu nunca deveria ter sentido.
Porque não há outra forma, para mim, de sentir.

sábado, dezembro 27, 2008

o canto esquerdo da sala.

tudo que surge de racionalização
tudo que surge das asas de um anjo
nada que não venha da sua parte mental
nada que seja tão escuro quanto o céu

é a simples caída de pétalas
o piscar de olhos infantis
o sonho que, apenas em sua natureza, alimenta de cores.
Os sinos que tocam por seus lábios:
- um beijo que voa com o vento

até,
em encontro,
tocar
os meus lábios:
- smack !

sou uma assasina, em fase de cogitação:
mato seus olhos com sangue em pensamento. Se escapa-se-lhe a faca, que em 2 gumes lhe corta a face, cairia em vida, pela morte que deixou.
Sinais de trânsito e de todas as dores do mundo.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O anel que tu me deste era vidro e se quebrou...

Se pudesse, teria apertado o coração. Se pudesse, realmente, teria feito tantas coisas... Levantar, jogar os travesseiros pela janela e sair correndo pela rua. Queria apertá-lo para senti-lo, pois agora ele batia de uma forma avassaladora e ela tinha medo que aquilo fosse momentâneo e que estivesse gastando a bateria que nunca se renova.
Eles estavam em um restaurante à moda antiga, com violinistas, mesas com pano vermelho e rosas por todos os lados. Mal chegaram, ela quis ir ao banheiro. E que banheiro! Espelhos gigantes e com bordas francesas, todo dourado, pinturas na parede... Ela passou a mão por tudo, por tudo, apesar de sentir o vidro (e não a realidade) tocar seus dedos. Aquele tinha de ser o dia mais feliz de sua vida! (se o banheiro era daquela forma, imagine o que mais estava por vir!) Sorriu devagar, com um certo ar de realeza. Passou a mão pelo seu corpo e suspirou. Era linda.
Voltou para a mesa. Ah, queria-lhe dizer tantas, tantas coisas, que cada palavra poderia ser o infinito mais um. Passou a mão pelos cabelos e sua voz soou estranha e com vontade própria.

- Estou muito contente por ter-me trazido aqui - Não! Não era assim que devia ser, não eram essas as palavras que pretendia dizer. Ela queria gritar e pular-lhe no pescoço! Emoção, meu deus!

- Faço de tudo para agradar-lhe, meu amor - Ele correspondia, oh, com toda a alma. Seus olhos verdes eram os mais lindos do mundo e tinha certeza que uma surpresa (prevista) aguardava-a.

A comida chegou. Não lembrava de ter pedido peixe. Não, devia haver algo errado. Ela não gostava de peixe. Gostava de massa. Por que estava comendo peixe? Não importa, não importa. Ele está ali, com ela, e tudo parece eterno. E ela estava tão linda, tão perfumada (com aquela aparência, imagina-se o cheiro suave, como em uma sinestesia) e os momentos eram perfeitos.
Só sentia-se confusa com as conversas sobre lembranças, férias de quatro anos atrás e passeios caros e divertidos. Devia ser o vinho. Nunca gostou de vinho branco, mas parecia combinar perfeitamente com o peixe, então deixou-se beber. Sentia-se como se não tivesse escolha.
E talvez não tivesse, pois queria continuar sentada, mas dirigiu-se novamente ao banheiro. Foi retocar a maquiagem e fazer uma ligação importante, simples, falou automaticamente e nem prestou atenção ao que estava sendo dito. Lavou as mãos delicadas (esmalte rosa claro, que maravilha) e voltou ansiosa para o seu amado.
A iluminação do restaurante estava mais escura, e achou isso um pouco estranho. Talvez estivesse com dor de cabeça, quem sabe. Mas e daí? Os violinistas aproximavam-se e ela sentia o que estava por vir.

- Meu amor... você é a pessoa mais especial para mim, amo-a de todas as formas possíveis, gostaria, neste momento, de pedir-lhe em casamento - ajoelhando-se, abriu uma caixa com um anel de diamantes dentro.

Tocava uma música melódica e romântica ao fundo, quando...

Blackout.

A casa inteira apagou-se. Um homem pelado saiu do banheiro aos gritos, dizendo que a água estava congelando, e que a mulher sabia porque sabia que não podia deixar a luz acesa com o ventilador e a televisão ligados, enquanto ele toma banho. Ela estava paralisada ainda, em choque, com os lábios entreabertos, como se fossem proferir algo, mas não conseguissem. O homem ligou para o síndico, aos berros, dizendo que a casa não tinha luz e virou-se para a mulher reclamando que demorariam dez minutos para mexerem no relógio, e, pelo amor de deus, ele teria que ficar emsaboado até a água quente voltar. Resolveu ir para o quarto.
Ela ficou sozinha, olhando para a televisão, as mãos sobre as pernas, tímidas e piedosas. As unhas não eram rosas, mas sujas e roídas. Dez minutos. Não haveria mais casamento. Ela não aceitou. Ela não conseguiu aceitar. E agora estava na completa escuridão.

Uma lágrima saiu de seus olhos, quando as luzes acenderam-se. Ligou a televisão rapidamente, mas já eram oito horas.
E eles viveriam felizes para sempre.

Resolveu ir passar roupa.

domingo, dezembro 14, 2008

Peças atrás.

Não existe mais nada agora. Nem um pingo de água, nem um milésimo de poeira, nem um átomo. Eu limpei tudo, cada vestígio de pegada, todo pequeno som que se escondia atrás da porta e embaixo dos tapetes. Rasguei as cortinas do meu quarto e abri as janelas.
Tão profundo.
Vi as pessoas passeando pela rua e achei-as tão belas, tão felizes, tão humanas. E eu, ah!, eu passava as mãos pelo meu pescoço e tentava não arranhar minha alma. Porque eu queria, naquele momento, acabar com tudo. Jogar-me da janela, gritar, impedir! Sonhar.
Eu descobri que nunca precisei de nada. Por isso acabei com tudo. Mas agora tinha inveja. Completamente. Queria ter a pele menos pálida e mais viva, queria ter meias vermelhas e poder correr pelo parque aos domingos e não, não de novo. Eu quebraria os balanços e as gangorras. Tenho certeza.

Puxem as cortinas, por favor!

Estão rasgadas.

Eu rasguei-as. Para que não me tentasse a puxá-las e esconder o mundo inteiro de fora. Porque tudo que eu consigo fazer agora é olhar para minhas mãos (e ainda assim achá-las estranhas!) e perceber o quanto são minhas. O quanto têm curvas e linhas e desenhos e o quanto de mim está ali. E se eu olhasse para a mão de qualquer outra pessoa, iria querer gritar! Gritar de susto, de vastidão e de distância. Não, não posso ser tocada.
Depois que você abriu a porta e bateu-a, vi você acenar da rua para mim e achei seus dedos mentirosos e mesquinhos. A verdade é que você não acenou e não havia dedos com sentimentos. Você nunca existiu. Os sapatos com que eu gritava todos os dias nunca conheceram o mundo. E eu sempre reclamava que empoeiravam a casa e que não conseguiam ficar embaixo da cama por nem um dia! A poeira era falsa, criada. Escrita? Totalmente.

Eu tornei-me algo mais que não eu. Fingia todos os dias e imaginava. Até… até não sei quando. Lembro-me apenas de você (quem?) ter quebrado o espelho e também minha realidade. De ter-me deixado sozinha verdadeiramente. Sempre estive e agora sei. Quando o sol descia, e íamos à beira da praia, sentia-me plena, completa e feliz. Deve ter sido tudo apenas uma armadilha do mar e daquelas intermináveis ondas que me sugavam o olhar para o horizonte e para onde parecia ser o coração do mundo.

Por que minhas mãos têm vida própria e assustam-me? Parecem tão fora e tão dentro de mim ao mesmo tempo, como se uma fosse parte do tudo e outra parte do que sinto. Se é que o que sinto existe. Pois metade de mim já se provou desexistir.

Não há solução para agora. Tudo parecia tão meu, tão perto, tão… tocável, de todas as formas.
Tudo que eu queria era poder puxar as cortinas e impedir o ar contagioso de entrar por entre a janela. Mesmo que a feche, ele entra por imagens e impregna meu quarto de sorrisos e sentimentos milhares.

Por isso, mais uma vez repito, rasguei-a.

Você nunca mais entrará pela fechadura e me trancará. Tudo está aberto. Não! Não quero mãos e dedos diferentes e cheios de vida entrando. Não!
Arrependo-me, não tenho mais cortina, não tenho!

Quando a realidade real toca minha realidade imaginária, tudo que posso sentir é medo.
Que pelo menos esse sentimento seja real.

sexta-feira, agosto 22, 2008

repentino.

Não que seja um ressentimento, não, é menos que isso, é uma indiferença total. Uma entrada pela porta, um bom-dia casual e causal, tão automático, um suspiro longo e demorado. Os olhares eram trocados, mas olhavam para o absoluto nada, não era sobre essência que existiam, mas sim sobre forma. E a forma também era deformada, apesar de ainda guardar um resquício de lembrança longínqua.
Não sei quando deixei de amar (não há você, nada transita, tudo sempre foi), simplesmente. Mas um dia você sorriu para mim e eu não quis achar graça. Veja bem, eu achei. Mas não quis. Uma força dentro de mim dizia que não havia nada do que rir, enquanto meu cérebro maquinava os músculos em uma expressão única de alegria. Perguntava-me, então, por que você havia dito aquilo. Por puro impulso da forma ou realmente pela essência? Mas talvez você não fosse tão mesquinho quanto eu…
Indefinível. Sei que é. De todas as razões, não consigo encontrar uma que seja real. Lembro-me do sorvete, lembro-me muito bem. Eu queria de morango, e você de flocos. Depois trocamos as casquinhas, porque queríamos compartilhar até mesmo o gosto por sorvetes. Sabe de uma coisa? Eu nunca gostei de flocos. Nunca. E quis cuspir naquele maldito preto e branco que você empurrou tão impetuosamente para mim. Mas eu comi, comi realmente achando aquilo delicioso, porque os sentidos estavam-me enganando. Você sabe, os sentidos enganam demais.
Depois, quando voltamos pelo parque, eu tive os olhos brilhando quando você começou a gritar que me amava, que me queria e que eu era, que eu era, que eu era o amor da sua vida. Eu só conseguia gritar, que horror!, Você também!. Vamos nos casar? Vamos! Que grande idéia. E o que eu pensava sobre casamento, sobre ser-só, sobre a vida foi massacrado pelas suas ideologias altamente influentes. E banais. Sempre as odiei. Nunca pretendi casar-me com você.
Mas casei; foi pelo piano, unicamente, tenho certeza. Não posso negar o quanto amei e ainda amo os seus dedos corriqueiros, a melodia interminável e o fato de você não olhar para mim enquanto tocava. Você olhava para o instrumento, como se ele o fosse nutrir, como se fosse o porquê de estar vivo. Naqueles momentos, eu desexistia para você, e isso me fazia livre. Livre em mim mesma. Pois sentia falta de não ser compreendida e de ter alguém a quem não compreender.
Na verdade, talvez nunca tenha amado. Porque era dificultoso sentir, abraçar, possuir saudades. Sentia dor física para poder sofrer pela ausência, entende? Procurava necessidades para dar sentido às coisas. Elas nunca tiveram sentido algum. Você estava sempre feliz ou sempre triste, era tão irritantemente extremo. Enquanto eu apenas era. E era, e fui e fiquei.
Eu não sei por quê, mas não estou afetada. Nem um pouco. Não consigo nem ao menos chorar. E isso, finalmente!, está-me abalando. Sempre chorava com os filmes, mas não com a vida. Juro que queria chorar agora, bater com a cabeça, vomitar durante uma semana escondida no banheiro. Depois ter que ir ao psicólogo.
Não sinto nada disso. E por isso acho que nunca amei. Era tudo mentira. Mentira, escutou? Mentira. Acho que estou repetindo essa palavra para mim mesma há muito tempo. Estou quase inteiramente convencida.

Não se intrigue. Se eu não choro pela vida, por que choraria pela morte? Talvez esteja aí a minha resposta.

sábado, agosto 16, 2008

I e II.

I

amanheceu no mar
e sempre lá permaneceu
banhava-se nas águas azuis,
verdes e cinzas
e dormia na areia serena
das mil e uma conchas.

via o céu todos os dias
translúcido, vivo, relutante!
e tinha vontade de subir até ele,
namorar com suas estrelas,
e cantar com a lua
as infinitas serenatas de tristeza.

mas o mar, zeloso e imponente,
segurava a sua Iemanjá,
menina de suas pérolas,
namorada de suas ondas fabulosas.
não! durma, banhe-se, navegue:
o voar não existe.

e a sereia das mil pernas
teve seu amor pelo céu naufragado,
e das profundezas
não mais conseguia ouvir
a lua cantando sua solidão.

II

em um dia entre tantos,
uns bemóis invadiram a imensidão do oceano
e seus cabelos, membros e olhos
foram atraídos para a superfície
onde havia um violino
a suplicar juras de amor.

de todas as notas possíveis
ela apaixonou-se pelo si,
e se pudesse fugir
fugiria com ele para o mundo do sol.

mas o mar, bruto e horrendo,
afogou as notas,
as cordas e o violino,
que desafinou sua sinfonia,
desafiando a fúria dos amantes!

e a sereia quebrou as ondas
salvou o instrumento de sua paixão
e fez o mar adormecer,
em um contenido de sofrimento.

construiu uma ponte de partitura
e fez da clave de sol sua escada
e das notas os degraus
de sua liberdade!

A ponte levava para a lua,
seu amor eterno e sem luz,
Seu novo lar até o anoitecer
Onde tocaria melodias
sobre o azul do mar.

domingo, agosto 10, 2008

Por entre a fumaça.

- Qual o gosto da vida? - a doce menina perguntou e mexeu nos enrolados cachinhos que caíam por seus ombros.

E ela começou a pensar, a pensar, a pensar no gosto da vida. Ergueu as sombrancelhas, mordeu um pouco os lábios. O gosto da vida? Queria que a resposta resumisse-se a uma bala de hortelã. Mas a vida, a vida, a vida, como já dizia Cecília, é muito mais do que isso. Fechou os olhos profundamente, tão veloz que sentiu a luz misturar-se com escuridão. Lembrava-se da brisa das manhãs de sábado que nunca mais havia vivenciado. Aquela sensação eterna de que tudo perdura, tudo. Mas hoje sabe que nada o faz. Que verdade mais relativamente absoluta!
Não, não sabia qual era o gosto da vida! Não sabia nem mais qual era o gosto da manhã e da tardinha. O que vinha em sua cabeça era uma caixinha de música tocando aquela melodia que sua avó costumava cantar antes de ir dormir… nada de gosto, apenas o som magnífico…

- Eu… não sei. - respondeu a mulher, de porte forte e seguro.

- O gosto da vida é hortelã, bobinha!- a criança sorriu sapecamente.

Ela piscou os olhos muitas e muitas vezes. Hortelã? Ela havia pensado nisso! E lembrava-se desse gosto, tão forte, tão puro, tão cheio de significado. Tantas manhãs de sábado, pegando a bicicleta, voando pelas ruas, apostando corridas. Manhê!, me dá um real pra “mim” comprar chiclé na padaria! E riu-se por dentro, com a lembrança da doçura com que sua mãe, já falecida, dava-lhe uma moedinha pelo final de semana inteiro.

- Moça, eu não sei… - a menina voltou com sua expressão indignada de interrogação. - Juro que não sei!

- Não sabe o quê, querida?

- Não sei por que o céu é azul.

Por que o céu é azul? Se fosse há 30 anos atrás diria que é azul porque as fadas jogam pó de anil das nuvens. E quando ele chegava na terra… ah, ah! Ele transformava-se em oceanos e as fadas em sereias. Hoje em dia sabia da explicação científica sobre reflexão e ondas, mas como ia explicar isso à menininha? Ela nunca entenderia nessa idade, não, definitivamente. Por falar nisso, ela lhe lembrava alguém de sua infância…
Poderia inventar-lhe uma estória, a sua estória fantástica e pueril!

- Bem… ele é azul devido ao pó de anil.

- Pó de anil?! - ela arregalou os olhos.

- Sim! É o pó que as fadas jogam das nuvens, colorindo o céu inteiro de azul. Jura que não sabia?

- Não… - ela pareceu realmente muito surpresa. - Você tem um pouco de pó de anil?

- Não, mas sei onde você pode conseguir muito - segurou um pouco a respiração e prosseguiu. - Quando o pó de anil desce até nós, ele forma os oceanos e as fadas tornam-se sereias.

- Então, quando encosto na água do mar, estou encostando no azul do céu? - ela pareceu maravilhada.

- Extamente! E talvez um dia possamos ver uma sereia!

Os olhos da menina bilharam profundamente. Suas mãozinhas eram de uma delicadeza profunda. A mulher olhou o relógio algumas vezes e começou a jogar milho para os pombos que estavam ali perto. A menina parecia impaciente para fazer mais perguntas, e a mulher parecia estar esperando alguém importante. Enquanto isso, os balanços da pracinha, vazios, balançavam sozinhos, solitários, empurrados pelo vento. Os escorregadores deslizavam a poeira da terra e as gangorras estavam equilibradas, sem peso em nenhum dos lados.

- Para que servem os países? - ela explodiu, como se não agüentasse esperar de curiosidade.

Essa era uma pergunta sem resposta. Porque, até hoje, ela questionava-se sobre isso. Não sabia e ponto. Queria que tudo fosse de todos e sem mais conversa. Mas o mundo precisa de fronteiras, de guerras, de economia. O ser humano cresce e quer o que é seu, como se realmente a posse existisse. Que falácia mais acreditada.
Sentiu o peso de sua respiração e de repente lembrou de suas responsabilidades. E quis lamentar-se, pois pareceu-lhe que seu cliente não viria ao encontro marcado. Precisava, portanto, ir embora.

- Os países não servem para nada, menina. Apenas para causar conflitos egoístas.

A menina mordeu os pequenos lábios. A mulher sentiu-se tão hipócrita por aceitar tantas coisas e ter deixado seus questionamentos de lado. Levantou-se, pegou sua mala e fez um carinho na cabeça da menina.

- Qual seu nome, pequeno anjo?

- Luciana - ao proferir a palavra levantou-se e saiu correndo, dando adeus com as mãos e o rabo-de-cavalo balançando.

A mulher teve seu coração acelerado. Pôs uma das mãos sobre seu cabelo cacheado, e passou os dedos sobre ele, enquanto via a menina desaparecer por entre a fumaça daquela tão conhecida rua, agora inteiramente quebrada para a construção de um viaduto.

Agora lembrava-se de onde conhecia o rosto daquela criança.

quinta-feira, junho 19, 2008

Circunscrição Paterna.

Queria saber por quê. Um motivo, uma circunstância circunscrita.
Por que estava em frente ao espelho, escondido, vestindo-se como uma mulher, a maquiagem forte, o batom vermelho, as poses sensuais? E por que, alguns segundos após, sentia-se repugnado de si mesmo, cuspia em seu reflexo e começava a chorar?
Não sabia o que pensar, pois não sabia de mais nada. Apenas sentia o peso doloroso da consciência em cima de seus cabelos, deixados longos por motivos óbvios de gostos musicais. É claro que nunca se havia penteado os cabelos sedosos por horas seguidas, apaixonando-se por si mesmo a cada passada de pente, é claro, claro que não, simplesmente.

- Você não me pode impedir. Já tenho dezessete, o cabelo é meu. Quero-o assim.

E inicialmente fora por paixão ao rock. Admito. Ele queria parecer revoltado, queria conquistar umas meninas fáceis, queria ser, como todos o querem, diferente. Conseguiu-o. Usava uma jeans rasgada, com símbolos nada religiosos, apenas blusas de bandas estrondosas, óculos escuros finos e redondos e tinha uma tatuagem de uma adaga em seu pulso.
Seu pai nunca aceitara tal situação. Gritava, xingava, batia as mãos na parede. Seu filho parecia não importar-se. Ah, mas se importava! Muitíssimo. Aquilo tudo era apenas carência afetiva, de fato. Mas como as pessoas são cegas…
A situação agravou-se quando o lápis de olho e o batom negro vieram à tona. Seu pai agonizou. Todos os dias, sem falta, desde manhã até a noite jogava indiretas bastante diretas. Mas ninguém vive somente de olhares enviesados.

Chegou o dia em que, colossalmente, o homem explodiu:

- Mas tu é um gay de merda.
Um gay de merda.
Um gay de merda.
Tu não é meu filho, diabo!

O garoto riu-se. Gay, ora se fosse! Riu-se ainda por todo o dia e mais além. Na verdade, passou um mês inteiro rindo. E as acusações continuavam. O pai era impiedoso. Os olhos em fúria, as lágrimas vertendo. Gritava pela casa que aquele não era seu filho, que odiava o dia em que ele viera ao mundo, que, se pudesse, matar-se-ia de remorso.
E aquilo, de certa forma, começou a importuná-lo. Começou a perceber que já tinha atenção suficiente. Sim, já a tinha. Agora, finalmente, poderia…

O poderia permaneceu no tempo verbal em que merece permanecer para sempre.

O homem deu um tiro na cabeça.

O garoto já tinha dezoito anos nessa época. Pode-se perceber a gradatividade da coisa. Não lançou uma única lágrima no velório. Jogou-lhe um lírio no enterro.
Quando encontrou-se sozinho, começou a remexer os dedos incontrolavelmente, os pensamentos voavam por sua cabeça. Então chorou. Quase um crocodiliano. Respirou fundo e foi até a penteadeira. Passou o batom fortemente por todo o rosto, pela testa, pelo nariz, pela boca. Emplastrou-se de perfume francês. Colocou o vestido de sua mãe mais curto e foi até o espelho.
Olhou fixamente para dentro dos seus olhos e disse:

- Por quê? Porque tu é um gay de merda.

Uma mentira, repetida muitas vezes, pode tornar-se verdade. Uma mentira, dita por alguém que nunca mais poderá desmenti-la, é, de fato, uma verdade absoluta.

terça-feira, junho 17, 2008

pensamento.

Sorvete seria ótimo agora. Mais uma crise gelada. Uma crise gelada de chocolate. Que delícia. E eu que prometi que não me iria importar! Aliás, eu que achava que não me importava. Que coisa, não? Em um momento as coisas significam absurdamente nada para você, mas basta piscar os malditos olhos que o apego já é imenso e você está com um grande problema. Um problema sentimental, ora. Quando você simplesmente sabe de toda a verdade, puríssima, inteira, total, e vem aquela pessoa infeliz, ah como é infeliz, e cospe-lhe completa na cara.
A verdade é que falamos demais. Concordo plenamente. Falamos o que não temos que falar, apenas porque temos a necessidade de fazê-lo. Incrível. E quando descobrimos que o que fizemos não foi boa coisa, começamos a jogar argumentos, de fato (quanto paradoxo!), falaciosos. Mas então, meus caros, a merda já está fedendo. Nós já magoamos a pessoa, já concluímos que a nossa opinião é a incógnita da questão. Somos os melhores bundões do mundo.

Mas para que a distância? Por que precisamos tirar as conclusões? Não podemos entender, ao menos um pouco, um mínimo pó, que não sabemos de tudo que se passa com o outro ponto que está na reta?

Mas o “outro”, e são milhares desse estirpe, também não é inocente. Ele nutre a mágoa. E ele distancia-se ainda mais de você. Porque, às vezes, a verdade falaciosa era verdade verdadeira (uau, agora faço uso do caríssimo pleonasmo).

Não tenho conclusões a respeito disso. Nunca tive e nunca almejei ter. Apenas queria que as pessoas fôssemos (silepse, you know?) um pouco menos orgulhosas e egoístas. Porque o nosso umbigo é algo realmente lindo, foi de lá que viemos etc, mas há outras coisas no mundo, tão mais belas…

Além disso (como adoro unir parágrafos e assuntos!), a hipocrisia latente tem-me incomodado muito. Cansei. Queria que, em apenas um segundo, todos tirássemos as máscaras e fôssemos para um baile à realidade. Seria tão mais… real? As pessoas dançando ao lado de suas ideologias ainda-não-tão-formadas, acreditando no que querem acreditar, admitindo sem o medo, sem o medo de nada, contornando, em passos rápidos, a mentira que apenas cega.
Isso seria uma utopia, certo? Certíssimo. Mas sonhar é o guia para fora da caverna de Platão. Ver o que está mais além das sombras é o primeiro salto para sermos nós mesmos. Para não mentirmos, para admitirmos o erro. E, poha, como é difícil admitir e fazer o que é moralmente e relativamente correto. Odeio relativismos, mas aceito o que o é. Porque a ética dentro de mim grita por justiça sem punição, sem dor, sem ódio. Uma justiça verdadeira, ideal, nunca mentirosa.

A ética dentro de mim grita amor! Porém é difícil doar-se com essa distância. Com essa ponte quebrada que foi criada entre mim e o resto do mundo.

Tenho um medo terrível: o medo de que eu esteja adaptando-me à crueldade. E, agora, escrevendo, entendo o que tanto me aflinge. É a realidade que criamos, não a realidade que deveria ser real.
Eu estou começando a enxergar o mundo, as pessoas, as coisas, os sentimentos, os fatos, como não enxergara antes.

E isso dói. Ah se dói.

Porque a utopia desfaz-se.
Desmantela-se.
Acostuma-se.

Até que desaparece eternamente.

Not yet, my friends. Not yet.

quarta-feira, junho 11, 2008

Digitais adormecidas.

Não deveria estar ali. Mas simplesmente estava. E agora era inevitável. Uma vez sentido o gosto da amargura, ele torna-se eterno em seus lábios. Não conseguia nem ao menos piscar, com medo de perder algum detalhe mínimo, algum movimento surpresa, mesmo que estivesse a uma distância absurdamente infinita. Os óculos de sol estavam escondendo seus olhares furtivos para o resto do mundo que passeava pelas ruas despreocupado.

O taxômetro marcava mais de cinqüenta reais. Porém não fazia diferença. Ela poderia ficar ali por séculos, mordendo os lábios, apertando o revólver que estava contido dentro de um pano negro de veludo. Como ela era clichê! E sabia disso. Uma mulher de meia idade, enciumada, planejando encontrar o marido em flagrante e matá-lo com a amante de vinte anos, loira e gostosa. Sentia tamanha repugnância disso, tal como seu orgulho pedia para ela sair dali imediatamente, voltar para casa e pedir o divórcio.

Mas a descrença não lhe permitia fazê-lo. Não, não! Por mais que as evidências fossem claras, claríssimas, ela precisava ver, cheirar, sentir o poder da traição e do desapontameto. Porque era isso que a movia até ali. Aquela incerteza tão certeira! Ah, como desejava ser mais jovem, mais bela e mais segura de si. Lembrava-se dos primeiros anos de casamento, quando tudo era eteno, eu te amo e morrerei ao seu lado. Ela realmente acreditou naquilo tudo. Por que não acreditar quando se tem o mundo aos seus pés, uma paixão indefinida e uma beleza invejável? Por que não, meu deus?

Agora era o reflexo da realidade descoberta. Não só neste momento, mas já há alguns anos. Obviamente, a quebra dos sonhos é gradativa, na maioria das vezes, como em seu caso. Mas há o tipo horrendo, que, com apenas uma pancada, quebra-se em migalhas. Talvez este último às vezes seja o mais justo, mas é certamente o mais doloroso.

O taxista nada falava, porém sentia a deteminação da mulher misteriosa. Pensava que, se não fosse ainda apaixonado por sua esposa falecida, talvez ficasse encantado com o jeito desta bela senhora. Não olhou, não ensinuou, não mexeu a cabeça: devia pôr-se em seu lugar de empregado, naquele momento. Parecia-lhe que sua passageira não estava muito para palpites ou confabulações para passar o tempo, tempo este que ele próprio não sabia para que estava sendo gasto. Suspirou.

Estava tão nervosa que tinha tiques de cinco em cinco minutos. Cruzava e descruzava as pernas. Grudava o nariz ao vidro. Sentia a vontade louca de gritar suas pétalas queimadas para que todos pudessem entender seu sofrimento antecipado. Mas nada poderiam fazer. Nem um pouco. Não foram eles que seguiram os maridos, logo de manhã, com a desconfiança fluindo por todo o corpo, não eram elesque estavam dentro de um táxi, esperondo algum sinal de…

E o sinal veio. Veio potente, como a luz. Ela apertou com mais força o pano de volume fortemente marcado por suas unhas. Os olhos, mais abertos do que nunca, estavam tão claros como a água mais limpa do oceano; E ela engoliu o sal, ah, se o engoliu. Com areia, conchas e o que mais viesse. A água inteira, todos os mares entraram por seus olhos e foram fundir-se com o coração. Ela encostou na porta do veículo. Ia sai de lá, rapidamente, enfiar duas balas naquele maldito e ser presa logo depois, porque não teria coragemde tirar a própia vida de merda.

- Senhora?

Ela estava parada lá há duas horas, a mão ainda na porta, as unhas ainda rasgando o veludo. Os olhos abriram-se de repente, como se fugitivos de um sonho. Respirou fundo. Não ia chorar. Não agora. Não, já passou. Acabou.

- De volta para o lugar em que me buscou, sim?

O taxista obedeceu. Puro instrumento fático. A casa aproximou-se, o sentimento nela foi surgindo. Agora assim era o desgaste da comprovação. A pílula da falta de coragem e suicídio interno.

Abriu a porta do lar. Ele estava sentado no sofá, fazendo seus cálculos. Olhou para ela e sorriu. Ela soriu de volta. Por onde esteve, meu amor? Ah, amor. Seu amor sou eu? Beijou-lhe na boca. Foi para o quarto, guardou o pano aveludado e passou a mão pela gaganta, como se fosse capturar o grito preso dentro de si.

Adormeceu uma e acordou outra. Agora, sim, tinha a certeza que corrói: [sobre]viveria em paz.

terça-feira, maio 20, 2008

Pela arte, ao fim do que é doce.

E lá estava ela. O vestido apertado ao corpo, longo, muito longo, quase encostando no chão de mármore. O cabelo preso em um rabo de cavalo delicado, as unhas grandes, pintadas de rosa-claro. Encarava-me profundamente como se eu tivesse a resposta para todas as suas perguntas. Respostas desnecessárias, eu sabia, pois todas as perguntas eram inúteis. Algumas vezes ela levanta a mão até a altura da boca, como se fosse roer as unhas, mas abaixava-a segundos após, lembrando-se que iria quebrar a perfeição de seu corpo inteiro. E como ela era perfeita!

Era a mulher que eu mais amara durante toda a minha vida. E eu nunca fui muito de amar, não o suficiente para ser considerado amor. A verdade é que o tempo passa, o sentimento é consumido, os verbos são conjugados e o costume torna-se doentio. Tudo que eu sentia agora era oriundo de profunda admiração e nojo. Duas coisas essenciais para olhar aquele par de óculos e querer quebrá-lo em pedaços, para que ela nunca mais o ajeite com aqueles dedos compridos e delicados. Pois, ao quebrá-lo, quebro-lhe também as mãos. E, ao quebrar suas mãos, quebro-lhe toda vida de escritora.

Ela continuava a olhar-me, com aqueles olhos famintos, o sorriso enviesado. Às vezes eu queria desesperar-me o suficiente para queimar-lhe a face com o café quente que repousava ao nosso lado. Mas eu não conseguia. Não, era tudo tão forçado, eu abria o jornal, fingia entender as palavras que estava lendo, e ela, ah ela!, estava observando-me para colocar a minha dócil personalidade mentirosa em um de seus contos filosóficos que eu tanto odiava e repugnava.

Açúcar. Ela perguntou-me se havia mais açúcar. Intriguei-me, pois ela sempre gostara de tudo tão moderado, inclusive, é claro, das palavras. Foi absolutamente dócil e surpreendedora, por favor, mais açúcar. E eu fui, solícito, até a cozinha, buscar o pote açucarado. Quando voltei à nossa varanda com vista para o mar, ela estava lendo o jornal exatamente na página de horóscopos, situação que deixou-me deveras constrangido, pois, na verdade, era a página em que eu estava tão concentrado anteriormente. Ela ironizou com os olhos, mas nada disse. Pegou o pote.

Extremamente compenetrada, colocou uma, duas, três, quatro, quinze colheradas de açúcar em seu café. Minha sombrancelha levantou-se e fiz menção de perguntar que absurdo era aquele que se sucedia, mas ela levantou-se imediatamente com a xícara na mão e foi até o meu lado.

- A vida é tão amarga, não acha? - Quase um suspiro em meus ouvidos, um sorpo de vento delicioso.

- Às vezes - o impulso levou-me quase a perguntar por que diabos ela estava-me dizendo aquilo e porque tinha uma xícara com mais açúcar que café na mão.

Sempre fui controlado demais. Nunca, nunca disse o que realmente pensava. Se pudesse soltar as palavras, naquele momento, gritaria que ela estava enlouquecendo, que eu a odiava por ter roubado de mim o que mais amava. Não mais conseguia sentir por ela o que inicialmente sentia. Eu quase a odiava completamente. Ela era uma sombra em meu jardim, o vampiro de minhas idéias. Fazia-me consumir quase três maços de cigarro por dia em troca de imaginação alguma. Sim, ela era a âncora de meus pensamentos. Maldita!

- Você não acha que deveríamos pôr mais açúcar em nossos laços, em nossas vidas, em nosso amor?

Amor? Não, querida, não há mais amor. Eu amava-a porque era genial amá-la, assim como suas palavras consumiam meus olhos tristemente. Você era parecida comigo em tantos aspectos que me encantei com a impressão de não estar sozinho no mundo, de ter a compreensão da realidade unitária. Não obstante, você estagnou, literal e literalmente, minhas palavras. Durante todos esses anos não consigo mais escrever como escrevia, pois lá está você, pedindo-me conselhos sobre que idéia usar, como usar e não deixando-me respirar, em momento algum, as idéias que surgiam na minha mente.

- Gosto da vida azeda. A vida doce demais enjoar-me-ia - pisquei levemente os olhos ao proferir essa frase.

Ela assustou-se, definitivamente, pois sua expressão facial alterou-se, coisa que raras as vezes deixava acontecer. Mordeu os lábios levemente e, surpreendendo-me, atirou a xícara de porcelana na parede. Espatifou-se e o açúcar espalhou-se no chão. Algumas lágrimas caíram de seu rosto, enquanto ela involuntariamente corria para o quarto para pegar suas coisas importantes e socar tudo dentro de uma mala. Ela havia percebido tudo que eu queria falar-lhe em apenas uma frase metafórica. E como meu coração palpitou de alegria.

Voltou-se a mim, com um livro de capa vermelha entitulado “Ele” e com duas alianças, com nossos nomes grafados em cada uma delas. Largou-os na mesa e saiu porta afora.

Hoje à noite, quando terminei de ler o livro, senti o peso do que havia feito totalmente em cima de minha consciência. As alianças, coloquei-as dentro de outra xícara, com muito açúcar e despejei tudo na areia em frente à minha casa. Chorei um pouco e gostei de chorar. Há muito tempo não chorava. E era delicioso sofrer. Ah, se era.

Peguei um lápis e um papel e comecei a escrever.

- Como é amargo ser livre.

segunda-feira, abril 07, 2008

algema real.

Tirou bruscamente a pulseira prateada que envolvia seu pulso, como se aquilo a fosse libertar, de alguma forma, do passado eminente. Jogou-a contra a parede e, como em câmera lenta, viu-a cair como água até pousar no chão. Agarrou-se aos joelhos e ficou encarando a jóia morta, desmaida, indefesa, que repousava como um corpo desesperado na madeira.
Pronto. Estava feito. Ninguém mais poderia julgá-la. Não, não agüentava mais as faces das pessoas quando chegava no trabalho: Oh, coitadinha... veja lá, ainda não conseguiu, mas probrezinha, foi tão de repente, é, e com pouquíssimo tempo, não acha? Não conseguiu ainda desfazer-se totalmente...
E que raiva que sentia dos olhares de pena! Do restaurante de portas sarcásticas à sua entrada, da praça com ar de solidariedade. Ela não queria nada daquilo, maldição! Apenas precisava ficar sozinha, sem sentimentos alheios, por um tempo, apenas um tempo, sabia que conseguiria socar tudo isso por terra a dentro e ir ao funeral de seus pensamentos e lembranças.
Hoje, definitivamente, ela não usaria mais essa maldita pulseira. Ficaria ali, estirada no chão, durante quanto tempo fosse preciso, até que ela tomasse coragem para tocá-la. Porque o sacrifício já fora imenso apenas para arrancá-la do pulso e vomitá-la até a parede. Talvez nunca mais conseguisse encostar os dedos ou nem mesmo olhar para aquela parte de seu quarto. Pensando bem, não sabia por que tivera a idéia de tirá-la dentro de casa. Poderia ter sido mais esperta! Jogado-a na rua, no mar, no céu, quem sabe. Ah, mas é claro que não! Para quem está mentindo? Ela planejou tirá-la ali, exatamente ali. Não teria a mínima coragem de tirá-la em outro lugar longe de si.
Por que, perguntava-se todos os dias, ele lhe dera uma pulseira tão em chamas, e não um simples anel dourado? Ah, que ele sempre era singular! O primeiro beijo havia sido embaixo da mesa de sinuca, quando ela desajeitadamente havia-se abaixado para apanhar a bola vermelha. Ele foi tão rápido quanto uma raposa, fingiu esbarrar nela e cair inocentemente sobre os seus lábios doces como acrimel, como assim ele costumava descrever. E quanto ao pedido de namoro! No ônibus, por deus! Ele pediu atenção de todos... e, de repente, estava ajoelhado com uma margarida amarela gigante, dizendo que uma Rosa era seu girassol, e que essa flor dupla sempre fazia-o girar e girar e girar.

Ficou tonta.

Era realmente merecedora de pena, pensou. Mal lembrava-se dos momentos e já se colocava a chorar desesperadamente, como uma criança indefesa. O sentimento que possuía neste momento era deveras de desprotegimento total. Não sabia o que ia fazer com aquela pulseira maldita, não sabia o que ia fazer com as vinte e sete cartas dentro da gaveta e nem com os malditos porta-retratos quebrados, que espalharam milhares de pedacinhos de vidro pela casa. Andar sobre migalhas afiadas não seria tão ruim, afinal. Não era o que vinha fazendo durante os últimos cinco meses?

Ele simplesmente apareceu [coincidentemente no dia em que ela acabara de descobrir algo que pensou ser a notícia mais feliz do mundo] com os olhos piscando demais, coçando um pouco mais do que o normal o corpo, ajeitando os óculos impetuosamente. Correu até ela e jogou-a no sofá, ela sorriu, a boca abrindo-se para a notícia!

- Eu e você... - os lábios quase tocando-se.

- Eu não te amo mais, - deixou exatamente uma vírgula eterna.

Ele falou. Ela calou-se. Tudo que escutou depois foi que ele vinha buscar as coisas no dia seguinte, estava indo para a Europa com a Vivian, aquela pintora e escritora que ele tanto admirava e que não cansava de falar sobre nos últimos meses. Ela não conseguiu chorar. Não, não enquanto ele estivesse ali. Para quê? Vai, vai embora.

Cinco meses depois ela conseguiu livrar-se da pulseira. Mas não do vínculo até a morte que carregava dele dentro de sua barriga. Era exatamente por isso que ninguém conseguia entender o porquê de ela não querer falar nada para ninguém, o porquê das férias adiantadas, se todos achavam que ela precisava mais é conhecer pessoas e não prender-se dentro de casa.
Então para que dar-se ao trabalho de queimar todos seus rastros se não poderia recomeçar sem ele, sem uma parte de seu rosto, seus traços, seu gene, acompanhando-a para sempre?

Não queria saber. Levantou-se, sem olhar para a pulseira e caminhou para a porta da frente. Pensou em ir comprar talvez uma fitinha, que cobrisse a nudez pura do seu pulso. Quem sabe encontrar novas pessoas, com novas idéias, idéias singulares e novos lugares onde pudesse recortar o passado, retalhar o presente e fazer do futuro algo novo.

Bateu a porta e respirou o dia, com a mão levemente acariciando a barriga.

terça-feira, abril 01, 2008

simples complexidade.

Não conseguia entender o que era tudo, quem ela era e quem nós somos. Não, definitivamente não. Estava cansada de fingir que sabia das coisas, mas por dentro ver e tocar o verdadeiro desconhecido, os porquês, os motivos, a relatividade de seu corpo e de sua alma.
Queria saber por que tinha essa tão impetuosa indiferença, esse não querer e fazer forçado, uma vida sobrevivida, um meio apenas para nicho ecológico. E às vezes perguntava-se qual era sua função, qual era a função do céu e do sinal de trânsito, então. Este último tinha como obrigação impedir a morte de pessoas, acidentes e surtos, mas para quê? Por que ter apenas três cores se a vida depende de milhares delas? E o que ela estava fazendo sentada ali, com as pernas para fora da ponte, olhando metros abaixo o trem das sete passar?
Enrolou os fios de cabelo com a mão e balançou o pé. A idéia estúpida de tentar voar para ver como é passou por sua cabeça, riu logo após, um sorriso enviesado, quase encorajador. Vamos, o que você está esperando? Sinta o ar em você, entrando em seus pulmões, sinta a força da gravidade e... o alimento em vermelho dos trilhos. Cuspiu e voltou a divagar.
Sua cabeça girava, somente de olhar para o horizonte, que se encontrava como uma fumaça muito vasta e escura, juntando-se com o doce cheiro urbano. Ficou enjoada. Por que ela ainda não conseguia levantar-se? Era difícil forçar a obediência das pernas, quando estas queriam descansar e não ouvir o barulho surdo de sua casa. O mundo é realmente engraçado: possui milhares de pessoas, mas apenas uma encontrava-se em uma ponte sozinha a balançar os pés. Onde estavam todas as outras? Jantando em casa, ouvindo música, dormindo, morrendo... mas onde estaria a real ligação?
Levantou-se bem devagar e acendeu um cigarro. Tão nova e já viciada. Os vícios carnais, reais e fatais são os melhores. Ter um vício na alma é muito, muito pior. Ela fumava não pela necessidade da droga, mas por que gostava de ver a fumaça saindo de sua boca e ir subindo, subindo, subindo até desaparecer completamente e misturar-se às nuvens. Que idéia! Como poderia estar apaixonada pela união e perda total de si mesma no céu?
Desceu a ponte até a ruazinha tão doce de Santa Teresa. As pessoas preparando-se para montar suas barraquinhas, agitadas, correndo, olhares ávidos e tristes. Sentiu pena e suspirou. Será que essas pessoas descansavam, pensavam sobre para onde tudo vai e para onde tudo retorna? Não a mulher com olheiras tão espessas que com elas chorava.
Chegou ao sinal. A maior rua da cidade, ela atravessava-a uma vez por mês, quando decidia ver o trem correr para seu objetivo. Verde: os carros passando, as pessoas olhando os relógios de pulso. Tentou forçar os olhos míopes para ver quem estava do outro lado. Sacudiu a cabeça. Não podia ser: quanto mais apertava os nervinhos dos olhos, mais se convencia de que estava olhando para ela mesma, do outro lado da rua. E não apenas isso, mas estava vendo o seu lado exato refletido no outro lado, todas as pessoas que estavam aglomeradas em sua ponta estavam também na outra ponta. Só poderia estar sonhando.
Sinal amarelo: metade.
Sinal vermelho: os transeuntes começaram a andar para o seu rumo. E lá foi ela, pasmada, assustada e ansiosa. Ao olhar para seus lados, percebia as pessoas de um lado passando por dentro de si mesmas opostas e, após isso, tornavam-se almas e corpos diferentes. Cada um indo em uma direção. Parecia que, passado o toque e a passagem, voltavam a ser o que eram, ou talvez o que se tornaram.
Sua vez havia chegado: foi de encontro ao seu eu e sentiu o corpo tremer no momento em que se tocaram com a ponta dos dedos e foram atravessados. Respirou profundamente e pareceu compreender o todo completo.

Quando olhou para trás, a mulher de cabelos compridos e ruivos, os olhos penetrantes e o rosto desconfiado, estava olhando em sua mesma direção com uma expressão de questionamento: mas por que o esbarrão, menina?

Voltou a olhar para frente e soprou mais uma fumaça, deliciada.