quarta-feira, setembro 12, 2007

Dor... assim.

Ele se levantou bem lentamente, os olhos pregados de sono. Não queria acordar, definitivamente o mundo onírico estava melhor do que essa realidade: o cotidiano às vezes é duro. Calçou as pantufas, enquanto olhava o espelho que cobria uma porta inteira do armário; não se reconheceu. Estava com algumas rugas e vários fios de cabelo branco, parece que o tempo passou e esqueceu de avisá-lo. Ao seu lado, a cama estava vazia, apenas restava a marca de um corpo recente. Ele suspirou... as coisas realmente mudam.
Ela estava sentada na rede da varanda, quando ele adentrou na cozinha. Fazia um frio de congelar a alma, naquela cobertura, mas a mulher de cabelo longo e castanho escuro vestia apenas uma camisola de alcinha, segurava uma caneca com um líquido forte. Estava bebendo logo de manhã, ele pareceu não importar-se, não soltou nenhuma palavra, apenas sentou-se e começou a passar a manteiga no pão. Aquele barulho de faca a irritou, aquele mínimo barulho a fez ranger os dentes. Como ela odiava o fato de ele ter fome e ter sono. Como ela odiava aquela maldita indiferença.
À noite ela não havia conseguido dormir. Quando fechava os olhos, via sombras, sentia-se observada, angustiada, quase como se a atacassem no escuro. E então ela abria os olhos e olhava o ventilador, olhava fixamente para o teto. Não sabia para onde escapar e sentia repulsa daquele corpo, dormindo tão bem ao seu lado, oh, como podia dormir assim... como conseguia? Ela havia levantado na madrugada e sentado-se na rede. Olhando... olhando para absolutamente nada.
- Então - ele disse suavemente, cortando seus pensamentos. Ela se virou e percebeu, surpreendida, que ele já havia-se trocado para o trabalho. Estava bonito, pensou, bonito demais. - Eu já vou.
E bateu a porta. Ela sabia por que ele estava indo mais cedo. Ela sabia por que ele estava tão bonito. Desgraçado, desgraçado... e aqueles olhos, aquelas mãos... aquele rosto. Bonito, bonito. Ela jogou a caneca na parede ferozmente, o líquido escorreu livre, quase sorridente. Oh, o líquido sorria. Os cacos cairam tristemente no chão. E... de repente, como em transe, ela esqueceu de seus ciúmes e de sua raiva. Começou a chorar, chorar alto, e arranhou todo o corpo até sangue sair em suas unhas.


Havia acontecido há três anos. Eles se amavam tanto, pareciam dois adolescentes em plena paixão. E Verônica corria pela casa. Verônica, verdadeira, videira, cheia de vida. Ela tinha quatro anos e brincava e pulava e sorria. Oh, como sorria! Sorria como o líquido que agora escorria pela parede. Sorria e fazia com que sorrissem consigo. Naquele dia, eles se destraíram, fazia calor, a porta da varanda estava aberta, eles conversavam, eles se olhavam e se amavam.
Verônica brincava. E queria brincar que era pássaro. Queria voar, por que ela não poderia ser um bem-te-vi? Bem te vi, Verônica, mas você se foi... E ela subiu na pequena grade, olhou um momento para baixo. Era tão alto! Mas ela ia voar, o papai e a mamãe ficariam tão felizes! E...
Ela viu a menina pendurada na varanda. Gritou! Gritou tão alto, que, com o susto, a menina a olhou, seus olhos meio sorridentes, meio medrosos. E desiquilibrou-se, Desiquilibrou-se para sempre, como um bem te vi que um dia se é visto e nunca mais volta para o ninho.

E os dois, estáticos, nunca mais foram os mesmos.


Ele estava no escritório, bonito, estava impecável. Uma mulher morena acabara de entrar. Tinha os olhos grandes... tão grandes que lhe causavam medo. Ela sorriu. Ele ajeitou os óculos. Ela tirou a roupa. Ele tirou os óculos. E ele estava bonito, tão bonito...
Uma hora depois, a mulher se retirou. O homem que se encontrava lá dentro não estava mais bonito. Estava triste, acabado. Por um momento, as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Mas ele engoliu em seco, voltou ao trabalho, esquecendo do mundo.

Quem poderia dizer que são fracos? Que se deixaram levar pela dor? Quem, quem poderia julgá-los a ponto de apontar-lhes os erros? Deveriam superar e juntar-se para criar forças. Não obstante, as ações se mostraram exatamente contrárias.

- Cada um cura a dor de uma forma.

5 comentários:

Anônimo disse...

Uau *-*
Sem palavras, sem palavras mesmo. Escreve um livro? :D

Anônimo disse...

Eu concordo. Cada um cura a dor de uma forma.

Raphael disse...

Não há dores curadas aqui, há dores remoidas. Bizarramente eu sabia do que se tratava a história toda no momento que ele entrou na cozinha .-.'

Anônimo disse...

Continua doendo. E vai continuar doendo. E hora se acostuma. A scoisa smudam. Damn, as coisas mudam.

Anônimo disse...

"Verônica, verdadeira, videira, cheia de vida."
incrível.
mas é verdade o que ele disse ali, cada um cura a dor de uma forma, mas há aqueles que se alimentam dela.
mas você tem razão, como julgar? o mais difícil de tudo é ficar.