terça-feira, março 18, 2008

Tudo engana.

Ela sorria demais. Por que eu não sabia, apenas via todos os dias na sala de aula aqueles dentes para fora, dentes que elucidavam a felicidade por completo. Sentia a vontade louca e egoísta de empurrá-la pela janela, bater com a sua cabeça na parede ou sufocá-la com pó de giz, qualquer coisa para aquele brilho de alegria cessar de minha frente. O que eu sentia não era inveja por euforia alheia, mas desprezo e raiva. Eu sofria demais com meus devaneios, meus pensamentos pertinentes invadiam minha consciência e às vezes lágrimas afloravam no meio da aula de cálculo. Primeiramente, eu tinha dezoito anos e estava perdida, sem rumo, em uma faculdade de matemática; não sabia se era realmente aquilo que eu queria. Mas definitivamente eu era racional. Até demais. Trabalhava em uma loja de um shopping à tarde e à noite, e morava em um apartamento dividido com uma hippie drogada. Meus vizinhos tocavam funk até tarde, e eu precisava acordar cedo toda manhã e estudar quando chegava em casa. Além disso, havia os pensamentos, os mais horríveis e niilistas possíveis, a depressão urbana me tomava por completo [eis o pior, meus caros]. Eu suportava o sistema.

Onde eu estaria?

E, bem, precisava agüentar uma idiota saltitante sorridente com personalidade caída à perfeição. Todos os dias era a mesma coisa: ela chegava, e chegava mesmo, cheguei. Falava com todas as pessoas, cumprimentava e, arre, sorria. Era loira, os cabelos delineando seu corpo, estatura mediana. Admito: encantadora. Porém, o tipo exato de pessoa que eu evitava. Aliás, eu evitava muitos e muita coisa.

Em uma quarta-feira, ela veio falar comigo.

- Oi! Suzannah, não é? - sorriu. sorriu. sorriu.

- É. - voltei a abaixar a cabeça. Eu havia recebido uma ligação naquele dia: minha mãe estava hospitalizada. Mas eu já esperava, a vida passa, eu sei.

- Está tudo bem? Você parece meio abatida hoje... - ela dobrou a cabeça para o lado, estupidamente.

- Quem é você para saber como estou ou não? Você nem mesmo me conhece. - falei isso tudo rapidamente, mal senti o movimento dos lábios. Explodi.

- Eu... apenas fiquei preocupada... não quis ofendê-la, desculpe, Su..

- Escuta, garota, se liga! Você não sabe nada da minha vida, sua ridícula, acha que a vida é feita de flores? Espera, o que é teu tá guardado. - levantei-me e saí, meio deprimida, meio raivosa, e fui chorar no banheiro.


O tempo passou, não me arrependi do que disse; ela todos os dias fazia o mesmo ritual. Entrava, balançava um pouco os cabelos, mordia os lábios pintados de rosa-claro, beijava as pessoas. E sorria. E aquele sorriso me rasgava por completo. Como ela podia ser tão feliz no meio disso tudo, dessas coisas que passam pelos olhos rapidamente e já sugam água, desses pensamentos que chegam impetuosos e carregam todos para a escuridão completa, como?
Eu não sabia e não queria saber. Até um dia.
Há sempre dias que marcam a vida. E esse me marcou, definitivamente.

Ela chegou, sorriu. Sentou, sorriu. Quando estávamos no meio de uma aula absurdamente chata, olhei para ela e... o quê? O quê, como ocorreu? Foi tudo muito rápido. Não, não sorria. Pelo contrário: vi uma lágrima rápida e singular escorrer por seu rosto e também a vi secá-la o mais rápido possível e levantar para ir ao banheiro. O que fora aquilo? Quando ela voltou, estava com o mesmo sorriso estampado no rosto. Fiquei confusa. E com raiva, muita raiva. Não sei exatamente de quê, mas apenas a senti fluir.
No dia seguinte, não conseguia parar de pensar naquela lágrima. Decidi que ia segui-la quando ela fosse até o banheiro, já que, agora passei a reparar, ela ia todos os dias, em quase um mesmo horário programado. Ela e aquele sorriso.

Estava no corredor, sorrateira, seguindo até o banheiro. A porta acabara de ser fechada, quando a abri novamente e vi algo que me arrependo até hoje de ter visto, pois invadi uma parte de uma pessoa que não deveria nunca ter invadido sem sua permissão: estava apoiada na pia, um dos braços no estômago, chorando desesperadamente, vomitando e respirando fundo.
Soltei uma exclamação e ela se virou imediatamente para olhar:

- Su... Suzannah... não, eu só estou... - voltou a vomitar.

E eu me perguntei por que ela estava tentando desculpar-se.
Fiquei sem ação. Saí imediatamente do banheiro e sentei, encostada na parede em frente à porta. Esperei.
Enfim, ela saiu, sem nenhum sinal de abatimento, exceto até olhar para o meu rosto sério e questionador.

- Eu ando meio enjoada ultimamente. Nada sério. Desculpe.

- E por que chorou na sala? - meu Deus, que direito eu tinha de questioná-la assim?

Ela mordeu os lábios. Começou a chorar novamente. Eu não sabia o que fazer, puxei-a para um lugar reservado e exigi respostas apenas com meu olhar.
Desde então eu soube o quanto eu fora ridícula. Ela estava tentando seguir a vida, passar por todos os obstáculos, tentar não pensar. E, principalmente, não colocar todos dentro de sua tristeza. Totalmente o oposto do que eu fazia. E como eu me sentia egoísta.
Ela estava com câncer terminal. Não adiantava nem mesmo fazer radioterapia, descobriram tarde, tarde demais. Mas ela não queria deixar de viver. Queria continuar, sentir a vida, ser feliz. Ou ao menos tentar sê-lo.

Hoje estou em seu enterro, e de alguma forma sorrio, mesmo com essas lágrimas incessantes caindo em minha pele. Aprendi e amadureci com essa menina, e me sinto extremamente grata.


Sorrio, pois sei que é isto que ela faria neste momento.

3 comentários:

marina disse...

nossa, não achei que o final seria como foi. muito bom. difícil, mas bom o texto. comento no msn que é sempre melhor, bleh =P
mas eu adorei essa parte: "Aliás, eu evitava muitos e muita coisa."
é tão verdade. subestimo e evito. um horror, tenho que parar, de verdade.
já quebrei a cara, mas pelo menos foi pra descobrir que estava errada e coisas boas.
beijos, querida! =*

tarsila disse...

Esse é um daqueles textos difíceis, sabe? Um daqueles que eu certamente não conseguiria escrever. Mão só por isso, ele é absurdamente bom. E me encontro naqueles dias em que a inspiração simplesmente passa... ;~
Beijos, pequena. E volta pro msn, to com saudade de papear contigo!

Anônimo disse...

Adorei o que li, muito bom. Um estilo bem dinâmico. Já pensou em publicar?