terça-feira, abril 20, 2010

asas e facas.

sei que haverá uma noite em que acordarei aos prantos, e minha mãe estará chorando sobre o corpo morto de meu pai.
o tempo sua pelo corpo, vida em partitura de música italiana. janelas abertas para o mundo entrar nas casas, um sopro de tudo na poeira dos cantos dos cômodos.
mamãe costumava dizer que morcegos são pássaros esquecidos. fazem barulho à noite, assustam, cegos voam pelas árvores e por cima dos pensamentos. papai, com o sorriso no corpo, lia alguns de seus poemas sobre pássaros que fingiam ser morcegos.

- mãe!
os dedos passeios de carruagem enferrujada sobre os pêlos, poros, sol. sal invadindo a cachoeira crescente, brilho único de adeus. ainda de camisola, jazia estendida ao chão, as orelhas congelando no mármore branco, enquanto suas mãos apoiavam no coração.

- está fingindo, amor.
sufoquei com a explosão torturante que queria ser vomitada dos meus lábios. havia sonhado com o horizonte, com alguma música e instrumentos. sentia a vontade de voltar para a calmaria que emanava da cama.

ela ficou ali o dia inteiro. senti o cheiro de podridão vinda do corpo. sentei-me na cadeira de balanço só para sentir o terrível gosto do vai e vem. conversava com papai de vez em quando, arrastava o rosto na pedra dura, resmungava sobre a noite mal dormida. senti pena.
à noite, tive forças para parar de balançar.

- chegou a hora, você sabe.

levantou-se sem espirros, o sangue todo parecia estar no rosto.
os punhos fechados, como se guardassem algo dentro.
foi até a janela do apartamento e jogou um ser morto oito andares abaixo.
era um morcego.

não escutei a queda, quase que ironicamente, mas os seus grunhidos finos e perdidos: é besteira, não importa! é besteira, ouviu? onde estava com a cabeça?
fiquei assustada em alguns momentos, com vontade de chorar e gargalhar, mas o mais terrível de tudo foi mamãe ter aparecido com um pássaro engaiolado e cego para cuidar.

no enterro de papai rezei por piedade.

5 comentários:

Rayssa Galvão disse...

achei confuso.
mas talvez seja só o sono.

vou ler outra vez mais tarde.

frederico graniço disse...

Ah, acho que achei claro. :)

Essa certeza da perda dos pais é algo que, se baixamos a guarda, pode nos assolar como uma assombração permanente.

Pessoalmente prefiro não pensar nisso.

Quanto a novos pássaros, engaiolados ou não, que surjam posteriormente na vida dos que ficaram; também não vejo problema algum... Até porque pássaros que não voam e amam, morrem.

Sargento Azul disse...

"mamãe costumava dizer que morcegos são pássaros esquecidos.

- chegou a hora, você sabe."

Pri,

Diferente desses pássaros assolados, você é uma ave-do-paraíso. Branca e inexistente. Algo como o sopro de uma margarida pra dentro de um caixão, logo, prestes, antes deste voar oito andares abaixo.

Amo o que você escreve.

Sargento Azul disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anna disse...

Embora eu tenha absorvido bocados intensos de tristeza, o texto me pareceu belo aos olhos, a mente, a alma...

Há muito não contemplava palavras em tal sincronia. Foi uma experiência singular, ficarei por aqui esperando que ela se repita outras vezes.