quinta-feira, junho 15, 2017

às vezes acordo amarga como esse café
que tu bebe e fuma com um dois até dez cigarros
enquanto durar o tempo do café
ou de qualquer angústia
porque tu sabe 
quem fuma tanto assim
enquanto bebe um copinho de café
é porque justifica a morte
ou qualquer outra coisa
já não sabe se engole o café ou as cinzas
ou aquela carta que chegou onde ainda se chegam cartas
quando não estou amarga te escrevo
poemas, escrevo paredes
esqueço de comprar o café que tu bebe no mercado
e não há motivo para acordar com o café
nem com a amargura
porque já nem lembro onde deixei o maço de cigarros.
eu achava que iria mudar o mundo
mas em vez costurava palavras
sentada na cadeira de balanço
com aquela mão flutuante empurrando devagar
divagando como uma velha os bordados incompletos
conversava com as formigas carregando pedaços de pão
e elas me respondiam em sua língua tão silenciosa
algo como estamos construindo uma cidade imersa
embaixo de seus pés
e todos os dias você nos destrói o caminho
nos faz passar fome
mas ainda andamos, andaimes nos buracos de sua casa
enquanto a agulha feroz já rasgava minha mão macia
as formigas andavam
a cadeira balançava
e na minha cabeça só aquela pergunta
eu achava que era uma formiga
mas não catava migalhas nem era arquiteta
era costureira
de coisas tão insignificantes
achando que qualquer significante poderia mudar o mundo

quarta-feira, junho 14, 2017

lembro da feira. a melhor parte de mim. não que gostasse de frutas e legumes variados, sempre fui fã mesmo é de batatas, apesar de não ser vencedora em nada na vida. mas a feira era mais do que isso. até mais que o aipim cozido com margarina que minha mãe, muito docemente, e meu pai, muito euforicamente como sou às vezes hoje em dia, ofereciam às pessoas.
eu acordava às 6 horas da manhã com o barulho das coisas. os caixotes se moviam com raiva do chão. a porta da garagem se abria, como quem espera a semana inteira para beber uma cerveja, a verdadeira sexta-feira santa. um passarinho cantava na árvore do lado, que há muito foi abatida. mesma árvore que minha gata escalava, e mesma árvore também onde jogava uma pedrinha amarrada num barbante para alcançar os galhos. no fundo sempre quis ser gato.
eu parecia um ser insone. num sábado, quem acorda às 6 da manhã sem precisar acordar? eu sentia o cheiro do tempo. não sabia naquela época, mas era ele, era sim, e conversava comigo.
sentada num caixote qualquer, observava as lindas velhinhas que chegavam ali para comprar qualquer coisa, e adorava escutar histórias sem sentido, lembranças disso ou daquilo e o que eu mais gostava era ir na casa delas com meu pai, naquela kombi velha, entregar as compras.
a kombi era tão importante pra mim que uma vez acordei desesperada de um sonho em que estava dirigindo e caía com meu pai e a kombi e tudo dentro de mim no rio ali perto de casa. o mesmo rio em que desovavam corpos, imaginei também toda minha felicidade e nossos corpos sendo desovados.
lá pras 10 horas, pegava minha bicicleta ou montava minha banquinha de troca de revistas da turma da mônica. nada me dava maior leveza e simplicidade do que pedalar pelas ruas amanhecendo. podia sentir o bocejo do dia, eu era um galo solitário descobrindo o mundo.
voltar para casa e sentir o rumor da feira. meus pais sorrindo com uma fruta do conde na mão, descascando um abacaxi, minha mãe tirando os carocinhos da melancia pra eu comer e não criar sementes no estômago. uma preocupação de nascer devagar, de esperar minhas raízes tomarem forma.
depois, o desarrumar das coisas, o desdobramento do tempo no tempo, mesmo com tempestades o ritual era refeito. voltar para o meu quarto e acender velas, pegar nas mãos livros estranhos que me confundiam e já começar a colocar no meu pequeno diário colorido a conversa que eu tinha tido com meu amigo iago, sentada na calçada do lado da feira.
o silêncio do meu corpo inebriado ainda pela manhã que já acabara. o gosto da lembrança muito prodigiosa me abraçava, exatamente como me abraça agora.
era nesse crepúsculo que chorava. sem saber muito bem por quê, com minhas mãos de crianças e meu coração ainda sem enfartos, a feira era já um abismo, e eu andava na corda bamba.

segunda-feira, abril 24, 2017

vou te contar uma coisa. tu não precisa ler, não precisa me dizer nada, juro: mas é que corto os cabelos para não cortar os pulsos. sabe de repente eu acordo numa manhã fria dessas de são paulo com o ar todo poluído, e eu percebo que quem tá poluída sou eu. não é o ar, não é. é o meu corpo inflamado de sujeira, de tanta coisa pra ser limpa. a gente pode limpar a casa (mas prefiro não perder meu tempo com isso) organizar os livros na prateleira soprar um pouco a poeira e fingir que tá tudo bem. a gente pode. a gente pode tanta coisa. mas o corpo continua imundo. imersonomundo. e é muita vastidão para ser só uma coisa, o corpo balança escorrega gira. contaminação pura que nem quando ando pelas ruas de são paulo e sinto vontade de chorar. é verdade - outro dia bem sentei num cantinho da avenida paulista e chorei durante meia hora até conseguir olhar pra cima. os olhos choraram tanto que nem pareciam mais ser meus olhos e choravam tanto que nem sabia mais por que chorava ou nem onde estava e quando olhei pra cima, olhei bem fundo, e vi que era eu que estava ali, chorando.
desculpa, me embolei na narrativa. nunca fui de contar coisas, só as gotas da chuva, sim, sempre contei gotas, talvez porque contá-las seja impossível. então é o mesmo que não contar nada. mas preciso contar até dez e me acalmar e te contar finalmente o que preciso. sabe o que é uma salvação? eu também não. mas eis que sinto que a salvação é sempre cortar os cabelos. como um milagre. a gente reza tanto pra nós mesmos, por que não atender as preces? essas que vêm sem nem sabermos de onde, mas que definitivamente estão ali mais do que o sapato que estamos usando.
então todos os dias tenho cortado os cabelos. normalmente só as pontas e já basta. mas esses dias cortei a franja toda torta e não é que respirei fundo e senti a calma do mundo? faz tanto tempo que não sentia essa pacificação, esse banho. há momentos porém que não aguento e meto a tesoura bem no meio do meu couro cabeludo e fico com vários buracos. é aí que consigo rir. rir de verdade. sabe a verdade do riso? é essa. estar cheia de buracos na cabeça e ao mesmo tempo entender que são só buracos na cabeça e nada mais.
ainda com a tesoura enferrujada de lágrimas e a sujeira contaminando das pontas das unhas quebradas até o último átomo que acha que me encosta preservo em sangue e palavras as células, essas mesmo, as células vivas.

segunda-feira, abril 17, 2017

amizade é a camisa com o botão descosturado
a gente perde em algum bar o maldito
ou no metrô cheio de botões também perdidos.
e de repente se dá conta, no espelho,
com o buraco feito abismo à mostra.
mas nosso corpo respira sem o botão
dá cicatriz, arrepio, tatuagem pro mundo.
e não é que a gente descobre qualquer dia
que aquele botão perdido virou flor na rua?
pra que falar da vida
se ela é guarda do próprio nome
armada com suas sílabas
só duas, mas inteiras
de um vazio que não lhe pertence.
rapta meu pensamento
minha loucura, minha dúvida
de na boca mover o som que rapidamente
ela me rouba.
sabe o que é engraçado?
a chuva me diz muita coisa
voltando com ela do trabalho
numa carona desavisada
guardei um segredo.
achei ridículo que logo ela
cinematográfica, ouvinte de mágoas
me fizesse esse pedido
tão sóbrio, mas inesperado:
- promete.
pulando poças, escutando suas sílabas
lembrei daquele dia
que te falei da chuva
sabe?
e não era preciso:
você já conhecia todos os segredos.

segunda-feira, março 27, 2017

deitada no chão da casa que chove
(sim, chove muito)
o café quente lendo o livro que mais amo
amor numa tarde que chove
e escurece lentamente
amor que é a felicidade menos incômoda da vida
esse amor que sinto o cheiro de longe
já misturado ao do café
e também ao da chuva
é o amor que afago
com um gesto despreocupado
nessa tarde
que não chove
e preciso levantar.

segunda-feira, março 06, 2017

total eclipse of the heart

Once upon a time
I was falling in love
But now I'm only falling apart
There's nothing I can do
A total eclipse of the heart


1 fevereiro de 2017. sonhei com um eclipse solar. foi angustiante. o mundo se fechava, e eu saía correndo de casa para o outro lado da rua. quando tentava voltar, já não sabia onde morava, onde eu estava. invadia um prédio qualquer. era perseguida. e não encontrava meu caminho de volta.

1 de março de 2017. aconteceu o eclipse solar. mas o mundo estava nublado. era carnaval, e havia uma purpurina falsa na minha pele. foi também quando tudo acabou. eu já sabia, antes de tudo realmente começar, que o caos era eminente? que eu estaria perdida, completamente angustiada, ainda sem encontrar a porta que deixei escancarada?

sexta-feira, março 03, 2017

abraço

o teu cheiro em mim.

I was born in a thunderstorm

como eu queria, no meio da minha bebedeira, escrever palavras bonitas. mas nem digitar direito eu consigo. por que não dormir? com toda a ânsia que estou e guardar na cama, lugar para reflexão e choros baixinhos.
mas já não consigo chorar. não consigo mais sentir. quero mais um copo de cerveja. mais um. mais um. esquecer tudo que está acontecendo à minha volta, um momento de transposição. não é isso que faço? um transpor-me do meu corpo para lugar nenhum, em absoluto nenhum.
agora, com as borboletas voando pela sala, e a vida pulsando no meu peito, é tão bom estar aqui. no meio de absoluto som nenhum. mentira, sia toca na minha cabeça. e daí? tudo passa, tudo inquestionavelmente passa...
e as coisas, o sentimentos, mudam num sentido acelerado, maior do que eu posso acompanhar, nessa minha silenciosa pergunta.