sábado, janeiro 05, 2008

a falta de.

Sentia a falta. Falta de quê, perguntava-se. Mas sabia que simplesmente era a falta em si, e não algo que por si só poderia desesperadamente almejar. Desesperadamente: eis a palavra que envolve. A falta batia dentro de seu peito e procurava subir por todo seu corpo, como um inseto maldito, corrompendo-a por completo.
Acordou naquela manhã ensolarada e fechou a cortina, tinha horror ao lado de fora, ao mundo, ao exterior de dentro de si. Começou a andar em círculos, círculos que se fechavam e círculos que se abriam. A mão repuxando os cabelos, de onde vinha aquela abstinência? Ela apenas sabia que algo fora arrancado de dentro de sua mente, e agora estava sozinha, sem rumo, sem saber por que não tinha a vontade que movia todas as pessoas.
De alguma forma, tinha medo de viver. Sabia que sentiria falta do ar que respirava agora futuramente, por isso tinha receio de respirá-lo. Porque a falta cresceria ainda mais, e, com razão, a falta de, finalmente, algo. Entenderia a falta de. E essa falta seria do tempo em que ela era, porque agora ela é, e amanhã será. Mas nunca mais voltaria ao que já foi, e isso a deixava entristecida.
Parou e fixou o olhar em um porta-retrato. Fixou-o bem, queria lembrar desse momento eternamente, em que ela conseguiu olhar para dentro de sua própria alma e ver um sorriso crescente. Mas sabia que dentro de alguns dias esqueceria esta lembraça, tal como já fizera tantas e tantas vezes a respeito de outras imagens, e tons e cores.
Queria impressionar-se com as notas musicais, com o amor e com a vida, não obstante, pensava se já não era tarde demais. Sabia que, uma vez dentro deste conhecimento obscuro, desta virtude contrária, não havia mais volta, e chorava com a boca, com a mente, com as mãos, mas não com os olhos. Estava cansada do costume, de ter visto o que não queria ver, desta falta de.
Às vezes pensava em suicidar-se, mas achava essa idéia tão sem nexo, que respirava mais e mais fortemente para sentir-se viva [ou simplesmente para... viver].

O dia estava chegando ao fim, e ela sabia que a falta de não cessaria, somente em alguns momentos conseguia esquecer dela e sorrir realmente, gargalhar e não pensar em mais nada.

Este é o problema: os segundos de ser livre desta consciência eram raros.

E ela sentia inveja de qualquer pessoa, que não fosse ela.
Porque conseguiam ser plenamente livres.

2 comentários:

Júlia Noodle disse...

Muito bom!

Thaisa disse...

a Liberdade é algo relativo não?
xD
vai ver tbm sentiam inveja dela!
sei lá!

=D
ah! muito bom!!!!!
vc é boa! se já sabe disso!