segunda-feira, outubro 30, 2017

pela milésima vez
eu vou ter que repetir
só mais uma vez
eu juro
beijar estas palavras por mil 
noites
e desejar aquela
mais uma
que é promessa
problema
profeta
apito a voz da minha cabeça
e digo: o gesto
meu amor
é tudo.
por isso que espero aquela
noite
que nunca se cansa
de vir.
por que não 
deitar em roupas amarrotadas
à espera uma vez na corda
depois na cadeira da sala
e agora na cama
mais de um mês abandonadas
me viram chorar no limite
da casa que também
chora
lá fora
o dia está feliz por que
não fazer poesia sobre o céu
sobre a praia e o vento
é preciso um niilismo profundo
para falar de roupas amarrotadas
e mais ainda deitar-se nelas.

domingo, setembro 24, 2017

sei que sou
mulher
quando logo de manhã
em vez de cantarem pássaros
de gritarem galos
de ainda ressoar a cigarra de ontem
é o psiu que escuto na rua deserta
ser mulher é isso:
uma rua sempre deserta
e todas as canções do mundo
em segundo plano
porque
afinal
quem tem tempo pra cantar enquanto corre?
tu às vezes me contesta, eu que me apego com muita força às inutilidades da vida, e com ar de quem é feliz, de quem respira tranquilamente, me diz: cabelo é célula morta, não dá pra tratar. 
eu fico de repente estática, se é possível estar mais do que já estou há dias sem conseguir levantar da cama. meu corpo levanta, máquina que é, e vai trabalhar, pagar as contas, mercado e louça. eu fico pra sempre deitada.
então o cabelo está morto. assim como nossas unhas. como a morte já é presente, como cuidamos da morte que há em nós! pra morrer basta estar vivo. o começo já tem em si o fim, eu entendo. não é que todos os dias, meses, cresce a morte em nós, e cortamos, pintamos, decoramos, até que ela renasce, renasce mais uma vez.
é claro que tenho mania de embelezar a morte. ela está aí para me lembrar de muitas coisas, e quanto mais bela mais fácil é amá-la. dá, sim, pra tratar do cabelo. tudo na vida não passa de uma questão de estética, até a morte - tão vaidosa.
come back
come back to me
remember the songs
the rain the smoke and
they will certainly be
by our side when we
arrive late like the storm.

quinta-feira, agosto 24, 2017

sempre choro quando lavo a louça. não sei se também acontece com você, mas esse choro é pior do que aquele provocado por cebolas. é como uma cachoeira de água perfumada caindo direto da nascente da memória. quando começa, se apossa por inteiro de mim e já não tenho controle de nada. choro, como um verbo vivo e independente, como um filho que após crescido nos abandona e some no mundo. aqui no caso, vira água corrente, escorrega nos pratos, some no ralo. e de repente desagua em algum esgoto solitário, quem sabe, ou vira alimento de baratas.
me sinto meio máquina programada. é só molhar a ponta dos dedos que já nasce a primeira lágrima. parece um time-lapse de flor desabrochando - quem vê não imagina o tempo que demorou, o vento que por ali passou nem o cheiro que emana. por trás do vídeo tem um outro vídeo, que só vê quem é flor. quem não é ou não pode ou não quer ser acha que vê, mas não vê é nada.
você deve achar que bebi um conhaque ou qualquer coisa pra estar assim tão emocionada. juro que não bebi nada. aliás, acho que troquei o álcool por choro (quando não deveria ser o contrário, meu deus?). se tivesse aqui um conhaque (ou o poema sobre o conhaque) de repente terminava de lavar essa louça em paz.
seria bem mais simples: no fim enxugar a louça como quem enxuga lágrimas. não deixá-la jamais pela metade.
me lembro dos teus passos: aqueles que me faziam tocar a existência. exatamente como encostam no chão, com um barulho já tão íntimo parecido com alguma canção que escutei na infância. agora, indo até o banheiro com meus passos tímidos, fiz aquele barulho tão fantástico que você fazia com seus chinelos, e que me acordava nem que fosse no meio da madrugada muito feliz e aliviada por poder escutá-los, saber que eram teus, lembrar que ainda estava ali, e sorria. 
saber esses passos é como retornar. tenho no chão algum tempo que já nem sonhava que tinha, e sinto saudade dos gestos, dos cheiros e do detalhe daquela janela com uma cortina florida.
não consigo sequer chegar ao banheiro. não termino de lavar a louça, não saio do mesmo lugar. esse passo que parece mais uma bala perdida dessas que abrimos o portão num dia normal e que bonito está o céu respiramos um pouco e colocamos o fone de ouvido que música maravilhosa o que será que comerei no almoço? e já não há mais nada a se pensar, porque sim se morre em pleno dia. sempre cito clarice, talvez porque esses passos também me lembrem as horas em que sentada na varanda lia seu livro, calmamente.
agora não sei, não sei mais, acho que vou dormir. espero escutar teus passos mais uma vez na madrugada.

segunda-feira, agosto 14, 2017

que mania chata essa que tenho de filosofar sobre tudo.
ou será problematizar? 
já estou então problematizando 
a filosofia ou filosofando 
a problemática?
coisas que a internet faz com a gente - além de gerar vícios inúteis
(como se algum fosse últil)
acho que tenho também vício em poesia
esse lixo reciclável.
eis que tô pensando sobre
versos. pensando muito. parece até que estou num trem com trilhosintermináveissemfonedeouvidooucaderninho.
só faço pensar.
às vezes acho que estou virando escultura. mas esculturas não choram.
eu sim. exceto que não
digo sim
nunca, só funciono na negativa.
não te disse que é uma mania chata?
seja lá quem tu for.
1. passar a nomear tristezas: tentar vencê-las.
2. saber impossível nomeá-las (mas ainda assim tentar)
3. descobrir cada vez mais tristezas escondidas pelos cantos - algumas passivas, outras tentando te matar.
4. acumular tristezas com medo de perdê-las - já que não se pode nomear, é porque são raridades. e raridades valem qualquer coisa, melhor esperar anos para vender a um colecionador.
5. depois de anos, entender que você é o próprio colecionador - e que agora compra tristezas dos outros.
6. um dia, sozinha, escutar as tristezas te chamarem pelo nome.
pelo sobrenome.
te dão apelido.
também são gentis, e saem do canto dos armários para cantos de te fazer ninar.
7. de volta pro início: acabo de ganhar mais uma tristeza.

quinta-feira, junho 15, 2017

às vezes acordo amarga como esse café
que tu bebe e fuma com um dois até dez cigarros
enquanto durar o tempo do café
ou de qualquer angústia
porque tu sabe 
quem fuma tanto assim
enquanto bebe um copinho de café
é porque justifica a morte
ou qualquer outra coisa
já não sabe se engole o café ou as cinzas
ou aquela carta que chegou onde ainda se chegam cartas
quando não estou amarga te escrevo
poemas, escrevo paredes
esqueço de comprar o café que tu bebe no mercado
e não há motivo para acordar com o café
nem com a amargura
porque já nem lembro onde deixei o maço de cigarros.
eu achava que iria mudar o mundo
mas em vez costurava palavras
sentada na cadeira de balanço
com aquela mão flutuante empurrando devagar
divagando como uma velha os bordados incompletos
conversava com as formigas carregando pedaços de pão
e elas me respondiam em sua língua tão silenciosa
algo como estamos construindo uma cidade imersa
embaixo de seus pés
e todos os dias você nos destrói o caminho
nos faz passar fome
mas ainda andamos, andaimes nos buracos de sua casa
enquanto a agulha feroz já rasgava minha mão macia
as formigas andavam
a cadeira balançava
e na minha cabeça só aquela pergunta
eu achava que era uma formiga
mas não catava migalhas nem era arquiteta
era costureira
de coisas tão insignificantes
achando que qualquer significante poderia mudar o mundo

quarta-feira, junho 14, 2017

lembro da feira. a melhor parte de mim. não que gostasse de frutas e legumes variados, sempre fui fã mesmo é de batatas, apesar de não ser vencedora em nada na vida. mas a feira era mais do que isso. até mais que o aipim cozido com margarina que minha mãe, muito docemente, e meu pai, muito euforicamente como sou às vezes hoje em dia, ofereciam às pessoas.
eu acordava às 6 horas da manhã com o barulho das coisas. os caixotes se moviam com raiva do chão. a porta da garagem se abria, como quem espera a semana inteira para beber uma cerveja, a verdadeira sexta-feira santa. um passarinho cantava na árvore do lado, que há muito foi abatida. mesma árvore que minha gata escalava, e mesma árvore também onde jogava uma pedrinha amarrada num barbante para alcançar os galhos. no fundo sempre quis ser gato.
eu parecia um ser insone. num sábado, quem acorda às 6 da manhã sem precisar acordar? eu sentia o cheiro do tempo. não sabia naquela época, mas era ele, era sim, e conversava comigo.
sentada num caixote qualquer, observava as lindas velhinhas que chegavam ali para comprar qualquer coisa, e adorava escutar histórias sem sentido, lembranças disso ou daquilo e o que eu mais gostava era ir na casa delas com meu pai, naquela kombi velha, entregar as compras.
a kombi era tão importante pra mim que uma vez acordei desesperada de um sonho em que estava dirigindo e caía com meu pai e a kombi e tudo dentro de mim no rio ali perto de casa. o mesmo rio em que desovavam corpos, imaginei também toda minha felicidade e nossos corpos sendo desovados.
lá pras 10 horas, pegava minha bicicleta ou montava minha banquinha de troca de revistas da turma da mônica. nada me dava maior leveza e simplicidade do que pedalar pelas ruas amanhecendo. podia sentir o bocejo do dia, eu era um galo solitário descobrindo o mundo.
voltar para casa e sentir o rumor da feira. meus pais sorrindo com uma fruta do conde na mão, descascando um abacaxi, minha mãe tirando os carocinhos da melancia pra eu comer e não criar sementes no estômago. uma preocupação de nascer devagar, de esperar minhas raízes tomarem forma.
depois, o desarrumar das coisas, o desdobramento do tempo no tempo, mesmo com tempestades o ritual era refeito. voltar para o meu quarto e acender velas, pegar nas mãos livros estranhos que me confundiam e já começar a colocar no meu pequeno diário colorido a conversa que eu tinha tido com meu amigo iago, sentada na calçada do lado da feira.
o silêncio do meu corpo inebriado ainda pela manhã que já acabara. o gosto da lembrança muito prodigiosa me abraçava, exatamente como me abraça agora.
era nesse crepúsculo que chorava. sem saber muito bem por quê, com minhas mãos de crianças e meu coração ainda sem enfartos, a feira era já um abismo, e eu andava na corda bamba.

segunda-feira, abril 24, 2017

vou te contar uma coisa. tu não precisa ler, não precisa me dizer nada, juro: mas é que corto os cabelos para não cortar os pulsos. sabe de repente eu acordo numa manhã fria dessas de são paulo com o ar todo poluído, e eu percebo que quem tá poluída sou eu. não é o ar, não é. é o meu corpo inflamado de sujeira, de tanta coisa pra ser limpa. a gente pode limpar a casa (mas prefiro não perder meu tempo com isso) organizar os livros na prateleira soprar um pouco a poeira e fingir que tá tudo bem. a gente pode. a gente pode tanta coisa. mas o corpo continua imundo. imersonomundo. e é muita vastidão para ser só uma coisa, o corpo balança escorrega gira. contaminação pura que nem quando ando pelas ruas de são paulo e sinto vontade de chorar. é verdade - outro dia bem sentei num cantinho da avenida paulista e chorei durante meia hora até conseguir olhar pra cima. os olhos choraram tanto que nem pareciam mais ser meus olhos e choravam tanto que nem sabia mais por que chorava ou nem onde estava e quando olhei pra cima, olhei bem fundo, e vi que era eu que estava ali, chorando.
desculpa, me embolei na narrativa. nunca fui de contar coisas, só as gotas da chuva, sim, sempre contei gotas, talvez porque contá-las seja impossível. então é o mesmo que não contar nada. mas preciso contar até dez e me acalmar e te contar finalmente o que preciso. sabe o que é uma salvação? eu também não. mas eis que sinto que a salvação é sempre cortar os cabelos. como um milagre. a gente reza tanto pra nós mesmos, por que não atender as preces? essas que vêm sem nem sabermos de onde, mas que definitivamente estão ali mais do que o sapato que estamos usando.
então todos os dias tenho cortado os cabelos. normalmente só as pontas e já basta. mas esses dias cortei a franja toda torta e não é que respirei fundo e senti a calma do mundo? faz tanto tempo que não sentia essa pacificação, esse banho. há momentos porém que não aguento e meto a tesoura bem no meio do meu couro cabeludo e fico com vários buracos. é aí que consigo rir. rir de verdade. sabe a verdade do riso? é essa. estar cheia de buracos na cabeça e ao mesmo tempo entender que são só buracos na cabeça e nada mais.
ainda com a tesoura enferrujada de lágrimas e a sujeira contaminando das pontas das unhas quebradas até o último átomo que acha que me encosta preservo em sangue e palavras as células, essas mesmo, as células vivas.